in ,

Definindo por extensão o termo ‘bolsonarista’

Tenho afirmado que se deve distinguir o futuro governo de Bolsonaro, legitimamente eleito, bem como a maioria dos seus eleitores, da emergente força política bolsonarista. Me pediram no Facebook para definir o que é ‘bolsonarista’. Então lá vai.

Bolsonaristas são os antiglobalistas conspiracionistas e anticomunistas macarthistas (como os olavistas), os monarquistas tradicionalistas e religiosos fundamentalistas (tipo TFP), os militaristas-intervencionistas e os jacobinos antagonistas defensores da antipolítica da terra arrasada. A estes se juntam legiões de jovens jihadistas, com pouco trato intelectual e nenhuma experiência política democrática, que funcionam como correias de transmissão dos primeiros nas mídias sociais e que tomam a disputa política como uma espécie de guerra religiosa.

Os demais eleitores de Bolsonaro, ainda que possam ter votado no capitão para impedir a volta do PT ao governo, ou para renovar “tudo isto que está aí”, ou com medo do agravamento do problema da segurança ou porque, tendo mentalidade conservadora nos costumes, acreditaram na narrativa bolsonarista (de que a esquerda é composta de comuno-larápios que querem trair a pátria, sabotar a nação, decretar a morte de deus, destruir a família monogâmica e a religião como esteios da civilização ocidental cristã, transformar seus filhos em gays, pervertê-los com o uso de drogas, criminalizar os policiais e as forças da ordem e soltar os bandidos, principalmente Lula), não são, pelo menos por enquanto, bolsonaristas.

Vejamos alguns exemplos de bolsonaristas, que se intitulam como direita ou nova direita, mas que seriam melhor classificados como de extrema-direita (se esses conceitos ainda fizessem algum sentido). Os bolsonaristas não são conservadores, liberais-conservadores ou de direita, como são Felipe Pondé, João Pereira Coutinho e Reinaldo Azevedo – pessoas com alta civilidade, que convivem bem com a democracia. Eles são, em geral (pois sempre há exceções), reacionários, retrogradadores.

Bem… em primeiro lugar, é claro, Olavo de Carvalho (seus antigos discípulos, como Rodrigo Gurgel e Flávio Gordon e os demais olavistas do médio clero – muitos dos quais citados a seguir, em ordem alfabética): Alexandre Borges, Allan dos Santos (Italo Lorenzon e a turma do Terça Livre), Ana Paula, Bia Kicis, Bruno Garschagen, Carla Zambelli (e a turma do Nas Ruas), Diogo Mainardi, Felipe Moura Brasil, Flavio Morgenstern, Filipe Martins (e a turma do Senso Incomum), Jair Bolsonaro (pessoalmente, não como presidente, sua famiglia – Flávio, Carlos, Eduardo – e seus generais Mourão, Heleno, Oswaldo, Aléssio, Bini, etc.), Janaina Paschoal, Joice Hasselmann, Kim Kataguiri (e a turma do MBL que se converteu ao bolsonarismo depois de alguma resistência inicial: Renan Santos, Alexandre Santos, Pedro D’Eyrot, Arthur Moledo do Val, Fernando Holiday), Leandro Ruschel (e a galera do Brasil Paralelo), Luciano Ayan, Luiz Philippe de Orleans e Bragança (e a turma do Acorda Brasil e outros monarquistas), Maçons do grupo Avança Brasil (e outros adeptos de ordens templárias, iniciáticas, esotéricas, de natureza hierárquica), Marcelo Reis (e a turma do antigo Revoltados Online), Nando Moura, Padre Paulo Ricardo (e outros católicos fundamentalistas tipo TFP), Renato Tamaio (e a turma do SOS Forças Armadas), Ricardo de Aquino Salles (e a turma do Endireita Brasil), Roger Moreira, Silas Malafaia (e outros bispos ou pastores evangélicos, inclusive o bispo Macedo – este, provavelmente, mais por oportunismo).

E, por falar em oportunismo, dentre os empresários novos amigos do poder é possível encontrar alguns bolsonaristas, como Emílio Dalçóquio, Luciano Hang, Paulo Marinho, Flávio Rocha e tantos outros (não é difícil identificar nomes de empresários – que não admitiam que se falasse mal de Lula, durante seu primeiro governo – refugando agora qualquer crítica a Bolsonaro: o script desses patriotas é semelhante, para não dizer o mesmo, até porque eles são, em parte, os mesmos, mas nem todos esses oportunistas são bolsonaristas. O costume de ficar sempre do lado do poder para levar algum tipo de vantagem ou para não ser incomodado é muito mais antigo do que o rascunho da Bíblia).

E temos também entre os bolsonaristas legiões de jovens jihadistas de iPhone, anônimos replicantes, que atuam como hubs da rede descentralizada (não-distribuída) de difusão do bolsonarismo nas mídias sociais (sobretudo no WhatsApp).

Esse pessoal não é a mesma coisa que os conservadores ou liberais-conservadores (como Edmund Burke, Michael Oakeshott, Roger Scruton, Russell Kirk, Theodore Dalrymple, John Gray, Gertrude Himmelfarb, Thomas Sowell, Phyllis Schafler), nem mesmo como a direita que admira estadistas como Winston Churchill, Ronald Reagan ou Margaret Thatcher – ferrenhos defensores do Estado de direito e da democracia liberal em seus países. Eles são mais parecidos com os populistas-autoritários que proliferam na época atual, como Viktor Orban (na Hungria), Jaroslaw e Lech Kaczynski (na Polônia), Recep Erdogan (na Turquia), Matteo Salvini (na Itália), Le Pen (na França), Geert Wilder (na Holanda), Hans-Christian Strache (na Áustria), Jörg Meuthen e Alexander Gauland (na Alemanha) e Rodrigo Duterte (nas Filipinas) – todos estes iliberais e majoritaristas (quando não coisa pior).

Sim, em certo sentido, os bolsonaristas são até piores do que os populistas-autoritários, mencionados acima, na medida em que tendem a questionar e a deslegitimar a democracia liberal se ela não for o veículo adequado para as suas pretensões de eleger representantes favoráveis à restrição de direitos políticos e de liberdades civis. Esta foi a razão de tantas notícias fakes, saídas, em boa parte, da cabeça doentia de Olavo de Carvalho, como as de que as urnas eletrônicas teriam sido confeccionadas precipuamente para serem fraudadas pela esquerda, de que Haddad implantou o “kit gay” nas escolas do ensino fundamental (distribuído amplamente para crianças) e que teria escrito um livro defendendo a pedofilia e o incesto. De certo modo, essa extrema direita se espelha mais no trumpismo, na medida em que usa artifícios semelhantes para tentar falsificar o processo de formação da vontade política coletiva. É uma turma chegada a Steven Bannon (que foi estrategista-chefe de Trump, editor do veículo Breitbart – ver foto que ilustra este artigo), a Richard Spencer (da Alternative Right, NPI) e, quem sabe, até a David Duke.

O núcleo duro do pensamento bolsonarista em termos filosóficos, se se puder falar assim, nem acredita muito em Bolsonaro. Estão usando o capitão como Cavalo de Troia para contrabandear suas ideias autocráticas para a cena pública. Na verdade, Olavo e seus mais fanáticos seguidores desprezam Bolsonaro porquanto sabem que ele é bronco, ignorante e incapaz de entender seus filosofemas. Estão apenas usando-o, assim como usam a lama formada por crenças e valores preconceituosos e intolerantes que está no fundo do poço da cultura patriarcal para dizer que “o povo é de direita” e que não há democracia no Brasil porquanto não há um partido de direita capaz de representar a maioria da população.

Vem a calhar sobre isso um vídeo, gravado ontem por Olavo de Carvalho – intitulado Democracia, o caralho – dizendo que nunca houve democracia no Brasil. Dezenas de respeitáveis institutos que monitoram a democracia no mundo a partir de indicadores, compostos com critérios científicos, de direitos políticos e liberdades civis (como a Freedom House e a The Economist Intelligence Unit) ficariam de cabelo em pé ao ouvir suas besteiras. Em nenhum dos dez mais reconhecidos rankings internacionais de democracia o Brasil figura como uma não-democracia (um not-free country, um authoritarian regime ou mesmo um partly-free country ou um hybrid regime).

O argumento de Olavo é pueril ou propositadamente enganador. Ele diz que como a maioria da população brasileira tem mentalidade conservadora nos costumes e não havia aqui nenhum partido de direita, então isso é uma prova de que a democracia que tínhamos (antes da vitória de Bolsonaro) era uma farsa. Ora… a maioria da população nos países democráticos, inclusive nos de democracia mais plena, é conservadora nos costumes e mesmo assim, via de regra, escolhe governos liberais. Ser liberal em política não é contraditório com ser conservador nos costumes. A cultura predominante na civilização patriarcal é conservadora (a rigor, toda cultura é conservadora), mas ela se refrata, não se reflete diretamente no mundo político. Se fosse assim, nunca teria havido democracia no mundo (pois a maioria dos atenienses que inventaram a democracia no século 5 a. C. era conservadora e a maioria dos modernos ingleses que a reinventaram no século 17 também era conservadora nos costumes). Há aqui um deslizamento epistemológico primário, entre conceitos que têm stati distintos: cultura e costumes e forças políticas não estão no mesmo universo conceitual. Olavo, aliás, não é um conservador, mas um reacionário antiliberal. E agora, mais uma vez, se revela como um charlatão filosófico.

Ou seja, os bolsonaristas – sobretudo os que urdem narrativas ideológicas para serem repetidas pelos trouxas – conseguem ser piores do que os populistas-autoritários que estão na vanguarda da desconsolidação democrática observada em âmbito global nos dias que correm. Em alguns casos são malfeitores mesmo (mas aqui não se deve incluir os eleitores normais de Bolsonaro).

É um erro confundir, pelo menos por enquanto, o bolsonarismo com o futuro governo Bolsonaro e com os eleitores normais de Bolsonaro (que o levaram à vitória no pleito de 2018). Os bolsonaristas são extrema minoria nesse contingente eleitoral (não chegam, talvez, a 10% do total).

O futuro governo Bolsonaro deverá ser encarado como um bem público enquanto se mantiver nos marcos da democracia. Mas o bolsonarismo é outra coisa: é uma excrecência, uma corrente maligna que deve ser rejeitada por qualquer pessoa que preze valores democráticos e humanistas.

Ou seja, o governo Bolsonaro é uma coisa e outra coisa é o bolsonarismo: uma força política emergente que instrumentaliza as crenças e preconceitos que estão fundeados no poço da cultura patriarcal (hierárquica e autocrática). Foi Bolsonaro quem ganhou a eleição (e, portanto, deve chefiar o governo, como é do jogo democrático), não o bolsonarismo.

Se os bolsonaristas capturarem a maior parte da massa dos eleitores normais de Bolsonaro (transformando-os em bolsonaristas) ou se conseguirem dar a tônica do novo governo, aí sim, a democracia estará correndo risco iminente no Brasil.

Atenção! Para tanto, não é necessário que o governo Bolsonaro viole a legalidade ou rasgue a Constituição. Um regime democrático pode se tornar iliberal (ou menos liberal, em termos políticos) mesmo quando os seus agentes no Estado e suas correias de transmissão na sociedade cumprem rigorosamente as leis e mesmo quando o governo adote medidas liberais em economia.


Democracy Unschool é um ambiente de livre investigação-aprendizagem sobre democracia, composto por vários itinerários. O primeiro itinerário é um programa de introdução à democracia chamado SEM DOUTRINA. Para saber mais clique aqui

Deixe uma resposta

Loading…

Deixe seu comentário

O grande desafio dos democratas

Definindo por intenção o termo ‘bolsonarista’