in ,

#EuAcreditoEmJesus Sem problema, a menos que se diga que chegou o momento de a igreja governar

Virou trend topic no Twitter nesta madrugada (de 15 de dezembro de 2018) a hashtag #EuAcreditoEmJesus – uma resposta evangélico-bolsonarista às críticas e gozações de que tem sido alvo a nova ministra das Mulheres, Família e Direitos Humanos, a pastora Damares Alves, recém indicada para o cargo por Jair Bolsonaro. O próprio Bolsonaro veio a público, no Twitter, repreender os que escarneceram da fala da religiosa, que disse ter visto Jesus em um pé de goiaba.

Gozações desse tipo são normais, assim como normais são as críticas aos que as fazem. Só não são aceitas – e encaradas como perigosas heresias, anátemas ou mesmo crimes – em sociedades dominadas por regimes político-religiosos fundamentalistas, em ditaduras como a da Arábia Saudita ou teocracias como a do Irã. Nesses países ser kafir (infiel) é crime político. Em democracias, que são laicas, as pessoas não vivem sob o temor de um deus punitivo que usa o Estado como braço temporal de suas sanções.

A democracia, entretanto, aceita a variedade de crenças e os diferentes cultos. Os primeiros democratas atenienses tinham também seus deuses, como o Zeus Agoraios e a deusa Peitho. Eram expressões do modo não-guerreiro de regulação de conflitos que foi inventado na passagem do século 6 para o século 5 e que vigorou de 509 a 322 a. C. Por isso, a democracia nunca foi ateia e sim laica.

Nas democracias, cada um pode ter o deus que quiser e cultuá-lo, individual ou coletivamente, em privado ou em público, com liberdade, mas o Estado não pode orientar suas ações conferindo poderes regulatórios diferenciados aos que creem em um deus particular. Ou seja, a crença em um deus particular não pode ser evocada para validar ou invalidar opiniões políticas.

O comportamento de Damares não é reprovável porque ela diz ter visto Jesus numa goiabeira. Suas crenças religiosas não são um problema para a democracia e sim suas opiniões políticas, sobretudo ocupando um cargo tão importante como um ministério dos direitos humanos em um Estado que deve ser laico.

Como já foi comentado em um artigo recente – Defender hoje o Estado laico virou imperativo democrático, quem diria? – quando a nova ministra afirma que “É o momento de a igreja governar”, aí sim, é problema. Ouvindo os muitos sermões de Damares (todos disponíveis em vídeo no Youtube), ficamos com a impressão de que ela não entendeu nada da democracia e almeja uma teonomia totalitária, como a retratada no livro O Conto da Aia (The Handmaid’s Tale), a obra distópica de 1985 da autora canadense Margaret Atwood que virou série de TV.

Como ministra dos direitos humanos, será que Damares Alves vai defender a mesma concepção desses direitos que tem o seu futuro colega general Augusto Heleno, outro hierarca do novo governo?

Ainda nesta semana (em 12/12/2018), o general Augusto Heleno, declarou em entrevista à TV Globo:

“Se eu tiver que canalizar o meu esforço de proporcionar direitos humanos para alguém, entre o cidadão que trabalha, sai de casa às seis horas da manhã, volta às dez da noite, encara um transporte público terrível, sofre todos os tipos de limitações na sua vida diária… Ele tem muito mais direito a ser pleno de direitos humanos do que um sujeito que é bandido, que está assaltando esse sujeito no meio da rua”.

Ora, isso é uma afronta aos direitos humanos. Ele, com outras palavras, repete aquele lema autocrático e anti-humanista de que direitos humanos devem valer (ou valer mais) para “humanos direitos”. Ele não captou a essência da coisa. Direitos humanos são para todos os humanos, para quem age dentro da lei e para quem age fora da lei, para os considerados bons e para os avaliados como maus. Não pode haver gradação, nem pode haver priorização, por parte do Estado, no reconhecimento e cumprimento desses direitos. Ninguém, pelo fato de obedecer as leis, pode ter mais direitos humanos do que outros que não obedecem. Se um bandido assalta uma pessoa, dita de bem (ou não), no meio da rua, deve ser preso, julgado, condenado, encarcerado – tudo segundo o devido processo legal e respeitando-se os seus direitos humanos. Assim agem os Estados democráticos de direito, que respeitam os direitos humanos.

Heleno é agora hierarca de um governo que diz defender a “civilização cristã”. Cristã? Essa palavra ainda tem alguma coisa a ver com a vida de Jesus de Nazaré, tal como narrada por seus amigos? De certo eles, nossos novos governantes, não entenderam direito o evangelho de Mateus (9:13): “Eu não vim a chamar os justos, mas os pecadores”.

Sim, Ela Acredita Em Jesus, mas fica-se também em dúvida em que medida esse Jesus da goiabeira de Damares se parece com o Jesus dos evangelhos. Caberia aqui algumas considerações de caráter, vamos dizer, teológico.

Está cada vez mais claro que os que se dizem defensores da “civilização ocidental cristã” não se espelham naquele ser humano que foi reconhecido como deus pela companhia de seus amigos, na periferia da periferia da Palestina do século primeiro. A palavra cristão, para eles, parece não designar propriamente a mensagem de vida do judeu marginal que ficamos conhecendo pelo nome de Jesus de Nazaré, tal como narrada pelos primeiros evangelistas.

Eles defendem, na verdade, a cristandade, a religião associada ao Estado. Todas as suas crenças – inclusive a distinção entre bons e maus, justos e pecadores e a atribuição de mais direitos humanos aos primeiros do que aos segundos – têm mais a ver com as camadas não-proféticas do velho testamento (com o “olho por olho” dos códigos sacerdotais, como o Levítico) do que com as camadas proféticas (como os códigos eloísta e deuteronômico). Têm mais a ver com Ezequiel e com os escribas da corte de Salomão (programadores do código javista) do que com os profetas do Norte da Palestina (como Amós e Elias) e com os profetas do Sul (como Natã, Isaías e Jeremias). E têm pouquíssimo a ver com o novo testamento e com a ideia de espírito santo: aquele deus (de João) que é amor e que está entre nós, quer dizer, presente na comunidade dos amantes toda vez que eles se amam.

DEUS ACIMA DE TODOS?

Damares é ministra de Bolsonaro (recentemente batizado – em maio de 2016 – pelo pastor Everaldo, presidente do PSC, no rio Jordão, no nordeste de Israel), aquele que adotou como lema da sua campanha (política), não de sua pregação (religiosa) – o que seria explicável – o dístico Deus Acima de Todos. Quando ele fez isso revelou, portanto, não sua crença religiosa em um deus, mas um uso político-instrumental de uma ideia religiosa hierárquica e autocrática.

Como já foi dito no artigo Sobre o caráter hierárquico e autocrático dos lemas de Bolsonaro:

Deus, na concepção evangélica, não está propriamente acima de todos, nem de tudo, não está acima de nada, nem de ninguém. A palavra ‘acima’ já evoca a ideia de hierarquia. A boa nova evangélica é que Deus está entre nós, no meio de nós e não em cima de nós, como um chefe, um comandante militar, um rei (a não ser para dizer que não se deve aceitar reis humanos, ou seja, regimes monárquicos absolutistas, ou na famosa passagem evangélica “Dai a Cesar o que é de Cesar e a Deus o que é de Deus”, para dizer que Cesar não era Deus). Tanto é assim que a comunidade primitiva reconheceu em um homem, Jesus de Nazaré – uma pessoa da sua companhia comum, no dia a dia -, a pessoa de um deus, o seu deus.

O deus evocado no lema bolsonarista não é um deus humanizado… e sim o deus das religiões (cristãs). Assim, o que Bolsonaro quer dizer com esse lema é apenas que o cristianismo (a religião) deve estar acima de tudo.

Ora… isso pode ser convicção de uma pessoa ou de um conjunto de pessoas, mas não pode ser lema de um governo (que é de – para servir a – todos e não apenas dos – ou aos – religiosos). Governo é Estado e, nas democracias, o Estado é laico, não religioso. Não tem cabimento a ideia cediça de que laico não significa ateu (e que, portanto, o Estado pode ter um deus ou uma religião). Claro que as pessoas podem ter a religião que quiserem, mas isso não significa que o Estado possa ser religioso (ou anti-religioso), teísta (ou ateísta).

O lema, quando usado na política, expressa uma concepção autocrática. Se há um deus acima de todos (ou de tudo), as pessoas que acreditam nesse deus estão em condição de interação política diferenciada das pessoas que não acreditam. E o governo que serve a esse deus pode justificar suas ações a partir de argumentos extra-políticos, que derivariam das suas crenças. As capacidades regulatórias dos crentes seriam maiores do que as dos não-crentes, posto que alicerçadas numa verdade absoluta, pre-existente antes da interação das opiniões: a verdade revelada por seu deus. No imaginário da população (majoritariamente crente) uma opinião pode ser mais valorizada do que outra quando expressa essa verdade. E lá se vão pelo ralo os critérios democráticos de isonomia, isologia e isegoria no que tange às opiniões.

Dizer “Deus Acima De Todos” – em política, quer dizer, na esfera pública (transbordando o que é válido na esfera privada das crenças individuais) – equivale a uma espécie de sharia informal. Não há nenhum problema com deus (as pessoas devem ter liberdade para servir aos deuses que quiserem) e sim com um deus que pode intervir na política (do contrário o dístico não teria sido adotado como lema de campanha política e de governo), cuja vontade – e cuja verdade – pode ser interpretada por alguns (os sacerdotes, os fiéis) e não por outros (os leigos, os infiéis).

Há aqui uma perversão: a construção ideológica conhecida como “civilização ocidental cristã” é uma remanescência autocrática que evoca a cristandade, a primazia e o direito divino dos “legítimos príncipes que regem os povos cristãos”…

Para a democracia, mesmo um deus não pode ser senhor, transformando os humanos em seus escravos, servos ou súditos. A expressão “servo de Deus” – fora do seu sentido negativo de que os humanos não são (ou não devem ser) servos de outros humanos – é uma abominação autocrática…

Por isso a democracia não é ateia e sim laica. Ela pode conviver com deuses (acredite, quem quiser, nos deuses que quiser), o que a democracia não pode é ser um regime dirigido por uma entidade sobrenatural (ou melhor, sobre-social) se a vontade dessa entidade é interpretada por intermediários humanos (os sacerdotes). O que não se pode fazer, na democracia, é recorrer a argumentos religiosos para validar ou invalidar comportamentos políticos (e é isso o que significa dizer que ela é laica).

É claro que a futura ministra Damares Alves não vai entender nada disso, do contrário não seria o que é: uma fundamentalista religiosa.

Para reagir à “teologia” da libertação, urdida pela esquerda católica, os bolsonaristas forjaram uma “teologia” da dominação para uso da direita reacionária. Claro que são, ambas, ideologias. E que, ao proceder assim, eles apenas espelham, quer dizer, se tornam a imagem invertida do que pretendem combater. É a direita igual à esquerda com o sinal trocado.


UMA BREVE NOTA SOBRE AS RELAÇÕES ENTRE RELIGIÃO E AUTOCRACIA

Existem evidências importantes de que deve haver alguma relação entre religião e autocracia. Excetuando países onde a religião ainda é proibida ou coibida severamente (ou foi proibida ou coibida recentemente, ou seja, no século 20, como China, Coréia do Norte, Cuba etc.), países onde mais de 2 em cada 10 pessoas declaram que não seguem nenhuma religião são democracias bem colocadas em todos os rankings internacionais (Hong Kong é uma singularidade). Os dados (um pouco antigos, mas que continuam válidos porquanto não há mudanças significativas nessa variável no curto prazo) são do Pew Research Center (2010-2012). O primeiro número indica o lugar na lista e o segundo a porcentagem de unaffiliateds):

01 – Japão 57,0%

02 – Hong Kong 56,1%

03 – Holanda 42,1%

04 – Uruguai 40,7%

05 – Nova Zelândia 36,6%

06 – Bélgica 29,0%

07 – França 28,0%

08 – Suécia 27,0%

09 – Luxemburgo 26,8%

10 – Alemanha 24,7%

11 – Austrália 24,2%

12 – Canadá 23,7%

13 – Reino Unido 21,3%

Por outro lado, as 61 ditaduras atuais, em sua maioria, são países com governos religiosos (islâmicos). E – atenção! – países em que mais de 2 em cada 10 pessoas declaram seguir o islamismo também apresentam problemas no tocante aos seus processos de democratização (com exceção de Chipre, outra singularidade). Nenhum desses países – por qualquer classificação que se queira adotar – são democracias plenas e, nem mesmo, países com graus aceitáveis de democratização. Isso é mais preocupante com a religião islâmica (que carrega matrizes da cultura patriarcal em estado quase puro), mas vale, em alguma medida, para todos os tipos de religião: islamismo, cristianismo, hinduísmo, budismo, judaísmo, religiões populares (folk religions): religiões tradicionais africanas, folk religiões chinesas, religiões nativas americanas, religiões aborígenes australianas e, inclusive, outras religiões menores, tipo: Bahai’s, Jainistas, Sikhs, Shintoistas, Taoistas, seguidores de Tenrikyo, Wiccans, Zoroastristas e outras fés.

São dados, não opiniões. Mas não é bom brigar com os dados.


Democracy Unschool é um ambiente de livre investigação-aprendizagem sobre democracia, composto por vários itinerários. O primeiro itinerário é um programa de introdução à democracia chamado SEM DOUTRINA. Para saber mais clique aqui

A Declaração Universal dos Direitos Humanos no século 21

Doze mitos sobre “O Mito” urdidos pelo jornalismo-pollyanna