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Filipe Martins, um meliante ideológico na alta assessoria de Bolsonaro

Examinemos a postagem do meliante ideológico, um dos principais seguidores de Olavo de Carvalho e alto assessor presidencial, chamado Filipe Martins. Ele dividiu seu discurso em 9 tweets: uma thread (também chamada agora de “fio”) expelida na hora do almoço de ontem, sexta-feira, 22 de março de 2019.

Veremos que o que ele propõe não é dar seguimento institucional a uma troca democrática de governo e sim usar o governo conquistado eleitoralmente para propor uma mudança de regime. O que esse rapaz desmiolado e analfabeto democrático está propondo é uma insurreição para empalar as instituições da República e permitir uma revolução para trás (a revolução olavista). E ele é tão jejuno em política que não tem nem o cuidado de esconder a verdadeira intenção autocrática do grupo a que pertence.

1. Há uma flagrante tentativa de isolar a ala anti-establishment do Governo Bolsonaro, lançando sobre ela uma série de adjetivações maliciosas e de acusações infundadas que não cumprem outra função senão a de torná-la tóxica e mal-vista pelas outras alas que compõem o governo.

Quer dizer que o governo tem “alas”? Quer dizer que a “ala” que ele representa – a “ala” bannonista-olavista – está travando uma luta interna com as outras “alas”? Quer dizer que a autoridade do chefe de governo não se impõe às suas diferentes “alas”? Pior. Esse sujeito declara que sua “ala” é anti-establishment. Ora, o governo é o centro do establishment em qualquer regime, democrático ou não. Quer dizer que sua “ala” (a dos conspiracionistas-antiglobalistas e anticomunistas macarthistas) é contra o governo, ou está se aproveitando de Bolsonaro como uma espécie de Cavalo de Troia para poder contrabandear, a partir da sua liderança e da posição conquistada eleitoralmente, suas propostas antidemocráticas para a cena pública?

2. Fazem isso porque sabem que essa é a maneira mais eficaz de quebrar a mobilização popular que tornou possível a vitória de um candidato outsider — sem alianças com os donos do poder e sem recursos além de uma multidão de apoiadores — e que é capaz de fazer prosperar o seu governo.

Foi o olavismo que gerou a mobilização popular que levou Bolsonaro ao governo? Quantos olavistas havia nos quase 58 milhões – menos de 40% dos eleitores aptos a votar – que escolheram Bolsonaro? Não foi o medo da volta do PT ao governo, o medo da escalada da insegurança, a revolta com a corrupção (instrumentalizada politicamente pelo lavajatismo) que, majoritariamente, produziram circunstancialmente tal resultado?

3. Fazem isso também por saber que as principais propostas do governo — na economia, na justiça, na política e em todas as outras áreas — representam desafios claros e frontais ao poder estabelecido, às oligarquias dominantes, ao sistema de privilégios e ao sindicato do crime.

Ué! Quais são essas propostas do governo? E de qual poder estabelecido fala esse cidadão? Bolsonaro não venceu as eleições, levando consigo também parte dos candidatos a governadores, senadores e deputados? E esse “sistema de privilégios” não inclui as grandes corporações de procuradores, juízes e militares, ora alinhados ao bolsonarismo? Falemos entretanto desse “sindicato do crime”. Os milicianos próximos da família Bolsonaro fazem parte desse sindicato (inclusive vários funcionários parlamentares de Jair e de seus filhos, com destaque para o Queiroz)? E a “banda podre” da polícia, que votou em peso em Bolsonaro e fez sua campanha, faria também parte do “sindicato do crime”?

4. Assim, tentam vender p/ a equipe econômica a ilusão de que é possível romper com o sistema patrimonialista que existe há 500 anos, desde as Capitanias Hereditárias, por meio da cooperação ativa com os oligarcas e sem romper com a forma convencional de fazer política no Brasil.

5. Fazem isso porque sabem que a única forma da equipe econômica conseguir o que quer, e refundar a economia brasileira em bases liberais, é recorrendo à enorme mobilização popular que só a agenda de idéias e valores da ala anti-establishment do governo é capaz de liberar.

Quer dizer que Paulo Guedes faz parte da “ala” anti-establishment? E também o presidente do Banco Central? Mas aqui há uma coisa mais curiosa. Ele acha que não há jeito de fazer nada “sem romper com a forma convencional de fazer política”. Ele quer uma forma não-convencional? Como isso seria possível sem violar a Constituição? Então o alto assessor presidencial afirma que só a agenda ideológica da tal “ala anti-establishment” é capaz de liberar a mobilização popular sem a qual a agenda econômica não vai ser implantada. O que essa “ala” antigoverno homiziada taticamente dentro do governo eleito (que quer transformar num bunker) está fazendo para aprovar, por exemplo, a reforma da Previdência? Ele acha que vai ser possível aprová-la a partir das “macacas de auditório” dos Bolsonaro nas mídias sociais, sem fazer política no Congresso? Ele acha que vai conseguir empurrar goela abaixo do parlamento o que bem entender, conclamando o povo para ocupar as ruas e praças com cartazes do tipo “Olavo tem razão”?

6. Do mesmo modo, tentam vender para a equipe do Ministério da Justiça a ilusão de que representantes da velha política e membros da elite oligárquica que se beneficiam dos esquemas da corrupção e do crime organizado vão aprovar o pacote anti-crime, desde que haja diálogo.

Ôpa! Então o tal pacote de Moro é para ser aprovado sem diálogo? Como isso será possível numa democracia? Através do linchamento virtual (e, quem sabe, físico) dos parlamentares? Vai haver um insurreição popular para ameaçar e amedrontar os parlamentares e suas famílias? Vão depredar suas residências? Vão persegui-los nas vias públicas, arrancá-los de seus automóveis, vaiá-los em restaurantes, cinemas e teatros, quem sabe alvejá-los com ovos e tomates? Ou será com tiros?

6. O establishment também tenta promover essa perspectiva porque sabe que sem um apoio popular massivo, destravado sobretudo pela ala anti-establishment do governo, não será possível manter a Operação Lava-Jato e muito menos quebrar a espinha dorsal do crime organizado.

Por que “um apoio popular massivo” seria “destravado” pela tal “ala anti-establishment”? O que está travando esse apoio? E qual o segredo do mecanismo de destravamento que os olavistas conhecem e não contam para ninguém? Este tweet é particularmente importante porque revela que a manutenção da Operação Lava-Jato é parte da estratégia de detonar o establishment por dentro. Qual a espinha dorsal do crime organizado que esse sujeito quer quebrar? Ele está falando, presume-se, dos que resistem ao pacote anti-crime de Moro no parlamento (a quem cabe aprová-lo), não, por certo, do PCC, do Comando Vermelho ou dos Amigos dos Amigos. Então ele está dizendo, por vias transversas, que quem não concorda com o bolsonarismo e o lavatismo faz parte do crime organizado. Em uma democracia, isso seria motivo para demissão sumária desse malfeitor.

7. Essa situação revela a urgência de uma coordenação efetiva entre as diferentes alas do governo p/ trazer o apoio popular p/ dentro da equação, de modo que o povo tenha um papel ativo na proteção da Lava-Jato, na promoção das reformas econômicas e na quebra da velha política.

Bem… a via pressuposta aqui é a insurrecional. Ele quer unir (construir com urgência uma “coordenação” para) as diferentes “alas” do governo para conclamar um levante popular contra as instituições do Estado democrático de direito. Ele quer quebrar a velha política, ou seja, se desvencilhar dos políticos inimigos e isso logo após uma eleição que renovou o parlamento? E a vontade dos eleitores não é “apoio popular”? Só as massas mesmerizadas e sublevadas pelo populismo-autoritário de Bolsonaro representariam a vontade popular. A vontade popular é bolsonarista ou não é legitimamente popular. E os 90 milhões (a maioria) que não votaram em Bolsonaro, são o quê? Não são povo brasileiro? São inimigos internos?

8. O instinto mais primordial da política é o da sobrevivência. Afinal, quem se move por interesses compreende melhor do que ninguém que o primeiro interesse é o de manter-se no jogo e continuar em posição de buscar seus outros interesses; o de continuar vivo politicamente.

9. E a única forma de ativar a lógica da sobrevivência política é por meio da pressão popular, por meio da mesma força que converteu a campanha eleitoral do PR Bolsonaro em um movimento cívico e tornou possível sua vitória. É necessário, em suma, mostrar que o povo manda no país.

Ora… o que o sujeito está dizendo, na cara dura, é o seguinte. Como os políticos fazem qualquer coisa para sobreviver politicamente, trata-se então de ameaçá-los, jogar contra eles a turbamulta vil dos bolsonaristas, para vergá-los, quebrar sua espinha tornando-os obedientes às vontades do Führer, que, por sua vez, será devidamente teleguiado pela ala bannonista-olavista à qual pertence o irresponsável tuiteiro.

Este artigo não precisa de conclusão. Só fizemos as perguntas certas. Já estava tudo dito. Pelo próprio Filipe Martins. Em qualquer país civilizado do mundo seria motivo para demissão. Uma pessoa em tão alta posição de assessoramento político não pode pregar o fim do governo eleito legitimamente para transformá-lo em outro tipo de ente de razão (uma entidade bolsonarista que não foi eleita por ninguém).


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