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Desestabilização democrática ahead

Escrevi ontem (11/08/2018), no Facebook, que a ascensão de Bolsonaro não estaria ocorrendo sem uma retaguarda de gente incrustada no aparelho de Estado. Sugeri que se fizesse, se possível, uma pesquisa de intenção de votos nas polícias civis e militares, na polícia federal e nas FFAA. E também que se contasse quantos policiais são agora candidatos (comparando os resultados com as eleições anteriores).

Uma pessoa (Rodolfo Cattaneo) fez um comentário arguto no meu mural:

“Há uma espécie de guerra fria pelo controle do Estado brasileiro. De um lado temos esta retaguarda mencionada por você: militares, promotores, juízes, auditores fiscais, delegados, pessoas que entraram para o serviço público por concurso. E do outro os políticos, que chegaram pela via eleitoral, e seus indicados aos cargos comissionados. Os dois grupos se acham no direito de comandar os órgãos do governo e estão brigando por isso. O primeiro grupo está claramente em vantagem. E agora essa disputa se reflete nas eleições.”

Ontem mesmo já havia publicado duas notas (com previsões um tanto sombrias) a respeito:

Contem nos dedos o tempo para que surjam denúncias e vazamentos, feitos por gente do Ministério Público ou da Polícia Federal, contra os candidatos do campo democrático que começarem a despontar nas pesquisas.

Contem nos dedos o tempo que falta para a eclosão de eventos disruptivos ligados à segurança pública: queima de ônibus, assaltos generalizados, em alguns locais, a estabelecimentos comerciais (provocando fechamento de lojas e escolas e paralisação de serviços), rebeliões em presídios, choques com forças policiais em cidades e no campo e, eventualmente, um crime bárbaro capaz de chocar a população.

Hoje cedo aduzi uma lembrança:

Vocês lembram do corpo mole das forças de segurança durante o movimento dos caminhoneiros? Pois é… Não, não estou insinuando: estou dizendo abertamente que há uma retaguarda bolsonarista no aparelho de Estado.

O fato é que a instrumentalização política da Lava Jato, diga-se o que se quiser dizer, açula o moralismo mais chulo e joga água no moinho do bolsonarismo. As tentativas de Álvaro Dias e Marina Silva, de pegar uma carona na indignação popular com a corrupção, não conseguem desviar senão uma pequena parte da corrente em benefício de suas candidaturas. O grosso do fluxo vai mesmo para Bolsonaro, a esta altura como que por força da gravidade.

Fora do Estado há uma base social e, inclusive, empresarial (sobretudo do “capitalismo de faroeste” do Centro Oeste do país) do bolsonarismo. Há meses estamos recolhendo evidências de que novas elites econômicas do Brasil profundo estão abolindo suas velhas elites políticas num sentido que não é o da democracia.

Ao fazer estas observações minha preocupação não é exclusivamente eleitoral. Precisamos ver como esse pessoal (bolsonarista, na sociedade ou cripto-bolsonarista, no Estado) vai se comportar diante de uma eventual derrota de Jair Bolsonaro. Sobretudo se ela for acompanhada de uma derrota do PT (que, desde Sarney, pediu impeachment de todos os presidentes democraticamente eleitos que não fossem do seu partido).

Um governo eleito do campo democrático, seja qual for seu titular, viverá em permanente crise. Três meses depois da posse (senão antes) ficará sob fogo cruzado de forças antidemocráticas com enraizamento social (à direita e à esquerda, para quem ainda acredita nesse esquema interpretativo obsoleto). E ainda receberá o fogo direto de funcionários do Estado (sim, o jacobinismo dos “faxineiros das galáxias” não morreu após as tentativas frustradas de derrubar Michel Temer: como, provavelmente, não emplacará ninguém que reconheça como seu representante, posto que não há um Robespierre disponível, vai continuar acossando o novo presidente eleito com denúncias e vazamentos, num processo contínuo de desconstrução cujo sentido aponta, objetivamente, para a desestabilização democrática).

Não se sabe se é possível evitar isso. Provavelmente, não. Mais chances haverá de fazê-lo (ou, pelo menos, de retardar o processo de desconstituição) se o próximo governo tiver um amplo leque de alianças que garanta maioria qualificada no Congresso, mesmo que para tanto tenha que pagar o preço do desgaste político decorrente da associação com forças políticas fisiológicas e corruptas. Dentro de certos limites, a velha política fisiológica e corrupta não ameaça – nem mesmo desestabiliza – a democracia, que já aprendeu a metabolizar esses desvios populistas primitivos, no sentido de que são próprios dos demagogos que a infestaram desde o primeiro momento, nos séculos 5 e 4 a. C. A situação é bem diferente quando se trata de enfrentar o neopopulismo e o populismo-autoritário, que são as formas mais malignas para a democracia do populismo contemporâneo (no mundo e no Brasil). Aí estão os exemplos, de Maduro e Ortega, de um lado, e de Trump e Viktor Orban, de outro.

De qualquer modo, no Brasil, conter o lulopetismo e o bolsonarismo, durante e depois do processo eleitoral, é o imperativo democrático da hora.

O título desse artigo é uma homenagem à saudosa Jane Jacobs (2004), que escreveu, dois anos antes de falecer, o famoso (e em certo sentido tenebroso) manifesto Dark Age Ahead. A despeito dos duvidosos indicadores que ela escolheu para alegar que estaríamos entrando em uma espécie de “idade das trevas”, o fato é que, do ponto de vista democrático, sua intuição estava certa.


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