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Há um fenômeno social, ainda inexplicado, na ascensão do bolsonarismo

No artigo A democracia diante da bifurcação comecei a interpretar, de um ponto de vista social, o fenômeno da ascensão do bolsonarismo. Antes, ainda no calor do movimento dos caminhoneiros, escrevi no artigo As novas elites econômicas do Brasil profundo estão abolindo suas velhas elites políticas num sentido que não é o da democracia:

O Brasil se acostumou às transições “pelo alto”. Mas há um novo fenômeno que é a questão da transição política (“por baixo”) que está ocorrendo (já há algum tempo) e não estamos vendo. Não se trata mais de um Brasil atrasado versus um Brasil avançado. Parte significativa do Brasil atrasado politicamente não é mais atrasado economicamente: tem recursos suficientes (inclusive intelectuais) para articular alternativas e, inclusive, como vimos, para parar o país (com a leniência ou a conivência das forças de segurança). E podem, sim – dependendo das circunstâncias do momento – contar com o apoio da maioria da população.

No dia 18 de junho de 2018, em artigo em O Globo, intitulado A religião dos empresários, Demétrio Magnoli revela que também percebeu que nosso “capitalismo de faroeste” se inclina perigosamente para Bolsonaro.

Mas o fenômeno está longe de atingir apenas as franjas do setor empresarial.

A questão é que os analistas, em sua maioria, não começaram sequer a entender o problema. Querem analisar o fenômeno (sim, é um fenômeno próprio de uma sociedade interativa, com meios digitais amplamente disponíveis via telefone celular, como o Facebook, o Twitter e, sobretudo, o WhatsApp) do ponto de vista eleitoral. Mas ainda que Bolsonaro também possa ser encarado como um fenômeno eleitoral, o bolsonarismo vai muito além disso.

Bolsonaro é um oportunista-eleitoreiro, um populista-autoritário, por certo, mas o bolsonarismo, não. A refração política do fenômeno social aponta para uma força claramente antidemocrática, diferente das vias populistas, sejam consideradas de esquerda ou de direita, inclusive da via neopopulista adotada pelo lulopetismo.

Sim, há um fenômeno político envolvido. O crescimento da chamada “nova direita” autocrática, no mundo e no Brasil – destacando-se, neste caso, a pregação ideológica, de mais de uma década, de malfeitores como Olavo de Carvalho. Sim, o bolsonarismo poderia ter surgido independentemente do olavismo, mas não teria um caráter jihadista tão belicoso, sem a sua continuada pregação autocrática. O componente de “comando de caça aos comunistas”, ainda na vibe da guerra fria, foi introduzido, em grande parte, por esse delinquente político e seus sequazes. Basta fazer uma rápida enquete com os militantes bolsonaristas mais assanhados, que cumprem o papel de hubs em sua rede descentralizada: uma parte não desprezível deles declara, com orgulho, que leu algum livro do Olavo. E só.

Bolsonaro é uma coisa. O bolsonarismo é outra. O que há de projeto ideológico-político substantivo (ainda que maligno para a democracia) no bolsonarismo é puro olavismo. Assistam este vídeo (uma conversa recente entre o tal príncipe Luiz Philippe de Orleans e Bragança e Olavo de Carvalho) em que fica claro uma estratégia política muito além do fenômeno eleitoral Bolsonaro.

Como fenômeno social, porém, o bolsonarismo não é a repetição de nada que já tivéssemos visto no Brasil. Comecemos pela topologia da sua rede, que não é centralizada, muito menos distribuída e sim descentralizada (quer dizer, multicentralizada e mais centralizada do que distribuída, i. e., hierárquica). Existem hubs. O Estado-Maior de Bolsonaro (comandado por sua famiglia) alimenta diariamente esses hubs com material simples de campanha, narrativas, respostas-padrão para serem replicadas, memes de defesa e ataque. É uma campanha com forte capilaridade social em certos meios.

Verificando os perfis, nas mídias sociais, dos bolsonaristas, pode-se notar alguns traços típicos, identitários, que se repetem com mais frequência (claro que isso é fruto de observação sistemática, porém informal, não exatamente de uma pesquisa científica). E examinando a fala bolsonarista constata-se que também ela se repete, dentro de um repertório limitado de alegações. Vamos analisar estes dois aspectos.

A BASE SOCIAL DO BOLSONARISMO

Quanto ao primeiro ponto, pode-se destacar que, embora Bolsonaro tenha admiradores em todos os estratos comumente considerados em pesquisas de opinião: região do país, idade, escolaridade, renda média familiar, sexo, ocupação etc., há clara concentração de bolsonaristas em alguns clusters (lato sensu). O vídeo abaixo, da VICE Brasil, ilustra tal afirmação (e pode ser assistido agora, porque é curto):

Encontramos, via de regra, entre os militantes full bolsonaristas (não necessariamente nos eleitores de Bolsonaro), jovens de baixa classe média (muitos dos quais votaram em Lula como um salvador, imaginando que ele iria resolver todos os seus problemas), policiais militares e civis, cabos, sargentos e a oficialidade inferior das forças armadas, empregados e donos de clubes de tiro, seguranças de boate e casas de show, torcedores fanáticos ou organizados de clubes de futebol (aqui há grande concentração), donos e frequentadores de academias de fortinhos, grupos de guerra de periferia (chegados a um coturno, darks, carecas e outros orcs), galera que gosta de motos e carros (e que anda de óculos escuros), pequenos e médios empreendedores urbanos e rurais revoltados com os governos (ou com o Estado), incluindo também uma parte do agronegócio emergente (sobretudo no Centro-Oeste), caminhoneiros e demais condutores de veículos avessos ao sindicalismo controlado pela esquerda, pais e mães de família de periferia, em geral religiosos, preocupados com a segurança, com a marginalidade e as drogas que podem ceifar ou desgraçar a vida de seus filhos,

É uma base social imensa, cujos preconceitos já existiam, decantados, como a lama do fundo do poço da cultura patriarcal, mas que nunca tiveram – pelo menos na escala atual – expressão política (ou seja, não eram sujeitos políticos e não estavam incluídos no debate público e agora estão).

No dia 20/07/2018, Onyx Lorenzoni (DEM-RS), articulador de Bolsonaro no Legislativo, disse ao blog do Josias de Souza coisas como:

“Ele tem um impressionante volume de apoiadores na faixa etária dos 16 aos 24 anos. Essa gurizada realiza um trabalho muito forte na internet. Coisa espontânea, voluntária. É uma verdadeira guerrilha virtual a favor do Bolsonaro. Defende o candidato de forma apaixonada. Isso tem e continuará tendo um poder muito grande na campanha. Até a eleição passada, alguns partidos ainda gozavam de credibilidade. Hoje, a sociedade não acredita em nenhum partido tradicional. As pessoas tendem a desacreditar de qualquer coisa que venha dos partidos políticos”.

No dia 26 de julho de 2018, Major Olímpio, cabo eleitoral de Bolsonaro em São Paulo, disse à repórter Josette Goulart, da Revista Piauí:

“Este é meu Exército silencioso”, se referindo às centenas de grupos que coordena no WhatsApp. Ele estima que a legenda terá apenas 8 segundos na tevê por dia. Em razão disso, se diz obrigado a apostar todas as fichas na teoria que as redes sociais vencerão as eleições. De acordo com seus cálculos, em poucos minutos eles conseguem atingir diretamente cerca de 1 milhão de pessoas. Se ampliarem a comunicação para as demais redes sociais, o potencial da distribuição de mensagens aumenta exponencialmente”.

Os ingredientes culturais preconceituosos, muitas vezes avessos aos direitos humanos e aos direitos das minorias, à diversidade de costumes e modos-de-vida, são os mesmos de sempre (e são majoritários, não minoritários, na população brasileira – a ponto de alguns delirantes analistas proclamarem que “o povo é de direita”, quando, é claro, é apenas conservador): a crença num deus (capaz de intervir na história), a exaltação da noção de pátria (e patriotismo) e de nação (como comunidade de destino), o primado da família (monogâmica), a valorização das ideias de ordem (acima da liberdade) e de hierarquia, disciplina, obediência e fidelidade impostas top down.

E além disso há o moralismo, a elevação da honestidade como um valor superior à democracia (ou no seu lugar). O bolsonarismo aproveitou-se da onda popular de indignação com a corrupção política e instrumentalizou politicamente a operação Lava Jato a seu favor. Basta ver que das centenas de grupos fundados no Facebook, com o propósito de combate à corrupção ou de apoio à Lava Jato, hoje a imensa maioria é bolsonarista.

Ora, defender valores e costumes tradicionais, numa perspectiva conservadora, é válido na democracia. Nisso tem razão Fernando Shüler, no seu artigo de 8 de agosto de 2018, na Folha de São Paulo, intitulado Bolsonaro, democracia e o senso comum ao dizer “que o ponto de vista conservador também é legítimo, tanto quanto o seu contrário. Que uma democracia é feita disso, da expressão de visões éticas divergentes sobre o mundo… [e] que conservadorismo de costumes sempre esteve por aqui, na base da cultura brasileira, mas que agora adquiriu expressão política. Uma expressão nítida e majoritária. Quase um terço dos brasileiros, hoje, é evangélico, mas o tema está longe de se resumir à filiação religiosa. 57% da população é contrária à descriminalização do aborto”.

Mas é preciso acrescentar que pregar ou praticar uma guerra (mesmo que “apenas” cultural) para preservar uma imaginária cultura ocidental-cristã já não é conservadorismo e sim reacionarismo de fundo autocrático (antidemocrático).

Tanto o conservadorismo quanto o progressismo em termos culturais são aceitos pela democracia, assim como também são aceitos o estatismo e o liberalismo em termos econômicos. Os estatismos em termos políticos, entretanto – como o neopopulismo, dito de esquerda e o populismo-autoritário, dito de direita – são adversários da democracia. Ameaçam a democracia de um modo tão ou mais perigoso do que o intervencionismo e outros golpismos contra o Estado de direito, como os revolucionarismos claramente antidemocráticos (que são minoritários no Brasil e no mundo na época atual). E muito mais perigoso do que o fisiologismo e a corrupção, que são metabolizáveis pela democracia, a menos quando a corrupção é praticada com motivos estratégicos de poder, para financiar esquemas paralelos, em geral urdidos por projetos políticos estatistas, que têm por objetivo autocratizar a democracia ou enfrear o processo de democratização (o que é o caso do PT).

RECONHECIMENTO DE PADRÕES AUTOCRÁTICOS

Quanto ao segundo ponto. Começamos a coletar frases bolsonaristas típicas (aquelas que eles mais repetem, sem pensar, como se estivessem dublados). O objetivo é identificar os padrões autocráticos presentes no discurso dessas falanges. Uma delas – que, de certo modo, sintetiza a mensagem – já foi analisada no artigo Desvelando a mentalidade autoritária dos “camisas preta” do capitão:

“Quem não apoia Bolsonaro desperdiça a última chance de varrer os mesmos de sempre da política. Não tem virgem na zona, nem meio termo”.

O estudo das alegações bolsonaristas mais recorrentes ainda não está pronto e será objeto de um novo artigo. Mas já se pode listar, preliminarmente, algumas pérolas.

Comecemos com uma lista de 40 motivos, que está sendo replicada por fãs do mito nas mídias sociais, tentando resumir as razões pelas quais se deve votar em Bolsonaro:

1 – Pabllo Vittar deixará o Brasil caso Bolsonaro seja eleito Presidente 
2 – O Lula odeia ele
3 – A Dilma odeia ele
4 – A Maria do Rosario odeia ele
5 – O Jean Willys odeia ele
6 –  O Ciro Gomes odeia ele
7 – O PT e o PSDB odeia ele
8 – O Aécio odeia ele
9 – O PSOL odeia ele
10 – O STF odeia ele
11 – A GLOBO odeia ele
12 – A RECORD odeia ele
13 – O FHC odeia ele
14 – Ele é cristão
15 – É militar
16 – É honesto
17 – Fala a verdade doa a quem doer
18 – É armamentista
19 – Defende a família e os bons costumes
20 – É contra a legalização das drogas
21 – É de direita
22 – Tem os melhores projetos para segurança pública
23 – É a favor da diminuição da maioridade penal
24 – É totalmente contra o fim da PM
25 – É contra a legalização do aborto
26 – Defende um País com mais setores privados e menos estado
27 – Menos interferência do estado na vida das famílias
28 – É a favor do aumento de pena para menores e castração química para estupradores
29 – Apoia o fim do MST e sindicatos pelegos e subservientes
30 – É contra a ideologia de gênero e kit gay nas escolas
31 – É contra a lei de migração
32 – É contra o bolivarianismo
33 – O único que tem ideias para geração de empregos, usando os minérios que existem em abundância no Brasil
34 – Projetos pra criar excludentes de ilicitude, com objetivo de proteger o cidadão de bem e a policia
35 – Nunca teve seu nome envolvido em corrupção
36 – É a favor de trabalho forçado pra criminosos
37 – É contra doutrinações nas escolas
38 – Contra a implantação de religiões anti-cristãs nas escolas
39 – Esta preocupado com as escolas e hospitais, não com presídios
40 – Não vai sustentar ONGs que defendem a bandidagem.

E são bastante recorrentes alegações como as seguintes:

“Temos que erradicar o comunismo do nosso país antes que viramos uma Venezuela”.

“Quem não apoia Bolsonaro é petista, lulista, esquerdista ou comunista”.

“Ele só não ganha as eleições se as urnas forem manipuladas”.

“As pessoas de bem estão desarmadas”.

“Bolsonaro porque não há alternativa. A inteligência tem que se sobrepor ao preconceito. O Brasil precisa tomar um choque de ordem. Os outros todos são socialistas e não há nada mais LETAL do que o socialismo. É a mais dissonante ideia do bem comum desde que comum não signifique em favor dos governantes”.

“Não votar em BOLSONARO é ser conivente com os canalhas acampados na barraca do congresso nacional. Ou então votar nos comunistas que são todos os outros, uns CIRUrgicamente disfarçados de liberais”.

“Remédio amargo, difícil de tomar, cheio de contra-indicações e efeitos colaterais. Mas não tem jeito, vai ser Bolsonaro mesmo”.

“É o único capaz de combater o globalismo”. 

“Cara, sou do tempo que aluno respeitava professor, Pai, mãe e vizinho. Hoje nem os pais respeitam. Sou do tempo de pedir benção, e hoje filho mal dá atenção para família. Sinta falta disso”. 

“No país mais democrático do mundo a sociedade se divide em Democratas e Republicanos, no Brasil existe a jabuticaba de centro que só os oportunistas chupam. Não há como nos livrarmos da hegemonia comunista sem uma guinada de 180 graus, à direita! Quem afirma o contrário, mente!”.

“Estamos em guerra contra a esquerda… se ele [Bolsonaro] deixar tudo como está sem roubar nós já estaremos avançando”.

“Bolsonaro disputa pela 1a vez. Jamais se enfrentaram em uma eleição… que polarização é essa? Oito candidatos de esquerda e um de direita”.

“Sair dessa bolha comunista implantada nas escolas vai levar anos, mas vai valer a pena.”

“Ou é bolsonaro ou o Foro de SP”.

“Estou lutando todos esses últimos anos contra o Foro de SP. E vou continuar… Tem crianças na minha família. Não desejo para elas viver em um País como Venezuela, Cuba…”

“Sou mulher, cristã, conservadora nos costumes e capitalista no meu dia a dia, quero uma arma para me defender, conheço o RD e vou votar em Bolsonaro simples”.

“Eu já decidi em quem vou votar E vamos nessa, simbora… engajamento total… e agora ainda mais depois da homenagem dele ao Duque de Caxias trazendo um general pra cabine dos pilotos… Exército no Comando… vão refundar a república… #ÉbomJairseacostumando”.

“Não haverá paz sem guerra, e não haverá guerra sem danos. ‘Verás que um filho teu não foge a luta, nem teme quem te adora a própria morte…’ Eu estou pronto, e vocês?”

“Não vejo nenhum [candidato] que me agrade, mas ai vem os tempos de minha adolescência de quando tinha meus 17 anos e andava a noite nas ruas de SP e me sentia seguro mesmo quando era parado por policiais que me revistavam. Hoje não me sinto mais seguro mesmo morando em um dos melhores bairros de SP nem gosto mais de sair a noite e olha que sou fâ de restaurantes e bares aqui perto de casa, quando vou prefiro ir de táxi, meu carro está na garagem já faz mais de 10 anos = por isso vou votar no Bolsonaro“.

“Ele tem propostas para acabar com a erotização das crianças e preservar a inocência delas”.

“Ninguém vai suprimir liberdade alguma, se a pessoa é correta e honesta nada aconteceu nem vai acontecer. Tem muito cara ai que precisa entrar na borrachada“.

“Quero de volta o respeito pelas famílias. Concordo que não deva ser discutido nas escolas a ideologia de gênero. Não aceitar subornos ou se corromper… E [ser] contra o aborto.”

“Se houver segundo turno será o BEM (@jairbolsonaro) contra o MAL”.

“Sou Bolsonaro exatamente por ser ele democrático, indignado com a corrupção, bruto e rude, pois só desta forma se lida com a seita instaurada e a base da corrupção pelo modelo globalista de se nivelar por baixo e ser conhecedor dos esquerdistas…”

“O povo cansou de ser roubado pelos socialistas…”

“Ficou excelente a Chapa presidencial com um capitão e um general do Exército do Brasil. Eles carregam nos ombros a responsabilidade de representar o povo brasileiro sem destoar de Caxias e Rondon”.

“Brasil acima de tudo, Deus acima de todos!”.

Como se vê, há uma mistura de conservadorismo (legítimo), moralismo e reacionarismo (também, em parte, aceitáveis pela democracia, conquanto antidemocráticos) com perversão da política como guerra (mesmo que cultural) e incitação velada à quebra da legalidade e da institucionalidade vigentes no Estado de direito. Na recente movimentação dos donos de empresas de transporte, incorretamente chamada de “greve dos caminhoneiros” – aquela que o maluco Olavo quis transformar numa insurreição contra o Estado democrático de direito – isso ficou claro. Reproduzimos abaixo um trecho do artigo Por que o movimento dos caminhoneiros não é um swarming:

“O emocionar que tem alimentado essa perturbação no campo social é o oposto do emocionar dos swarmings, em que cada pessoa é a sua própria manifestação. Interesse (econômico e egotista) mais do que desejo. Mau-humor (e raiva) mais do que alegria. Espírito de revanche social (e vontade de vingança) mais do que comprazimento com a convivência amistosa dos que buscam novos ares (como naquele memorável 20 de junho de 2013, em que as pessoas sentaram no chão da Avenida Paulista e começaram a conversar entre si e, inclusive, com os policiais militares presentes). O emocionar é tudo.

Não. Agora é outra coisa, milícias mal-encaradas coagindo os donos de postos de gasolina para que não abasteçam seus tanques, bloqueios (nos acostamentos) ameaçando bater e matar motoristas que querem apenas trabalhar e voltar para seus lares. Ora, isso não se parece em nada com as velhas senhoras e os jovens imberbes com seus guarda-chuvas coloridos dançando na chuva em Hong-Kong (e olhem que eles estavam resistindo a algo infinitamente pior do que o combalido governo Temer, que nunca violou a Constituição: estavam afrontando diretamente a maior ditadura do planeta).

Agora estamos sendo vítimas de outra coisa, maligna e agressiva, um ataque frontal ao coração da democracia. O que temos são milícias (inclusive, algumas, armadas) apostando no caos e instrumentalizando os caminhoneiros para impor saídas antidemocráticas. Pelo simples motivo de terem descoberto que, sem o caos, em condições normais de temperatura e pressão, seu candidato não poderá sair vitorioso nas eleições de 2018″.

É impossível deixar de ver a presença de ideias políticas antidemocráticas no discurso bolsonarista, implantadas por forças políticas nacionalistas retrógradas, localistas não-cosmopolitas (composta por admiradores de Trump e do Brexit), conspiracionistas, intervencionistas, monarquistas-tradicionalistas e anti-comunistas (ainda na vibe da guerra fria dos anos 1960-90).

É possível sustentar, entretanto, que por trás das influências políticas, há um fenômeno social implicado no bolsonarismo que não se explica apenas no plano político, por exemplo, pelos desmandos do PT (e nem se explica apenas como a constelação de um oposto – formado por enantiodromia – da chamada hegemonia cultural da esquerda). O fenômeno precisa ser estudado.


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