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“Heróis matam”: a entrevista do autocrata Mourão

Aconteceu ontem a noite (07/09/2018), na Globo News, a entrevista do tal general Mourão, vice de Bolsonaro. Ficou claro que houve um recuo no estilo belicoso e adversarial da campanha bolsonarista.

O recuo foi correto, diga-se, embora meramente tático. Eles não deixaram de pensar como pensavam. Apenas deram um tempo (repito, o que foi correto).

O que não é correto é deixar de criticar as ideias antidemocráticas da chapa Bolsonaro-Mourão em nome da solidariedade à vitima de um ataque violento. Se Stalin ou Hitler, Mao ou Mussolini, Daniel Ortega ou Viktor Orban, Nicolás Maduro ou Recep Erdogan, fossem vítimas de uma facada, suas ideias autocráticas deveriam ser aceitas pela democracia? Deveriam deixar de ser criticadas por causa disso?

Não vamos confundir as coisas: o ataque condenável a Bolsonaro não pode eximi-lo de críticas. A solidariedade humana a Bolsonaro e a condenação da violência que sofreu não têm nada a ver com deixar de criticar suas propostas antidemocráticas. A crítica deve continuar: é parte essencial do processo democrático.

Mourão é um prato cheio para a análise de padrões autocráticos. Vejamos por que.

Na entrevista, Mourão não conseguiu responder perguntas básicas dos jornalistas sobre os artigos que escreveu na grande imprensa e as declarações que deu em várias ocasiões. Tentou sair sempre pela tangente.

Os bolsonaristas querem que acreditemos que suas falas antidemocráticas foram piadas (agora aprenderam o truque: quando não é piada é “metáfora”). Não foram.

Ele ameaçou os poderes democráticos com intervenção militar. Confira aqui.

Ele fez declarações depreciativas (racialistas) sobre índios e negros. Confira aqui.

Ele inculpou o PT pelo ataque a Bolsonaro. Confira aqui.

Ele afirmou que “os profissionais da violência somos nós” (e não estava se referindo ao Estado de direito e sim acusando os petistas e ameaçando-os). Confira aqui.

Ele criticou o governo Geisel (pelo viés estatista), mas enalteceu o governo Médici (sob o comando do qual – eu acuso e testemunho – a ditadura militar cometeu as maiores barbaridades no Brasil). Confira aqui.

Ele repetiu a farsa de que houve uma guerra civil no Brasil entre 1967 e 1977 (o que é mentira: havia, de fato, grupos que pegaram em armas contra o regime, mas seu contingente era ridículo). Ora, a hipótese da guerra é conveniente para quem violou direitos humanos e praticou crimes de Estado. Na guerra, insinuou ele, vale tudo. Confira aqui.

Por isso ele também não soube responder por que o torturador Brilhante Ustra deixou que morressem mais de 40 ativistas que estavam sob tutela do Estado e sob sua responsabilidade direta (e que foram mortos por ele, Ustra, ou a seu comando). Pelo contrário, elogiou o assassino e ainda o chamou de herói. Confira aqui.

Mas a frase mais significativa de toda a entrevista, proferida por esse militar autocrata, foi a seguinte: “Heróis matam”. Nisso ele acertou: heróis matam mesmo. Confira aqui.

E se amanhã, em nome da pátria, aparecerem outros desses heróis querendo nos matar?

A democracia não é o regime de heróis e sim das pessoas comuns, com todas as suas imperfeições, mas que não querem escapar da humanidade. Por isso heróis, via-de-regra, são perigosos e prejudiciais, para a democracia e para a humanidade.

Os autocratas espartanos diziam que os democratas atenienses eram indisciplinados e efeminados. Mas foram essas pessoas comuns, desobedientes, não militarizadas, de Atenas que, em reduzido número de 10 mil, venceram mais de 25 mil invasores persas na batalha de Maratona, em 490 a. C., sem qualquer ajuda dos heróis de Esparta (que negaram socorro sob pretextos religiosos: a tal “religião da pátria” – o culto do Estado – que continua até hoje servindo de base ideológica para o militarismo).

Mourão e Bolsonaro – como sacerdotes-guerreiros do ‘Senhor Estado’ – são vetores de disseminação de ideologia militarista.

O militarismo é uma excrecência. Isso nada tem a ver com a profissão militar, que deve estar subordinada ao poder civil de acordo com a Constituição. Militarismo não é ser militar. Ser militar é ser um funcionário público. Militarismo é uma ideologia autocrática, que toma o sentido da política como manutenção da ordem. Que acha que, acima dos poderes legitimamente constituídos, há um poder de facto, armado, tutelando eternamente o regime político. O bolsonarismo insufla o militarismo.

Lamentável entrevista, mais ainda pelo tom educado e moderado do entrevistado. Um autocrata aparentemente amansado é um perigo muito maior do que um autocrata exaltado.


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