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Doze mitos sobre “O Mito” urdidos pelo jornalismo-pollyanna

Pelo menos doze mitos estão sendo criados por jornalistas, colunistas e analistas políticos que querem salvar Bolsonaro dele mesmo e não fazem a distinção entre o novo governo eleito e a força política populista-autoritária bolsonarista que avança na sociedade.

Nós, os democratas, não concordamos nem aceitamos as insinuações e desqualificações tolas, feitas agora, na passagem para 2019, pelos que não veem os perigos do populismo-autoritário bolsonarista, assim como não viram, na passagem para 2003, os perigos do neopopulismo lulopetista.

Para começar a desmitificar, vamos comentar as sentenças abaixo. Nós, os democratas que nos opomos a Bolsonaro e resistimos ao avanço do bolsonarismo na sociedade:

1 – Não, não torcemos para o futuro governo dar errado.

É uma bobagem achar que os que se opõem a Bolsonaro e resistem ao bolsonarismo estão torcendo para o futuro governo dar errado. Isso é um mito. Para os democratas, um governo é um bem público. Se ele der errado, dará errado para todos os cidadãos, não apenas para os que votaram em Bolsonaro. Os democratas não apostam no quanto pior melhor. Mesmo os que se oporão ao futuro governo, se forem democráticos e responsáveis, torcerão para ele fazer o certo, não o errado. Mas para o governo Bolsonaro dar certo o bolsonarismo tem que dar errado.

2 – Não, não achamos que o novo governo mereça uma trégua para mostrar a que veio e que fazer oposição só terá sentido depois que Bolsonaro fizer coisas erradas.

Eis outro mito: de que a oposição tenha de ter razões adicionais para existir, além do fato de discordar do governo. É como se existisse uma oposição justificável e uma oposição injustificável, ou uma oposição legítima e outra ilegítima. Ora, toda oposição feita dentro da lei é justificável e legítima em democracias, tenham ou não razão, em suas alegações, os opositores.

Os democratas não farão guerra ao novo governo e, portanto, não faz sentido nenhum lhes pedir que concedam uma trégua a Bolsonaro. Medidas incorretas e corretas estão sendo tomadas pelo presidente eleito, antes mesmo de assumir (como as indicações de auxiliares, em grande parte equivocadas: dois ministros olavistas, uma ministra evangélica-fundamentalista, um ministro ambientalista de araque, um vice e meia dúzia de ministros militaristas, um ministro meio jacobino-restauracionista etc.). Os anúncios de medidas erradas que estão sendo feitos pelo novo governo eleito, que ainda não assumiu, devem ser criticados. Por exemplo, transferir a embaixada brasileira para Jerusalém, atacar o Acordo de Paris, se retirar do Pacto de Marrakech – tudo isso é errado e deve ser criticado. Este é o papel da oposição em qualquer democracia: fiscalizar, criticar, se opor ao que considera incorreto.

3 – Não, não achamos que Bolsonaro candidato e Bolsonaro presidente sejam duas pessoas diferentes, que mal se conhecem.

Esse mito nasce do wishful thinking do jornalismo pollyanna, de que uma coisa era a campanha (e seus exageros para ganhar votos) e outra coisa será o governo. Só alguém muito desprovido de inteligência não vê que Bolsonaro continua o mesmo. Não existem dois Bolsonaros. Mesmo depois de eleito, ele continua no palanque, como se estivesse em campanha, dando declarações, tweetando e gravando lives para animar a militância bolsonarista. Recentemente, respondendo às críticas por estar nomeando muitos militares, não descartou a possibilidade de indicar mais militares para os ministérios. “É possível. Quando o PT escalava terrorista, ninguém falava nada”, disse ele no dia 27/11/2018, na sede do governo de transição, em Brasília (o que é rigorosamente falso: os governos do PT não nomearam terroristas, não, pelo menos quando os nomearam).

4 – Não, não achamos que Bolsonaro vai dar um golpe de Estado. Nem que Bolsonaro vai implantar o fascismo no Brasil.

Bolsonaro não vai dar um golpe de Estado. Seu governo será de ocupação, sim, mas dentro da legalidade vigente e de outra legalidade que ele – se puder – pretende instaurar seguindo as regras do jogo democrático representativo. Mesmo porque é possível, nas condições atuais do mundo e do Brasil, tornar a nossa democracia menos liberal “por dentro” da institucionalidade vigente. O governo Bolsonaro pode aprovar propostas regressivas em termos de direitos políticos e liberdades civis (e inclusive de direitos humanos) sem violar as leis e o Estado de direito. É improvável, portanto, que o governo Bolsonaro dê um golpe de Estado, mas pode tornar o nosso regime político i-liberal (ou menos liberal, no sentido político do termo) ainda quando os seus agentes no Estado e suas correias de transmissão na sociedade cumpram rigorosamente as leis e o governo aplique medidas liberais em economia.

E ainda que boa parte dos bolsonaristas (ele inclusive, e seus filhos) apresentem comportamento fascistoide, Bolsonaro não representa uma força política fascista e sim populista-autoritária, mais próxima de Viktor Orban (na Hungria), Jaroslaw e Lech Kaczynski (na Polônia), Recep Erdogan (na Turquia), Matteo Salvini (na Itália), Le Pen (na França), Geert Wilder (na Holanda), Hans-Christian Strache (na Áustria), Jörg Meuthen e Alexander Gauland (na Alemanha) e, na Asia, Rodrigo Duterte (das Filipinas), além, é claro, de Donald Trump (nos USA) e dos lideres do Brexit (como Boris Johnson e Nigel Farage, na Inglaterra) – que se transformaram nas principais ameças à democracia liberal no plano global.

5 – Não, não achamos que Bolsonaro vai ser suficientemente domesticado pelas instituições do Estado democrático de direito.

Este é outro mito sobre “o mito”. O raciocínio das pollyannas da análise política é simples. Elas pensam que Bolsonaro, mesmo que seja reacionário (elas sabem que ele é), não conseguirá aprovar seus projetos sem negociar com o Congresso. Quando for a hora, os pesos e contrapesos das instituições do Estado democrático de direito – inclusive dos meios de comunicação – será decisivo para ir domesticando o capitão. Na média, as propostas regressivas do novo governo acabarão ficando dentro dos limites do aceitável. A cada recuo do governo, haverá um avanço da institucionalidade, que funcionará como um grande mecanismo autorregulador de controle de danos. Pois bem. Onde está o erro dessa expectativa baseada em wishful thinking? A cada pequeno recuo corresponderá também um pequeno avanço, de sorte que, com o tempo, a democracia será mantida, sim, mas ficará cada vez um pouco menos liberal.

Um exemplo: Bolsonaro não conseguirá reduzir a maioridade penal de 18 para 16 anos, mas talvez consiga mantê-la em 17 anos. Outro exemplo: o governo não conseguirá aprovar a lei da Escola Sem Partido, tal como está, mas na negociação levará alguma coisa, mesmo que simbólica, e sejam quais forem as mudanças trazidas pela lei elas contribuirão para açular, em alguma medida, a guerra cultural em sala de aula e teremos mais – e não menos – atos próprios de uma polícia do pensamento e mais novilíngua.

É claro que Bolsonaro será um pouco domesticado, mas o custo para fazer isso também enfreará um pouco o nosso processo de democratização. Imagine-se a energia que será gasta para fazer isso. Por mais que se queira dourar a pílula, esse esforço tirará intensidade da democracia. E, enquanto o Estado democrático de direito ficar concentrando forças para reduzir danos, as inovações políticas vão perdendo impulso. Quem vai se preocupar em inovar em democracia, em construir novos sistemas mais interativos de influência dos cidadãos na política – necessários diante da crise da representação – quando a prioridade será impedir uma regressão maior nos nossos costumes e procedimentos democráticos?

6 – Não, não avaliamos que a oposição (institucional e normal em qualquer democracia) ao governo Bolsonaro prescinda da resistência democrática ao avanço do bolsonarismo na sociedade.

São coisas diferentes. Oposição deve haver de qualquer maneira, do contrário não haverá democracia (não há um só caso na história de um regime que tenha se mantido democrático na ausência de oposição). Oposição partidário-parlamentar, portanto, felizmente haverá (forte, como foi a oposição do PT ao governo FHC, ou anêmica, como foi a oposição vacilante, leniente e conivente do PSDB ao governo do PT). Mas essa oposição, digamos, normal em democracias, não pode cumprir o papel da resistência democrática ao avanço do bolsonarismo na sociedade. Os tolos querem nos convencer de que não pode haver resistência (só porque o PT anunciou que fará uma resistência destrutiva, desestabilizadora do novo governo). Mas os democratas nada têm a ver com as intenções e estratégias do PT (que, a rigor, não são democráticas). Os democratas resistirão ao avanço do bolsonarismo, assim como resistirão ao avanço do lulopetismo.

7 – Não, não achamos que a resistência democrática ao bolsonarismo deva ser monopólio do PT.

A resistência democrática ao bolsonarismo não pode ser monopólio do PT, até porque a resistência do PT não será propriamente democrática e sim uma tentativa de desestabilizar o novo governo para voltar nos braços do povo em 2022. Os democratas não querem desestabilizar o novo governo e sim impedir que o bolsonarismo conquiste mais adeptos na sociedade e que influencie a linha política do novo governo.

8 – Não, não achamos que o PT deva liderar ou hegemonizar a oposição ao governo Bolsonaro e a resistência ao bolsonarismo.

Os democratas não entraremos em nenhuma frente de oposição ao governo Bolsonaro sob a liderança ou a hegemonia do PT. Fazer isso é equivalente a um suicídio político, em primeiro lugar porque o PT só faz alianças para se fortalecer e matar os aliados no final. Em segundo lugar porque se deixar levar pelo PT significa fazer sua campanha eleitoral de 2022. Mas, por outro lado, o fato do PT ter anunciado uma resistência democrática (que no fundo é autocrática) ao governo Bolsonaro, não pode levar os democratas a abandonar tal tarefa (para não ficarem parecidos com os petistas). Isso é uma bobagem. Precisamos acabar de uma vez com mais essa confusão introduzida, em grande parte, pelo jornalismo pollyanna. Os democratas devem fazer oposição (normal, institucional, própria de qualquer democracia) ao governo Bolsonaro e devem também exercitar a resistência democrática (não de tipo petista, quer dizer, não voltada à desestabilização do novo governo e sim) ao avanço do bolsonarismo na sociedade. Se for para não resistir ao bolsonarismo – uma força política antidemocrática, i-liberal e majoritarista – é  melhor dar logo um tiro na cabeça.

9 – Não, não achamos adequado que Bolsonaro pretenda fazer uma ligação direta com o povo, usando o Twitter e lives no Facebook, para animar a militância bolsonarista, atuando como se fosse candidato.

No discurso durante sua diplomação no TSE, Bolsonaro afirmou que o poder popular “não precisa mais de intermediação”. Ora, sem a mediação das instituições democráticas o poder é ilegítimo. Ao contrário do jornalismo que diz que Bolsonaro apenas aproveitou os meios mais contemporâneos de comunicação e soube usar a Internet a seu favor, isso é um ataque ao coração da democracia. Tal como Lula, Bolsonaro quer fazer uma ligação direta entre o líder (o führer) e o povo, bypassando a institucionalidade. Esta afirmação não foi gratuita. Faz parte de uma doutrina, de uma visão de mundo. Tanto é assim que seu novo chanceler olavista, Ernesto Araújo, escreveu em dezembro de 2017 no seu artigo Trump e o Ocidente:

Trump e sua proposta de reconexão com o patrimônio mítico do passado ocidental não seria possível, paradoxalmente, sem a internet. A internet, se por um lado constituiu o paroxismo da globalização e do desenraizamento do indivíduo, por outro pode tornar-se o instrumento que produz o fim da globalização, pois permite a volta do indivíduo à esfera política e o retorno de ideias e maneiras de pensar que já não tinham nenhum lugar na mídia oficial controlada pelo programa politicamente correto, inclusive o sentimento nacional, o princípio nacional de organização espontânea da sociedade. O mundo do discurso vinha‑se transformando em um enorme dictionnaire des idées reçues como chamava Flaubert, em um Newspeak como imaginou Orwell. A internet veio para rasgar esse dicionário, recuperar a língua e reabrir o espaço simbólico não controlado pelo estado ou pelas forças políticas oficiais.

Ao que tudo indica, portanto, como observou Eduardo Wolf, no artigo Luta pela alma do Brasil  (publicado na Veja em 30/11/2018):

Uma vez utilizada a dinâmica da guerra cultural para vencer a eleição, não há indícios de que o presidente eleito tenha intenção de abandoná-la. Bolsonaro segue fazendo uso dos canais de comunicação direta com suas bases, em detrimento da aceitação das lentes e filtros da imprensa profissional, por exemplo. Se for vitorioso no terreno da política convencional, aprovando seus projetos, ele poderá levar a reboque sua agenda moral, modulando sua importância ao seu gosto; caso acumule derrotas políticas, poderá compensá-las radicalizando as pautas ideológicas e morais. A guerra cultural está aí para manter a base eletrizada, mesmo. Nesse jogo duplo, o presidente eleito pode seguir as regras da política formal exigidas pela democracia com uma mão e atacá-las com a outra. Como o PT fazia com sua retórica de classes, só que agora com os novos avatares dos “patriotas” e “salvadores do Ocidente”.

10 – Não, não achamos normal que o Palácio tenha sido ocupado por militares e que isso não represente nenhum problema desde que sejam técnicos competentes.

Outra bobagem engarrafada. Não há, nem nunca houve, em qualquer lugar do mundo ou época da história, um regime democrático com tantos militares no núcleo duro do poder. No primeiro escalão temos o capitão Jair Bolsonaro (presidente), o general Hamilton Mourão (vice-presidente com funções governativas), o general Augusto Heleno (na Segurança Institucional, antiga Casa Militar), o general Fernando Azevedo e Silva (na Defesa), o general Carlos Alberto dos Santos Cruz (na Secretaria de Governo, com funções de articulação com o Congresso), o capitão Tarcísio Freitas (na Infraestrutura), o capitão Wagner Rosário (na Controladoria Geral da União), o tenente-coronel Marcos Pontes (na Ciência e Tecnologia), o almirante Bento Albuquerque (nas Minas e Energia). Isso sem falar no segundo escalão (cujas indicações ainda não foram completadas) que já tem: o major Pedro César Nunes de Souza (na chefia do Gabinete da Presidência), o general Maynard Santa Rosa (no Programa de Parceria de Investimento), o general Guilherme Teophilo (na Secretaria Nacional de Segurança Pública), o brigadeiro Helio Paes de Barros Junior (na presidência da Infraero), o brigadeiro Mozart Farias (na inteligência e contratos da Caixa). E ainda não se sabe as funções do general Aléssio Ribeiro Souto e do general Oswaldo Ferreira (membros do Núcleo Técnico do programa de governo de Bolsonaro que devem ter posição destacada no Estado-Maior político do Planalto).

Não é que o governo tenha uma Casa Militar (antigo nome do Gabinete de Segurança Institucional, que será ocupado pelo General Heleno). É que o Palácio do Planalto virou, literalmente, uma Casa Militar. Um negocio desse, que não existe, nem nunca existiu, em nenhuma democracia do mundo, não pode dar certo e tem de ser criticado. Em qualquer caso, nos médio e longo prazos (senão no curto), os resultados dessa ocupação militar do Planalto não poderão ser bons, nem para as Forças Armadas como instituição, nem para o país. Se o governo não for muito bem (ou mesmo se não for perfeito), recairá sobre a instituição (e não apenas sobre os oficiais nomeados) parte da culpa. Se for bem, criará o perigoso precedente de que a política é algo muito sério para ser deixada nas mãos dos… políticos (o que, no limite, é uma deslegitimação da democracia).

11 – Não, não achamos legal (nem legítimo) que a família Bolsonaro sequestre e embolse parte dos salários de seus funcionários parlamentares pagos com dinheiro público.

Ao que tudo indica, a julgar pelas notícias veiculadas nos últimos dias, os Bolsonaro criaram um condomínio lucrativo de funcionários parlamentares (com mobilidade entre os gabinetes dos filhos e do pai) para ficar com uma parte dos seus rendimentos. Ainda que a prática seja frequente nas casas legislativas, ela constitui crime. Não é prática legal e, muito menos, legítima. É corrupção. Para quem foi eleito denunciando a corrupção dos outros, isso é insustentável. E deve ser denunciado pelos democratas, que não podem deixar passar o mal-feito sob a alegação de que “todo mundo faz” ou de que “os valores são muito pequenos”.

12 – Não, não achamos aceitáveis as explicações dadas por Bolsonaro de que a devolução de um alegado empréstimo concedido por ele ao motorista de seu filho e seu amigo pessoal tenha sido feita na conta de sua mulher Michele (porque, supostamente, ele não tem tempo de ir ao banco, como se não tivesse talão de cheque, cartão de débito e internet banking).

Boa parte da imprensa engoliu a explicação furada de Bolsonaro de que não tem tempo de ir ao banco e por isso pediu ao “motorista” Queiroz que devolvesse um suposto empréstimo que lhe teria sido concedido por Bolsonaro na conta corrente de sua mulher Michele. Até jornalistas experientes, como Merval Pereira, embarcaram no jornalismo-pollyanna. Em artigo do último 11 de dezembro, em O Globo, Merval teve a coragem de escrever: “A explicação do presidente para vários depósitos, num total de R$ 24 mil, para a futura primeira-dama Michelle, é plausível: tratar-se-ia de pagamento de um empréstimo, que não foi declarado no Imposto de Renda. Até aí, nada grave.” Como assim, nada grave? Foi a Michele que emprestou o dinheiro ao laranja Queiroz? Por que Bolsonaro não podia receber o pagamento na sua conta?

Parte da imprensa repete que não se pode acusar antes de investigar. Mas não, não se trata de investigar mais. Nenhuma investigação, nenhuma confissão, podem apagar a mentira de Bolsonaro de que pediu para o “motorista” devolver o empréstimo na conta de sua esposa Michele porque tem “dificuldade de sair”. Para receber um depósito em conta corrente não é necessário se deslocar fisicamente até a agência. Além do mais, para movimentar o dinheiro, fazer pagamentos e transferências, não é necessário ir ao banco: existe talão de cheque, existe cartão de débito e existe internet banking.


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#EuAcreditoEmJesus Sem problema, a menos que se diga que chegou o momento de a igreja governar

Anatomia do bolsonarismo