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Estamos imersos numa guerra civil fria, como previsto há mais de 2 anos

No dia 22 de abril de 2016, antes do afastamento de Dilma Rousseff e a posse provisória de Michel Temer (que só aconteceria em 12 de maio do mesmo ano), publiquei o artigo Uma década de guerra civil fria pela frente, a menos que…

O artigo merece ser relido. Porque aconteceu exatamente o que foi previsto. Estamos imersos, desde aquela época, numa guerra civil fria, que está apenas começando e vai durar por muito tempo, muito além das eleições de 2018. Já durou dois anos, mas tende a perdurar, pelo menos, mais dois mandatos. Uma década de destruição.

Esta foi a verdadeira herança maldita: a herança do PT. Algo assim como a frase atribuída à Madame de Pompadour: Après nous le déluge (“Depois de nós, o dilúvio”). Sim, o PT saiu do governo, mas não saiu propriamente das fontes do poder de desestabilizar qualquer governo.

Por enantiodromia o PT criou um oposto do oposto do oposto: uma turbamulta vil de bolsonaristas, olavistas e intervencionistas. Agora no final de maio de 2018, todos parecem andar de mãos dadas para pegar uma carona no movimento dos caminhoneiros (ou dos donos de frotas que os usaram inicialmente para fazer um lockout, chantagear o governo e auferir vantagens egotistas).

Tudo começou com o Fora Temer, inicialmente uma bandeira do PT que foi comprada acriticamente pelos moralistas-punitivistas que resolveram então fazer uma cruzada de limpeza da política a partir de estamentos do Estado, demonizando os políticos e praticando a antipolítica robespierriana da pureza. A essa cruzada aderiram de pronto os bolsonaristas (e olavistas) e os intervencionistas. Não pode ser coincidência que os movimentos contra a corrupção – não todos (o VPR e o MBL, por exemplo, não são), mas boa parte, sim – sejam bolsonaristas, alguns olavistas e outros intervencionistas. Deltan e Carlos Fernando e os Antagonistas deveriam refletir sobre isso. Num levantamento informal feito há alguns meses constatamos que 70% (ou quase) dos analistas que escrevem regularmente na imprensa ou em sites e blogs e se dizem de direita (ou da nova direita) são olavistas (e bolsonaristas).

O Fora Temer original nunca conseguiu juntar meia dúzia de gatos pingados nas ruas. Mas engrossado pelos moralistas foi aos poucos tomando fôlego. Afinal, tratava-se de limpar a política num passe de mágica, a custa de investigações, denúncias, prisões preventivas, delações, condenações, perdões e prisões. Não se sabia bem qual a quadrilha que, afinal, estaria sendo desbaratada. Como no caso de Joesley-Wesley, não havia uma quadrilha determinada (da qual eles não eram chefes e tanto é assim que suas delações, industriadas por Janot, foram aceitas por Fachin). A quadrilha era o mundo político como um todo. Era preciso jogar tudo no chão, fazer a antipolítica de terra arrasada para começar do zero. Com quem? Bom… isso pouco importava. Cortar cabeças era o fundamental. Um novo sistema de governança desceria do céu, como a realeza pela primeira vez desceu em Kish, na antiga Suméria (segundo os mais antigos relatos que encontramos).

A demonização da política levou água para o moinho do lulopetismo e do bolsonarismo. Se todos roubam, por que então não ficamos com Lula mesmo que, pelo menos, veio de baixo e se preocupa conosco (os pobres)? Ou: já que é assim, que está tudo podre, por que não votar em alguém honesto (que não foi denunciado pela Lava Jato), como Bolsonaro (que não faz parte dos esquemas e está prometendo botar ordem na casa no grito)? Não há resposta convincente, para extensos setores pouco informados da população, para tais perguntas. E não há quem possa argumentar contra isso.

Como a Lava Jato, como operação jurídico policial do Estado de direito, não pode ter candidato – sobretudo após a desistência de Joaquim Barbosa, que ainda poderia captar o voto dos analfabetos democráticos, dos moralistas e punitivistas primitivos – então, de duas uma: ou Lula ou Bolsonaro. Como Lula não poderá ser candidato, os filhos de Lula tenderão, em boa parte, a votar no seu ungido (que na reta final será Ciro, ao que tudo indica). Ficamos pois com Ciro x Bolsonaro, um dos cenários de horror que pode, sim, se configurar no segundo turno de 2018.

O oportunista Álvaro Dias se esforça por ocupar esse lugar de candidato identificado com o combate à corrupção, mas não tem empuxo. E Marina, coitada, que não terá as bençãos de Lula, não consegue romper seu liame com a esquerda. Tanto é assim que Randolfe continua falando em nome da Rede, mais defensor do PT do que os petistas e vomitando sua ideologia psolista.

Mas a guerra civil fria, na qual já estamos imersos, não é entre petistas e bolsonaristas. O PT não está preocupado realmente com a chamada “nova direita”. Sua luta é contra o que chama de “elites” (que podem ser, ora os (que os petistas maldizem como) golpistas responsáveis pelo impeachment, ora Moro e a força-tarefa da Lava Jato, que prendeu Lula, Dirceu, Delúbio, Vaccari e alguns de seus dirigentes, ora os fascistas que denunciam o proselitismo petista nas escolas, universidades e outras instituições que aparelharam – em suma, contra tudo e contra todos que impedem ou dificultam a continuidade do processo de conquista de hegemonia sobre a sociedade). Sua luta fundamental, portanto, é contra a democracia e o Estado de direito, seja quem for o presidente da República da hora (aliás, é bom lembrar que o PT entrou com pedidos de impeachment de todos os presidentes não-petistas, desde Sarney), seja qual for a composição dos tribunais superiores, e seja quem tenha a maioria ou o controle da Câmara e do Senado (a não ser que essas instituições estejam sob sua tutela).

A guerra civil fria travada pelo PT – de longa duração: não terminará, ao que tudo indica, em menos de uma década (se fôlego tiver para tanto) – é contra as instituições democráticas. Por uma simples razão: esta é a natureza da via neopopulista (bolivarianista à brasileira e aqui conhecida como lulopetismo). O neopopulismo, como já mostramos em outro artigo, publicado em 2 de abril de 2017, é uma estratégia de golpe de Estado em doses homeopáticas.

Bolsonarismos, intervencionismos e outras maluquices, sob certo ponto de vista, até ajudam o PT a criar o caos necessário à sua volta ao governo. O projeto neopopulista precisa ocupar o governo para prosseguir. Bolsonaro só seria eleito em primeiro turno, o que é improvável ocorrer em condições normais de temperatura e pressão (no segundo, será derrotado por qualquer adversário) e, mesmo que fosse eleito, simplesmente não governaria (com minoria insignificante no Congresso). Intervencionismos seriam aventuras de curta duração em uma sociedade com o grau de complexidade já alcançado pela nossa. Com a fragmentação do campo democrático, impulsionada, em grande parte, pelo jacobinismo dos novos tenentes de toga (ou chegados a uma toga), quem sobrou com unidade suficiente para empalmar novamente o poder? É com isso, exatamente com isso, que o PT conta.

Encerro citando trechos dos parágrafos finais do artigo linkado acima:

O perigo permanece. No curto prazo, a única ameaça à democracia no Brasil vem do PT. Esqueçam os fantoches (como Ciro) – que, à época (início de abril de 2017) era um zero à esquerda -, os aventureiros broncos da direita hidrófoba (como Bolsonaro e a turbamulta vil de seus seguidores), os autocratas ilustrados que colonizam consciências de pessoas de pouco trato intelectual (como Olavo e seus fanáticos) e os velhos políticos fisiológicos (da antiga base do PT, hoje no governo, que só querem se dar bem na vida e não vão investir um tostão do dinheiro que roubaram para autocratizar o regime). Só o PT tem um projeto autocrático de poder: narrativa ideológica estruturada, estratégia formulada, liderança (populista) destacada, direção organizada, militância disciplinada, enraizamento social amplo e profundo, dinheiro suficiente escondido em contas fantasmas no Brasil e no exterior e apoio internacional para tanto no curto prazo.

O projeto neopopulista está vivo. E enquanto esse projeto estiver vivo, a democracia estará correndo sérios riscos, no Brasil e em outros países do continente.

Não. A guerra civil fria (resultado da perversão da política como continuação da guerra por outros meios, na fórmule-inverse de Clausewitz-Lenin) não vai parar tão cedo. Ora, a guerra é a falência da política democrática. Mesmo que o PT não volte ao poder nos próximos 10 anos, o processo de democratização será enfreado. Não há nada no horizonte que indique o contrário, a menos que a sociedade entre em efervescência (o que não se pode prever quando acontecerá, nem mesmo se acontecerá). É bom os democratas se prepararem para uma resistência de longo prazo.


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