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Contra a demonização da política

Para começar vejamos sete pontos sobre demonização da política (que, na verdade, revela uma rejeição à democracia). Depois duas pequenas notas sobre Ciro Gomes e Marina Silva.

1

Na democracia não é possível recomeçar o país do zero. Como se um Estado-nação fosse um sistema operacional da Microsoft que dá pau e então você reinicializa tudo. Esta é uma perspectiva restauracionista. Jogar tudo no chão, apostar na política de terra arrasada, não é política, mas antipolítica. Os jacobinos fizeram isso e vimos qual foi o resultado: o Termidor… e um Napoleão esperando na próxima esquina.

2

A democracia, pelo contrário, só pode se exercer por meio do jogo político. Não há saída sem política. Não há solução para a política por meio de uma intervenção por cima da política – a partir de um estamento judicial, policial ou militar do Estado ou elegendo um candidato antipolítico, supostamente imune às fraquezas humanas (Mussolini e Hitler também se diziam acima da politicagem costumeira). As saídas por cima, prussianas ou assemelhadas, não são democráticas e suas consequências sempre são restrições à liberdade. Mesmo as supostas saídas urdidas a partir de órgãos de controle do Estado, como a operação Mãos Limpas na Itália dos anos 90, costumam acabar mal (e um Berlusconi estará esperando na próxima esquina).

3

Democracia é política. É a política possível com os agentes políticos disponíveis, com todas as suas imperfeições. Qualquer demonização da política é um atentado à democracia. A democracia não é o regime sem corrupção e sim o regime sem um senhor. Quem quer um regime puro, reto e perfeito, deve procurar uma religião, não a política.

4

Por mais que um sistema político tenha apodrecido, é com ele que devemos contar para superar suas mazelas. Os erros da democracia só podem ser corrigidos com mais democracia, não com menos. Jogar tudo no lixo, trocando a arte da política, praticada pelos imperfeitos e sujos seres humanos realmente existentes, pelas decisões voluntariosas e monocráticas de supostos guardiães da moral e dos bons costumes, imaginários seres perfeitos e limpos, leva inexoravelmente a menos democracia. Os golpes contra regimes democráticos, via-de-regra, têm como bandeira acabar com a corrupção (até a plataforma do tenente-coronel Hugo Chávez, quando deu seu primeiro golpe na Venezuela, priorizava o fim da corrupção do governo de Carlos Andrés Pérez).

5

Mesmo que a maioria da população, revoltada com a corrupção endêmica na política tradicional, estivesse disposta a jogar tudo para o alto, chutar o balde e optar por uma saída antipolítica para dar um curto-circuito no sistema, apostando num autocrata como Bolsonaro, que prometa botar ordem na casa no grito; ou num caçador e punidor de corruptos, como Joaquim (Collor também se apresentou como um “caçador de marajás”) se ele não tivesse desistido hoje da sua candidatura, mesmo assim os democratas não poderiam deixar de alertar para o perigo dessas “soluções” fáceis e erradas do ponto de vista da democracia.

6

Para ter, no Brasil, de uma vez, níveis de corrupção aceitáveis como os da Noruega ou da Nova Zelândia, precisaríamos de estoques de capital social semelhantes aos dessas sociedades, o que só o processo democrático, na base da sociedade e no cotidiano do cidadão, pode construir. A Noruega e a Nova Zelândia não chegaram onde estão instrumentalizando politicamente o combate à corrupção (em nenhum desses países houve uma “milícia estatal” fazendo política, nem operação Mãos Limpas, nem operação Lava Jato). A Noruega e a Nova Zelândia não chegaram onde estão elegendo um Jair Bolsonaro.

7

Apenas 5 meses nos separam das eleições de 2018. Não há mais tempo hábil para urdir soluções mirabolantes, inventar candidatos perfeitos. Nenhum candidato é perfeito. E mesmo que fosse, apostar em alguém que não tem condições de quebrar a polarização entre dois candidatos do campo autocrático só para acumular forças para 2022 ou 2026, seria uma irresponsabilidade. A democracia corre serio risco no Brasil se o PT voltar ao poder (com um candidato próprio ou apoiando um estatista como Ciro Gomes) ou se, para impedir a volta do PT ao poder, entregarmos o país nas mãos de um aventureiro populista-autoritário (como Bolsonaro) ou de alguém que sobreviveu nas franjas do neopopulismo lulopetista (como Marina).

SOBRE O ESTATISTA CIRO GOMES

Estão no campo autocrático todos os i-liberais (no sentido político do termo, não no sentido econômico, dos que seguem as doutrinas do liberalismo-econômico). Ciro é um i-liberal (no sentido político do termo), quem tem dúvida?

Sim, é bom repetir. Ciro é um nacionalista-autoritário, um estatista, quer dizer, um i-liberal em termos políticos. Logo, está no campo autocrático.

Defendeu Lula o quanto pode, inclusive prometendo constituir um comando ilegal para arrancá-lo pela força da cadeia (caso ele fosse preso). Não cumpriu, é claro. Era bravata. Comportamento típico de estatistas-autoritários, de caciques, de senhores, de quem não tem o menor apreço pela democracia e pelo Estado de direito. Só esse gesto já o desqualificaria para qualquer função pública num regime democrático.

Não é a toa que dirigentes do PT começam a ventilar o nome de Ciro como candidato do partido. Dentre os do mesmo campo com alguma chance é o que mais combina com a visão do PT – que é estatista (em termos políticos, não apenas em termos econômicos, quer dizer, de defesa da intervenção do Estado na economia).

Ciro é péssima opção. Além de ser meio maluco – arrogante, irascível, agressor de desafetos – ainda não saiu do século 20. Representa, portanto, um retrocesso de grandes proporções. Além do que, se for eleito, chamará de novo os petistas para o governo.

Votar em Ciro equivale a salvar o PT das consequências dos seus próprios crimes, políticos e comuns.

SOBRE MARINA

Com o perigo afastado de uma candidatura antipolítica como a de Joaquim Barbosa (não propriamente por ele e sim pelas forças políticas moralistas que atrairia, possuídas pela ideia de limpeza), Ciro e Marina entram no foco das preocupações dos democratas. Marina, embora pessoalmente não seja tão autoritária quanto Ciro, também é um risco enorme do PT voltar ao governo, mesmo que no segundo escalão. Aliás, ela mesma já declarou que governará com outros partidos, nomeando explicitamente o PT.

O problema com Marina não é sua personalidade, até caroável, nem suas ideias, um pouco abstratas, mas não condenáveis e sim o papel que ela está sendo chamada a cumprir numa configuração determinada de forças políticas.

Como já comentei em outro artigo, Marina – a chamada Sub-Marina, posto que só emerge quando sente cheiro de urna (ao contrário do que declara) – sobreviveu nas franjas do neopopulismo lulopetista. Mesmo depois do escândalo do mensalão, não teve a coragem de sair do PT. Os representantes do seu partido – a falsa Rede, pois de rede mesmo nada tem – no Congresso, como Molon e Randolfe, durante todo o ano de 2016, defenderam mais o PT do que os próprios petistas (e ela nunca veio a público desautorizá-los).

Para verificar qual o papel que Marina está realmente disposta a cumprir basta fazer algumas perguntas. Ela está disposta a jurar que, se eleita, não vai nomear ninguém do PT? E, durante a campanha, vai declarar que Lula não é um preso político e sim um político preso, corretamente, pela ação da justiça, porque saqueou o país? Não? Então nenhum democrata pode apoiá-la.


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