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Cúpula Reacionária e Antidemocrática das Américas

Já criticamos, várias vezes, essa besteira de dizer:

“Sou conservador nos costumes e liberal na economia”.

Nas democracias você pode ser conservador o quanto quiser nos costumes. Mas não basta apenas ser liberal em economia (como os Chicago Boys de Paulo Guedes): é necessário, sim, ser liberal em política. O ditador Augusto Pinochet também aplicou medidas liberais em economia, mas não era liberal em política, pelo contrário, nem mesmo conservador ele era e sim i-liberal, reacionário e antidemocrático. O mesmo vale para o novo presidente eleito Jair Bolsonaro.

Liberais no sentido político do termo (que é o que importa) são os que tomam a liberdade (e não a ordem) como sentido da política, como fizeram os primeiros democratas atenienses. E como fez Spinoza, ao contrário de Hobbes. Os liberais (no sentido político do termo e não apenas no sentido econômico) defendem as cerca de 40 democracias liberais e não principalmente as 55 democracias eleitorais (e muito menos as 56 autocracias eleitorais, para não falar das 27 autocracias não-eleitorais, como China, Cuba e Coréia do Norte) que existem no mundo atual (para usar a classificação do V-Dem Institute, do Department of Political Science, da University of Gothenburg).

Democracias liberais, para citar alguns exemplos, são regimes como os da Alemanha, da Austrália, da Áustria, da Bélgica, do Canadá, dos Estados Unidos, da Dinamarca, da Finlândia, da Holanda, da Islândia, da Irlanda, do Japão, de Luxemburgo, da Noruega, da Nova Zelândia, do Reino Unido, da Suécia, da Suíça. Não são a mesma coisa do que as democracias apenas eleitorais, como as vigentes na Bolívia, na Bulgária, no Butão, no Equador, nas Filipinas, na Georgia, na Guatemala, na Guiana, na Guiné-Bissau, no Haiti, na Hungria, na Indonésia, no Nepal, na Nigéria, na Polônia, na Romênia ou no Senegal – embora todos estes possam ser também considerados democracias (mas não-suficientemente liberais). E não têm nada a ver com autocracias eleitorais, como as que vigoram no Afeganistão, na Argélia, na Armênia, no Azerbaidjão, em Belarus, no Cambodja, na Guiné Equatorial, na Etiópia, no Irã, no Iraque, na Rússia, em Singapura, em Moçambique, em Myanmar, na Nicarágua, em Uganda e na Venezuela.

Conservadores e liberais-conservadores aceitam a democracia e não se esforçam para derruí-la ou para enfrear o processo de democratização. Não usam a democracia, notadamente as eleições, contra a própria democracia. Não querem subverter a democracia, como os populistas-autoritários que se dizem conservadores nos costumes e liberais em economia, mas não são liberais em política.

Os (verdadeiros) conservadores e liberais-conservadores deveriam se insurgir contra a apropriação indébita que os bolsonaristas – retrogradadores e i-liberais – fizeram de sua, digamos, filosofia política. Foi ato típico de ladrões ideológicos.

O que diriam do trumpismo-bannonismo (de Steve Bannon) e do olavismo-bolsonarismo que macaqueia o primeiro, importantes estadistas conservadores como Winston Churchill, Ronald Reagan ou Margaret Thatcher?

E o que diriam desses imitadores da alt-right americana e dos neocons que pertencem às mesmas estrebarias mentais de Donald Trump, Steve Bannon, Irving Kristol, Alan Bloom, Richard Spencer e, quem sabe, até David Duke, os verdadeiros conservadores ou liberais-conservadores como Edmund Burke, Michael Oakeshott, Roger Scruton, Russell Kirk, Theodore Dalrymple, John Gray, Gertrude Himmelfarb, Thomas Sowell, Phyllis Schafler?

Esses reacionários da extrema-direita (bannonistas e bolsonaristas) não se sintonizam com a tradição do pensamento conservador e sim com os populistas-autoritários em ascensão, como Viktor Orban (na Hungria), Jaroslaw e Lech Kaczynski (na Polônia), Recep Erdogan (na Turquia), Matteo Salvini (na Itália), Le Pen (na França), Geert Wilder (na Holanda), Hans-Christian Strache (na Áustria), Jörg Meuthen e Alexander Gauland (na Alemanha) e, na Asia, com Rodrigo Duterte (das Filipinas) – todos estes i-liberais e majoritaristas (quando não coisa pior). No Brasil têm a ver, principalmente, com o falsário intelectual (e espiritual) Olavo de Carvalho (um dementador, reacionário e retrogradador – não um conservador).

Vejamos agora essa tal Cúpula Conservadora das Américas, promovida pelo bolsonarismo para ser uma espécie de Foro de São Paulo com o sinal trocado. A articulação está, claramente, com o nome errado. Não é Cúpula Conservadora (que até seria bem-vinda) e sim Cúpula Reacionária e Antidemocrática das Américas.

Eduardo, o filho mais novo e mais desastrado de Bolsonaro, participou neste sábado (08/12/2018) da tal Cúpula “Conservadora” das Américas. O evento foi realizado na cidade de Foz do Iguaçu. Ele declarou: “Nossa intenção é fazer com que esse movimento não acabe somente nessa eleição de outubro. É fazer algo permanente para que possamos ter um norte”. E acrescentou: “Não seremos a nova Venezuela”. Outro organizador do evento, o deputado-policial Fernando Francischini, de extrema-direita, disse que a ideia foi fazer um contraponto ao Foro de São Paulo. “Queremos mostrar que na América também existem autoridades que pensam de maneira conservadora nos costumes, mas liberal na economia” – declarou ele, repetindo a bobagem engarrafada pelos bolsonaristas.

Como se vê, não há nada mais parecido com a esquerda lulopetista do que a extrema-direita bolsonarista. Inclusive na tolice.

Por outro lado, o Brasil não corre (nem corria, no curto prazo) o risco de virar uma Venezuela. O lulopetismo e o chavismo-madurismo são tipos diferentes de bolivarianismo. A complexidade da sociedade brasileira não comportava uma venezuelização (Lula foi o Chávez possível nas condições do Brasil). Isso tudo foi apenas munição para a guerra em que os reacionários perverteram a política.


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