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Esperando que uma janela se abra novamente

Os fluxos interativos da convivência social, mais sintonizados com a liberdade e a cooperação, que trafegam subterraneamente, às vezes encontram uma janela para vir à luz. Mas logo em seguida submergem.

Na década de 1990, no plano global, abriu-se uma dessas janelas, entre 1994 e 1999. Foi a época do surgimento da Internet, da ascensão de um chamado terceiro setor, do conceito de capital social e do nascimento da nova ciência das redes. Uma brisa fresca percorreu o mundo. Depois a janela se fechou e houve retrocesso, recaímos no unilateralismo com a vitória de Bush e mergulhamos no estado de guerra após o atentado ao World Trade Center, em 2001.

No início da segunda década do século 21, a partir de 2010, também se abriu uma janela, sobretudo no Brasil. A febre das startups e das iniciativas inovadoras em empresas e organizações da sociedade civil, os festivais de ideias (experimentando a cocriação interativa), as casas colaborativas, as ocupações de praças (para constituir novos espaços, gerando commons em equipamentos que só eram nominalmente públicos, mas na verdade sob controle estatal) são bons exemplos (embora não exaustivos) da nova vibe. Durante o tempo em que essa janela permaneceu aberta tivemos as memoráveis jornadas de junho de 2013. Mas na segunda metade de 2014 a janela começou a se fechar, em especial durante a campanha de Dilma Rousseff. Houve uma tremenda deformação de fluxos, ampliando socialmente a inimizade, derruindo a inovação e inibindo a criatividade coletivas.

O fato é que, de lá para cá, a janela não se abriu mais. As vigorosas manifestações pelo impeachment, que foram notáveis – e corretas – do ponto de vista político (na medida em que interromperam um projeto bolivarianizante para o Brasil), não foram propriamente expressões de inovação social. No bojo da luta contra o governo do PT floresceram grupos que aderiram à narrativas retrógradas e necrófilas. Parasitadas por autocratas religiosos (que apareceram nas ruas com ridículos cartazes “Olavo tem razão”), anticomunistas (ainda na vibe da guerra fria), monarquistas tradicionalistas (tipo TFP ou Opus Dei), intervencionistas militaristas e outros grupos sem expressão pública, as manifestações pelo impeachment desembocaram num quadro de horror, dando margem ao surgimento do moralismo, do punitivismo, do jacobinismo e das iniciativas de cruzadas para limpar o mundo que ressuscitaram a antipolítica robespierriana da pureza, instrumentalizando o ressentimento social e a vontade de revanche que estavam contidos no subsolo da consciência (e da inconsciência) de amplos setores da população.

Todo esse pessoal como que se levantou da tumba de repente, ainda que não tenha sido tão de repente: o que ocorreu é que suas concepções e práticas, até então privadas e comungadas em pequenos redutos e guetos, ganhou a esfera pública. O que era um amontoado disforme de preconceitos virou narrativa coerente que se viralizou.

As cruzadas de limpeza não limparam nada (como soe acontecer com esses tipos de iniciativa que pretendem reformar a política sem política, desprezando a democracia), mas nos levaram para uma conjuntura em que os mais cotados para o embate eleitoral que se avizinha são dois autocratas: Lula e Bolsonaro, sem que uma alternativa democrática, com condições de quebrar a polarização e o aprisionamento da disputa no campo autocrático, tenha ainda se consolidado. Este é um problema político real, não imaginário, que está diante de nós e é o principal desafio para a democracia brasileira.

Mas o problema não é só político, senão também social e cultural. A emergência de uma chamada “nova direita” autocrática, predominantemente (em mais de 80% dos casos, quer dizer das ideologias que colonizam a consciência de seus agentes) olavista e bolsonarista, criou novas narrativas tenebrosas, sintonizadas com o que há de pior no plano global, como o trumpismo e o brexitismo, a ascensão de líderes ditatoriais e proto-ditatoriais em vários países da Europa (atenção, na Polônia inclusive).

Os principais grupos que convocaram manifestações pelo impeachment, em 90% dos casos, aderiram ou estão prestes a aderir a tais narrativas retrogradacionistas: a defesa dos valores da civilização ocidental cristã, o nacionalismo antiglobalista (que, no fundo, não passa de estatismo), o localismo anti-cosmopolita (tipo America First), o armamentismo da população, a reafirmação da ordem, da hierarquia, da disciplina, da obediência e da fidelidade impostas top down como valores supremos e a defesa da família, da tradição, da escola, da igreja, da empresa monárquica e de outras instituições hierárquicas como se fossem entes eternos, instituídos pelo próprio Deus – e… a guerra, a guerra, a guerra, contra um suposto plano macabro do comunismo internacional, em aliança com os grandes capitalistas transnacionais, para dominar o mundo.

A questão é que essas narrativas malignas não afetam somente as escolhas políticas. Elas predispõem grandes contingentes de pessoas contra a emergência da sociedade-em-rede, querendo fazer o mundo voltar às décadas da guerra fria (1960-1980) ou até antes, muito antes, como podemos ver nas vídeo-aulas da série “Brasil, a última cruzada” (notem o título) dos falsários da história reunidos pelo grupo chamado Brasil Paralelo.

Toda essa movimentação (e essa fermentação pútrida) está causando uma forte perturbação no campo social, dispersando iniciativas inovadoras e impedindo que pessoas que querem construir novos mundos sociais se sintonizem e se sinergizem.

Os liberais em termos políticos e culturais meio que desapareceram ou viraram presenças vestigiais: os que se dizem liberais hoje no Brasil, ou são apenas seguidores de doutrinas do liberalismo-econômico, economicistas que desvalorizam a democracia ou, na sua imensa maioria, são conservadores-retrógrados mesmo (via de regra trumpistas).

O fato é que há, em curso, tentativas de conter (ou disciplinar) o espírito da liberdade (para usar a expressão de Erich Fromm) e de matar a rede (não as mídias sociais, como o Facebook e o Twitter, mas as redes mesmo, as pessoas interagindo segundo padrões de organização mais distribuídos do que centralizados).

E os inovadores sociais, dispersos, estão se arrastando pelos esgotos da Matrix, perdidos (nem podem voltar para uma Zion, que parece não haver mais, nem conseguem subir à superfície, se encontrar com seus pares, confraternizar com seus amigos e fazer novas coisas juntos). Muitas vezes sem saber descrever exatamente o que está acontecendo, sem conseguir identificar as razões que expliquem seu estado atual, todos esperam que uma nova janela se abra novamente.

Este texto é um rascunho. Mais tarde vai sair o artigo inteiro em Dagobah.

P. S. Este artigo foi publicado há cerca de um mês no Facebook. Não há muito o que acrescentar.


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