Cui Bono

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Cui bono? Ou seja, a quem beneficia?

Cerca de duas horas antes de sabermos das revelações das investigação da polícia federal e do ministério público sobre a tal “ação controlada” para pegar Michel Temer e Aécio Neves, repassadas a título de furo jornalístico a Lauro Jardim, de O Globo, publiquei um artigo intitulado As pessoas não querem mais ser tapeadas. Incrível como, em razão das denúncias conhecidas até agora, não foi necessário mudar uma vírgula no artigo.

Não se trata de nenhuma capacidade extraordinária deste autor. Trata-se de simples análise política. E agora, conhecidos preliminarmente alguns fatos (ainda dependendo de confirmações e de esclarecimento de circunstâncias específicas), a análise política é obrigada a fazer a pergunta: Cui bono? Ou seja, a quem beneficia o que ocorreu?

Nem sempre esta pergunta pode ter resposta inequívoca. Por isso, como já foi comentado em outro lugar – no artigo intitulado Por que não é tão fácil analisar a conjuntura – “é difícil mesmo decifrar os interesses e os desejos dos atores, sobretudo explicar os seus comportamentos vinculando-os a projetos formulados (como costumam tentar fazer os analistas, sobretudo no campo da chamada esquerda). Muitas vezes não há projetos (a não ser que queiramos falar de projetos inconscientes, que as pessoas teriam por pertencer a uma classe, sem sequer saber que eles existem – o que é uma construção metafísica que devemos ao marxismo). E nem sempre esses comportamentos derivam de escolhas racionais: muitos agentes são levados a fazer tal ou qual coisa em virtude da forma como o ambiente em que interagem está configurado e não por seleção (individual) de preferências. Aliás, se não fosse assim não poderia haver política democrática. Não haveria espaço para a mudança, para a persuasão, para o contínuo realinhamento de posições. Seria uma guerra de robôs ou de borgs. Em poucas e definitivas palavras: o sistema é complexo!”.

Mesmo assim, impõe-se a pergunta: cui bono?

Independentemente de Temer, seus auxiliares em vários escalões, Aécio Neves idem e Guido Mantega idem-idem, poderem ter culpa no cartório (o que é provável), parece óbvio que as revelações dos fatos ocorridos beneficiam diretamente Lula, o PT e Marina, que tentam emplacar a saída não-constitucional de eleições diretas antecipadas (e, em menor escala, podem beneficiar também a Bolsonaro).

Lula e o PT tentam isso – convocar eleições diretas – para escapar da justiça. Um palanque em 2017 – antes da condenação em segunda instância que o tornaria inelegível – é um presente dos céus. Caso isso acontecesse, toda a organização criminosa montada pelo PT e que dirige de fato o partido, ficaria livre, no curto ou médio prazos, para continuar delinquindo e para retomar o seu projeto de bolivarianizar o nosso regime político. Marina, coitada, tentaria uma sobrevida numa candidatura extraordinária, visando roubar os votos da esquerda desmoralizada pela corrupção, para alcançar o Planalto (objetivo que, de outro jeito, por vias normais, dificilmente conseguiria alcançar).

De qualquer modo, o que aconteceu foi o que o PT esperava para alterar a correlação de forças, no mínimo no imaginário (moralista) da população. É como se os supostos crimes cometidos por Temer e Aécio apagassem os crimes contra a democracia cometidos por Lula e pelos dirigentes do PT (de Mantega – também entregue por Joesley como o operador e repassador de propina da JBS para o PT e seus aliados – não se fala: é como se tal revelação não existisse).

Examinemos, entretanto as ameaças à democracia contidas nas ações ilegais dos atores envolvidos pela investigação em tela.

JBS

O primeiro deles é a dupla Batista, Joesley e Wesley, donos da JBS. Essa foi um empresa que se criou sob o manto criminoso do lulopetismo, com injeções de fartos recursos do BNDES (dos quais centenas de milhões não foram pagos). Lula, imitando Putin e Chávez, escolheu suas empresas-campeãs e investiu nelas pesadamente, inclusive burlando a lei e fraudando critérios aceitos em todo mundo para a operação de bancos de investimento.

A JBS, talvez ainda mais do que a Odebrecht, foi a financiadora universal. Financiava todo mundo, à esquerda e à direita. Isso significa que contava com ampla proteção, tanto dos que apoiaram quanto dos que eram contra o impeachment.

Cabe investigar agora o que de tão grave – além de caixa 2 – fez a JBS que justificasse participar de uma ação orquestrada, com direito a todos os ingredientes das séries político-policiais do Netflix ou da HBO, desde chips em malas de dinheiro, registro de numeração de cédulas, filmagens, perseguição de carros, campana, escutas, até a armação de flagrante contra Aécio Neves. Sim, repitamos a pergunta: o que a JBS fez de tão extraordinariamente grave que justificasse participar de tamanha armação (coisa que não ocorreu com nenhum outro ator, individual ou coletivo, investigado pela Lava Jato e operações congêneres, nem mesmo com a Odebrecht, a Andrade Gutierrez, a OAS e outras)?

À pergunta acima, segue outra pergunta obrigatória: o que os donos da JBS entregaram de tão precioso que justifique, tendo cometido (supostamente) crimes tão graves, permanecerem livres, leves e soltos, vivendo como nababos em Nova York e ainda por cima mantendo o controle do seu mega-conglomerado multinacional? Entregar Aécio, um pato manco, já em declínio e praticamente sem chances de conquistar a presidência da República, vale tudo isso? Entregar Temer, um presidente-tampão, que daqui a alguns meses não representará risco algum para ninguém (e que na verdade nunca representou qualquer risco para nossa democracia), vale tudo isso? Paralisar as reformas empreendidas por Temer (que são basicamente corretas) e impedir a recuperação econômica do país que já estava em curso, conquanto timidamente? Cui bono? A quem interessa?

Novamente as respostas são óbvias. Interessa tudo isso a quem quer confundir a opinião pública dizendo que todos são iguais. Ou seja, em primeiro lugar interessa à Lula e ao PT, que esconderam sua corrupção estratégica, feita para financiar um projeto neopopulista de poder que tem como objetivo alterar a natureza do nosso regime político (bolivarianizá-lo ou lulopetizá-lo), dentro da corrupção tradicional e endêmica no nosso velho sistema político (que é a corrupção capaz de ser praticada por um Aécio ou por um Temer e toda a sua base aliada – que era, nada menos, do que a base que garantiu governabilidade ao PT durante uma década).

Temer

Temer, como se sabe, não foi escolhido pelas urnas, nem ungido pelas ruas que pediram o impeachment. Assumiu a presidência somente porque essa era a única solução constitucional. É um presidente carente de legitimidade eleitoral e com forte base congressual. Mas essa base parlamentar não era uma base anti-PT, não era a base da oposição e sim a base do próprio PT, que abandonou o partido diante da bancarrota do governo Dilma e ao ter descoberto que o PT fazia aliados para matá-los ao final.

Temer nunca foi oposição. Foi escolhido para compor a chapa do PT, como vice de Dilma Rousseff. Quem votou em Temer não foram, em sua maioria, os que saíram às ruas propondo o impeachment, a prisão de Lula (o chefe da organização criminosa) e a extinção do PT. Foram os eleitores do PT que colocaram Temer no cargo de vice-presidente. E só por isso ele virou um presidente legal, segundo o que reza a Constituição Federal.

Cunha

Da antiga base parlamentar do PT saiu também o personagem sinistro Eduardo Cunha (sim, ele nunca foi da oposição), que foi demonizado pelo PT quando não quis mais obedecer aos ditames do partido dirigente. Transformaram então Cunha numa espécie de inimigo universal, no Emmanuel Goldstein do romance 1984 de George Orwell (1949) para tentar descarregar sobre ele todo o ódio da população à corrupção petista. Foi uma operação psicossocial de demonização de um ator político, com objetivos sórdidos e inconfessáveis, a despeito de ele mesmo – Eduardo Cunha – vestir o personagem como uma luva, por ser uma espécie de protótipo do corrupto clássico. Foi uma operação para dizer que o verdadeiro culpado por tudo de ruim que estava acontecendo no Brasil não eram Lula e o PT e sim Eduardo Emmanuel Goldstein da Cunha.

Acontece que a corrupção petista está longe de ser clássica. Foi uma nova corrupção, muito mais engendrada e inteligente, pelo qual o PT depositou seus ovos autocráticos dentro da carcaça podre do velho sistema político, conseguindo com isso protegê-los com um círculo de ferro de cumplicidade e impunidade. Quem se associou à corrupção petista, cometendo crimes comuns, não teria interesse em permitir que se descobrissem os crimes políticos contra a democracia cometidos pelos petistas.

Ocorre que Cunha não se conformou em ir para a cadeia. E não parou de chantagear o governo Temer para que arrumasse uma saída para ele. A saída não existia, inclusive porque ele foi cassado, condenado e preso em tempo recorde (como jamais se viu na história da República). A desenvoltura do Ministério Público Federal e do Supremo Tribunal Federal foram notáveis neste caso. Tão céleres como não o foram no caso Renan Calheiros. Tão céleres como não o foram para denunciar Dilma Rousseff. Tão céleres como não o foram para abrir inquéritos contra o chefe de tudo: Lula!

É claro que não havia muito o que fazer no caso de Cunha a não ser mantê-lo de boca fechada. Sabe-se agora que pagando-lhe uma mesada. Pode-se entender que o governo Temer quisesse mesmo calá-lo, por algum meio ilegal (mas não se trata mais de obstrução da justiça stricto sensu, não pelo menos de alta relevância, na medida em que ele, Cunha, já está cassado, condenado e preso). Mas por qual motivo tal mesada era paga pela JBS? Voltamos assim à pergunta já feita acima: o que a JBS tem a ver com tudo isso? E teria sido apenas para não ficar na cadeia que a dupla Joesley-Wesley topou se associar à mirabolante operação do MPF-PF?

Aécio

Chegamos então ao ator cadente Aécio Neves, que embora presidente do PSDB jamais foi um algoz do PT e não oferecia mais perigo real algum a ninguém (a não ser o de continuar cometendo aquela habitual e secular corrupção feijão-com-arroz, praticada pela imensa maioria dos atores políticos de qualquer partido).

É interessante acompanhar a trajetória de Aécio durante o domínio do PT no governo federal. Inicialmente ele foi uma espécie de queridinho de Lula (no seu primeiro mandato). Depois se afastou um pouco, mas jamais quebrou varas quando se tratava de denunciar e cobrar do PT a responsabilidade pelos seus mal-feitos. Ensaiou fazer oposição somente no final do primeiro governo Dilma e, mesmo assim, aquela oposição tucana que mais serve de escada para o PT pular o muro do Estado de direito.

Com a ascensão de outros atores, como João Dória  e a insistência, apesar da decadência, de seus principais concorrentes internos, como Serra e Alckmin, Aécio Neves ficou meio sem perspectiva no tucanato. Dificilmente sairia candidato à presidência em 2018.

Do ponto de vista policial e jurídico entende-se que ele, Aécio, deva ser investigado e punido pelos eventuais crimes que cometeu, mas a questão é: quais as circunstâncias propriamente políticas que levaram o MPF-PF a concentrar tantos esforços e criatividade investigativa para, inclusive, preparar-lhe um flagrante?

Impossível escapar, mais uma vez, da pergunta: cui bono? A resposta é óbvia. A cassação ou prisão de Aécio – tenha ele cometido o pior de todos os crimes comuns (posto que crimes políticos contra a democracia, não cometeu) – reforça a falsa narrativa petista de que houve um golpe no Brasil, de que os verdadeiros culpados por todo mal que nos assola são os tucanos. De que são eles os corruptos de fato e que o Lula e o PT apenas caíram na armadilha dos seus primos ou irmãos mais velhos: os degenerados tucanos. Não se sabe como a dupla Joesley-Wesley não colaborou com qualquer coisa que incriminasse FHC – pois aí a urdidura seria mais que perfeita.

Janot

Rodrigo Janot, continua uma incógnita. Na verdade há poucas informações sobre a composição da Procuradoria Geral da República. Sabe-se que lá existem petistas e esquerdistas militantes, como Ela Wiecko e alguns outros. Não se sabe também quase nada sobre as relações desses procuradores, colegas de Janot, com os procuradores da força-tarefa da Lava Jato e com várias bandas da Polícia Federal. Especula-se que Janot vem agindo de caso pensado, tentando articular sua própria carreira política. Mas nada disso é muito sólido e nem seus interesses são assim tão transparentes. A suspeição que não consegue ser afastada é sobre suas preferências inexplicáveis (como, por exemplo, a rapidez para condenar Cunha e a lentidão para sequer investigar Renan e citar Dilma e Lula). Por causa disso, já pontificou nas ruas um boneco do Janot inflado. Não parece ser uma pessoa confiável.

CONCLUSÃO

Não é possível ainda tirar qualquer conclusão definitiva. O mais importante neste momento é:

1 – Tomar sempre como referencial a democracia e não o moralismo de que todos são corruptos, todos devem ser presos. Quem ameaça a nossa democracia e com que intensidade? Políticos que cometem crimes comuns (de corrupção) representam o mesmo perigo de políticos que cometem crimes políticos (contra a democracia, para bolivarianizar o nosso regime, apoiar ditaduras na África e na América Latina)? A rigor, se todos que praticaram a corrupção tradicional da política devem ser cassados e presos, então não haverá mais sistema político no Brasil (pois sobrarão poucas dúzias de gatos pingados). E com essas exceções será possível conduzir qualquer transição democrática em direção a um novo sistema de governança? Ou faremos isso por fora da política, por meio de uma guerra civil, de uma intervenção militar ou da eleição de um aventureiro para salvar a pátria?

Ao jogar tudo no chão a partir da constatação (correta) que nosso velho sistema político apodreceu como um todo, qual será o próximo passo? A candidatura e a possível eleição de Lula (pois já que todos são iguais, por que não ele, que pelo menos se preocupa com os pobres)? A eleição de Bolsonaro (um oportunista eleitoreiro, autocrata e maluco)?

2 – Continuar insistindo na pergunta: cui bono? – mesmo que ela não tenha uma resposta inequívoca em cada caso. Sem tal pergunta, não há análise política.

Enquanto isso, porém, é preciso conhecer mais detalhes da “colaboração” da dupla Friboi Joesley-Wesley, sobretudo conhecer os detalhes da operação que veio à luz pelo vazamento de informações ao jornalista Lauro Jardim de O Globo.

Precisamos saber como a força-tarefa da Lava Jato, que tem mais credibilidade diante da opinião pública do que Janot e seus auxiliares diretos, avalia tudo isso que está sendo feito. Precisamos saber em que circunstâncias exatas Temer teria avalizado o suborno (ou o pagamento contra chantagem) de Cunha e o que realmente de muito explosivo Cunha ameaçava revelar. O que poderia ser assim tão aterrador que obrigou um presidente da República a se colocar numa posição super-vulnerável, que arrisca a perda do seu mandato e, inclusive, a sua prisão?

Se tais perguntas não forem respondidas, já estará respondida a pergunta título desta análise preliminar: tudo isso só terá servido à Lula e ao PT, à volta da esquerda ao poder e ao pior dos mundos para a democracia.

 

 

 

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