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História e liberdade: epílogo do livro do Snyder “Sobre a tirania”

Epílogo do livro Sobre a tirania, de Timothy Snyder (2017)

O livrinho de Timothy Snyder (*) – apesar de desconjuntado, às vezes mal-escrito e com títulos péssimos – concentra-se no fundamental para a democracia: como evitar a tirania (o processo de autocratização). Merece ser estudado do ponto de vista do reconhecimento de padrões autocráticos. Leiam o epílogo, reproduzido abaixo na íntegra.

HISTÓRIA E LIBERDADE

Na tragédia Hamlet, de Shakespeare, o herói é um homem virtuoso que, com razão, está chocado com a ascensão súbita de um governante perverso. Perseguido por visões, abatido por pesadelos, solitário e sem ajuda, ele sente que precisa reconstruir sua noção de tempo. “0 tempo está disjunto”, diz Hamlet.

“Oh, despeito imundo, Que para endireitá-lo eu tenha vindo ao mundo!”

Nosso tempo está sem duvida disjunto, uma época sem duvida fora dos eixos. Nós nos esquecemos da historia por uma razão e, se não tivermos cuidado, haveremos de descuidar dela por outra. Teremos de rever nossa própria noção de tempo, se quisermos renovar nosso compromisso com a liberdade.

Ate recentemente, estávamos convencidos de que nada havia no futuro senão mais do mesmo. Os traumas supostamente remotos do fascismo, do nazismo e do comunismo pareciam prestes a se tornar irrelevantes. Nós nos permitíamos aceitar a politica da inevitabilidade, a ideia de que a historia só podia se mover numa direção: a da democracia liberal. Depois que o comunismo no Leste Europeu chegou ao fim, em 1989-91, nós nos impregnamos do mito de um “fim da historia”. Com isso, baixamos nossas defesas, reprimimos nossa imaginação e abrimos caminho justamente para os regimes aos quais nos prometemos nunca voltar.

A rigor, a politica da inevitabilidade parece, à primeira vista, uma especie de historia. Os políticos da inevitabilidade não negam a existência de um passado, um presente e um futuro. Admitem ate o tipo pitoresco de um passado distante. No entanto, retratam o presente apenas como um passo para um futuro que já conhecemos, um futuro de crescente globalização e crescente prosperidade. E isso que se chama de teleologia: uma narrativa do tempo que leva a uma meta segura e em geral desejável. 0 comunismo também oferecia uma teleologia, prometendo uma inevitável utopia socialista. Quando essa historia foi despedaçada, há um quarto de seculo, tiramos a conclusão errada: em vez de rejeitar as ideologias, imaginamos que a própria narrativa fosse a verdadeira.

A política da inevitabilidade é um coma intelectual autoinduzido. Enquanto havia uma disputa entre o sistema comunista e o capitalista, e enquanto a memoria do fascismo e do nazismo estava viva, os americanos tinham de prestar alguma atenção à historia e preservar os conceitos que lhes permitiam imaginar futuros alternativos. Contudo, a partir do momento em que aceitamos a politica da inevitabilidade, presumimos que a historia não era mais relevante. Se tudo no passado é governado por uma tendencia conhecida, não há necessidade de conhecer os detalhes.

A aceitação da inevitabilidade determinou a maneira como falamos de politica no século 21. Sufocou o debate politico e favoreceu o nascimento de sistemas partidários em que um partido politico defendia o status quo, enquanto o outro propunha sua negação total. Aprendemos a dizer que não havia “alternativa nenhuma” à ordem básica das coisas, uma sensibilidade que o pensador politico lituano Leonidas Donskis batizou de “mal liquido”. Assim que a inevitabilidade passou a ser aceita sem discussão, a critica de fato se tornou escorregadia. O que parecia ser uma análise critica muitas vezes presumia que o status quo na verdade não poderia mudar, e com isso o reforçava indiretamente.

Alguns se referiam criticamente ao neoliberalismo, à percepção de que a ideia de livre mercado desalojou todas as outras. Ate certo ponto isso aconteceu, mas o próprio uso da palavra era, em geral, uma reverência a uma hegemonia inalterável. Outros críticos falavam da necessidade de ruptura, recorrendo a um termo tirado da análise de inovações tecnológicas. Quando aplicado à politica, ele também traz a implicação de que nada realmente muda, que o caos que nos preocupa acabará por ser absorvido por um sistema autorregulador. O homem nu que invade um campo de futebol de fato causa uma disrupção, mas não altera as regras do jogo. Essa noção como um todo e juvenil: parte do princípio de que, depois que os adolescentes criam uma confusão, os adultos a resolvem.

Mas não existem adultos. Somos nós que temos de resolver a bagunça.

A segunda maneira anti-histórica de encarar o passado é a politica da eternidade. Tanto quanto a politica da inevitabilidade, a politica da eternidade representa um simulacro da historia, mas de um caráter diferente. Fla se interessa pelo passado, mas de uma forma egocêntrica, livre de qualquer compromisso com os fatos. Seu espirito é o de uma nostalgia de momentos gloriosos que jamais aconteceram em épocas que, na verdade, foram desastrosas. Os políticos da eternidade nos oferecem o passado como um vasto pátio enevoado de incompreensíveis monumentos à vitimização nacional, todos distantes do presente, todos igualmente suscetíveis à manipulação. Todas as referências ao passado envolvem um ataque de algum inimigo externo à pureza da nação.

Os populistas nacionais são políticos da eternidade. Seu ponto de referencia predileto é a época em que as republicas democráticas pareciam derrotadas e suas rivais nazistas e soviéticas imbatíveis: a década de 1930. Aqueles que defenderam o Brexit, a saída do Reino Unido da União Europeia, imaginaram um Estado-nação britânico, embora isso nunca tenha existido. Havia um Império Britânico, e depois a Grã-Bretanha como membro da União Européia. A saída da UE não é um passo atrás para a terra firme, mas um salto no desconhecido.

Estranhamente, quando os juízes declararam que o Brexit exigia uma votação parlamentar, um tabloide britânico chamou-os de “inimigos do povo” — um termo stalinista saído dos julgamentos-espetáculo da década de 1930. Na França, a Frente Nacional recomenda aos eleitores que rejeitem a Europa em nome de um suposto Estado-nação francês do pre-guerra. No entanto, a França, tal como a Grã-Bretanha, nunca existiu sem um império ou um projeto europeu. Os governantes da Russia, da Polônia e da Hungria também fazem acenos semelhantes para uma imagem fulgurante da década de 1930.

Em sua campanha de 2016, o presidente americano usou o slogan “Os Estados Unidos primeiro”, que foi o nome de uma comissão que procurou impedir que o pais se opusesse à Alemanha nazista. O conselheiro estratégico do presidente promete politicas que serão “tão emocionantes quanto as da década de 1930”. A que se refere o presidente quando repete a promessa de “Tornar os Estados Unidos grandes de novo”? Ele mesmo descreveu uma mudança de regime ao estilo da década de 1930 como a solução para os problemas do presente: “Sabem o que resolve isso? Quando a economia quebra, quando o pais mergulha no fundo do poço e tudo vira uma droga”. Nos precisamos, segundo ele, “de distúrbios que façam tudo voltar a ser como quando eramos grandes”.

Na politica da eternidade, a sedução de um passo mítico nos impede de contemplar futuros possíveis. O habito de concentrar-se na vitimização embota o impulso de autocorreção. Como a nação é definida por sua virtude inerente e não por seu potencial futuro, a politica torna-se uma discussão sobre o bem e o mal, e não uma discussão de possíveis soluções para problemas reais. Como a crise é permanente, a sensação de emergência está sempre presente; planejar o futuro parece impossível ou ate mesmo desleal. Como podemos sequer pensar em reforma quando o inimigo está sempre no portão?

Se a politica da inevitabilidade é como um coma, a politica da eternidade é como a hipnose: fitamos o vórtex giratório do mito cíclico até entrarmos em transe — e aí fazemos alguma coisa chocante, obedecendo às ordens de alguém.

O perigo que corremos hoje é passar da política da inevitabilidade para a política da eternidade, de uma espécie ingênua e imperfeita de república democrática para uma espécie confusa e cínica de oligarquia fascista. A política da inevitabilidade é terrivelmente vulnerável ao tipo de choque que acabou de receber. Quando alguma coisa despedaça o mito, quando nosso tempo se desajusta, corremos em busca de outra maneira de organizar o que experimentamos. O caminho de menor resistência leva diretamente da inevitabilidade à eternidade. Se você um dia acreditou que no fim tudo acaba bem, poderá ser persuadido de que nada pode acabar bem. Se você um dia não tomou uma atitude por acreditar que o progresso é inevitável, pode continuar a não fazer nada por achar que o tempo avança em ciclos repetitivos.

Essas duas posições, a inevitabilidade e a eternidade, são anti-históricas. A única coisa que se interpõe entre elas é a própria história. A historia nos permite ver padrões e fazer julgamentos. Ela esboça para nós as estruturas dentro das quais podemos procurar a liberdade. Revela momentos, cada um deles diferente, nenhum inteiramente singular. Compreender um momento é ver a possibilidade de participar da criação de outro momento. A historia nos permite sermos responsáveis: não por tudo, mas por alguma coisa. 0 poeta polonês Czeslaw Milosz considerava que essa ideia de responsabilidade atuava contra a solidão e a indiferença. A historia nos dá a companhia daqueles que fizeram e sofreram mais do que nós.

Ao abracar a politica da inevitabilidade, criamos uma geração sem historia. Como reagirão os jovens agora que a promessa da inevitabilidade foi obviamente quebrada? Talvez passem da inevitabilidade para a eternidade. Gostaríamos de esperar que eles pudessem, em vez disso, tornar-se uma geração histórica, rejeitando as armadilhas da inevitabilidade e da eternidade que gerações mais velhas puseram em seu caminho. Uma coisa é certa: se os jovens não começarem a fazer história, os políticos da eternidade e da inevitabilidade a destruirão. E, para fazer historia, os jovens terão de conhecê-la um pouco. Isso não é o fim, mas um começo.

“O tempo está disjunto. Oh, despeito imundo,

Que para endireitá-lo eu tenha vindo ao mundo!”

Assim disse Hamlet. Mas ele conclui:

“Mas, venham, vamos lá, juntos”.

(*) SNYDER, Timothy. Sobre a tirania: vinte lições do século 20 para o presente. São Paulo: Companhia das Letras, 2017. Tradução de Donald M. Garschagen.


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