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Cunha, Temer, Gilmar e a construção do inimigo

Quando a demonização de Cunha começou, escrevi três artigos que mereceriam ser relidos por quem quer entender o truque mais velho do mundo, usado em todas as épocas e lugares pelos autocratas para se safar das consequências de seus crimes contra a democracia: a construção do inimigo universal. Foram eles:

Eduardo Emmanuel Goldstein da Cunha (em 01/05/2016)

A suspensão de Cunha e os riscos de uma justiça preemptiva (em 06/05/2016)

Aprendendo política com os erros de Eduardo Cunha (em 13/09/2016)

Algumas pessoas, imbecilizadas pela luta política tomada como um combate cósmico entre o bem e o mal, acharam que eu estava defendendo Cunha.

Com a deposição e a prisão de Cunha, precisou-se construir um novo inimigo. Temer caiu como uma luva. Escrevi dezenas de artigos tentando revelar o golpe Joesley-Janot-Fachin, com o apoio da Globo, contra Temer. O primeiro – e o principal – foi o seguinte:

Revela-se, afinal, o objetivo da armação Janot-Fachin (em 17/06/2017)

Os moralistas, novamente, acharam que eu estava defendendo Michel Temer.

Como o golpe contra Temer deu com os burros n’água, já estava passando da hora de construir um novo inimigo: Gilmar Mendes. Vamos examinar a questão.

Este artigo começou com um tweet (de 21/12/2017):

Agora Gilmar Mendes será transformado no novo Cunha, o inimigo universal, o Goldstein do 1984 de George Orwell? Num STF coalhado de dilmistas e lulopetistas, como Barroso, Fachin, Rosa, Lewandowski e Toffoli (além de oportunistas, como Fux), a quem interessa isso? Cuidado!

E teve continuidade num post no Facebook (de 22/12/2017), reproduzido abaixo (com algumas modificações):

O TRUQUE MAIS VELHO DO MUNDO

Lula, o chefe da maior organização política criminosa da história, além de não ter sido preso, percorre o país em campanha, de palanque em palanque, desafiando a justiça.

Para saciar a sede de sangue dos moralistas, o PT, ajudado pelos jacobinos e pela direita autocrática, construiu Cunha, depois Temer e agora Gilmar como os inimigos universais da espécie humana.

Claro que isso não significa uma defesa prévia de nenhum desses. Cunha está preso (por certo é culpado, ainda que tenha sido vítima de uma justiça preemptiva, claramente inconstitucional), Temer escapou de vários golpes (independentemente de ter ou não ter culpa, foram golpes) e Gilmar é agora a bola (ou a carniça) da vez.

Nada disso interessa à democracia. A política não é um jogo de punir os maus. Nem o objetivo da justiça é infligir sofrimentos aos culpados e sim defender a sociedade, impedindo que criminosos possam continuar delinquindo.

Mas não houve justiça para Lula. Ele continua delinquindo (sim, ele exerce a chefia máxima da organização política criminosa) e com chances reais de voltar ao poder, Dirceu continua solto para sambar na nossa cara e emitir “salves” contra as instituições do Estado de direito. Enquanto isso… a preocupação dos moralistas era com Cunha, depois com Temer e agora com Gilmar.

O PT aplicou o truque mais velho do mundo, usado por todos os autocratas, para desviar a atenção dos crimes contra a democracia que cometeu durante mais de uma década: a construção do inimigo universal, o Goldstein do 1984, de Orwell. Enquanto os basbaques se refastelavam no desejo de vingança, na vontade de revanche, deixando-se drogar pelos maus eflúvios do ressentimento social, o PT foi só trocando de inimigo.

Pois é… as pessoas com pouca experiência do debate democrático, têm imensa dificuldade de entender essas coisas. E não percebem como estão sendo manipuladas. E ainda, o que é pior, não conseguem antever as consequências de seus atos.

Observemos os desdobramentos disso tudo nos próximos meses, sobretudo o que vai acontecer com Lula (que é o centro político de toda questão).

Lula vai ser preso amanhã.

Não foi.

Lula vai ser condenado pelo TRF-4 e impedido de concorrer as eleições de 2018.

Será?

Com o esfriamento da campanha contra Gilmar, qual será o novo inimigo que será construído para salvar Lula, mais uma vez?


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