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Estudem as redes para entender o que está acontecendo

Estudem as redes. As velhas categorias sociológicas e políticas são impotentes para desvendar o que está acontecendo neste momento no Brasil e no mundo.

Vejamos um exemplo, sugerido em conversa comigo pelo Nilton Lessa, que levantou a hipótese que comento a seguir. Como é que os institutos erraram tanto (quase em 25%) quanto aos votos de um desconhecido ex-juiz bolsonarista (por convicção ou oportunismo, não importa), chamado Wilson Witzel para o governo do Rio no primeiro turno da campanha eleitoral de 2018?

E como é que não percebemos as correntes de opinião se movimentando velozmente a menos de 24 horas da eleição do primeiro turno? Nós, pessoas conectadas, antenadas, deveríamos ter percebido algum sinal, mesmo que fraco, dessa movimentação.

Os milhares de laços fracos – confira The Strenght of Weak Ties, do Granovetter (1973) – que nos conectam, não foram capazes de nos transmitir esses sinais?

O que aconteceu com nossa antenas?

Isso só se explica se examinarmos as deformações na rede social (atenção: não estou falando das mídias sociais, como o Facebook e o Twitter e sim nas redes sociais mesmo, quer dizer, nas pessoas interagindo enquanto estão interagindo) que estão em curso neste período. Aconteceu, de repente, algum tipo de alteração sistêmica na rede que eliminou grande parte dos atalhos (é o nome técnico) entre clusters. Muitos mundos interativos colapsaram e o “cérebro” social – aquela ramada explosiva de neurônios, para usar uma imagem de Pierre Lévy – perdeu sinapses.

Socialmente falando, perdemos inteligência, capacidade de computação (lato sensu), acurácia de percepção.

Poderosas correntes subterrâneas do fluxo interativo da convivência social foram arrastadas sem que nos déssemos conta. Pessoas tomaram decisões cruciais de última hora, compartilhadas apenas nos seus aglomerados de laços fortes (famílias, círculos de amigos e colegas de estudo, trabalho ou lazer com um grau de separação).

Houve um ilhamento da sociedade, uma privatização da esfera da opinião com a criação de miríades de micro-esferas que não se comunicam horizontalmente de modo fortuito, destruindo aceleradamente capital social e reduzindo as possibilidades de polinização mútua ou de fertilização cruzada que fazem parte do processo de formação da opinião pública. Isso equivale a um colapso do ‘social’ propriamente dito, que não é a coleção das pessoas e sim o que acontece entre elas quando interagem.

Nestas circunstâncias, o processo eleitoral como modo de verificação da vontade política coletiva perde o seu sentido democrático e a opinião pública passa a ser a soma das opiniões privadas dos cidadãos (o que, no limite, torna as eleições ineficazes e dispensáveis do ponto de vista democrático: bastaria contratar um instituto de pesquisa de opinião para fazer um levantamento censitário e depois totalizar o resultado).

A esfera pública foi drasticamente contraída e as opiniões se alinharam centralizadamente, conectando-se diretamente à imagem de um líder com alta gravitatem capaz de deformar o campo.

Isso não se explica somente pelos uso planejado das mídias sociais, embora programas de comunicação que favorecem a formação de grupos fechados e de compartilhamento automático de mensagens centralizadas possam também cumprir um papel na deformação da rede. Uma dessas mídias é o WhatsApp, que permite a formação de miríades de grupos privados, mais protegidos da interação com o outro-imprevisível. O WhatsApp favorece o ilhamento, a formação de numerosos micro-clusters onde quem não compartilha a mesma visão não é incluído, não fica sabendo do que rola e nem pode interagir para modificar opiniões. É menos uma nova esfera pública virtual (como o são, em parte, o Facebook e o Twitter) e mais uma privatização dessa esfera, pulverizada em miríades de ambientes com fronteiras opacas de identidade.

A MANIPULAÇÃO DA REDE USANDO O WHATSAPP

Cristina Tardáguila, Fabrício Benevenuto e Pablo Ortellado resolveram publicar, em 17/10/2018, um artigo no The New York Times, intitulado “Fake News Is Poisoning Brazilian Politics. WhatsApp Can Stop It”.

Os bolsonaristas estão denunciando o pedido feito pelos autores, de restrições de compartilhamentos de WhatsApp, supostamente para evitar fake news, como censura do PT. Os autores pedem que o App “reduza ainda mais o número de reenvios, reduza o alcance da transmissão e limite o tamanho de novos grupos”. A solução parece esdrúxula. É incoerente com a liberdade de opinião no ciberespaço fazer tal pedido à direção do Facebook. Mas alguns dados do artigo dos três pesquisadores são importantes para análise.

Segundo eles, a situação é a seguinte (o trecho abaixo foi tirado de um post de ontem da lavra do próprio Ortellado):

“Segundo o Datafolha, 44% dos brasileiros tem usado o aplicativo para acessar notícias e informações políticas. Reunimos as publicações de 347 grupos públicos de WhatsApp voltados ao debate político e submetemos as 50 imagens mais compartilhadas para serem avaliadas pela Agência Lupa. A análise mostra que 56% das imagens são falsas, tiradas do contexto ou sem apoio nos fatos. Apenas 8% delas são verdadeiras. Acompanhando os grupos pudemos observar que a dinâmica de divulgação das informações combina uma organização piramidal e em rede. As campanhas utilizam a transmissão, a capacidade de enviar a mesma mensagem para até 256 contatos, para distribuir a mensagem para os militantes. Esses, por sua vez, podem reencaminhar para ativistas locais ou diretamente publicar em grupos públicos ou fechados, de família ou amigos. Com apenas dois passos é possível atingir centenas de milhares de eleitores, numa campanha de desinformação em grande escala”.

Parece que é assim mesmo que agem os grupos bolsonaristas (o que não significa que os grupos petistas não façam o mesmo ou equivalente). Mas estamos mais interessados na análise de rede do que no caráter fake das postagens. Estamos querendo entender os processos e as dinâmicas, não os conteúdos. A rede deve dar conta de metabolizar isso. Restrições administrativas são um caminho perigoso (ainda que o Facebook já venha tomando providências desse tipo, de cima para baixo, há algum tempo).

O estudo, se estiver correto, revela um processo, caracterizado como combinação de pirâmide (transmissão centralizada um-para-muitos, tipo broadcasting) + rede. Na verdade, a topologia é mais de árvore do que de rede (distribuída). Ou seja, as redes que se configuram têm altos graus de centralização (ou hierarquização). As mensagens saem de um centro para um conjunto de hubs (no caso, 256), que então as distribuem (ao que tudo indica tal como chegam). A interatividade é baixa, não há réplica ou tréplica na esfera da transmissão inicial (a primeira bolha, com um grau de separação). A via é de mão única.

Trabalhos de Duncan Watts já mostraram que isso pode ser bastante eficaz. Mas é uma clara manipulação da rede usando uma mídia interativa mobile. Não há interação capaz de modificar a mensagem inicial e, assim, não há conversação stricto sensu. Tal processo poderia ser adotado na China ou na Rússia, com os respectivos governos ditatoriais (por meio de seus serviços de inteligência, informação e propaganda) usando as pessoas para formar artificialmente correntes de opinião a seu favor (ou contra seus inimigos).

MAIS NETWAR DO QUE POLÍTICA (DEMOCRÁTICA)

É mais netwar do que política (democrática). E o fato dos petistas fazerem isso não autoriza aos seus adversários bolsonaristas a fazerem também. Esta, aliás, é a lógica da guerra, na qual um lado combatente sempre procura se legitimar espelhando-se no outro, no inimigo. Se nós não fizermos, eles farão. Logo, é uma questão de defesa fazer contra o inimigo aquilo que ele fará (ou, na maior parte dos casos, poderá fazer) contra nós. A própria ideia de defesa (preemptiva) trabalha com essa lógica. Não importa se há um inimigo real ameaçando nosso way of life de maneira bárbara: o que importa é que pode haver tal inimigo e, se ele existir realmente, a ideia de que esse inimigo poderá fazer conosco tudo aquilo de mais bárbaro que tememos.

Não há necessariamente mais democracia na instrumentalização das mídias interativas (não apenas do WhatsApp, mas de todas as chamadas mídias sociais) para a luta política ou para perverter a política como continuação da guerra por outros meios (na fórmule-inverse de Clausewitz-Lenin). O que há é mais guerra, de mesma natureza, mas em outro espaço: o espaço da netwar. Como guerra é autocracia (de vez que a democracia é, por definição, um modo não-guerreiro de regulação de conflitos), o que há é mais autocracia e não mais democracia.

O FENÔMENO ESTÁ ACONTECENDO NO ESPAÇO-TEMPO DOS FLUXOS

Como as redes sociais – pessoas interagindo enquanto estão interagindo, por qualquer meio – não são as mídias sociais (tecnologias, programas que rodam em dispositivos, ferramentas) não se deve buscar entender o fenômeno a partir do uso instrumental do Facebook, do Twitter ou do WhatsApp.

É bom repetir: redes sociais são pessoas interagindo (enquanto estão interagindo) por qualquer meio (conversas presenciais, carta, telegrama, telefone, tambores e sinais de fumaça e, inclusive, meios digitais interativos, como Facebook, Twitter e WhatsApp, Telegram e equivalentes). Não é um detalhe menor. Redes sociais são pessoas (e isso vai muito além de dizer que são compostas por pessoas), não sites ou plataformas. A fenomenologia da interação que se manifesta em sociedades altamente conectadas pode ser acelerada – e agora, como estamos vendo, também desacelerada ou deformada – por mídias interativas, mas não causada. As variáveis fundamentais são os graus de distribuição, conectividade e interatividade da rede (que é social mesmo, como o nome está dizendo, e não digital).

Houve uma perturbação significativa na rede social (stricto sensu), que pode ter sido potencializada pelo uso instrumental de determinadas mídias vulneráveis a esse tipo de manipulação. Mas não vamos entender o fenômeno enquanto não desvendarmos o que está acontecendo no espaço-tempo dos fluxos.

Em termos bem gerais o que está acontecendo é uma diminuição dos graus de distribuição, conectividade e interatividade da rede. Mas é preciso saber por que e como isso está acontecendo.

Alguns pesquisadores estão, entre intrigados e perplexos, tentando entender o fenômeno a partir do uso das mídias sociais. Por exemplo, Joshua A. Tucker, Yannis Theocharis, Margaret E. Roberts e Pablo Barberá, em outubro de 2017, no artigo From Liberation to Turmoil: Social Media and Democracy (Journal of Democracy Volume 28, Number 4 October 2017 © 2017 National Endowment for Democracy and Johns Hopkins University Press), chegaram a colocar importantes questões:

“Tal como essas (novas) tecnologias criaram problemas para regimes autocráticos, o sucesso das redes sociais [leia-se: mídias sociais] alimentou a instabilidade política nas democracias. (O virtual) tornou-se um espaço de todos, e um campo de batalha política inteiramente novo surgiu… Deveriam (ou conseguiriam) os governos democráticos fazer algo a respeito disso e, se sim, o quê? Regulamentar a liberdade expressão online? Tentativas nesse sentido aumentam ou diminuem o apoio a normas democráticas?”

Mas os autores não deram, no artigo, uma resposta satisfatória às questões que colocam. Sobretudo porque a resposta não está no uso das mídias e sim em por que determinado uso das mídias têm o poder de modificar fluxos interativos da convivência social (antes de modificar a configuração do conflito político).

COMEÇANDO DO PRINCÍPIO

Podemos afirmar que o que está havendo é uma reação do mundo centralizado (ou hierárquico) à emergência de uma sociedade-em-rede (e ao consequente estilhaçamento do mundo único). Isso está ocorrendo em todos os âmbitos, inclusive no chamado mundo virtual ou digital. Embora não estejam ligados por relações de causação – e sim por condicionamento recíproco – as mudanças políticas se apoiam em configurações sociais. A reação mais radical da mundo hierárquico se dá na tentativa de manter topologias de rede descentralizadas (menos distribuídas do que centralizadas), mais favoráveis a processos autocratizantes do que democratizantes. Não há maneira mais eficaz de fazer isso do que a constituição de lideranças capazes de deformar a rede, criando buracos negros no campo onde as interações se abismem.

Em um artigo de junho de 2018, intitulado Por que Lula continua na frente nas pesquisas: uma explicação do ponto de vista das redes, escrevi:

Toda a questão é como alterar a configuração da rede ou, em outras palavras, os fluxos interativos da convivência social… É simples: do ponto de vista das redes. É da natureza do populismo (e o lulopetismo é um neopopulismo) obter a adesão cega de multidões (que se transformam em rebanhos). O líder populista com alta gravitatem deforma o campo social de um modo que atrai as preferências não-racionais e os anseios coletivos e instintivos de proteção. Ele cria creodos no campo, caminhos sulcados que condicionam as trajetórias futuras, como uma espécie de buraco negro para o qual os corpos se abismam.

A monoliderança de Lula cumpriu o papel de deformar a rede, assim como a monoliderança antilulista de Bolsonaro também vem cumprindo. Tanto Lula quanto Bolsonaro são dilapidadores de capital social, exterminadores de futuro, destruidores de laços fracos e ampliadores de mundos (em termos sociais, quer dizer, enfreadores de crunching, do amassamento dos mundos que está reduzindo os graus de separação). Mas o que acontece não depende de suas vontades, nem mesmo de sua consciência sobre o que acontece: eles assumem funções sociais, funcionais para a deformação da rede (e são, eles próprios, frutos dessa deformação), como veremos em próximo artigo.


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