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Flávio Rocha: inexperiência democrática aliada à incapacidade de análise política

Experiência democrática e capacidade mínima de análise política são fundamentais para quem quer se aventurar na política. Vejam agora esse dono da Riachuelo, o tal Flávio Rocha, que, na falta de encontrar uma categoria analítica adequada, acusou Jair Bolsonaro de ser de esquerda. Disse ele:

“Bolsonaro é o único que está nadando de braçada na onda conservadora, mas que é de esquerda na economia porque ele é estatizante antes de mais nada”.

Ora… o estatismo é comum aos autocratas que se dizem de esquerda ou de direita. Ditadores de esquerda (como Stalin, Mao ou Castro) e ditadores de direita (como Franco, Salazar, Videla ou Médici) foram estatistas. Adotar a velha divisão esquerda x direita também não ajuda a entender a configuração das forças políticas presentes no mundo atual (Recep Erdogan e Viktor Orban também seriam de esquerda?). O estatismo é um comportamento político e não um conjunto de opiniões sobre o papel do mercado e sobre o padrão de relação entre Estado e mercado. Isso não basta. É preciso saber qual o comportamento das forças políticas no que diz respeito ao papel da sociedade e ao padrão de relação entre Estado e sociedade.

Como já foi dito no artigo Os diferentes adversários da democracia no Brasil:

O estatismo é um comportamento político que se caracteriza por uma desvalorização da racionalidade da sociedade (julgada, não raro, inexistente ou apenas um epifenômeno) em relação à racionalidade do Estado (para o estatismo a sociedade é uma espécie de dominium do Estado, quase no sentido feudal do termo) e por uma desconfiança na capacidade de autorregulação do mercado (e da própria sociedade). Assim, o estatismo é um estadocentrismo. Mas o problema (que os adeptos das doutrinas do liberalismo-econômico não percebem) é que o estatismo não se opõe apenas ao mercadocentrismo (a atribuição ao mercado de um papel regulador não só da economia, mas da sociedade: o que é um transbordamento ou um deslizamento da regulação que funciona em um campo de eventos para outro campo de eventos, regidos por lógicas distintas) e sim à autonomia da sociedade, à sua subsistência por si mesmo, com racionalidade própria (e não derivada ou emprestada do Estado ou do mercado) e é por isso, fundamentalmente, que todo estatismo é antidemocrático: não porque seja contra uma impossível regulação mercantil da sociedade (já que é a economia que tem ser de mercado, não a sociedade) e sim porque é contra uma regulação social (ou societária) da sociedade. Sem uma regulação social da sociedade não poderia ter surgido a democracia, de vez que a polis não era a cidade-Estado e sim a koinonia (a comunidade) política e que a polis – como sacou genialmente Johannah Arendt (1958), em A condição humana – não era Atenas (a entidade abstrata, o Estado) e sim os atenienses (a rede concreta de pessoas que geraram a democracia por meio das suas conversações na Agora, uma praça publicizada, tornada, pela interação dos atenienses livres, um espaço público, quer dizer, não privatizado pelo autocrata). Os que acham que só a partir do Estado se pode promover transformações na sociedade são estatistas (no sentido político do termo). O mesmo vale para os que exaltam e reificam a noção de nação (já que quase todas as nações contemporâneas são Estados-nações). Assim, a questão do estatismo, antes de ser um tema econômico, é matéria da política. O estatismo, em termos estritamente políticos, é um comportamento (político) que não se caracteriza apenas, nem principalmente, pelo fato do Estado se meter na economia. A questão central, para a democracia, é o padrão de relação Estado-sociedade e não o padrão de relação Estado-mercado. Isso, por certo, é também muito importante, mas não pode elidir a questão central. Estatistas, em termos políticos – convém repetir – pensam que cabe ao Estado promover transformações na sociedade, conduzir a sociedade, educar a sociedade. Resumindo: o estatismo é definido como um tipo de comportamento político conforme a uma visão estadocêntrica do mundo que não reconhece, para além do Estado, a autonomia – e, em alguns casos, a legitimidade – de outros modos de agenciamento, como o mercado e a sociedade civil, as comunidades glocais e as redes (mais distribuídas do que centralizadas) de pessoas.

Pois bem. Segundo a Folha de S. Paulo, Flavio declarou:

“A gente precisa de um Reagan ou de uma Thatcher, alguém que seja liberal na economia e conservador nos costumes. É isso que o povo está pedindo muito”.

A democracia precisa de liberais na política, não apenas na economia. Sim, a cultura predominante é conservadora, como o é toda cultura. Mas isso não significa que haja uma relação direta entre esta cultura e a vontade política coletiva, ou seja, entre as opiniões privadas dos cidadãos sobre temas como deus, religião, pátria, nação, família, sexualidade e outros análogos e a opinião pública sobre como deve ser organizada a sociedade e sobre quem deve governar e de que maneira. A opinião pública é a matéria-prima da política democrática, não as convicções de foro íntimo da maioria dos cidadãos. Se fosse assim deveríamos defender a pena de morte, a discriminação da homossexualidade, o ensino obrigatório da religião cristã nas escolas e tantas outras opiniões conservadoras compartilhadas pela maioria da população. É incontestável que opiniões autoritárias contam com o apoio da maioria da população. Mas opinião pública não é a soma das opiniões privadas da maioria: se fosse, não poderia haver democracia.

O papo de Flávio Rocha está parecendo o de um pré-candidato. Recentemente ele fundou um movimento chamado Brasil 200 anos. Agora está deixando clara a sua diferença com Bolsonaro, para disputar no mesmo campo (dito de direita). Tá meio com cara de MBL.

Estamos aqui especulando no campo dos futuríveis. Claro que Flávio Rocha seria preferível a Bolsonaro. E preferível a qualquer candidato do campo autocrático (seja Lula ou um seu preposto, Ciro, Marina, Manuela ou Boulos). Mas esse papo de querer ser o representante da direita (inventando a inverossímil categorização de que Bolsonaro seria de esquerda) é forçação de barra: não cola. Além do que ele só seria uma alternativa se tivesse condições reais de quebrar a polarização entre dois candidatos do campo autocrático. Do contrário, permanecerá na mesma condição de representante presuntivo do liberalismo-econômico, como um João Amoedo (que, também tem um ideário liberal-econômico, mas pelo menos não insiste tanto nessa bobagem de se dizer de direita).


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