in

Em que medida Marina e os marinistas ajudam a construir a unidade do campo democrático?

Em que medida Maria Osmarina – mais conhecida como Marina – está contribuindo para a unidade do campo democrático? Em campanha em Piracicaba, ontem (23/07), ela declarou:

“O condomínio do Alckmin é agora o condomínio que era da Dilma em 2014… Fizeram um serviço junto com a Dilma e o Temer e agora já encontraram um novo condomínio para chamar de seu”. 

O que significa isto?

MARINA E OS MARINISTAS NÃO AJUDAM

Sempre avaliei que Marina não estava claramente no campo democrático. Fiz vários artigos sobre isso, lembrando que seus líderes no Congresso, Ranfolfe e Molon, em 2016, defenderam Dilma contra o impeachment com mais ardor do que os próprios petistas (e ela jamais veio a público desautorizá-los).

Recentemente, porém, quando o seu partido, chamado Rede, aceitou conversar com a iniciativa de articulação de um polo democrático e reformista, passei a colocá-la no campo democrático, fazendo o alerta de que dependia só dela assumir tal posição.

Alguns amigos e amigas e muita gente que me segue ou me lê não aprovaram essa mudança de tratamento. Tentei explicar que era preferível, para a democracia, que Marina se articulasse no campo democrático em vez de ficar na fronteira, no limiar, na penumbra, esperando herdar os votos dos órfãos de Lula.

Mas nem Marina e nem os marinistas ajudam. Os marinistas, especialmente, se comportam como militantes petistas. Fui acusado ontem por uma dessas militantes, em um grupo fechado do Facebook, chamado Roda Democrática, de estar cometendo assédio (me avisando ainda, ameaçadoramente, de que “isso é crime”) e também de “defender a corrupção e os corruptos”. Isso em um post (cujo teor está reproduzido abaixo) em que dizia que votaria em Marina se ela fosse a melhor chance de quebrar a polarização entre dois candidatos do campo autocrático.

Para esse militância, entretanto, isso não basta. Querem que a gente desqualifique outros candidatos julgados concorrentes do campo democrático e diga que a única saída, a única honesta e não conspurcada por alianças (que são próprias da política democrática) é seu mito Marina.

Depois, lendo o que publicam ou comentam os marinistas, entendi os motivos desse comportamento. Eles avaliam que o PT e os partidos aliados subordinados (como PCdoB e PSOL), não estão no campo autocrático, o que é um pensamento que não opera com os conceitos da democracia, mas está preso ao velho esquema interpretativo esquerda x direita. Marina e os marinistas são de esquerda e querem o voto da esquerda. Eu não sou. Sou apenas um democrata, um liberal político, um não-estatista.

ASSIM NÃO DÁ

Os marinistas ficam nervosos. Mesmo quando a gente declara – como já fiz e repito agora – que votaremos em Marina se ela for a candidata com mais condições de impedir uma polarização entre dois candidatos do campo autocrático no primeiro turno (qualquer um do PT x Bolsonaro, qualquer um do PT x Ciro ou Ciro x Bolsonaro) – que é uma coisa que os marinistas nunca fazem, pois só varrem para dentro – eles não ficam satisfeitos. Querem que a gente desqualifique candidatos do próprio campo democrático. Ora, assim não dá.

O problema dos marinistas é que eles deram para fazer campanha não criticando os candidatos do campo autocrático, como os petistas, os ciristas e bolsonaristas. Eles agora atacam, aberta e insistentemente, outros candidatos do campo democrático, dizendo que são corruptos e que só Marina é pura e honesta (porque não faz alianças, como se a política democrática não exigisse isso).

Há evidências de que as coisas não são bem assim com o partido Rede nos estados e municípios (como no Amapá, por exemplo). Não tenho nada contra as alianças. Pelo contrário, acho que elas são indispensáveis na democracia. Mas não posso deixar de apontar a incoerência do discurso da líder e a distância abissal entre esse discurso e a prática.

Adotando um discurso vitimista, os marinistas me acusam de estar fazendo campanha contra Marina. Argumentam que estou perseguindo Marina e perguntam por que não estou criticando os demais candidatos. Ora, todos os candidatos (mesmo os do campo democrático) podem ser criticados: já critiquei Alckmin pela sua falta de inteligência política, já critiquei Amoedo pelo egoísmo de querer fazer seu nome para 2022 ou 2026, sem se preocupar com as consequências desastrosas da eleição de um autocrata em 2018, já critiquei Álvaro Dias por querer pegar uma carona no discurso moralista da Lava Jato e critico todos estes e os demais por não se esforçarem para articular um polo democrático e reformista que seja capaz de quebrar a polarização entre dois candidatos do campo autocrático no primeiro turno.

O PROBLEMA É A POLÍTICA COMO QUESTÃO DE LADO

Mas tudo parece inútil e não se consegue penetrar na carapaça da militância. Na verdade está se revelando impossível conversar com militantes, pessoas infectadas por uma espécie de malware que nos obriga tomar a política como questão de lado, ainda presas no esquema interpretativo esquerda x direita. Digam-se de esquerda ou de direita, os militantes são muito parecidos, se movem na mesma vibe da política como continuação da guerra por outros meios (a famosa fórmule-inverse de Clausewitz-Lenin). Deslegitimam e acusam os interlocutores que não rezam pela suas cartilhas.

Quando não há sincero interesse na conversação e sim disposição para o  combate desqualificador do outro, não adianta insistir. O bom das redes (e das mídias sociais que lhes servem de ferramenta de netweaving) é isso: ficamos abertos ao outro-imprevisível, mas só damos continuidade ao relacionamento com quem quer interagir construtivamente com a gente.


Democracy Unschool é um ambiente de livre investigação-aprendizagem sobre democracia, composto por vários itinerários. O primeiro itinerário é um programa de introdução à democracia chamado SEM DOUTRINA. Para saber mais clique aqui

Deixe uma resposta

Loading…

Deixe seu comentário

Os desafios das eleições de 2018 para os democratas: um resumo em 7 pontos

Não pode haver nova política sem inovações políticas