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Exportação de ditadura

Vejam como a Nicarágua foi transformada em um satélite da ditadura cubana. Leiam mais um relato de Juan Reinaldo Sánchez, que foi guarda-costas pessoal de Fidel, no seu livro A vida secreta de Fidel (2014), disponível em PDF para download no link.

NICARÁGUA, A OUTRA REVOLUÇÃO DE FIDEL

“Sánchez, traeme un whiskycito, en las rocas!”* Na época, essa também era uma de minhas atribuições: preparar o uísque do comandante enquanto ele trabalhava sozinho em seu gabinete. Embora não fosse um “grande bebedor” como Raúl, Fidel bebia todos os dias. Com gelo ou cortado com água num copo grande, ou ainda “um uisquezinho”, como ele dizia, ou seja, uma dose simples, sem nada, num copo pequeno.

Naquele dia, levei a bebida e encontrei-o mergulhado na leitura da revista americana Newsweek, pois ele lia fluentemente em inglês. O artigo traçava a história da tirania dos Somoza, na Nicarágua.

Estávamos no início de 1979, e a ditadura dessa pequena república da América Central talvez vivesse suas últimas semanas. Fazia mais de quatro décadas que o clã Somoza explorava sem escrúpulos a população nicaraguense. Depois do assassinato, em 1934, de Augusto Sandino, o primeiro e mítico guerrilheiro do país, essa família dirigia a Nicarágua como se fosse sua finca, sua fazenda. Eles eram donos de tudo: das minas, das melhores terras, das fábricas de cimento, das usinas de pasteurização, das plantações de café, dos criadouros de gado, das zonas de pesca e até mesmo dos parquímetros da capital! Formada e treinada pelos marines americanos, a Guarda Nacional fazia reinar a ordem a golpes de bastão, com a bênção de Washington. “Somoza talvez seja um filho da puta, mas é nosso filho da puta”, dissera um dia Franklin D. Roosevelt a respeito do velho Tacho Somoza, ditador desde os anos 1930.

Quando o filho Anastasio sucedeu Tacho nos anos 1960, Washington continuou apoiando sem muita dor na consciência esse outro “filho da puta”, que, em 1972, não hesitou em passar a mão nos socorros internacionais enviados às vítimas do terremoto que destruíra 60 mil casas da capital e matara 12 mil pessoas. Depois disso, a guerrilha sandinista despertou. Até então, sua ação se limitava às regiões montanhosas e pouco povoadas. Seu exército havia sido fundado em 1961 em… Havana, sob a sigla FSLN: Frente Sandinista de Libertação Nacional.

No fim da leitura da Newsweek e do whiskycito, Fidel fez um sinal a Pepín, seu assistente. Dez minutos depois, estávamos no elevador que conduzia diretamente do terceiro andar ao estacionamento no subsolo, onde os carros da escolta ficavam alinhados em posição de partida. E logo nosso cortejo saiu na noite que caía sobre Havana. Eu gostava daquele momento de lusco-fusco, quando o ar tropical se refrescava e as ruas se animavam de repente. Dirigíamos sem pressa rumo ao bairro de El Laguito, onde ficavam quase todas as “casas de protocolo”, as mansões secretas do regime. Era bem perto da Unidade 160 e também próximo da casa de Gabriel García Márquez. Ao chegar, estacionamos na frente da casa de protocolo no 14, onde os principais comandantes da revolução nicaraguense nos esperavam — ou melhor, esperavam Fidel.

Era uma mansão com piscina, como quase todas as casas de protocolo. Quando entramos, os nicaraguenses estavam sentados em poltronas de couro em torno da mesa de centro do salão principal. Eles se levantaram em bloco assim que Fidel chegou. Com seu 1,91 metro ele parecia um gigante ao lado dos “nicas”, em geral pouco corpulentos. Não era a primeira vez que vinham a Havana, longe disso, por isso os reconheci. Estavam ali todos os futuros heróis da Revolução Sandinista: Tomás Borge, o quarentão atarracado que era o mais velho daquele bando de trintões; Henry Ruiz, o “Modesto”, um matemático que já entrara para a história por seus feitos na guerrilha; Bayardo Arce, um jornalista que comandava os rebeldes na região de Matagalápa; Jaime Wheelock, neto de um empresário americano que tinha estudado “ciências políticas” no Chile sob Allende; Carlos Núñez, o mais radical apesar da pouca idade; e por fim os irmãos Ortega, Daniel e Humberto, que logo se tornariam presidente da República e ministro da Defesa da Nicarágua. Antes de entrar na sala, Fidel me lembrou de gravar a conversa, como costumava fazer, ora às escondidas, ora à vista de todos. Coloquei meu pequeno gravador em evidência na mesa de centro e cuidei das fitas, que substituí sempre que necessário. Depois tratei de me fazer esquecer num canto, constantemente atento à conversa.

Como nas vezes anteriores, a reunião se eternizou, prolongando-se até as quatro horas da manhã. Para Fidel, que era um notívago, começar uma conversa por volta das sete horas da noite para encerrá-la ao amanhecer era habitual. Durante a discussão, observei que el líder máximo gostou de Jaime Wheelock, que se destacava por falar muito bem. De minha parte, foi o comandante Humberto Ortega quem mais chamou minha atenção, provavelmente porque senti que, como eu, aquele homem tinha alma de militar. Fidel ouviu as novidades do “terreno” após o fracasso da primeira ofensiva geral contra Somoza no mês de setembro anterior. Mal coordenado, esse levante popular não produzira o resultado esperado: os 10 mil soldados da Guarda Nacional o reprimiram impiedosamente, não hesitando, às vezes, em massacrar civis a golpes de baioneta. O balanço fora de 5 mil mortos ao todo.

Eles precisavam se reorganizar. E el comandante se dedicava a isso usando toda sua energia para convencer os rebeldes a se entenderem. “Compañeros, a união sagrada é a condição indispensável para atingirmos nossos objetivos”, ele insistia. Ora, naquele momento, a direção estudantil da FSLN estava dividida em três correntes. A FSLN tendência GPP — Guerra Popular Prolongada — era a mais antiga. Representada por Tomás Borge, Henry Ruiz e Bayardo Arce, herdeiros da tradição de “guerrilha rural”, privilegiava esse tipo de guerra. Os marxistas Jaime Wheelock e Carlos Núñez Tellez pertenciam ao FSLN “tendência proletária”: depois da cisão com o grupo anterior em 1973, sua prioridade era envolver estudantes e operários das cidades ao lado de camponeses insurgentes. Por fim, os Terceristas — terceira força — constituíam a formação mais importante, bem organizada, a mais bem financiada e menos dogmática: contava com 5 mil homens armados sob o comando dos irmãos Ortega.

Com toda sua experiência, Fidel sabia melhor do que ninguém que aquela divisão comprometia a perspectiva de uma vitória rápida. Então, depois de ouvir todos os pontos de vista, desenvolveu sua teoria, apresentou-a sob todos os ângulos, lembrou o exemplo da Sierra Maestra, detalhou os aspectos políticos e as vantagens militares de suas concepções. Pouco a pouco, o “encantador de serpentes” adquiriu ascendência psicológica sobre os demais, que, no fim, acabaram se convencendo.

Os historiadores não mediram a que ponto a intervenção de Fidel foi decisiva nessa aventura. Escreveram sobre a ajuda financeira dada aos rebeldes pela Venezuela ou pela Costa Rica; mas não enfatizaram o bastante o papel do dirigente cubano. Sem a força de sua persuasão, as três tendências não teriam entrado em acordo tão rapidamente. A prova disso? Como não conseguiu a mesma coisa do dirigente comunista salvadorenho Schafik Handal e de seu compatriota guerrilheiro Joaquín Villalobos — apesar dos intensos esforços de Fidel, que se encontrava regularmente com os dois homens em Havana, na mesma época —, a guerrilha em El Salvador nunca conseguiu derrubar o poder durante a longa e sangrenta guerra civil, entre 1979 e 1992.

Depois de tornar pública a assinatura de seu acordo de união sagrada, em março de 1979, os sandinistas lançaram a “ofensiva final” em junho. Nove meses após o fracasso do primeiro levante, um novo assalto foi iniciado. Em todo o país. No norte, cidades e aldeias mudavam de mão a cada 48 horas. Bairros populares formavam bolsões de resistência. No sul, que constituiu o santuário da guerrilha por vários meses, os rebeldes estenderam suas conquistas e avançaram sobre Managua, cujas atividades foram paralisadas por uma greve geral decretada em 4 de junho. Em toda parte, os insurgentes multiplicaram os golpes espetaculares e as sabotagens. Pontes foram dinamitadas. A estrada pan-americana que atravessava a Nicarágua de norte a sul foi cortada. O exército rebelde contava com mil voluntários “internacionalistas” vindos prestar ajuda, bem como com uma quantidade respeitável de “conselheiros” cubanos. Mas foram necessários 15 mil mortos e 30 mil feridos (num país em ruínas e com apenas 2 milhões de habitantes) para que a capital fosse tomada pelos rebeldes. Em 19 de julho de 1979, Somoza abandonou seu “bunker” e voou para o exílio dourado em Miami, acompanhado do papagaio e dos setenta membros de seu séquito. Catorze meses depois, vivendo há pouco tempo em exílio político em Assunção (Paraguai), onde outro tirano, Alfredo Stroessner, o acolheu, Somoza morreu aos 55 anos num atentado impressionante. Guerrilheiros argentinos formados em Cuba pelos instrutores do campus militar de Punto Cero de Guanabo pulverizaram com um lança-foguetes, a olhos vistos, seu carro que acabava de sair de casa…

Naquele momento, Fidel saboreava sua vitória: depois de duas décadas de esforços, finalmente conseguira exportar sua revolução. De início, uma junta sandinista se instalou no poder, até a eleição de Daniel Ortega à presidência, em 1984. Até essa data, Ortega foi chamado de “coordenador” da tal junta. Seu irmão Humberto foi nomeado ministro das Forças Armadas, enquanto Tomás Borge se tornou o do Interior, Jaime Wheelock, o da Agricultura, e Henry Ruiz, o da Cooperação Exterior. Bayardo Arce foi nomeado coordenador da Comissão Política da direção nacional da FSLN e Carlos Núñez Tellez, primeiro presidente da Assembleia Nacional.**

As imagens de júbilo em Managua certamente lembraram a Fidel as de seu próprio triunfo vinte anos antes, em Havana. De Cuba, continuou dando seus conselhos à junta sandinista, em sigilo. Para não despertar as suspeitas — nem a irritação — de Washington, agia com discrição, como todo agente de espionagem que se preze. Esperou inclusive um ano inteiro antes de ir à Nicarágua, palco de um de seus sucessos mais estrondosos.

Doze meses depois, voamos portanto para Managua no avião presidencial, que, além de Fidel e toda a escolta, levou a bordo o espião-mestre do Departamento América, Barbarroja (Manuel Piñeiro) e o romancista colombiano Gabriel García Márquez, futuro Prêmio Nobel de Literatura. Das janelas do avião, a vista final sobre Managua, com seu alinhamento de vulcões geométricos, foi tão inesperada quanto deslumbrante.

A visita durou uma semana. Fidel decidiu percorrer todo o país, como havia feito outrora no Chile de Salvador Allende. Queria constatar “sua” vitória em todo o território. Nossa caravana parou tanto nas menores aldeias quanto nas principais cidades: Estelí, León, Matagalápa, Granada, Rivas, Masaya. Um dia, chegamos mesmo a Bluefields, na costa atlântica: um périplo de dezesseis horas. Fidel se misturou à multidão — e eu também, sempre a um metro de distância dele! Para melhor me confundir com a massa, troquei meu uniforme cáqui por trajes civis, passando-me por um local.

Tivemos uma viagem intensa, rica em emoções. Um dia, subimos até o alto do vulcão Masaya, um dos mais ativos do país. O espetáculo do lago de lava, no fundo da cratera, era prodigioso. No dia seguinte fomos a Granada, às margens do lago Nicarágua, onde nossos anfitriões atraíam tubarões- buldogue (uma rara variedade de tubarão de água doce) atirando grandes baldes de sangue escarlate nessa laguna imensa.

Mas a lembrança mais extraordinária é a do próprio desfile militar, no dia do primeiro aniversário da vitória sandinista, 19 de julho de 1980. Carlos Andrés Pérez, presidente social-democrata da Venezuela e amigo de Fidel, estava presente. Bem como Michael Manley e Maurice Bishop, os primeiros-ministros da Jamaica e de Granada. O presidente do governo espanhol Felipe González também viajara até lá. Na tribuna oficial, fiquei, como sempre, muito perto de Fidel. O desfile teve início com tanques e jipes seguidos pelos soldados de infantaria do Exército “nica”, até que, para espanto geral, surgiu um pelotão de jovens — alguns deles muito jovens — combatentes voluntários. Ao longo de toda a minha carreira, nunca vi nada igual: alguns daqueles muchachos tinham no máximo dez anos de idade; os mais velhos tinham quinze. Ao todo, eram uns sessenta. Os fuzis que carregavam pareciam grandes demais, pesados demais, desproporcionais. A imagem ficou gravada em minha memória. Hoje, 35 anos depois, pensar naquelas crianças-soldados que na época tinham a idade de meus filhos sempre me dá um calafrio. Na tribuna, lembro de ter observado discretamente a reação de Fidel com o canto do olho: tinha o rosto impassível, marmóreo.

Essa não foi a última de nossas surpresas! Na mesma noite, os sandinistas ofereceram a Fidel o melhor pouso possível, num complexo residencial que, até pouco tempo, pertencia ao clã Somoza: oito ou dez mansões dispostas em círculo em torno de uma piscina; Fidel ocupou a maior delas. Uma grade protegia o setor, cercado, por sua vez, por uma vegetação densa e um pedaço de floresta tropical de onde subia, à noite, o coaxar ritmado dos sapos. Um posto da guarda militar comandava a entrada do local, onde ficavam soldados “nicas” bastante inexperientes em comparação a nós, cubanos, que tínhamos duas décadas de prática nas costas.

Naquela noite, Fidel se recolheu às oito horas. Comecei então a reorganizar a segurança do local, posicionando um dos nossos homens atrás da casa do comandante; e ocupei a posição mais importante, na frente da entrada principal. Dali, como devia ser, ordenei ao comboio dos carros para que estivesse pronto para partir a qualquer momento e, por fim, efetuei uma inspeção geral para verificar se os guardas “nicas” estavam corretamente dispostos “em anel” em torno do local. Depois voltei à porta da casa, onde entrei a madrugada conversando com um soldado sandinista.

De repente, pou! Um tiro de fuzil foi disparado na entrada da floresta. Um breve silêncio, depois um segundo tiro: pou! Uma fração de segundo depois, uma fuzilada ecoou. Pou! Pou! Pou! Pou! Tacatacatactac! Tiros para todos os lados ao longo de quinze intermináveis segundos. Alguém gritou: “Cessar fogo!”. Os tiros pararam. Saí imediatamente à caça de informações. Esperava encontrar um morto ou um ferido banhado em sangue. Descobri, porém, que um guarda um pouco nervoso ficara com medo ao ouvir o estalar de um galho sob o peso de uma vaca que passava. Ele começara a atirar e acabara desencadeando uma fuzilada geral. Estupefato com o amadorismo dos “nicas” — e achando graça de tudo —, fui até Fidel, que já me esperava na soleira da porta.

— Sánchez, qué pasa?

— Comandante, não foi nada. Apenas um “nica” que se assustou ao perguntar a uma vaca “Quem vem lá?”. Como o animal não respondeu dizendo “Ei, sou eu, a vaca”, ele sacou a arma e todos entraram em pânico.

Fidel explodiu numa gargalhada como raras vezes o vi fazer.

Depois de uma semana na Nicarágua, voltamos para Cuba, onde tínhamos outras festividades a nossa espera, a saber, a festa nacional que naquele ano comemorava o 27o aniversário do ataque à caserna Moncada, no dia 26 de julho de 1953. Mal tive tempo de passar em casa e beijar minha mulher e meus dois filhos e já estava de volta à estrada para a cidade de Ciego de Ávila, quatrocentos quilômetros a leste de Havana. Diante da população que agitava bandeiras cubanas, Fidel começou seu discurso com as seguintes palavras:

— Compatriotas! Coisas novas estão acontecendo. No ano passado, celebramos nossa festa nacional uma semana depois da grande vitória sandinista, com a presença de vários comandantes guerrilheiros nicaraguenses vindos a Cuba (aplausos). Este ano, a relação entre nossos povos se confirma (aplausos). Acabamos de chegar da Nicarágua. É inevitável, portanto, falar desse país. O que está acontecendo lá diz respeito a todos os latino-americanos. Compreendam o significado e avaliem a alegria, o entusiasmo, o otimismo, a emoção de ver esse segundo país da América Latina libertar-se do imperialismo (aplausos), ao qual é preciso acrescentar um terceiro, Granada (aplausos). Agora, somos três a terem escapado do jugo do imperialismo de maneira radical e definitiva (aplausos).

“Radical”? Com certeza. “Definitiva”? Nem tanto. No dia 13 de março de 1979, o líder revolucionário marxista Maurice Bishop derrubou quase sem violência o regime autoritário do primeiro-ministro Eric Gairy, que presidia Granada desde a independência outorgada cinco anos antes pela Grã-Bretanha. Granada imediatamente caiu na órbita cubana, graças às excelentes relações pessoais de Maurice Bishop e Fidel Castro, que fornecia armas, conselhos e militares ao colega. Em 1983, porém, o desembarque de marines americanos pôs um fim à breve experiência revolucionária da ilha caribenha de Granada.

A Revolução Sandinista, por sua vez, logo foi prejudicada por dissensões. Em 1980, o jornal La Prensa, porta-voz da oposição moderada, denunciou o viés autoritário do governo revolucionário e os ataques à liberdade de imprensa. A Igreja, inicialmente favorável aos sandinistas, também se afastou. A posse de Ronald Reagan na Casa Branca, no início de 1981, complicou ainda mais as coisas. Anticomunista e anticastrista, Reagan suspendeu a ajuda econômica concedida aos sandinistas pelo governo Carter, enquanto em segredo financiava a “Contra”. Essa contrarrevolução era constituída de antigos membros da Guarda Nacional e de uma parte do campesinato decepcionada com a Revolução, financiados e armados por Washington, que multiplicavam os ataques a partir da vizinha Honduras. De 1982 a 1987, o país mergulhou numa guerra civil (57 mil vítimas, dentre elas 29 mil mortos) comparável à que inflamava El Salvador (mais de 100 mil mortos entre 1979 e 1992). Por uma década, a América Central foi posta a ferro e fogo. Tornou-se o novo palco da Guerra Fria que opunha Estados Unidos a Rússia e Cuba.

Parte interessada nos conflitos da Nicarágua e de El Salvador, Fidel supervisionava pessoalmente o tráfico de armas que transitava por Cuba para abastecer seus aliados nos dois países. Sem entrar em detalhes a respeito dos circuitos clandestinos ou da estimativa do número de armas que passaram por Havana em direção à Nicarágua naqueles anos, limito-me a relatar uma cena que testemunhei duas vezes no aeródromo militar de Baracoa. Era ali que em geral decolavam e aterrissavam os aviões e os helicópteros utilizados pelos dirigentes cubanos. Ficava depois da saída oeste da capital, na beira da estrada Panamericana, à esquerda. Uma noite — por volta de 1984-85, na época em que o general Arnaldo Ochoa era o chefe da missão militar cubana na Nicarágua e aconselhava o Exército do governo sandinista —, Fidel deixou seu gabinete para ir ao terreno de aviação, onde, na ponta da pista, ficava a sala de protocolo e os hangares das aeronaves.

Quando chegamos ao local, seu irmão Raúl, ministro da Defesa, já estava lá, acompanhado do general Carrera, comandante da base. Depois das saudações regulamentares, os dois irmãos se instalaram na sala de protocolo, sem o general Carrera, mas com o chefe da escolta Domingo Mainet e comigo. Ali, na intimidade e ao abrigo dos ouvidos curiosos, Raúl detalhou ao irmão as particularidades do embarque, do transporte e da entrega secreta de armas de guerra a Ochoa. Este, explicou Raúl, estava posicionado ao norte da Nicarágua, perto da fronteira com Honduras, nas margens do rio Coco, onde receberia a “mercadoria” à noite, dali a poucas horas, numa pista clandestina. Sempre preocupado em verificar os mínimos detalhes e ter uma ideia exata da ação, Fidel ouviu Raúl atentamente, preocupado com uma questão importante: confirmar a ausência de falhas no plano do irmão e a impossibilidade de se estabelecer, caso o tráfico fosse descoberto pelo inimigo, qualquer ligação com Cuba.

Depois de ser reassegurado por Raúl sobre esses pontos, saímos os quatro para a pista, onde vários caminhões militares acabavam de chegar para descarregar caixas de madeira com o material de guerra, principalmente fuzis Kalashnikov. O lugar estava escuro, mal iluminado, pois a maioria das luzes da pista de decolagem estava apagada, com exceção das balizas azuis. Mas isso não me impediu de ver que a cauda do avião — um velho mas imponente Britannia a hélices — havia sido pintado nas cores… de Honduras! Fidel saudou os pilotos, continuou fazendo perguntas a Raúl e, convencido do bom desenrolar das operações, deu o sinal para retornar a Havana. Algumas semanas depois, fui testemunha da mesma cena, com os mesmos atores e o mesmo avião “hondurenho”. A excursão durou apenas uma hora, mas me possibilitou confirmar que, em Cuba, nenhum tráfico de armas era feito sem o sinal verde do comandante em chefe.

Seja como for, os esforços de paz do hábil presidente da Costa Rica, Óscar Arias, levaram à assinatura do Tratado de Esquipulas II. Preparado por vários anos sob sua égide, o acordo foi assinado em 1987. Naquele ano, Óscar Arias recebeu o Prêmio Nobel da Paz. Esse tratado foi progressivamente dando fim a todos os conflitos da região, da Nicarágua a El Salvador, passando pela Guatemala. O acordo previa a organização de eleições na Nicarágua, que deveriam acontecer em fevereiro de 1990, três meses depois da queda do muro de Berlim e num contexto geopolítico completamente diferente, pós-Guerra Fria.

Em Havana, várias vezes ouvi Fidel expressar suas preocupações a respeito do assunto. Ele havia sido o primeiro a perceber a crescente impopularidade dos sandinistas, graças aos “conselheiros cubanos” (agentes de informação, na verdade) que posicionara ao lado do presidente Daniel Ortega. No poder havia uma década, o governo de Ortega não sofria apenas os desgastes do tempo e da guerra civil; a população criticava os dirigentes por terem se apropriado de todo o patrimônio dos Somoza e viverem confortavelmente e despreocupados com o progresso econômico dos compatriotas.

Um ano antes da organização das eleições, que os sandinistas ainda não tinham avalizado, Fidel discutiu o assunto com o chefe do Departamento América, o famoso Manuel Piñeiro, ou Barbarroja.
— Piñeiro, é preciso transmitir a nossos amigos sandinistas que me parece prudente não realizar essas eleições, pois, por tudo o que vejo, há muito a perder e pouquíssimo a ganhar… — disse-lhe Fidel no gabinete do Palacio, onde eu também estava.

A fórmula lacônica era típica de Fidel: quando comandava, não necessariamente dava uma ordem precisa, ele emitia um parecer e formulava uma simples orientação, aparentemente moderada. Mas na verdade eram ordens expressas, que ele esperava que fossem seguidas à risca.

De todo modo, daquela vez Fidel não controlava mais o processo de paz que se desencadeava na América Central. No dia 26 de fevereiro de 1990, Ortega e os sandinistas foram derrotados por Violeta Chamorro. A viúva do diretor do jornal La Prensa — assassinado pelos capangas de Somoza doze anos antes — tornou-se a primeira mulher a chegar à função presidencial com um resultado irrevogável de 55% dos votos.***

Depois da eleição nicaraguense, quantas vezes ouvi Fidel remoer essa derrota! Ele repetia a Barbarroja, chefe do Departamento América, que não tinha conseguido convencer os sandinistas a bloquear a realização de eleições livres: “Eu bem que tinha aconselhado aos sandinistas… Não foi por falta de aviso… Eu sabia que havia descontentamento popular…”. Assim que Barbarroja deixava a sala, Fidel, sozinho no gabinete e bastante irritado, fulminava-o: “Pfff, que incapaz…”.

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* “Sánchez, me traz um uisquezinho com gelo!”

** Daniel Ortega voltou ao poder em 2007, sendo o atual presidente da Nicarágua. Seu irmão Humberto deixou a política em 1995 para se dedicar aos negócios. Nomeado embaixador no Peru em 2007, Tomás Borge morreu em 2012. Jaime Wheelock preside a ONG Instituto para o Desenvolvimento e para a Democracia (IPADE). Henry Ruiz milita contra a corrupção do atual poder “orteguista”. Bayardo Arce é conselheiro econômico do presidente Ortega. Carlos Núñez Tellez morreu em 1990, em Cuba.

*** Daniel Ortega, que voltou à presidência em 2007, foi reeleito em 2011. Continua sendo um aliado de Cuba.


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