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Declarações de não-voto para presidente no segundo turno

Reuni algumas declarações de não-voto para presidente da República no segundo turno de 2018. Começo com a minha (que foi publicada em 19 de outubro no Facebook), depois menciono a de Miguel Reale Jr (que é de 23 de outubro, na Radio Jovem Pan), em seguida reproduzo a do meu amigo Eduardo Jorge (publicada também em 23 de outubro, no seu Facebook) e, por último, transcrevo a do Alexandre Schwartsman (em artigo de hoje da Folha de São Paulo).

MINHA DECLARAÇÃO DE VOTO

Augusto de Franco, Grupo Dagobah do Facebook, 19/10/2018

No segundo turno não votarei em nenhum dos dois candidatos populistas, i-liberais e majoritaristas, que estão disputando a presidência da república.

Não, não faço campanha de voto nulo. Apenas declaro o que vou fazer e assumo as responsabilidades pelo meu gesto.

“Ah! – dirão alguns – é tão pouca gente que não fará diferença alguma”. Esse juízo é um engano. Por duas razões.

A primeira é que nada, nenhuma atitude, de quem consegue ler e entender este post, fará mais diferença alguma (salvo uma catástrofe – e ela já aconteceu – vote em Bolsonaro, Haddad, nulo, em branco ou se abstenha, ninguém mais mudará o resultado do pleito: o jogo está jogado).

A segunda razão é que mesmo que o não-voto consciente seja apenas 1% (e será mais), já será muito para começar a articular uma resistência democrática em rede, tanto a quem for para o governo (Bolsonaro), quanto a quem for para a oposição e pretender hegemonizá-la (o PT). Quem investiga as redes sabe o poder do misterioso 1%.

MIGUEL REALE JR.

Em entrevista à rádio Jovem Pan, em 23/10/2018, o jurista Miguel Reale Jr. (um dos propositores do pedido de impeachment de Dilma Rousseff) afirmou:

“Eu já disse que um democrata não vota em Bolsonaro. Porque é demonstração da ausência de cultura democrática”.

Ele também declarou que não votará em Haddad e que votará nulo para presidente.

EDUARDO JORGE

Em um post de ontem (23/10/2018), no seu Facebook, Eduardo Jorge (vice de Marina) declarou por que votará nulo para presidente:

Asterix

Nas eleições de 2010 e 2014 o segundo turno foi entre dois partidos de orientação socialista. Um socialista mais radical e outro socialdemocrata bem moderado. Escolhi votar no segundo pois avaliei virtudes e defeitos de ambos e ele me pareceu menos distante do que eu pensava na época.

Já em 2018 o quadro é bem diferente. As propostas de centro-direita, centro e centro-esquerda foram esmagadas pelas ondas de polarização extremadas de direita e de esquerda. Tanto o PSL quanto o PT são comandados por núcleos políticos radicais e com tendências autoritárias. O PSL é um verdadeiro almanaque de idéias reacionárias, anti-humanistas, violentas e simplistas que fariam corar um Pinochet de pedra. Já o núcleo dirigente do PT é uma indigesta salada de idéias marxista-leninistas que foram motivo de sofrimentos brutais para países nos século XX e XXI que experimentaram o seu gosto amargo, anti-humanista e antidemocrático.

Não. Eu não sou obrigado a escolher um deles. Não acredito nas suas propostas, promessas e malabarismos de última hora. Prefiro optar por minha consciência que tem procurado se orientar pelo valor básico da democracia. Prefiro o realismo de começar desde já ser oposição a qualquer um deles nos próximos 4 anos. Prefiro começar desde já ajudar numa rearticulação partidária que seja uma alternativa tanto ao PSL quanto ao PT. Prefiro apostar que teremos capacidade de recuperar a simpatia dos cidadãos mais moderados, mais sensatos que foram capturados pelos dois lados desta detestável polarização. Sim. Votarei nulo, contra o PSL e contra o PT.

ALEXANDRE SCHWARTSMAN

Artigo publicado hoje na Folha de São Paulo:

Por que votarei nulo

Torço para que na próxima eleição apareçam candidatos com posições mais próximas às minhas

Alexandre Schwartsman, Folha de São Paulo, 24/10/2018

Defendo a democracia liberal, caracterizada pelo respeito às liberdades individuais, entre elas a liberdade de expressão, a conquista do poder pelo voto popular e a possibilidade real de alternância de poder.

Do ponto de vista econômico, sou adepto do livre mercado e favorável à existência de alguma rede de proteção social, bem como de políticas que facilitem o acesso à educação.

Com base nisso votei em João Amoêdo, do Novo, no primeiro turno das eleições presidenciais e irei anular meu voto no segundo turno.

Tenho criticado com certa frequência o programa econômico de vários candidatos, precisamente por não estarem de acordo com o que acredito ser o melhor para o país.

Isso é mais nítido no caso de Fernando Haddad (e do eliminado Ciro Gomes), cujas propostas, se implementadas, nos levariam a um desastre como o vivido recentemente em razão da Nova Matriz Econômica, cuja responsabilidade, é claro, é de Dilma Rousseff e do PT.

No caso de Jair Bolsonaro, como pude expressar na semana passada, as críticas não são relacionadas diretamente ao programa econômico (que, de qualquer forma, é para lá de vago), mas ao que acredito ser a baixa probabilidade de adesão do candidato a uma plataforma realmente liberal, expressa, entre outras coisas, na privatização das estatais que ele considera “estratégicas”: Petrobras, Eletrobras, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal (o resto é perfumaria).

Hoje, porém, quem escreve não é o economista, mas o cidadão que acredita no modelo de democracia breve e imperfeitamente descrito no primeiro parágrafo. Nesse quesito, ambos os candidatos deixam muito a desejar.

Elogios à ditadura militar, louvor a um conhecido torturador e outras manifestações do mesmo calibre tornam impossível, para mim, votar em Bolsonaro. Simplesmente não cabem no meu credo, mesmo que fosse possível acreditar em sua conversão ao liberalismo econômico e à austeridade fiscal.

Quanto a Fernando Haddad, bem, em nome da transparência, fomos colegas de mestrado (e, não, ele nunca “colou” de mim, nem do Naércio Menezes), eu o considero um amigo (não sei se a recíproca é verdadeira, mas espero que sim) e uma pessoa de bem. Representa, todavia, forças políticas cujo compromisso com a democracia me convence ainda menos que o liberalismo econômico de Bolsonaro.

Aqui me refiro tanto a propostas concretas (“adormecidas” no segundo turno) —na linha da convocação de uma constituinte e manobras pouco disfarçadas de controle da mídia— como ao histórico do PT, inclusive sua recusa descarada em aceitar decisões do Judiciário.

Sua autocrítica não vai além do lamento de não terem conseguido controlar instituições como o Ministério Público, a Polícia Federal e as Forças Armadas, além, é claro, de “democratizar a mídia”.

Isso sem se esquecer do “guerreiro do povo brasileiro”, o condenado José Dirceu, que recentemente proclamou que o partido pretendia “tomar o poder, que é diferente de ganhar uma eleição”.

Que me desculpem os amigos que pretendem votar no Fernando em nome da defesa da democracia, mas um partido com tais posições não tem nenhum comprometimento com a causa democrática, além de usá-la como trampolim para “tomar o poder”.

Só me sobra, portanto, anular o voto e torcer para que na próxima eleição apareçam candidatos com posicionamentos mais próximos aos meus, de preferência com reais chances de serem eleitos.

Boa escolha a todos.


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