in ,

Forças políticas em disputa no Brasil atual

Lê-se na imprensa que “sob gritos de “Lula Livre”, sete partidos de esquerda lançaram na manhã de ontem, quarta-feira, 18, um manifesto pela “democracia, soberania nacional e direitos do povo brasileiro”. Embora o ato não signifique uma aliança no primeiro turno da eleição presidencial, a tendência é que o bloco formado por PT, PDT, PSB, PCdoB, PSOL, PCB e PCO se transforme em uma frente no segundo turno contra o que hoje declararam inimigo em comum: o crescimento da direita”. Esta é a introdução da matéria publicada no site do UOL, de 18/04/2018, intitulada Partidos de esquerda lançam manifesto e ensaiam discurso eleitoral conjunto.

Ora… quer dizer que o PSB, que pensa lançar à presidência o estatista iliberal Joaquim Barbosa, também está neste saco de gatos? Sabe-se que os líderes do PSB, em sua maioria, são contra o liberalismo, o conservadorismo e as reformas. Quem estava presente ao seu último congresso e ouviu os discursos pode atestar. Por que Joaquim Barbosa procurou logo esse partido para se filiar? Ele concorda com isso? Se não, como será candidato com uma plataforma que contraria o que pensam os dirigentes do seu próprio partido? Será ele um candidato de direita?

Sim, porque, para a esquerda, tudo que não for esquerda é inimigo e chamado de direita. Quem não se render à esquerda é automaticamente colocado na direita. É claro que o esquema interpretativo esquerda x direita (inventado pela esquerda e comprado tolamente pelos que aceitam ser chamados de direita porque são contra a esquerda, engolindo a baba marxista) não dá conta de caracterizar as forças políticas em disputa no Brasil atual. O mesmo vale para vetustas caracterizações como a de socialdemocrata (mantida pelos que não se desvencilharam do marxismo e vivem ainda a nostalgia do socialismo) – e que são, no fundo, iliberais (no sentido político do termo, não apenas, nem necessariamente, no econômico) e, portanto, estatistas em alguma medida.

Temos hoje no Brasil, do ponto de vista da democracia, dois campos de atores políticos: o campo autocrático e o campo democrático. Vejamos como se compõem.

NO CAMPO AUTOCRÁTICO

1 => Os neopopulistas (lulopetistas) que usam a democracia contra a democracia e querem voltar ao poder (e que ainda hegemonizam os setores ditos de esquerda – alguns, inclusive, claramente antidemocratas – como estamos vendo na matéria citada acima sobre o embrião de uma frente antidireitista). Os articuladores desse projeto insistirão até onde der na candidatura de Lula e, depois, na de qualquer um do mesmo campo que tiver mais chances: seja alguém do PT, como Haddad ou Wagner, seja Ciro Gomes – que é um nacionalista autoritário (quer dizer, um estatista iliberal). Candidaturas comunistas (antidemocráticas), como a de Guilherme Boulos (PSOL), de Manuela d’Ávila (PCdoB) e Aldo Rebelo (ex-PCdoB, agora Solidariedade) – e outras menores, como a do PSTU, do PCO, do PCB se houver, quem sabe do PPL – também gravitam em torno do projeto neopopulista iliberal;

2 => os populistas-autoritários (ditos de direita), representados por Bolsonaro, que também usam a democracia contra a democracia (conquanto boa parte dos fanáticos bolsonaristas seja composta mesmo por atores antidemocráticos) e se dizem nacionalistas, quer dizer, estatistas e iliberais (ainda que possam se declarar, por razões de marketing eleitoral, liberais no sentido econômico do termo);

3 => os moralistas-autoritários (os jacobinos e punitivistas que instrumentalizam politicamente o combate à corrupção para demonizar a “classe política” ou fazer, a partir do Estado, com o apoio da sociedade, a antipolítica robespierriana da pureza – confundindo a corrupção com motivos estratégicos de poder, praticada pela organização política criminosa que comanda o PT, com a corrupção tradicional da política, praticada por quase todos os partidos (e misturando propositalmente caixa 2 com propina) – e que podem apostar em candidaturas iliberais, como a de Joaquim Barbosa ou, se não houver alternativa, de Marina Silva – uma remanescente das franjas do projeto neopopulista).

NO CAMPO DEMOCRÁTICO

4 => Os populistas não-autoritários (tradicionalmente demagógicos) representados pela maior parte da chamada “classe política” – fisiológica e, em grande medida, corrupta – que não têm, entretanto, motivos para rejeitar a democracia ou para usar a democracia contra a democracia (na medida em que essa “classe” é integrada por atores políticos que fizeram da política democrática formal sua profissão) e que ensaiam candidaturas governistas como a Temer ou de Meirelles;

5 => os democratas formais estatal-democratas, como os do PSDB e do Podemos, que tentarão fortalecer a candidatura de Alckmin (ou, se houver algum acidente de percurso, de João Dória) ou de Alvaro Dias (eventualmente podem se situar nesta categoria – ou na categoria anterior, a divisão aqui é nebulosa – os representantes do DEM);

6 => os democratas formais não-estatistas, liberais no sentido econômico do termo, que defendem candidaturas alternativas como as de João Amoedo e Flávio Rocha (ainda que estes dois sejam muito diferentes entre si, ambos são liberais-econômicos, sendo que o segundo é considerado mais conservador nos costumes, mas a questão, para os democratas, não é ser liberal ou conservador nos costumes, mas ser liberal em política e não apenas em economia: a democracia convive bem com conservadores nos costumes, desde que sejam liberais em política);

7 => os democratas substantivos, democratas propriamente ditos (incluindo os inovadores democráticos), liberais no sentido político do termo, que são (como sempre foram) uma extrema minoria, não têm nenhum representante próprio concorrendo à presidência e apostarão em qualquer candidatura do campo democrático com chances de quebrar a polarização entre dois representantes do campo autocrático.

Para entender melhor as razões da classificação das forças políticas exposta acima, confira o ensaio Os diferentes adversários da democracia no Brasil ou o resumo Uma classificação das forças políticas no Brasil do ponto de vista da democracia.


Democracy Unschool é um ambiente de livre investigação-aprendizagem sobre democracia, composto por vários itinerários. O primeiro itinerário é um programa de introdução à democracia chamado SEM DOUTRINA. Para saber mais clique aqui

Deixe uma resposta

Loading…

Deixe seu comentário

Algumas razões para os que não gostam de política se ocuparem com a política

The Age of Insecurity: Can Democracy Save Itself?