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Decifrando o enigma

Há um enigma na política brasileira atual que, se não for decifrado, pode nos devorar. O judiciário e o Ministério Público, à frente do combate contra a corrupção, ainda não decifraram o enigma. O velho sistema político – sobretudo as oposições formais, partidárias e parlamentares – também não, assim como boa parte dos seus cronistas, jornalistas e analistas políticos. Para agravar o quadro, a maioria dos cidadãos que se insurgiram contra o governo do PT e fizeram parte da nova oposição popular que emergiu da sociedade e se manifestou nas ruas em 2015 e 2016, sequer se deu conta da existência do enigma.

Qual é o enigma? O enigma é a corrupção do PT. Ele pode ser sintetizado na imagem que ilustra este post. Sim, o PT depositou seus ovos dentro da carcaça podre do velho sistema político. Adotou uma artimanha, bem elaborada e extremamente eficaz, que foi a de esconder a sua corrupção sistêmica, centralizada e coordenada partidariamente com o objetivo de financiar um projeto de poder, dentro da corrupção tradicional dos atores, endêmica na política em todos as épocas e lugares (a qual também praticou, por fraqueza da carne, mas até como despiste ou disfarce). Esse tipo de coprofagia política foi um golpe de mestre. Honra ao mérito: o falecido Consigliere Thomaz Bastos foi um dos autores da narrativa, logo adotada por Lula numa entrevista em Paris no auge do mensalão: “O PT errou ao fazer o que todos os partidos fazem”. Pronto! Estava lançada a pedra fundamental da construção de um pensamento ilusionista que confundia a compra de parlamentares para falsificar a vontade das urnas com caixa 2 de campanha eleitoral. O truque deu certo. E deu tão certo que, mesmo depois das revelações estarrecedoras do petrolão, a explicação continuou fazendo sentido. O PT é corrupto, mas quem não é? E aí uma máquina de mistificação começou a trabalhar a todo vapor para produzir evidências de que todos os partidos são corruptos. Colou!

Mas por que colou? Ora, colou porque todos os partidos são, em alguma medida, corruptos mesmo. A corrupção é funcional para o velho sistema político que apodreceu. Quem vai perceber a diferença entre a corrupção de um Lobão, de um Sarney, de um Cunha ou de um Renan, e a corrupção de um Lula, de um Dirceu, de um Delúbio ou de um Vaccari? É tudo corrupção, igualmente condenável e, argumenta-se, suas diferenças não são relevantes diante de seus efeitos maléficos para o cidadão comum, não importando se ele foi morto com um tiro na testa de um revólver calibre 32 ou 38: “O povo morre da mesma maneira”. Como dizer, para quem argumenta assim, que as ameaças à liberdade, quer dizer, à democracia, são incomparavelmente maiores em um caso do que no outro?

É quase impossível dizer isso para uma pessoa que não tenha a mínima noção do que é democracia (ou acha, como a maioria, que democracia é um regime eleitoral, onde os governantes e legisladores são escolhidos pelos cidadãos, sem sequer se dar conta de que tal também acontece em boa parte dos cerca de 60 regimes ditatoriais que ainda remanescem neste século). Seria preciso desencadear uma campanha de alfabetização democrática, o que demora e não pode ser feito enquanto muitos professores universitários e escolares de todos os níveis – eles mesmos analfabetos democráticos – se dedicam diariamente a infectar corações e mentes de seus alunos com ideias autocráticas. Ora, quem não é capaz de entender o que está em jogo na democracia, terá dificuldades imensas de perceber a diferença de natureza entre uma corrupção que é praticada por um ator político para se eleger, se reeleger, eleger um parente, amigo ou correligionário ou se dar bem na vida e enriquecer e a corrupção levada a efeito como estratégia de um partido autocrático para financiar o projeto de conquistar um governo eleitoralmente e tomar o poder para nunca mais sair do governo.

E mais difícil ainda é explicar tudo isso quando as evidências apontam para o fato de que os corruptos do PT também querem se dar bem na vida e enriquecer, praticando seus delitos em conluio com os corruptos tradicionais da velha política. À primeira vista, parece tudo a mesma coisa mesmo. As práticas estão de tal modo emboladas, que a reforma de um imóvel de Dirceu ou de Lula com recursos escusos fica igual à compra de um Lamborghini, um Bentley, uma Ferrari ou um Porsche por Fernando Collor. “Mas como esses caras roubam” – pensa o cidadão privado. “Tudo ladrão, tudo farinha do mesmo saco”.

É claro que isso, em parte, aconteceu pelos mesmos motivos. Se apropriar ilegalmente de bens públicos ou privados para se dar bem na vida, não importando para nada o mal que isso possa causar a terceiros. Afinal, esse é o objetivo de boa parte dos psicopatas e sociopatas que pontificam na política, em qualquer posição do espectro ideológico. Também parece claro que, no caso dos militantes petistas, isso – ainda que não planejado inicialmente – acabou se revelando inevitável. “Não amarre a boca do boi que debulha” – já advertia a código deuteronômico (Dt 25,4). Mas a questão é que, para além do fortuito, há algo planejado aqui. Eis o ponto! O enigma a ser decifrado é este: descobrir o que há de planejado na corrupção petista!

O PT protegeu sua estratégia escondendo a corrupção inédita, que pratica para financiar seu projeto de poder, dentro da corrupção tradicional da política. Entender isso já exige, digamos, estudar um pequeno tratado sobre a corrupção política. E o PT tinha plena consciência de que era preciso fazer tal escamoteamento. Tanto é assim que seus militantes, repetiram, repetiram e repetiram em todo lugar que a corrupção era inerente à natureza humana ou era própria da sociedade brasileira: quando você cola uma meleca debaixo da carteira, quando peida no elevador ou quando dá 50 real para o guarda de trânsito, para escapar de uma multa – é tudo a mesma coisa, diziam. Ao se desculparem dessa maneira, os militantes petistas estavam dizendo que a reprovação social ao comportamento do PT era hipócrita, pois todos, afinal, somos corruptos. Como o argumento era fraco, ele foi complementado com a desculpa de que todo o sistema político é corrupto e não se poderia fazer nada enquanto não houvesse uma verdadeira reforma política, a começar da proibição do financiamento empresarial de campanhas. Para corroborar essa alegação, os petistas acionaram sua máquina de sujar reputações e articularam delações de seus aliados com o objetivo de evidenciar que todos os políticos são iguais, que todos praticam corrupção, não havendo diferença entre o propinoduto mineiro e o valerioduto do mensalão, entre a doação de empreiteiras a Aécio ou a Temer e a associação criminosa do PT com a Odebrecht e com a OAS. A explicação é verossimilhante porque, de fato, todos (ou quase todos) receberam mesmo doações de campanha de empresas investigadas no petrolão. Ademais, como o PT “lavou” dinheiro de caixa 2 como caixa 1, fica praticamente impossível saber se uma doação legal de uma empresa foi feita com recursos de origem lícita ou ilícita. E para tornar quase perfeito o crime, o PT, através de seus dirigentes,  (sobretudo de tesoureiros como Delúbio Soares) tomou a iniciativa de oferecer vantagens ilícitas a adversários políticos, de caso pensado mesmo, para comprometê-los num círculo de ferro de cumplicidade.

Bem… aí aparecem os jovens procuradores, convertidos em militantes da causa contra a corrupção, querendo ascender ao palco da cena política nacional como os novos cruzados, os que iriam, afinal, desencadear uma campanha moralizadora  no país, varrendo a sujeira da política e devolvendo à vida pública um mínimo de decência. A causa é boa em si. E dificilmente as pessoas perceberão que cruzadas contra a corrupção, além de ineficazes, são maléficas do ponto de vista da democracia. Esses novos cruzados morais não perceberam, porém, que estavam caindo numa armadilha: ao querer combater qualquer corrupção praticada por atores políticos, independentemente da sua motivação e objetivos, acabaram contribuindo para validar a confusão instrumental, urdida e desejada pelo PT, entre corrupção endêmica e corrupção sistêmica. Ora, defender-se-iam eles: “Mas toda corrupção é ruim pelos seus efeitos sobre a população, todas afrontam igualmente a lei e a justiça, que tem de julgar e punir o ato material em si e não pode fazer distinções de criminosos com base em critérios subjetivos como a especulação sobre as suas intenções”. Bingo! A corrupção do político Zé das Couves se confunde com a corrupção de uma força autocrática que tenta fazer a revolução pela corrupção.

Para criar essa maquiagem, o PT – auxiliado pelos escritórios de advocacia da linha Thomaz Bastos – começou então a manipular o instituto da colaboração com a justiça (a chamada delação premiada, que não tem a ver necessariamente com a sincera confissão do criminoso identificado e capturado pelos agentes da lei). A delação passou a ser usada não apenas para reduzir a pena dos processados pela justiça e sim para inculpar os inimigos do partido, tudo com o objetivo de demonstrar à opinião pública que todos são iguais, todos praticaram os mesmos crimes e para acuar as instituições que dispensam a justiça com a acusação de que elas estariam sendo injustas e seletivas – quando não partidárias – ao punir apenas os crimes petistas. Para se livrar de tais insinuações, procuradores e juízes se deixarem colonizar (tal como já fazia a grande imprensa) pela ideologia do ladismo, dando “uma no cravo e outra na ferradura” para mostrar que não são partidárias. E começaram a aceitar delações instrumentais como a de Sérgio Machado, que urdiu a sua própria estratégia para escapar da justiça e, como ele próprio declarou, “para arrumar a minha vida”. Com efeito, Machado “produziu” provas (como se essa fora função de um réu) contra os inimigos do PT, misturando gravações com interpretações pessoais e “esquentando” delações falsas (encomendadas) com revelações reais, verdadeiras. Fez as gravações por conta própria e procurou o MP para negociar um acordo de colaboração cujas condições deveriam ter sido recusadas por inaceitáveis, transformando-se na prova viva de que o crime compensa: vai ficar 3 anos gozando a vida numa boa, numa mansão com piscina, com toda a família (que também delinquiu, mas será poupada de qualquer condenação) e agregados – e depois sair: livre, leve e solto… O mesmo tende a acontecer com Marcelo Odebrecht (que não pode confessar sinceramente nada, sob pena de Emílio ser preso e sua organização desbaratada) e Leo Pinheiro da OAS (que também não vai confessar que deu mesada à Lula durante mais de uma década, inclusive quando o líder estava fora do poder, visando associar-se no futuro a um regime de lucros incessantes a perder de vista). Tudo validado pela cruzada moral contra a corrupção.

Vá-se lá dizer-lhes que os efeitos da corrupção partidária para financiar um projeto autocratizante de poder são muito mais terríveis para a democracia do que a violação da lei praticada por atores políticos cujo único projeto é conquistar cargos públicos e neles se manter para roubar e se dar bem na vida. Vá-se lá dizer-lhes que o PT seria muito mais perigoso se fosse honesto e que, neste caso, nenhuma cruzada contra a corrupção conseguiria evitar o enfreamento da democracia que sua atuação provoca. Vá-se lá dizer-lhes que a corrupção do PT está sintonizada com o fato do governo brasileiro, sob o comando do partido, ter destinado mais de 50 bilhões para financiar obras em outros países, a título de empréstimo e que a maior parte desses recursos foi entregue a ditaduras, protoditaduras e regimes parasitados por governos neopopulistas manipuladores. Explique-se, no caso, por que diabos o governo brasileiro, sob o comando do PT, remeteu 3 bilhões à ditadura dos Castro em Cuba, 14 bilhões à ditadura de Angola, 11 bilhões à neoditadura da Venezuela e 785 milhões à protoditadura de Corrêa, no Equador.  Ora, não se pode imaginar que a corrupção de um Lobão, de um Sarney, de um Cunha, de um Renan ou até de um Collor serviria para levar o governo brasileiro a fazer isso, correto? Não há explicação, se não decifrarmos o enigma.

É claro que esta é apenas uma evidência de que a corrupção sistêmica, praticada com propósitos estratégicos pelo PT é diferente da corrupção endêmica dos atores políticos. Mas existem muitas outras, como as resumidas no quadro abaixo:

A corrupção sistêmica Enigma

Quem pode achar que a corrupção de um Lobão, de um Sarney, de um Cunha, de um Renan, de um Jader ou de um Collor serviria para financiar operações como essas?

A questão é que há uma estratégia de poder e que sua implementação é cara. A título de exemplo vamos ver os elementos principais dessa estratégia (uma posição no primeiro semestre de 2014):

A estratégia do PT Enigma

Ora, respeitando o processo político legal não é possível fazer tudo isso. É por isso que os autocratas, chegando ao governo, são compelidos a instaurar o banditismo de Estado (fonte da corrupção sistêmica). O objetivo não é enriquecer seus agentes (embora isso seja inevitável) e sim tomar o poder (ou conquistar hegemonia). Será que a corrupção de um Lobão, de um Sarney, de um Cunha, de um Renan, de um Jader, de um Collor ou de um Sérgio Machado seria feita para financiar uma estratégia como essa?

É óbvio que não. Quem foi capaz de enxergar essa evidência decifrou o enigma.


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