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Estão falando agora os generais que ficaram calados durante mais de uma década de governo do PT

Por que vocês – generais e outros oficiais de alta patente das Forças Armadas – não se manifestaram, com tanta frequência e contundência, como fazem agora, durante mais de uma década de governo do PT?

Os generais estão se manifestando: sempre em nome da ordem, é claro. Um deles, ontem (06/12/2017), em artigo no Estadão, chegou a citar o último ditador militar (João Figueiredo) e falar dos “intervencionistas” como se fossem uma força política legítima numa democracia. Terminou o artigo, como soe a um analfabeto democrático, dizendo que “as forças vivas da Nação, movidas pelos homens de bem, incluindo as Forças Armadas, não podem permitir que condutas irresponsáveis e antipatrióticas se tornem costumeiras em nossa vida pública, por atingirem frontalmente os princípios éticos e morais que conduzem um regime democrático e que resultarão num arremedo de democracia.” Ora… a corrupção degenera, mas não altera a natureza do regime democrático. Vamos mandar esse general Rômulo Pereira viver um ano em Havana, PyongYang ou Riade para ele ver a diferença entre democracia e ditadura. Ou então para Caracas, Moscou ou Ancara, para ver se ele entende o que é arremedo de democracia.

É espantoso que esses oficiais do Exército (e de outras forças militares) não tenham se manifestado com tanta frequência e contundência durante os mais de 13 anos de governo do PT, quando a ameaça de bolivarianização do nosso regime político era real.

A questão é que a solução para o apodrecimento do nosso velho sistema político não pode vir a não ser pelos mecanismos do regime democrático que temos. As tentativas anteriores de fazer isso pela força, quebrando a legalidade e abolindo a institucionalidade vigentes, acabaram, todas, dando com os burros n’água. Ditaduras não podem consertar os defeitos das democracias. Não há solução sem política e não há saída fora da democracia.

Democratas devem estar dispostos a enfrentar uma longa transição democrática cujo fim é… a política. Com todo o escarcéu de investigações, acusações, delações, condenações, prisões (e liberações) da Lava Jato, não teremos, já em 2019, um Congresso e 27 Assembleias Legislativas com composição radicalmente diferente da atual. A presidência da República e os governos estaduais também não serão ocupados por Varões (ou Varoas) de Plutarco.

Para fazer, de chofre, uma limpeza ética na política brasileira, como querem os procuradores e alguns juízes, seria necessária uma revolução, como a francesa. Ocorre que essa “revolução francesa” que eles querem fazer (com 200 anos de atraso) não tem povo. Portanto, não vai acontecer. E se acontecesse seria pior, como vimos. Na próxima esquina não encontraríamos os governantes da Noruega, da Islândia ou da Nova Zelândia, mas Napoleão. Vai ver eles, os generais, gostam mesmo é de Napoleões…

Revoluções para limpar o mundo dos maus, separando-os dos bons e punindo-os, jamais foi o caminho em qualquer lugar. Para ter uma política como a da Noruega é necessário ter uma sociedade com níveis de capital social como os da Noruega, não como os da Somália. A Noruega não tem uma democracia mais plena e com baixa corrupção porque lá os militares se metam na política em defesa da pátria ou porque exista uma força-tarefa querendo caçar os políticos corruptos. Isso não aconteceu, nem agora, nem no passado. Por outro lado, países onde o judiciário quis fazer cruzadas moralistas de limpeza, como a Itália da Mani Pulite, acabaram caindo no colo de um Berlusconi.

Isso não quer dizer que não se deva combater a corrupção, aplicando a lei severamente de acordo com as normas do Estado de direito. Quer dizer, apenas, que não se pode estruturar um projeto político a partir daquela que deveria ser uma atividade normal em qualquer país democrático. Quando os órgãos que detêm o monopólio do uso da força resolvem fazer politics, como se fossem representantes eleitos ou partidos, a coisa não acaba bem.

Não foram os oficiais das Forças Armadas, nem os “jovens tenentes”, os revolucionários de toga (ou chegados a uma toga), meio jacobinos, praticantes da antipolítica da pureza, aboletados no Estado e ganhando 40 mil reais por mês, aposentadoria especial, auxílio moradia e outros privilégios corporativos, que tiraram o PT do governo. Foram as pessoas nas ruas. Essas mesmas pessoas que agora, significativamente, não lhes dão ouvidos e não se sensibilizam com suas convocações para cruzadas de limpeza.


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