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Fernando Henrique

Certo dia de 2013, em conversa com amigos no Laboratório da Escola-de-Redes, que ficava à época em São Paulo, falávamos de um importante pensador chileno que não conseguia mais gerar conteúdo novo. Disse na ocasião que é assim mesmo: se a pessoa não parar de criar, não morre. Envelhecer é isto. E as pessoas devem ter o direito de envelhecer.

Agora algumas pessoas me mandam artigos e entrevistas de Fernando Henrique defendendo ou pelo menos sendo leniente e por demais compreensivo com Lula, Dilma e o PT. Não é de hoje que ele faz isso.

Embora seja um democrata convicto, Fernando Henrique tem uma visão e um preconceito positivo em relação às forças de esquerda ou ditas progressistas. Roberto Campos dizia que ele nunca foi um liberal, mas somente um pós-marxista e, acrescento, ele também não quis se confundir com o pensamento conservador. Ele ficou orgulhoso de ter feito uma transição civilizada e gentil ao passar a faixa presidencial para Lula. Mesmo depois do mensalão, ele continuou achando que Lula era uma importante liderança, uma espécie de patrimônio do país. Ele achou (e pelo visto continua achando) que Dilma é uma mulher honrada. E ele é contra a extinção do registro do PT porque julga que esse partido é parte da vida nacional e desempenha um papel construtivo para o fortalecimento da nossa democracia.

Claro que ele nunca entendeu que Lula é um bandido, que Dilma é uma vigarista e que o PT é uma organização criminosa, mas não por falta de inteligência e sim porque chegar a essa conclusão o obrigaria rever a visão de uma vida.

Fernando Henrique deu sua contribuição à democracia brasileira, antes e durante seus dois mandatos presidenciais e deve ser respeitado por isso. Seu governo não foi hegemonista, não perseguiu desafetos, não degenerou a institucionalidade (pelo contrário, fortaleceu-a) e não violou no atacado a legalidade. Em contrapartida, foi perseguido e demonizado por Lula e pelo PT como malfeitor universal e uma espécie de inimigo da espécie humana. Resistiu com serenidade a esses ataques sórdidos e cumpriu bem o seu papel de estadista, de presidente e de ex-presidente.

Agora, no ocaso da vida – para o qual todos nós, mais cedo ou mais tarde, caminharemos – não se deve dele exigir que acerte naqueles temas, ligados à suas concepções, sobre os quais nunca acertou muito quando estava mais ativo.

Este é o meu depoimento sobre a trajetória desse bom democrata do século 20. Posso fazer tal reconhecimento sem endossar suas opiniões e sem hostilizá-lo.


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