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Definindo por intenção o termo ‘bolsonarista’

No ultimo dia 7 (de novembro de 2018) publiquei aqui um artigo intitulado Definindo por extensão o termo ‘bolsonarista’. Agora vou tentar defini-lo por intenção, considerando que o meaning (significado) de um conceito é um par-ordenado [intenção | extensão].

Para definir por extensão o termo ‘bolsonarista’ fiz duas distinções preliminares: a distinção entre bolsonaristas e o futuro governo Bolsonaro e a distinção entre bolsonaristas e os eleitores normais (não militantes, não fiéis ou fanáticos seguidores, não jihadistas) de Jair Bolsonaro em outubro de 2018. Citei então vários nomes das pessoas da chamada “nova direita” brasileira que apoiaram a candidatura Bolsonaro. E também estabeleci alguns critérios que englobavam, por intenção (já numa prévia do presente artigo), vários tipos de bolsonaristas:

Os antiglobalistas conspiracionistas e anticomunistas macarthistas (como os olavistas), os monarquistas tradicionalistas e religiosos fundamentalistas (tipo TFP), os militaristas-intervencionistas e os jacobinos antagonistas defensores da antipolítica da terra arrasada. A estes se juntam legiões de jovens jihadistas, com pouco trato intelectual e nenhuma experiência política democrática, que funcionam como correias de transmissão dos primeiros nas mídias sociais e que tomam a disputa política como uma espécie de guerra religiosa.

Uma das pessoas nomeadas por mim, Luciano Ayan (pseudônimo de Carlos Afonso, consultor de TI, Analista de Guerra Política e autor do blog Ceticismo Político), reagiu da seguinte maneira ao primeiro artigo:

É um erro definir o “bolsonarismo” como massa unificada. A coisa é mais complexa do que isso…

Luciano Ayan, Ceticismo Político, 08/11/2018

Fui citado num texto de Augusto de Franco – que eu respeito – como se eu fosse um integrante do “bolsonarismo”. O fato é que apoiei o voto em Bolsonaro, principalmente por que do outro lado estava o PT. Mas nada de “bolsonarismo”. Sou independente. Ou seja, posso apoiar várias pautas que o governo quiser (ou puder) levar em frente, sem precisar dar cheque em branco.

Mas veja esta parte importante do texto em questão:

[Aqui o autor reproduz o trecho do meu artigo]

O que deve ficar claro aí é que não dá para definir hoje um suposto “bolsonarismo” que unifique todo mundo, principalmente porque a direita está fraturada pelas guerras internas que ocorreram nos últimos 30 meses. Assim, colocar MBL e Olavo numa lista única é algo insustentável. Há muita gente com diferentes visões do mundo aí.

Decerto há riscos de autoritarismo, mas isso depende do nível de disparidade na correlação de forças. O fato é que conservadores, liberais e libertários se deram mal, enquanto os neoconservadores prevaleceram. Há muita gente se submetendo por causa de medo de patrulha. Os neoconservadores hoje atuam de modo mais organizado nas redes, em estruturas de apoio mútuo.

Mesmo aqueles que se submetem, sabem em seu íntimo que estão fazendo isso para evitar maiores problemas. Mas não há uma “unidade” de pensamento aí. Dentre os diversos setores da direita, nenhum outro foi tão esmagado quanto o setor liberal. Claro que existe muita gente séria entre os neocons, mas não se pode negar que o neoconservadorismo tem como inimigo o liberalismo. Logo, se a correlação de forças permanecer desproporcional, estes vão se enrolar feio. Mas aí cabe aos liberais disputarem seu espaço.

Esse processo de ataque contínuo aos liberais pôde ser visto nas diversas campanhas de assassinatos de reputação lançadas por algumas pessoas do setor neocon – não todas, claro, pois tem muita gente séria por lá – contra grupos e partidos como LIVRES, MBL e NOVO nos últimos 30 meses. Mas a coisa só descambou para esse nível de desrespeito porque a correlação de forças ficou desfavorável para os liberais. Mas até alguns conservadores sofreram com isso.

A coisa é tão absurda que hoje muitos liberais estão dialogando pelas categorias impostas por algumas pessoas mais raivosas do setor neocon (que inclui gente séria). Surgiu aí o termo “liberal na economia e conservador nos costumes”. Só que o liberalismo é feito para abarcar vários aspectos da sociedade, incluindo também a liberdade política e a liberdade de expressão. Se alguém frisa apenas o liberalismo “na economia”, é porque talvez esteja pensando nos limites autorizados pelo neoconservadorismo. Melhor seria se usassem o termo liberal-conservador, que abarca o liberalismo em sua plenitude, dialoga com o setor conservador.

Aliás, nem sou um opositor natural do neoconservadorismo. Um de meus livros preferidos é “Beautiful Losers”, do autor neoconservador Sam Francis, que questionou a falta de combatividade de conservadores norte-americanos. O liberalismo preza a coexistência, mas o neoconservadorismo brasileiro tem se mostrado o menos apto de todos os setores da direita para coexistir com demais direitistas. Novamente, isto não é uma regra geral. Há neoconservadores que convivem com a divergência, assim como alguns liberais que esqueceram os princípios originais do liberalismo e chegaram até a apoiar censura de divergentes.

Aquilo que Augusto de Franco menciona como “o bolsonarismo” seria melhor definido como o neoconservadorismo tupiniquim, que não representa toda a candidatura de Jair Bolsonaro, mas luta para vender a ideia de “representação do Bolsonaro”. Isso pode ser explicado porque o neoconservadorismo se deu muito mal durante os movimentos de rua pelo impeachment de Dilma. Enquanto o setor neocon falava em “revolução civil” ou qualquer outra coisa, os movimentos liberais e conservadores optaram por derrubar Dilma. Para lutar pelo protagonismo, que parecia perdido, era preciso procurar algo novo.

Desde então, o setor neoconservadorismo encontrou na campanha de Bolsonaro o seu escudo perfeito. Podiam agir para recuperar seu espaço atacando outros setores da direita e, se alguém fosse se defender, diriam: “você está contra o Bolsonaro”. Bela jogada. Como nenhum dos grupos liberais optou por se defender adequadamente, foram tendo suas reputações danificadas. Muito da submissão que hoje existe diante da liderança neocon é fruto do medo. Mas os espaços de poder ainda estão sob disputa. E essa disputa deve ser feita principalmente a partir de posicionamento, disputa de narrativas, organização virtual, núcleos de solidariedade e controle de frame.

Abordarei tudo isso em mais detalhes em breve, mas deve ficar claro que empacotar todo mundo que apoia o governo como “representantes do bolsonarismo” é algo falho. A direita continua sendo plural, mas com a correlação de forças desproporcional há uma preocupação. Se outros setores da direita não se preocuparem em recuperar o espaço perdido, teremos ampliada a disparidade na correlação de forças. Nesse caso, o autoritarismo é a consequência inevitável. Mas nem tudo está perdido.

Tem muita gente de diversos setores na base de apoio do governo Bolsonaro e muitos fazem ressalvas a grupos extremistas que falam em “destruir opositores”. O problema está, de novo, na correlação de forças, que deve ser estudada e tratada. Se essa correlação de forças ficar mais equilibrada, há chances de que exista maior estabilidade e menores serão os riscos para a democracia.

Em tempo: as escolhas de ministros ainda não refletiram a perspectiva neoconservadora. Quer dizer: o “jeitão” do time de ministros ainda não reflete a visão de mundo neocon, que continua sendo a força de direita mais presente nas redes sociais.

Luciano não deixa de ter razão ao dizer que não se pode usar o termo ‘bolsonaristas’ para designar – como se fossem a mesma coisa – os apoiadores de Bolsonaro em toda a sua diversidade. Mas eu não disse que não havia diversidade, não escrevi que se tratava de uma “massa unificada” (foi ele que usou essa expressão). Há uma diversidade e, por isso, defini o termo por extensão no primeiro artigo.

Há, entretanto, critérios que podem unificar toda a diversidade dos bolsonaristas (que não são necessariamente, como afirmei e reafirmei no artigo, os integrantes do novo governo e os eleitores de Bolsonaro).

Sugeri então, num tweet, uma pergunta-chave para identificar bolsonaristas (e aqui já vai um critério para definir o termo por intenção):

Pergunte ao sujeito se ele aprova o comportamento político de Donald Trump. É batata! Igual fazíamos para identificar petistas: perguntávamos ao sujeito se ele aprovava Chávez. Também era batata!

No meio de toda diversidade compreendida pela designação ‘bolsonaristas’ há uma unidade: são, via de regra (porque há exceções, que confirmam a regra), todos (quase todos) trumpistas. Sinal de que existe um liame, um relação interna identificadora, um invariante, que permite o reconhecimento de um padrão na chamada “nova direita” bolsonarista. Ora… entre os petistas também há muita diversidade (muitas tendências em luta interna, mais até do que entre os apoiadores de Bolsonaro), mas raramente se viu algum deles condenar a Venezuela como uma ditadura.

Numa conversa comigo no Twitter, Luciano Ayan, ao reafirmar que não é bolsonarista, disse o seguinte (sobre os bolsonaristas):

Melhor chamá-los de neoconservadores. O Olavo basicamente tropicalizou autores neocons como Irving Kristol. Em especial, o que ele faz é claramente inspirado no livro “The Closing of American Mind”, de Alan Bloom.

Este critério, todavia, é muito restritivo. Ele abarca (em parte) os olavistas, mas não as outras categorias que mencionei. Religiosos-fundamentalistas (católicos ou evangélicos) e monarquistas-tradicionalistas não cabem bem na categoria de neoconservadores, nem muitos militaristas-intervencionistas (para não falar dos jacobinos antagonistas defensores da antipolítica da terra arrasada) – mas são, todos, bolsonaristas.

Por outro lado, esses tais neocons (em boa parte) não são cons coisa nenhuma. São reaças mesmo. Não são, a rigor, neoconservadores, nem mesmo conservadores (como já mostrei no meu primeiro artigo).

Claro que a pergunta-chave que propus não resolve o problema de um ponto de vista teórico. É apenas uma isca para mostrar que há algo em comum entre os bolsonaristas (do contrário não seriam todos ou quase todos trumpistas). É preciso dizer, entretanto, o que há em comum. E quando vamos procurar o conteúdo em comum (que é apenas parte do que há em comum, pois o bolsonarismo se afigura como um comportamento político e não uma doutrina) encontramos as seguintes barbaridades que não são todas – diga-se de pronto – compartilhadas pelos bolsonaristas e que já analisei superficialmente nos artigos Por que os argumentos bolsonaristas estão totalmente errados e Seis teses furadas do bolsonarismo. No primeiro artigo (linkado imediatamente acima) refutei os argumentos veiculados à época pela imensa maioria dos bolsonaristas. Para resumir:

1 – Se o PT voltar ao governo o Brasil vai virar imediatamente uma Venezuela.

2 – O PT, se for eleito, vai implantar o comunismo no Brasil.

3 – O PT e seus aliados, o PSDB, o MDB, o PP, o PDT, a Rede e os demais partidos (com exceção de Bolsonaro) são todos a mesma coisa porque são todos igualmente corruptos e criminosos que querem destruir os valores da civilização ocidental cristã, degenerar a família, derruir a pátria, acabar com a religião, transformar nossas crianças em gays, tornar nossos jovens dependentes de drogas etc.

4 – Bolsonaro é a única chance (e a última chance) de evitar o perigo petista e de desmontar a conspiração comunista que quer destruir o Brasil.

5 – Votar em Bolsonaro, mesmo que ele não consiga fazer o que promete, é uma maneira de dar um choque no sistema político, afastando os corruptos e comunistas e de conter o crescimento do banditismo nas ruas e nas instituições. Além disso, é um mal menor do que o PT.

Tudo isso, todavia, poderia ser encarado como truques de agitação e propaganda da campanha de Jair Bolsonaro, não fosse pelo fato de que algumas das alegações acima são defendidas teoricamente pelos bolsonaristas (e não apenas replicadas pelos cabos eleitorais de Bolsonaro).

Como comportamento político Bolsonaro representa o populismo-autoritário que, juntamente com o neopopulismo, são hoje os principais adversários da democracia no mundo (e não mais o comunismo e o fascismo) – como já comentei extensamente no artigo Os diferentes adversários da democracia no Brasil. Entretanto, o bolsonarismo não é a mesma coisa que a “representação de Bolsonaro”. Ele se expressa agora, contingencialmente, através do populismo, mas o núcleo duro (digamos, filosófico ou ideológico) do seu pensamento é pior do que isso. É um desaguadouro de correntes francamente antidemocráticas (ou i-liberais), em alguma das quais, a despeito de afirmar que não é bolsonarista (no sentido estrito de seguidor de Bolsonaro), Luciano Ayan se insere de algum modo. Na verdade, para muitos pensadores i-liberais de diversos matizes que estão neste núcleo duro, Bolsonaro funciona apenas como um Cavalo de Troia para contrabandear suas ideias antidemocráticas para a cena pública.

Pois bem. As questões mais relevantes para nós, neste momento, são as seguintes: 1) conseguirão os bolsonaristas dar a tônica do novo governo Bolsonaro? e 2) conseguirão os bolsonaristas capturar parte significativa dos eleitores normais de Bolsonaro?

Examinemos a primeira questão. Se alguém tinha alguma dúvida de que Bolsonaro e seus filhos são bolsonaristas, deve assistir a live de ontem (09/11/2018) do presidente eleito no Facebook.

Durante sua live de ontem no Facebook (o vídeo está reproduzido abaixo), Jair Bolsonaro fez tudo que um presidente já eleito não pode fazer: se comportar como um militante, um militante bolsonarista.

Agora vamos aguardar as polyanas da análise política tentarem justificar tudo para salvar Bolsonaro dele mesmo. Tenho dito que temos de fazer uma distinção entre o bolsonarismo e o governo Bolsonaro. Mas Bolsonaro, na sua live de ontem, me desmentiu. Mostrou que o bolsonarismo ainda está dando a tônica do futuro governo – o que é a pior notícia que poderíamos ter nesta altura do campeonato.

Em primeiro lugar, para provocar a esquerda, Bolsonaro colocou sobre a mesa, durante a live, o livro “Não, Sr. Comuna! Guia para Desmascarar as Falácias Esquerdistas”, de Evandro Finotti, e “A Mente Esquerdista — As Causas Psicológicas da Loucura Política”, de Dr. Lyle H. Rossiter. Provocação gratuita, incompatível com a postura que deve ter um chefe de Estado. Por acaso em democracias as pessoas não podem ser de esquerda? E justo no 29 aniversário da queda do muro de Berlim, um presidente eleito pratica esse tipo de anticomunismo, na vibe da guerra fria?

Depois falou, entre outras, as seguintes besteiras que revelam sua mentalidade autoritária (reacionária):

“Moro como juiz pescava de varinha. Como ministro, irá pescar com rede de arrastão… o Sergio Moro vai pegar vocês”. Que história é esta? Não cabe ao executivo (a um auxiliar do presidente) “pegar” ninguém: isso é função precípua de um poder judiciário independente do governo.

Também provocou gratuitamente os ambientalistas (e todos que defendem a conservação do meio ambiente), não se sabe com qual objetivo: “Vocês do meio ambiente não sabem o que é produzir…” Ora… quem são o “vocês” aí da frase? Qualquer pessoa razoável e informada defende o meio ambiente (inclusive os compradores dos produtos agropecuários e industriais brasileiros).

Fez o mesmo com os que defendem a educação sexual: “Os pais querem ter tranquilidade quando mandam o filho para a escola. Não é para aprender a fazer sexo, não!”

Por último, teve uma recaída nessa mania de imitar Donald Trump (sem se dar conta de que o Brasil não é o Estados Unidos e não pode ter seus interesses comerciais e políticos prejudicados por um bronco sem força militar e sem PIB para afrontar outros países do mundo): “Quem decide a capital de Israel é Israel. O Brasil não mudou a capital do Rio para Brasília? Vamos parar com essa frescura!” Frescura? Como se pode enterrar décadas de diplomacia responsável com esse termo chulo “frescura”?

Pode até ser que o governo Bolsonaro não vá se comportar como o militante bolsonarista Bolsonaro e seus filhos se comportam (sim, eles não são neoconservadores, nem conservadores, são reacionários mesmo, da pior espécie: boçais e incivis). A orientação do governo está ainda em disputa.

Existem os constrangimentos impostos pelo Estado democrático de direito aos ocupantes de um poder, que são capazes de domesticar, pelo menos em parte, os arroubos autoritários do seu titular. Existem os aliados (que não são bolsonaristas) e a necessidade de conquistar maioria no parlamento e manter bom relacionamento com os tribunais de justiça, os tribunais de contas, o ministério público (para não falar do bom relacionamento com outros países). Existem a imprensa livre, as demais instituições do Estado e da sociedade. E existem 90 milhões de brasileiros (a maioria dos eleitores, aliás) que não votaram em Bolsonaro.

O sistema (o establishment) pode refrear os arroubos reacionários e antidemocráticos mesmo de um agente que se diz antissistema (como, em parte, está fazendo nos Estados Unidos com Donald Trump). Mas não é possível fechar os olhos para a realidade: Bolsonaro e sua dinastia hereditária (que vão mandar no governo, até onde puderem), ainda que não consigam abolir o regime democrático (isso é muito improvável), vão torná-lo menos liberal na medida do tamanho da influência dos bolsonaristas.

Passemos agora à segunda pergunta: conseguirão os bolsonaristas capturar parte significativa dos eleitores normais de Bolsonaro?

Este é o maior problema do ponto de vista da sociedade. Enquanto os bolsonaristas não chegarem a 10% (se tanto) dos eleitores de Bolsonaro, a democracia poderá metabolizar a sua influência política na sociedade. Mas se, por desgraça, esse contingente aumentar, chegando a triplicar de tamanho, a democracia brasileira entrará em risco iminente de autocratização. Uma força política regressiva e muito agressiva, como a bolsonarista, que consiga arregimentar mais de 10% da população (não dos eleitores de Bolsonaro) – ou seja, que atinja não 5 a 6 milhões de pessoas, mas cerca de 15 milhões – provocará uma mudança irreversível na estrutura e na dinâmica do que chamamos de social.


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