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Conspiração e teoria da conspiração

Ainda que ocorram conspirações nas democracias, em geral as teorias da conspiração conspiram contra a democracia

Questionar as teorias da conspiração não significa dizer que não há conspiração. Toda política autocrática é feita de conspirações. Pensem no tipo de política feita nos palácios dos antigos monarcas chineses ou de seus atuais ditadores. Em ambos os casos a função precípua da imensa burocracia palaciana – que é, propriamente, o que se chama de hierarquia – é tramar, urdir, conspirar. O mesmo vale para os enclaves autocráticos que remanescem nas instituições da democracia dos modernos, onde conspira-se diuturnamente visando a queda de alguém de um posto, cargo ou função (ou tenta-se preparar a ascensão de alguém para uma posição almejada: o que é a mesma coisa). Ou seja, é tolo dizer que não há conspiração na política com base na inconsistência epistemológica das teorias da conspiração.

Examinemos uma coincidência, não o resultado de uma conspiração, mas que vem a calhar para mostrar que a refutação da teoria da conspiração não nega a existência da conspiração. Há 15 anos ocorreu o assassinato de Celso Daniel, que foi sequestrado em 18 de janeiro de 2002 e cujo corpo, com onze tiros e sinais de tortura, foi encontrado na Estrada das Cachoeiras, no Bairro do Carmo, na altura do quilômetro 328 da rodovia Régis Bittencourt (BR-116), em Juquitiba, exatamente em 20 de janeiro (deve ter sido morto, portanto, em 19 de janeiro, justo no dia em que morreu Teori). Independentemente de qualquer teoria da conspiração pode-se dizer que não houve conspiração neste caso? É claro que houve. Membros petistas da prefeitura de Santo André e auxiliares do prefeito tramaram e executaram a sua morte. E depois houve mais conspiração de chefes petistas para abafar tudo. Não é teoria da conspiração. É conspiração mesmo.

Isso significa que o acidente aéreo que matou Teori Zavascki foi uma conspiração? Não! Pode ter sido, entretanto. Admitir essa possibilidade não é construir uma teoria da conspiração. É preciso investigar a fundo o acidente para colher elementos que podem corroborar ou refutar a hipótese. E é preciso ficar atento para eventuais obstáculos que a investigação pode encontrar pela frente (que também podem ser indícios de conspiração).

As teorias da conspiração são sedutoras para mentes autoritárias, que são autoritárias, inclusive, porque têm tanta dificuldade de aceitar a liberdade quanto o acaso (e como se sabe, onde não há lugar para o acaso também não há lugar para a liberdade). Para os que se deixam levar por teorias da conspiração, qualquer pessoa com poder ou em vias de alcançar uma posição de poder, que morre acidentalmente (ou até mesmo de causas naturais, como um infarto), é vítima de um atentado, pois – na lógica conspiratória do poder – tudo que acontece no âmbito da política tem que ter uma causa determinada (tomada como ação intencional de um ator), posto que haverá sempre algum interessado que se beneficiará com o infortúnio de seu concorrente ou inimigo. Foi assim no caso do acidente aéreo que vitimou Eduardo Campos: teria sido uma conspiração do PT ou de Marina. Ou com o acidente aéreo que matou Humberto de Alencar Castelo Branco: teria sido uma conspiração militar, quem sabe de Costa e Silva ou da sua mulher. Ou com o acidente rodoviário que ceifou a vida de Juscelino Kubitschek: teria sido uma vingança dos militares. E põe-se em dúvida se João Goulart morreu mesmo de infarto ou se foi envenenado: novamente, os militares teriam apagado o desafeto.

Uma pessoa replicou hoje no meu mural um post de Fábio Montalvão Barcellos, com uma verdadeira Black List:

1) Ex-diretor da ANP morre ao cair do 11º andar

2) Arthur Sendas, do Conselho da Petrobrás, é assassinado

3) Roger Agnelli, do Conselho Petrobras, morre em queda de avião

4) Eduardo Campos morre em queda de avião

5) Executivos do Bradesco morrem em queda de avião

6) Filho de Alckmin, morre em helicóptero da Qualicorp

7) Prefeito Toninho, do PT de Campinas, é assassinado

8) Celso Daniel torturado e morto, além de Sombra e 8 testemunhas

9) Ex-presidente do BNDES morre esmagado

10) Diretor da Andrade Gutierrez espancado até a morte

11) Ex-presidente da Bancoop morre no carro.

Isso sem contar o que morreu num motel e outro que se matou em Goiás. Além dos inimigos que o Lula jurou de morte durante a constituinte de 88, sendo um deles o Ulisses Guimarães.

Ora, ainda que ocorram conspirações nas democracias (e alguns dos eventos mencionadas na lista acima tenham sido mesmo frutos de conspirações), em geral as teorias da conspiração conspiram contra a democracia. Pois se a primeira hipótese é a da conspiração (com atentados para neutralizar ou eliminar os concorrentes, tomados como adversários ou inimigos) então a política torna-se desnecessária e inútil. Basta organizar bandos e cada bando se entregar à tarefa de eliminar os outros bandos, como fazem o PCC, o CV e a FDN. Mas isso é o fim da política. E o fim da política é, necessariamente, autocracia, não democracia. A democracia só pode existir enquanto estiver se realizando a política (e por isso vale dizer que a política é a utopia da democracia, não o contrário). A democracia é um se jogar no fluxo da vida (a rigor, da convivência social) em vez de ficar permanente maquinando providências para bloquear ou alterar o curso desse fluxo (como fazem – ou querem fazer, de vez que não conseguem fazê-lo realmente – os conspiradores).

Voltemos à questão da inconsistência das teorias da conspiração. Uma teoria é sempre um sistema de hipóteses (a rigor, composto por um background, algumas hipóteses tomadas axiomaticamente e consideradas evidentes por si mesmas ou já justificadas por outras teorias aceitas por uma comunidade de pesquisadores, outras hipóteses lançadas como supostos que devem ser verificadas e corolários que podem ser inferidos destas últimas com a ajuda de definições que são apenas convenções). Segundo os epistemólogos da ciência do final do século 19 e início do século 20, para ter consistência (e ser considerado científico), esse sistema tem que ser falsificável pela verificação empírica e tem que atender alguns requisitos como os da testabilidade, da coerência interna e da completude; além, é claro, de suas proposições e consequências poderem ser consideradas ‘conhecimento objetivo’ (ou seja, válido para observadores diferentes em situações diversas daquelas em que suas hipóteses foram geradas e seus experimentos foram realizados). Se as predições feitas a partir das hipóteses não se confirmam, a teoria é refutada. Se as predições se confirmam, porém, isso não quer dizer a teoria esteja correta. Ela pode ser considerada correta nisi quatenus (a não ser enquanto) não surgirem evidências contrárias, posto que só a negação do consequente nega o antecedente (e não o contrário, ou seja, a afirmação do consequente não valida o antecedente, posto que isso seria um erro lógico, uma falácia: a chamada falácia da afirmação do consequente). Isso vale para a nossa ciência, que é a ciência do segundo milênio, de caráter mecanicista (ainda que se possa questionar se somente esse tipo de ciência – uma closed science, escolástica e platônica – deva ser considerada como ciência do ponto de vista do que interpretei como open science).

O que acontece com as chamadas teorias da conspiração é que elas não atendem ao conjunto dos critérios espistemológicos mencionados acima. Mas mesmo que atendessem, isso não significaria que suas hipóteses estão corretas e nem que estão incorretas. Pode ter havido conspiração ainda que o sistema explicativo fornecido pela teoria da conspiração esteja incorreto. Em suma, não precisamos de teoria da conspiração para saber se houve conspiração. Precisamos de investigação. Às vezes há, às vezes não – independentemente de nossos esforços para sistematizar hipóteses.

O problema das teorias da conspiração é que elas criam condições para a conformação e a replicação de mentes (não propriamente cérebros, mas nuvens sociais de computação) autoritárias. Como já expliquei no artigo O caráter autocrático das narrativas conspiratórias, discípulos de Olavo de Carvalho que são orientados por seu mestre a compreender os fatores esotéricos que desvendariam a História e a vida presente (e história assim mesmo, com ‘H’ maiúsculo), a galera que ainda fica falando dos Illuminati (um suposto grupo secreto que teria como objetivo dominar o mundo através da fundação de uma Nova Ordem Mundial) e os que difundem visões de que Obama e Hillary são financiados por Soros para controlar o planeta ou mesmo os que adotam esquemas explicativos de fundo marxista, baseados no confronto dos povos com o grande império do mal, o capitalismo internacional, os banqueiros que comandam nossas vidas, as poucas famílias que são proprietárias da grande mídia, os 99% contra o 1%, enfim, todos os fiéis dessas religiões (algumas laicas, mas não tanto), sejam considerados de direita ou de esquerda, aceitarão com naturalidade explicações conspiratórias e as compartilharão, suscitando o surgimento de mais mentes autoritárias.


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