in ,

Estamos vivendo a ressaca de 2013

Vejo agora que Luiz Werneck Vianna, na reunião do Polo Democrático e Reformista, no último dia 14 de julho de 2018, no Rio de Janeiro, identificou nas manifestações de 2013 um divisor de águas, um ponto de ruptura e transformação. Foi o que eu mesmo disse no dia seguinte à primeira manifestação de 17 de junho de 2013, em rádios, jornais e TVs. Em 27 de junho estive no programa Entre Aspas, da Globo News, inteiramente dedicado ao tema (e, na sequência, em várias outras edições do mesmo programa e no programa do Fernando Gabeira da Band News). Ainda no mês de junho de 2013 publiquei um ebook intitulado Os 7 dias que abalaram o Brasil, com análises do ocorrido do ponto de vista das redes, quer dizer, da fenomenologia da interação em sociedades altamente conectadas.

Ocorre que os swarmings civis que aconteceram naquele período mudaram os fluxos interativos da convivência social de tal modo que desarrumaram não apenas o velho sistema, mas também as alternativas inovadoras que estavam surgindo na sociedade brasileira a partir de 2010 – uma janela, que foi fechada em 2014, pela qual o vento fresco que soprou em parte da década de 1990, pode bafejar novamente nossas vidas. Com efeito, depois do segundo semestre de 2014, a inovatividade social decresceu em todo lugar (em comparação com o florescimento dos anos anteriores).

O velho mundo político não entendeu nada. O PT não sacou que, a partir dali, tinha perdido o monopólio das ruas e nem os democratas compreenderam claramente os fenômenos de alta interatividade ocorridos. Aliás, até hoje muitos analistas, ditos liberais, ainda acham que 2013 foi um movimento de esquerda, posto que puxado por um grupelho sectário chamado MPL – Movimento Passe Livre. Não perceberam a distinção, básica para explicar a emergência de grandes enxameamentos de pessoas, entre fatores detonadores e causais.

Claro que a partir de 2015 as pessoas voltaram às ruas. Mas as grandes manifestações do impeachment, notadamente de 15 de março, de 12 de abril e de 16 de agosto 2015 e de 13 de março de 2016, já tematizadas politicamente, não foram a mesma coisa do que aconteceu em 2013. Possibilitaram a retirada constitucional do PT no governo, mas também permitiram o florescimento de alternativas retrógradas e autoritárias, babando um anticomunismo temporão ainda na vibe da guerra fria.

Antes do impeachment, por exemplo, não havia bolsonarismo (uma corrente de opinião maligna que floresceu durante e depois dos protestos que pediam a deposição de Dilma, a prisão de Lula e extinção do registro do PT), não havia esse besteirol de “Olavo tem razão”, os intervencionistas militares e civis, os monarquistas tradicionalistas e os conspiracionistas contra a “nova ordem mundial” não haviam colocado suas cabeças fora do pântano onde seus pequenos grupos sectários chafurdavam. Cinco anos depois, já em 12 de junho de 2018, comentei tudo isso no artigo Vem Pra Rua e MBL na encruzilhada da democracia.

Nada disso quer dizer que as grandes manifestações do impeachment não tenham representado um avanço considerável da cidadania política brasileira. Quer dizer apenas que foram coisas diferentes de 2013. E que a maioria dos analistas ainda não deu conta de decifrar o sentido das mudanças subterrâneas, profundas, desencadeadas pelas gloriosas jornadas de junho e cujas consequências ainda virão.

Virão, certamente virão, mas não se sabe quando e de que maneira. Mudanças profundas nos fluxos interativos da convivência social são capazes de alterar os processos do emocionar coletivo. E o emocionar – como disposição para a ação, não como sentimento – faz toda a diferença (mais diferença do que as escolhas racionais). Em um artigo do final de maio de 2018, intitulado Por que o movimento dos caminhoneiros não é um swarming, tratei mais detalhadamente do assunto (inclusive tentando explicar, em termos não-técnicos, o que é um swarming).

Mas o grande problema é que, nesta depressão (em termos dos fluxos interativos) em que caímos depois do impeachment, não se consegue ver nada de realmente novo. Como foi dito acima, não foi só o velho sistema que sofreu um choque e sim também tudo o que, de algum modo, a ele se referia ou com ele se relacionava, inclusive as tentativas de renová-lo. Isso explica, pelo menos em parte, porque decaímos para perspectivas retrógradas que já se imaginava enterradas. Depois de momentos de tanta luz, sobreveio um tempo sombrio em que parece que zumbis levantaram de suas tumbas.

O lodo da cultura patriarcal, guerreira e autocrática, que estava decantado no fundo do poço, veio à tona. É uma imagem forte, mas talvez necessária para entendermos a popularidade que malfeitores ideológicos e meio malucos, como Olavo de Carvalho, adquiriram. E é também aí que devemos buscar as raízes mais profundas do crescimento do bolsonarismo, uma corrente de opinião muito mais perigosa para a democracia do que as tentativas de se dar bem na vida do oportunista-eleitoreiro Jair Messias Bolsonaro. Pode-se inclusive prever, sem grande dificuldade, que a seita bolsonarista vai se afastar de Bolsonaro mais cedo do que mais tarde: basta ele começar a fazer muitas concessões para ser eleito (e, se for eleito, para governar).

Paradoxalmente, tudo isso ainda tem a ver com 2013. Estamos vivendo a ressaca de 2013. Enquanto a desarrumação não for rearrumada, o ambiente permitirá que modelos de ordem pregressa revivesçam. Enquanto os semi-liberais, no sentido político do termo, regiam a velha política, não havia muito espaço para o assanhamento reacionário. Tanto é assim que ninguém no Brasil, até há pouco, tinha muita coragem de se declarar “de direita”. Claro que existem pessoas que se dizem de direita e que são liberais, ou liberais conservadoras, mas não é destes – como Pondé, Coutinho e Reinaldo – que estamos falando agora e sim dos retrogradacionistas mesmo (como os olavistas e bolsonaristas).

Os semi-liberais políticos, que administravam o condomínio dos incluídos na velha política, podiam ser, em grande parte, corruptos, mas nunca foram antidemocratas. E podiam ser populistas no sentido mais primitivo do termo (ou seja, demagogos), mas não eram neopopulistas (de esquerda, como os bolivarianos), nem populistas-autoritários (de direita, à la Viktor Orban), ou seja, não eram iliberais. A desarrumação, provocada pelos grandes swarmings de 2013, tirou a batuta das mãos desses regentes. A isso se somou a cruzada contra a corrupção dos instrumentalizadores políticos da operação Lava Jato, animados por um espírito jacobino e punitivista, a qual, diga-se o que se quiser dizer, desvalorizou (e em certo sentido demonizou) a política, infundindo na opinião pública a falsa esperança de que estamentos corporativos do Estado, compostos por burocratas concursados (os novos tenentes de toga, como aventou o mesmo Luiz Werneck Vianna), poderiam fazer uma reforma da política de cima para baixo, pela prática da antipolítica robespierriana da pureza. Deslegitimados pelas multidões consteladas nas ruas em 2013 e criminalizados pela ofensiva de limpeza da política de todos os corruptos, os velhos agentes políticos perderam força para conter a invasão dos bárbaros.

Infelizmente ainda não se configurou um ambiente propício ao florescimento dos que chamei de democratas-inovadores. E por isso (e enquanto isso) permanecemos na escuridão.


Democracy Unschool é um ambiente de livre investigação-aprendizagem sobre democracia, composto por vários itinerários. O primeiro itinerário é um programa de introdução à democracia chamado SEM DOUTRINA. Para saber mais clique aqui

Deixe uma resposta

Loading…

Deixe seu comentário

The People’s Authoritarian: How Russian Society Created Putin

Você vai apoiar o “picolé de chuchu”, mesmo depois das alianças com o “centrão”?