Palocci Datgobah

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Cuidado com o caso Palocci

O caso Palocci pode não ser o que parece. É bom ir com calma. Na falta de inteligência é preciso alguma prudência nessa história da “confissão” de Palocci – que entregaria, afinal, a organização criminosa (a tal ORCRIM).

Os que inventaram a palavra ORCRIM estão mais confundindo do que esclarecendo. Eles destruíram o conceito ao aplicá-lo sem critério para designar qualquer grupo delinquente. Se todo mundo é ORCRIM – inclusive Temer, Aécio e os caciques do PMDB e do PSDB – onde fica a verdadeira organização política criminosa, que dirige de fato o PT e que tem projeto estratégico para autocratizar (ou bolivarianizar) o nosso regime?

Aplicar a palavra ORCRIM para designar qualquer grupo de batedores de carteira da política é como botar todos os corruptos no mesmo saco, confundindo o PCC com o Hezbbolah só porque eles fazem negócios escusos entre si.

Por que? Porque são ameaças diferentes à democracia e nunca se ouviu dizer (não há um só caso na história) de um regime que tenha se autocratizado (virado uma ditadura) em razão do aumento do número de políticos ladrões por metro quadrado. Assim, os que têm projeto autocrático são mil vezes mais perigosos para a democracia do que os que os políticos que cometem crimes comuns apenas se eleger, reeleger, enriquecer e se dar bem na vida.

Ou seja, Sérgio Cabral não é Lula, Cunha não é Dirceu, Geddel não é Vaccari. Confundir essas coisas pode ser fatal para a democracia.

No artigo Mais uma vez usando a democracia contra a democracia, já tratei do assunto:

O mundo jurídico trata os membros de uma organização criminosa erigida para cometer crimes políticos (contra a democracia) como se fossem políticos que cometeram individualmente crimes comuns. Não pode dar certo. São delitos distintos. As motivações são diferentes. A capacidade de resistir ao aparato legal do Estado é diversa. Para um membro da máfia, a liberdade provisória é muito melhor do que a prisão provisória. A falta de dispositivos legais para combater crimes políticos não deveria acarretar uma falta de inteligência dos agentes da lei. Mas acarreta. Sobretudo quando os operadores da lei se deixam contaminar pelo legalismo. E aí eles não veem que não estamos enfrentando apenas políticos que cometeram crimes comuns, mas uma organização erigida para cometer crimes políticos contra a democracia e que não foi desbaratada.

Eis o ponto! Como desbaratar a organização criminosa? Quanto a isso, o que temos de concreto no caso Palocci?

1 – Foi uma confissão cuidadosamente encenada para passar a ideia de espontaneidade. De certo modo ele abordou os temas já conhecidos pelas delações de outros presos e investigados, sobretudo por Marcelo Odebrecht.

2 – Não é ainda delação. Quando for acordo de delação será necessário verificar se ele tem provas. Dizer que não participou das reuniões decisivas, mas ficou sabendo porque no outro dia Lula o chamou para contar tudo, tem um efeito político grave, mas não propriamente jurídico (não há como provar se Lula não confirmar: e ele não vai).

2 – Palocci, há muito tempo, não era mais um membro do núcleo duro da organização criminosa que dirige de fato o PT. Palocci era o capitalista do PT, que lhe prestava serviços nas altas esferas graças à sua inserção no mundo empresarial e institucional, mas não tem o perfil de fiel jihadista. Não é como Dirceu e Vaccari e, é claro, como Lula, o chefe. Isso para citar apenas os que estão condenados, mas existem cerca de trinta pessoas nesse núcleo (quase todas soltas e a imensa maioria nem foi sequer denunciada). Nunca é demais lembrar que, com a soltura de Dirceu, Vaccari é hoje o único membro do núcleo duro da organização política criminosa preso em regime fechado.

3 – Os membros do núcleo duro da organização política criminosa – como Lula, Dirceu, Vaccari, Delúbio e vários outros ainda não-incomodados pela polícia e pela justiça – não vão confessar nem delatar nada que interessa para o desbaratamento da organização.

Vejamos apenas sete exemplos:

a) Vão revelar o mapa das contas secretas, no Brasil ou no exterior, em nome de laranjas ou de offshores, onde está guardado o dinheiro obtido em mais de uma década de assalto ao Estado e de achaque à empresas nacionais e estrangeiras (ou alguém é tão tolo para achar que Barusco era o único exemplar de uma espécie exótica em extinção)?

b) Vão revelar o esquema de financiamento da rede suja de veículos de comunicação dedicada a falsificar notícias, de aluguel de pessoas para escrever em blogs e sites alternativos e, inclusive, de suborno da grande imprensa (quem sabe até via bancos)?

c) Vão revelar os endereços onde está o dinheiro cuidadosamente poupado para uma aposentadoria milionária (ou para uma espécie de fundo comum para vários membros da organização), talvez escondido, por meio de artifícios financeiros intrincados, por um banco? Vão denunciar esse banco? Vão denunciar outros bancos que participaram de algum dos esquemas?

d) Vão revelar (se houver) os nomes do alto judiciário envolvidos?

e) Vão revelar os nomes de oficiais militares de alta patente que sabiam de licitações fraudulentas (por exemplo, para compra dos caças, do submarino nuclear e de outros armamentos)?

f) Vão revelar os detalhes do assassinato de Celso Daniel?

g) Vão revelar as relações do PT (quer dizer, do Partido Interno que dirige de fato o PT) com a ditadura cubana, que são mais profundas do que se pensa? E revelar também a associação ao plano castrista de capturar a Venezuela, construir o bolivarianismo a partir do chavismo e de colonizar a Nicarágua entregando o governo do país aos sandinistas de segunda geração? E revelar ainda as relações com as FARC, com a FMLN de El Salvador e etc. e etc.?

Não, nenhum membro do núcleo duro da organização política criminosa (a verdadeira e única ORCRIM estratégica) vai confessar ou delatar nada disso. Palocci, ao que tudo indica, não tem conhecimento suficiente (a não ser por ouvir dizer) dessas operações (da maioria das quais é improvável que tenha participado diretamente ou com papel dirigente).

Então é bom ir com calma no caso de Antonio Palocci. O efeito de seu ensaio de confissão de ontem (06/09/2017) a Sérgio Moro é mais político do que jurídico (os processos jurídicos vão demorar muito: alguns não vão dar em nada) e não pode servir – ao que tudo indica – para desbaratar a organização política criminosa (chefiada por Lula e Dirceu) que continua funcionando apesar de todo o festival de acusações, condenações, prisões, recuperações de dinheiro e delações da Lava Jato.


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