in

Eduardo Emmanuel Goldstein da Cunha

Nana nenem, que o Cunha vem pegar…

Cunha boi de piranha – além de ser corrupto mesmo, ao que tudo indica (como Renan e tantos outros, mas desses não se fala) – foi o ator político cuidadosamente escolhido, reconstruído e promovido à condição de inimigo principal. Foi ele o culpado – segundo Dilma – pelo pecado original do impeachment (ou seja, do golpe). O truque é antigo e conhecido por quem tem o mínimo de experiência política. É aquele ente que demonizamos para nos livrar de todo mal (tudo que fizermos de errado passará a ser culpa dele) e para, em oposição a ele, organizar a nossa força autocrática e manter os aliados e seguidores obedientes a nós. Funciona na mente primitiva como uma espécie de bicho-papão, a Cuca (ou o Cunha) que vem pegar o neném que não quer dormir.

É o Emmanuel Goldstein da obra de ficção 1984 de George Orwell (ou o Leon Trotsky real de Stalin) contra o qual o Partido organizava verdadeiras sessões de catarse: os dois minutos de ódio. Vale a pena ler a descrição de Orwell (1949) em 1984:

“Mais um instante, e um guincho horrendo, áspero, como de uma máquina monstruosa funcionando sem óleo, saiu da grande teletela. Era um barulho de fazer ranger os dentes e arrepiar os cabelos da nuca. O ódio começara.

Como de hábito, a face de Emmanuel Goldstein, o Inimigo do Povo, surgira na tela. Aqui e ali houve assovios entre o público. A mulherzinha de cabelo cor de areia emitiu um uivo misto de medo e repugnância. Goldstein era o renegado e traidor que um dia, muitos anos atrás (exatamente quantos ninguém se lembrava) fora uma das figuras de proa do Partido, quase no mesmo plano que o próprio Grande Irmão, tendo depois se dedicado a atividades contrarrevolucionárias, sendo por isso condenado à morte, da qual escapara, desaparecendo misteriosamente. O programa dos Dois Minutos de Ódio variava de dia a dia, sem que porém Goldstein deixasse de ser o personagem central cotidiano. Era o traidor original, o primeiro a conspurcar a pureza do Partido. Todos os subsequentes crimes contra o Partido, todas as traições, atos de sabotagem, heresias, desvios, provinham diretamente dos seus ensinamentos. Em alguma parte do mundo ele continuava vivo e tramando suas conspirações: talvez no além-mar, sob proteção dos seus patrões estrangeiros; talvez até mesmo – de vez em quando corria o boato – em algum esconderijo na própria Oceania…

Antes do ódio se haver desenrolado por trinta segundos, metade dos presentes soltava incontroláveis exclamações de fúria. Era demais suportar a vista daquela cara de ovelha satisfeita e do poderio terrífico do exército eurasiano, mostrado na tela; além disso, ver ou mesmo pensar em Goldstein produzia automaticamente medo e raiva. Era objeto de ódio mais constante que a Eurásia ou a Lestásia porque, quando a Oceania estava em guerra com uma dessas potencias, em geral estava em paz com a outra. O estranho, todavia, é que embora Goldstein fosse odiado e desprezado por todo mundo, embora todos os dias, e milhares de vezes por dia, nas tribunas, teletelas, jornais, livros, suas teorias fossem refutadas, esmagadas, ridicularizadas, apresentadas aos olhos de todos como lixo a toa… e apesar de tudo isso, sua influência nunca parecia diminuir. Havia sempre novos bocós esperando para ser seduzidos. Não se passava dia sem que espiões e sabotadores, obedientes a ordens dele, não fossem desmascarados pela Polícia do Pensamento. Era comandante de um vasto exército de sombras, uma rede subterrânea de conspiradores dedicados à derrocada do Estado”.


Democracy Unschool é um ambiente de livre investigação-aprendizagem sobre democracia, composto por vários itinerários. O primeiro itinerário é um programa de introdução à democracia chamado SEM DOUTRINA. Para saber mais clique aqui

Loading…

Deixe seu comentário

Pauta para a transição democrática

Análises de inteligência democrática (2)