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Erros e acertos da análise política

Como Demétrio Magnoli errei ao supor que Bolsonaro seria derrotado por qualquer candidato no segundo turno. E errei também na avaliação do volume da onda bolsonarista, não imaginando que um partido de papel, comprado por ele (o PSL), poderia eleger uma bancada tão expressiva de deputados federais (a segunda). Aliás, também não imaginei que o PT poderia fazer a maior bancada na Câmara.

Acertamos em muitos outros pontos da nossa análise, mas isso não vem ao caso agora. Por melhor que seja a análise, ela não pode adivinhar o futuro, nem prever mudanças bruscas nas correntes de opinião ou nos fluxos interativos da convivência social. Quem poderia prever a chamada Primavera Árabe de 2011? Quem poderia prever o Junho de 2013, no Brasil, na Turquia ou no Egito? Quem poderia prever a queda do muro de Berlim em 1989 e a derrocada da União Soviética em 1991? Ou a liquefação do governo romeno em uma semana?

O papel da análise política não é fazer previsões com bola de cristal e sim desvelar a natureza do conflito e dos contendores. Nisso, nós, os convertidos à democracia, não erramos. O que está em jogo, neste momento, é a disputa de dois populismos, ambos subversores da democracia: o populismo-autoritário bolsonarista e o neopopulismo lulopetista.

Não sei se Demétrio e outros analistas que tomam a democracia como um valor universal concordariam com a avaliação que vem a seguir. O populismo bolsonarista é autoritário e i-liberal (em termos políticos). O populismo lulopetista é i-liberal (em termos econômicos e políticos) e majoritarista. Não, o primeiro não nos devolverá à ditadura militar. E o segundo não nos submeterá a uma ditadura bolivariana. Mas ambos – no governo ou na oposição – nos jogarão numa guerra civil fria de longa duração e tornarão nossa democracia mais flawed e menos liberal (em termos políticos).

E também não sei se concordaremos quanto ao remédio. O remédio contra as barbaridades de Bolsonaro e de sua famiglia não é votar em Haddad. Primeiro, porque Haddad é a volta do PT ao governo. Seria trocar um populismo (o populismo-autoritário bolsonarista) por outro (o neopopulismo lulopetista) – e, como sabemos, os populismos subvertem a democracia. Segundo, porque não adianta mais nada (o jogo já está jogado e não vai haver virada nenhuma). O remédio é exercer uma vigorosa resistência democrática nos próximos mil dias, tanto a quem vai para o governo (Bolsonaro), quanto a quem pretende hegemonizar a oposição para voltar em 2022 (o PT).

Portanto, nada de frentes com o PT para fazer oposição a Bolsonaro. Uma frente hegemonizada pelo PT para fazer oposição a Bolsonaro virará comitê eleitoral de Lula (ou de um novo preposto), para 2022. Os democratas estamos fora. Por isso, os democratas deveremos fazer oposição a quem ganhar e a quem perder a eleição. Quem defende a democracia vai resistir a ambos, estejam no governo ou na oposição.

Leiam o artigo do Demétrio Magnoli, publicado hoje em O Globo, reproduzido abaixo na íntegra.

Missa de sétimo dia

Demétrio Magnoli, O Globo, 22/10/2018

Aqui, em agosto de 2016, escrevi o seguinte: “A Nova República apaga-se na bruma do passado —mas nenhum sistema político alternativo surgiu para substituí-la. Temer (…) é um gerente de ruínas.” Nessa, acertei: o velório da Nova República deu-se no primeiro turno das eleições. Mas errei, e feio, sobre a forma de que se revestiria o ato fúnebre: seis semanas atrás, escrevi que, “no turno final, a rejeição a Bolsonaro elege qualquer adversário”. De fato, pelo contrário, a descida do caixão até seu túmulo será acompanhada pelos acordes da vitória de Bolsonaro. Diante de nós, sobra a missa de sétimo dia: um esforço para desvendar como chegamos ao ponto de eleger o candidato que cultua o sistema anterior à Nova República —isto é, a ditadura militar.

Sem qualquer ordem hierárquica, sugiro algumas causas para o desfecho:

1) A implosão do PSDB. O sistema político da Nova República estabilizou-se ao redor da disputa entre PSDB e PT. Desde o fim do ciclo do Plano Real, os tucanos perderam a capacidade de formular uma plataforma popular — e foram batidos em quatro eleições consecutivas. O colapso terminal deu-se com a desmoralização de Aécio Neves, na “operação Joesley Batista”. Bolsonaro tornou-se o desaguadouro do voto antilulista que, antes, se inclinava para os tucanos. O PSDB, tal como o conhecemos, está morto.

2) A deslegitimação geral da elite política. Sob Lula, o “presidencialismo de coalizão” degenerou no “presidencialismo de cooptação” (apud FHC). A devassa da Lava-Jato esclareceu os mecanismos de corrupção sistêmica que envenenam o sistema político. Na sequência, uma “fase 2” da Lava-Jato, conduzida como projeto de poder corporativo por Janot e pela ala jacobina do Ministério Público, destruiu o que restava de credibilidade na prática da política. Bolsonaro encarnou, no plano imaginário, a antipolítica.

3) A pedagogia petista do “nós” contra “eles”. O lulismo converteu as disputas eleitorais em guerras de extermínio. O adversário deixou de ser um parceiro na divergência democrática para se transformar no “inimigo do povo”, no “fascista”, no quintacoluna a serviço do imperialismo. No ápice desse teorema, em 2014, Marina Silva foi pintada como agente dos banqueiros numa conspiração destinada a esvaziar o prato de comida dos pobres. Pelas mãos de Bolsonaro, o ácido corrosivo voltou-se contra o PT. A tempestade de insultos bolsonaristas, acompanhada de torrentes de fake news, encontra um eleitorado habituado à linguagem exterminista. Depois da missa, o Brasil precisará reaprender a conversar.

4) A configuração da eleição como plebiscito sobre Lula. A narrativa petista do “golpe parlamentar” e da “perseguição judicial” confluiu para a estratégia da candidatura de Lula. A máscara do ex-presidente sobre o rosto de Haddad completou o percurso, impondo aos eleitores um veredicto sobre o lulismo. Mas o lulismo nunca foi majoritário, como atestam as quatro eleições consecutivas, entre 2002 e 2014, que exigiram segundo turno. Bolsonaro aceitou, agradecido, o desafio de comprovar a existência de uma maioria disposta a rejeitar um quinto mandato lulista. O PT foi expulso do Centro-Sul do país. A tardia, confusa, tentativa do PT de girar para o centro após o primeiro turno não funcionou. Junto com os funerais da Nova República, encerra-se o ciclo lulista.

5) Bolsonaro é inculto, como Lula — mas, como Lula, não lhe falta inteligência política. Nos EUA e na Europa, a direita nacionalista identificou nas senhas da imigração e do terrorismo os pulsos eficazes para ativar um eleitorado atemorizado diante do futuro. Bolsonaro traduziu os códigos para as circunstâncias da crise brasileira, apertando as teclas da violência urbana e da corrupção. Seu discurso eleitoral explode a gramática política da Nova República. Ninguém, no centro ou na esquerda, encontrou antídotos para as toxinas bolsonaristas.

Donald Trump ou Rodrigo Duterte, o populista que preside as Filipinas à frente de esquadrões da morte? Provavelmente, nem um nem outro. Mas isso só saberemos ao certo depois da missa.


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