Gilmar beiçudo

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Explicando as razões de Gilmar Mendes

Uma cruzada necrófila contra a Lava Jato

Gilmar Mendes, na Folha, acusou a Lava Jato de usar os presos como “reféns” para conquistar apoio popular. É vergonhoso.

Gilmar não é apenas um juiz que faz política para aparecer. Ele está cumprindo uma missão: matar a Lava Jato.

Neste trabalho sujo é ajudado por blogueiros como Reinaldo Azevedo.

Vamos tentar explicar. Qual é a razão para tal comportamento?

É simples. A preservação do establishment. Eles avaliam que a Lava Jato vai desconstituir completamente o velho sistema político, comprometendo situação e oposição (e quem sabe até o judiciário) – não deixando de pé nenhuma liderança – e ficando então o país entregue à imprevisibilidade da política (ou, na visão deles, da não-política), o que abrirá caminho para a volta da esquerda ao poder ou para a ascensão de aventureiros de direita (como Bolsonaro).

Eles pensam que política é, basicamente, construir condições de governabilidade top down, ou seja, manter a ordem pregressa, custe o que custar. É uma perspectiva hobbesiana, não-spinoziana. O papel do Estado, para eles, é impor a ordem e não garantir a liberdade. É uma visão autocrática e não democrática da política.

A Lava Jato está de fato ameaçando o velho sistema político. Mas isto porque o velho sistema político apodreceu em razão de seus próprios vícios, não porque tenha sido introduzida artificialmente uma disfunção (ou malfunction) pelas investigações. Isso seria mais ou menos como acreditar na versão petista (anunciada por Lula e repetida pela militância jihadista do PT) de que a economia vai mal por causa da Lava Jato. Não! Os problemas foram causados por quem cometeu os delitos, não por quem tem a obrigação constitucional de investigá-los.

É claro que não há solução democrática fora da política. Mas política não se reduz à manutenção do status quo. Se fosse assim estaríamos congelados no século 17. A política também introduz modificações na forma e na dinâmica como o sistema está organizado e funciona. Do contrário não haveria mudança.

E é óbvio que, a rigor, num choque no velho sistema político como está ocorrendo neste momento no Brasil, tudo pode acontecer. Mas é assim mesmo na democracia. Querer se proteger das consequências não-previsíveis das mudanças revela uma mentalidade autoritária.

A eleição de um autocrata maluco como Bolsonaro é tão provável quanto seria a Le Pen na França. Mesmo diante da falência dos grandes partidos e de suas lideranças tradicionais (como aconteceu na França e vem acontecendo no Brasil), isso é improvável. E a volta da esquerda ao poder, com a eleição de Lula em 2018, depende apenas de não torná-lo elegível. Por outro lado, o desmonte da Lava Jato contribuirá para dar à Lula a tábua de salvação do palanque de 2018.

É isso que Gilmar e seus apoiadores nos meios de comunicação estão fazendo: ao transformarem Moro e a força tarefa da Lava Jato nos violadores do Estado de direito, eles, contraditoriamente, estão preparando o terreno para a volta de Lula – o único que pode prorrogar a sobre-vida do velho sistema político tal como está. Só Lula pode assegurar a volta do mega-esquema de corrupção (como ele próprio prometeu: ele é o único capaz de disciplinar “esses jovens procuradores e colocá-los no seu lugar”).

Só a sociedade, apoiando decisivamente a Lava Jato, pode impedir que Lula consiga subir no palanque e escapar da justiça, fugindo para frente por dentro do velho sistema, ao escorregar pelos desvãos da sua carcaça podre. Sim, o PT precisa do ambiente corrupto para nele depositar seus ovos. É como aquela vespa parasitoide Hymenoepimecis sp. que usa o corpo do hospedeiro como alimento até sua morte. Essa vespa, como se sabe, controla a mente da aranha e a usa como ninho para suas larvas.

Portanto, tentar deslegitimar as manifestações da sociedade em apoio à Lava Jato, como ações indevidas – por estarem tentando interferir na soberania do poder judiciário – é não entender que elas fazem parte do processo democrático. E que elas são absolutamente necessárias num momento em que o sistema político como um todo (incluindo o judiciário) não tem mais condições de – sozinho, sem a pressão das ruas – se auto-regenerar. Aliás, se não fossem as ruas, não teria havido o impeachment.

É o medo da democracia que faz pessoas como Gilmar Mendes e Reinaldo Azevedo empreenderem uma cruzada necrófila contra a Lava Jato.


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