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Ernesto Araújo: um militante trumpista fazendo luta interna no governo caótico de Bolsonaro

Comecemos recuperando um interessante artigo, de novembro passado, de João Paulo Charleaux, publicado pelo Nexo:

Como o chanceler de Bolsonaro defendia o governo Lula em 2008

João Paulo Charleaux, Nexo, 27 Nov 2018 (atualizado 28/Nov 12h21)

Em tese, Ernesto Araújo rechaçava críticas à ‘ideologização’ do Itamaraty e via vantagens nas relações com a Venezuela de Chávez

Quando o diplomata Ernesto Araújo tinha 41 anos e era apenas conselheiro no Itamaraty, publicou uma tese de 352 páginas na qual defendeu ideias bem diferentes das atuais. Aos 51 anos, ele vai chefiar o Ministério das Relações Exteriores do governo de Jair Bolsonaro a partir de 1º de janeiro de 2019. Araújo veio a se tornar um dos mais ferrenhos críticos do PT, das esquerdas e do que ele chama de “marxismo cultural”. Entretanto, o que a tese publicada por ele mesmo em 2008 mostra é um diplomata alinhado com o petismo e com uma estratégia de relações exteriores que o partido do poder vinha então implementando. Os posicionamentos – embora contraditórios – são defendidos por Araújo com a mesma veemência.

O documento de 2008, chamado “Mercosul: Negociações Extra-Regionais”, foi apresentado por Araújo ao CAE (Centro de Altos Estudos) do Itamaraty. Tratava-se de cumprimento de uma etapa obrigatória para progredir na carreira diplomática, passando de conselheiro para ministro de segunda classe. Hoje, Araújo é embaixador. Está portanto, no topo da carreira.

Quando escreveu essa tese, Araújo era chefe da Divisão de União Europeia e Negociações Extra-Regionais do Mercosul. Logo em seguida, assumiu posto em Ottawa, no Canadá, onde ficou até 2010.

As ideias do diplomata sobre ideologia e “terceiro mundismo” estavam alinhadas em 2008 às ideias defendidas pelo então presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, e pelo ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim.

Aquele período marcou o auge do que o chanceler Amorim batizou de “política externa ativa e altiva”. Essa política foi caracterizada pela abertura de novas frentes de relação política e de negócios com países em desenvolvimento, ou do eixo sul-sul, como eram chamados os países africanos e sul-americanos, além das potências médias como a Índia, ou de antagonistas dos EUA, como Rússia e China.

No documento de 2008, Araújo se propõe a rebater “a linha do setor privado abertamente crítica ao governo brasileiro, à qual se unem correntes políticas e setores da imprensa sistematicamente contrários a toda a atuação externa do governo Lula”.

As críticas à ideologia, de 2008 a 2018

Em artigo publicado na segunda-feira (25) no jornal Gazeta do Povo, Araújo pergunta: “você, leitor, diz que quer acabar com a ideologia em política externa? Eu também quero. Essa é a principal missão que o presidente Bolsonaro me confiou: ‘libertar o Itamaraty’ do que seria uma herança nociva deixada pelo PT”.

Dez anos atrás, quando Araújo falava sobre a política externa petista, ele dizia o seguinte: “tem-se repetido à saciedade, principalmente em órgãos da imprensa brasileira, a asserção de que o Mercosul, movido pelo Brasil, adota uma política comercial ideológica”.

Logo em seguida, ele refuta a ideia de um bloco sul-americano ideológico. Araújo reclama então de setores que viam “no Itamaraty a fonte de uma ‘ideologia’ contrária a acordos com os [países] desenvolvidos e direcionada a parcerias sem valor comercial com sócios do ‘terceiro mundo’”.

O tema do Mercosul é especialmente importante nesse debate porque a acusação de que o PT pautou as relações exteriores por preferências ideológicas se apoia principalmente nas relações desenvolvidas à época com países da América do Sul, governados então por presidentes de esquerda.

Aos que à época acusavam o governo petista de agir ideologicamente nesse campo, Araújo respondia nos seguintes termos: “a visão segundo a qual o Brasil é ideológico nas negociações extra-regionais do Mercosul é ela mesma ideológica, pois fundamenta-se na concepção de que ampliar os laços com países ricos nos fará também ricos, graças a uma espécie de contato mágico, independentemente de saber se esses laços constituem-se ou não em instrumentos desequilibrados e desfavoráveis ao Brasil.”

“A argumentação ‘anti-ideológica’ vai sempre no sentido de que convém negociar com os grandes mercados […] Ignora, ademais, o fato de que os mercados em mais forte expansão no mundo há vários anos são os de países em desenvolvimento”. Ernesto Araújo Quando conselheiro do Itamaraty, em 2008, em tese chamada “Mercosul: Negociações Extra-Regionais”, no CAE (Centro de Altos Estudos) do Itamaraty.

“Se a prioridade é extrair a ideologia de dentro do Itamaraty, não lhe parece conveniente ter um chanceler capaz de compreender a ideologia que existe dentro do Itamaraty? Alguém que estuda essa coisa nos livros, há muitos anos, e não simplesmente ouviu alguma referência num segmento do Globo Repórter?” Ernesto Araújo Futuro chanceler brasileiro, em artigo publicado nesta segunda-feira (25), na Gazeta do Povo.

Hoje, o governo eleito de Bolsonaro promete defender o “pragmatismo” nas relações exteriores, em substituição ao que se apresenta como uma pauta “ideologizada”. Mas, em 2008, Araújo dizia: “que significa o ‘pragmatismo’ que tantas vezes se prega como a necessária linha-mestra das negociações do Mercosul? Tende a significar o abandono das próprias posições, aderindo às da outra parte”.

Apoio e críticas ao ‘terceiromundismo’

“Terceiromundismo” é uma expressão leiga, que, de forma pejorativa, se refere a uma suposta preferência por manter relações com países do dito terceiro mundo (em desenvolvimento) em vez de manter ligações com países de primeiro mundo (desenvolvidos).

O Araújo de hoje critica “o terceiro-mundismo automático e outros arranjos falsamente anti-hegemônicos”, como sendo parte da “ideologia do PT, ou seja, do marxismo, que ainda está muito presente no Itamaraty.”

Porém, no artigo de 2008, considerava que a opção do comércio sul-sul, ou “terceiro mundista”, apresentava-se como uma estratégia natural, diante das oportunidades que esse mercado oferecia.

Defesa da permanência da Venezuela

As críticas ao “comunismo” e à Venezuela marcaram a campanha eleitoral de Bolsonaro. Porém, Araújo defendia, em 2008, a permanência do governo venezuelano como membro associado do Mercosul.

“Importa, de qualquer modo, que as vantagens ou inconvenientes da permanência ou saída da Venezuela, no que respeita ao relacionamento extra-regional, sejam analisadas do ponto de vista do Brasil e do Mercosul, e não dos EUA ou da União Europeia”, dizia Araújo.

“Caso seja possível mantê-la e absorvê-la no bloco, levando a Venezuela a seguir parâmetros de relacionamento externo construtivo, isso constituirá no longo prazo um reforço do Mercosul inclusive no seu relacionamento com terceiros”, dizia o hoje chanceler indicado.

A Venezuela pediu para associar-se ao Mercosul em 2006. Tornou-se membro associado do Mercosul em 2012, mas foi suspensa do bloco em 2016, como reprimenda pelos ataques do presidente Nicolás Maduro à democracia no país.

“A saída da Venezuela traria vantagens mais imediatas em termos de alívio de tensões, mas não significaria que o Mercosul subitamente pudesse tornar-se mais maleável aos países centrais ou disposto a seguir um modelo de integração periférica e ‘apolítica’”, concluiu à época.

O Nexo pediu entrevista sobre o assunto ao diplomata, por meio do Itamaraty, que respondeu que “no momento o embaixador Ernesto Araújo não tem disponibilidade na agenda para entrevistas”.

Compare-se agora com o que anda falando por aí o novo chanceler. Vamos ler o seu último artigo, publicado pela Bloomberg:

Bolsonaro não foi eleito para deixar país igual

Ernesto Araújo, Especial para a Bloomberg, 07/01/2019

“A política externa brasileira não pode mudar”. Foi assim que um político brasileiro resumiu seu distanciamento em relação às posições de política externa do presidente Jair Bolsonaro e minhas. Essa opinião é sintomática daqueles que ficaram tão traumatizados com a política externa esquerdista e caótica dos governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff (2003-2016) que preferem a inércia e a indiferença a qualquer tentativa de tornar o Brasil um ator global novamente. Estão tão acostumados a mudanças para pior que preferem não arriscar mudança nenhuma.

Acham que a única alternativa para o desastre de Lula na política externa é pensar pequeno, recitar a cartilha das Nações Unidas, e tentar fazer algum comércio. Lutam por algum tipo de mediocridade dourada. Querem que o Brasil simplesmente aceite “o mundo tal como o encontramos”, parafraseando a famosa expressão de Ludwig Wittgenstein.

Curiosamente, essa referência aparece no mesmo item do “Tratactus Logico-Philosophicus”, parágrafo 5.631, onde Wittgenstein afirma: “o sujeito que pensa e tem ideias simplesmente não existe.” Essa espécie de desconstrução pós-moderna avant-la-lettre do sujeito humano e negação da realidade do pensamento está, portanto, associada à renúncia da própria capacidade de agir e de influenciar o mundo, implícita no pessimismo de tomar o mundo “tal como o encontramos”. Essas são as raízes filosóficas da nossa atual ideologia totalitária globalista: ao proibir a independência do pensamento e a substância das idéias, ela consegue cada vez mais dominar o ser humano, enquanto dita: “você não merece liberdade porque você não existe, você não existe como ser independente, você é apenas a soma das partes do seu corpo e suas idéias são apenas construções sociais, então cale-se.”

Não gosto de Wittgenstein.

O presidente Bolsonaro não foi eleito apenas para aceitar o Brasil tal como o encontrou e deixá-lo como está. Não foi eleito para aceitar a política externa brasileira tal como a encontrou, para meramente levantar mecanicamente a bandeira do “pragmatismo” e pronto. Não é isso que o povo brasileiro – feito de seres pensantes e independentes, com suas próprias paixões e idéias, e não robôs pós-modernos – quer e merece.

A política externa brasileira precisa mudar: isso faz parte do mandato sagrado do povo confiado a Jair Messias Bolsonaro.

Estamos convencidos de que o Brasil tem um papel muito maior a desempenhar no mundo do que esse que atualmente nos atribuímos.

Queremos promover a liberdade de pensamento e de expressão em todo o mundo. Isso é essencial para promover qualquer outra mudança e qualquer outra liberdade. A eleição de Bolsonaro no Brasil só foi possível porque as pessoas puderam trocar livremente suas idéias e expressar seus sentimentos, sem serem tolhidas pela camisa-de-força da mídia tradicional. Essa lição não tem preço. Infelizmente, no mundo de hoje, há países onde o pensamento é controlado diretamente pelo Estado, e há países, principalmente no Ocidente, onde o pensamento é controlado, de forma indireta e insidiosa, pela mídia e pelos acadêmicos, deixando pouquíssimos espaços livres da opressão wittgensteiniana da morte-do-sujeito. O Brasil mostrou agora que é possível se libertar e, pela simples força da palavra, transformar a realidade política de um país de 200 milhões de pessoas, desmontando pacificamente um sistema de décadas de crime e corrupção por meio da coragem, determinação e sinceridade.

Também queremos promover a paz e a segurança em nossa região e em toda parte. Mas não se promove a paz e a segurança fingindo que elas não sofrem ameaças e que não há nada que se possa realmente fazer a respeito. É preciso enfrentar as ameaças, e a maior delas vem de regimes não-democráticos que exportam o crime, a instabilidade e a opressão. Ditaduras como Venezuela e Cuba não desaparecerão pelo simples desejo de que sumam. Ainda mais quando alguns nem desejam. Ainda mais quando alguns as deixam manter e ampliar seu poder, com a desculpa de que isso seja “o mundo tal como o encontramos” ou “o caminho natural das coisas”.

E queremos, é claro, fazer comércio. A política comercial brasileira, como parte de nossa política externa, ficou adormecida por muito tempo. Estamos determinados a negociar acordos de comércio, de investimentos e de tecnologia com todos os nossos parceiros, de forma ambiciosa e criativa, explorando diferentes modelos com diferentes parceiros, tendo sempre em mente as necessidades concretas do setor produtivo.

Os críticos dirão que, ao falarmos sobre liberdade e democracia, e ao levar esses conceitos a sério, estamos sendo “ideológicos”. Argumentam que a defesa da liberdade e da democracia colocará nosso comércio em risco. Seria um mundo triste, se esse fosse o caso. Mas estou convencido de que um Brasil muito mais assertivo, um país que fala com sua própria voz em vez de dublar a de outros, será um parceiro muito melhor – no comércio ou em qualquer outra área.

Algumas pessoas acham que nossa abordagem de marketing deveria ser: “Olha, eu sou o Brasil. Eu não acho nada. Eu não tenho idéias. Assim como o sujeito desconstruído de Wittgenstein, eu não tenho um ‘eu’. Eu não incomodo ninguém. Faça negócios comigo!”

Mas isso não funciona. Ninguém respeita esse tipo de comportamento, e você não faz bons negócios quando não há respeito. Vejam a China. A China defende, sem pedir desculpas, seu interesse nacional e sua identidade, suas idéias específicas sobre o mundo, defende seu sistema – e todos fazem cada vez mais negócios com a China. Por que outros países devem ser obrigados a esposar certas ideias antes de serem considerados bons parceiros comerciais? Devemos renunciar a nossos compromissos com a liberdade e a democracia quando outros não são obrigados a renunciar a seus compromissos com seus próprios sistemas?

O Brasil mostrará que você pode aumentar sua participação no comércio internacional e nos fluxos de investimento, ao mesmo tempo em que sobe confiante no palco mundial para defender a liberdade, falando com a própria voz da sua nação.

A política externa brasileira pode mudar, e o mundo pode mudar. Não precisamos aceitá-los tais como os encontramos.

Araújo não é apenas uma biruta ideológica. É um irresponsável.

Vera Magalhães, lembra na sua coluna de hoje (09/01/2019) no Estadão:

Na entrevista ao SBT semana passada, questionado diretamente a esse respeito [a instalação de uma base militar dos EUA no Brasil], o presidente disse que a cooperação com os Estados Unidos, além de comercial, “pode ser bélica” e abriu a possibilidade de se discutir isso. O chanceler Ernesto Araújo foi além, e, em Lima, confirmou a possibilidade. “Não haveria problema na questão de uma presença desse tipo”.

Foi preciso que os generais Azevedo e Heleno entrassem em campo para dizer que não havia nada disso, desmentindo o presidente e o seu chanceler maluquete.

Mas Araújo faz de conta que não é com ele. Nem se importa com a desautorização. É um ativista antiglobalista, um militante trumpista fazendo luta interna dentro do governo caótico de Bolsonaro.


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Clipping de 09/01/2019