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Democratas são liberais (no sentido político do termo)

Quem não é liberal é iliberal e, portanto, não pode ser democrata

Os democratas temos de manter bem vivas as histórias de todas as tiranias. Só por isso existimos: para resistir a elas.

Agora nosso papel é mostrar que as tiranias não começam mais com golpes sangrentos, insurreições populares, guerras civis e quebras abruptas da institucionalidade vigente. Elas chegam aos governos pela via eleitoral. Uma vez no governo, elas vão, insidiosamente, se instalando a partir de pequenas e progressivas restrições às liberdades civis e aos direitos políticos.

É um Putin que proíbe o uso de camisetas com dizeres políticos na praça do Kremlin (e, depois, em todos os espaços públicos) e que – é claro – nunca mais sairá do governo. É um Erdogan que vigia o que os professores falam em sala de aula e também governará até morrer coberto pelo manto da sharia. É um Orban que altera regras eleitorais, fecha universidades e infunde o nacionalismo na população. É um Chávez, um Maduro, um Evo ou um Ortega que abolem a rotatividade democrática. Trumps, le pens, wilders, farages, kaczynskis, salvinis, dutertes, lulas, ciros e bolsonaros brotam de todo lado, dispostos a usar a democracia contra a democracia para implantar regimes iliberais, estatistas e populistas no sentido político desses termos. É bom ressaltar: todos esses, citados neste parágrafo, são i-liberais. E os iliberais são os principais coveiros da democracia nos tempos que correm.

É preciso resistir a isso, quer dizer, ao iliberalismo. Se você está sintonizado com o emocionar próprio da democracia, já entendeu tudo num glance e já sabe o que fazer num blink. Se não está, é quase inútil explicar por que democratas são liberais no sentido político do termo.

Democratas gostam de política, mas não gostam muito de governos. Diga-se o que se quiser dizer, todo governo é oligárquico. E todo chefe de governo se acha, em alguma medida, senhor de gente (e não apenas administrador de coisas). Liberais (quer dizer, democratas) sabem disso.

No entanto, enquanto persistirem as formas atuais de governança, governos são inevitáveis. E se o são que, pelo menos, não nos encham o saco. Os governos menos maléficos que existem, desse ponto de vista – que é o ponto de vista dos amantes da liberdade – são os democráticos. Por isso que, para os liberais, tanto faz quem será “o nome” (essa fixação mental de fiéis, esse transtorno psíquico de seguidores), desde que seja do campo democrático, ou seja, do campo dos que tomam a democracia como um valor universal e o principal valor da vida pública.

Democratas não têm o prazer mórbido de escolher quem vai lhes cavalgar (isso parece uma doença). Basta, no limite, que um governo não os persiga. Melhor ainda se não atrapalhar o que pretendem fazer livremente na sociedade (sem violar as leis).

Para a democracia, a política não é monopólio de governos (isto é autocracia) e sim atividade de comunidades que querem se autorregular interagindo no espaço público (foi assim que nasceu a koinonia política dos atenienses, no século 5 a. C, que era a polis, não a cidade-Estado).

Como a cultura autocrática continuou predominando, nossos atuais presidentes (ou primeiros-ministros), que deveriam ser apenas chefes de governo, delegados para conduzir a máquina administrativa do Estado, acabaram se achando (ou sendo encarados como) chefes das sociedades ou das pessoas (é isso que se entende quando alguém se diz presidente de um país ou de uma nação).

Pior, por isso, é se um governo quiser nos comandar: se não somos, os democratas, soldados ou militantes (é a mesma coisa), odiamos hierarquias, quer dizer, burocracias (sejam estatais, corporativas, partidárias, religiosas, funcionais-empresariais ou meritocráticas).

Inaceitável, porém, é um governo dizer o que devemos pensar, como devemos agir, que emoções devemos ter: sobretudo em relação a temas como família, relacionamentos, deus, religião, pátria (aliás, para quem não sabe, o conceito de pátria foi inventado pelo partido oligárquico, que tentou, durante dois séculos, sabotar a democracia nascente em Atenas e a palavra patriota foi usada, pela primeira vez por eles, para dizer que queriam voltar “ao regime de nossos pais”, quer dizer, à autocracia).

Tudo isso é o que chamamos de liberalismo, no sentido político do termo, de quem toma a liberdade (e não a ordem) como o sentido da política (e que não tem nada a ver com seguir alguma doutrina economicista inventada por qualquer autor – com sotaque austríaco ou não – do chamado liberalismo-econômico).

Portanto, os democratas não devem ter medo de se dizer liberais (para não ser confundidos com os fundamentalistas de mercado). Quem não é liberal é iliberal e, portanto, não pode ser democrata.


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