in ,

Inovação na política: há ou não há? E se há, onde está?

Por que não adianta apenas fornecer carne nova para as máquinas da velha indústria de salsicha

Atribui-se a Otto von Bismarck o dito, já um tanto batido, de que “os cidadãos não poderiam dormir tranquilos se soubessem como são feitas as salsichas e as leis”. A frase não merece ser elogiada pelos democratas. Na verdade, Bismarck, um “político do poder” (campeão da realpolitik), não era um adepto da democracia. Na sua visão autocrática – que priorizava a ordem em detrimento da liberdade – a “zona” (no sentido figurado, de prostíbulo) que é qualquer parlamento, os procedimentos indevidos, a corrupção, os lobbies e as negociatas, a pouca qualificação do pessoal, a falta de um plano diretor (ou de um sistema eficiente de gestão) e de controle de qualidade das “matérias primas”, tudo isso meio que desqualificaria os procedimentos legislativos.

A democracia, no entanto, é uma aposta de que o caos é criativo, de que é melhor – quando se trata dos processos de auto-organização e dos procedimentos destinados a verificar a vontade política coletiva – os erros (ou os pecados) dos ignorantes, curvos e impuros, do que os acertos (ou as virtudes) dos sábios, retos e puros. O nome disso é politica (propriamente dita), ou seja, democracia. Quem não está sujo o suficiente tem dificuldade de entender o conceito e o processo pelo qual o conceito se realiza. Analfabetos democráticos e  mentalidades autoritárias não conseguem entender que o que salva a democracia é a bagunça. É o erro no cálculo, a falha na armadura, o defeito (ou o fantasma) na máquina. Se a máquina funcionasse perfeitamente, seguindo um programação infalível, não haveria possibilidade de mudança (quer dizer, de continuidade do processo de democratização).

No entanto, as máquinas moedoras de carne da política democrática continuam moendo, sabe-se lá como. Mudar a qualidade (ou a data de vencimento) da carne (substituindo carne velha por carne nova), não altera o produto da máquina: ela vai prosseguir fazendo salsichas.

Expressa a imagem – que já foi usada, significativamente, por Pink Floyd (1982) em The Wall –, passemos à análise.

Onde estaria a inovação na política?

Bem… em primeiro lugar é preciso saber o que é política. Aliás, a principal inovação na política foi a invenção da democracia, quer dizer, da política propriamente dita, como um modo de regulação não-guerreiro de conflitos. Inovações que afetam esse modo, sem alterar o seu “DNA”, são as que se pode chamar de inovações políticas (sim, porque se alguém autocratiza: bolivarianiza, putiniza ou erdoganiza o regime democrático, transformando-o em uma protoditadura ou ditadura, isso não pode ser considerado inovação e sim regressão). Do ponto de vista da democracia, é claro.

Portanto, a democracia reinventada pelos modernos no século 17 foi uma inovação, seja porque a democracia andava meio desaparecida, há quase dois milênios, seja porque introduziu-se a representação, a noção de império da lei e o Estado de direito, a separação e o equilíbrio entre os poderes, os mecanismos de pesos e contrapesos, a noção de que a legitimidade democrática é uma consequência da combinação de vários critérios (ou princípios), como a liberdade, a eletividade, a publicidade (ou transparência), a rotatividade (ou alternância), a legalidade e a institucionalidade.

A representação, por exemplo, não faz parte do genos da democracia. Foi uma modificação introduzida pelos modernos (a democracia dos atenienses, que vigorou de 509 a 322 AEC, era mais participativa do que representativa – e dizer isso não implica qualquer juízo de valor, nem alguma rendição à suposta inevitabilidade da delegação de poder em coletividades numerosas: a polis ateniense, no século 5, tinha mais ou menos o mesmo tamanho de nossos municípios atuais e a Ecclesia – o sujeito político coletivo da primeira democracia – chegou a reunir fisicamente milhares de pessoas).

Seria, por exemplo, uma grande inovação agora – equiparável a dos atenienses e a dos modernos – ensaiar novas formas de democracia que (sem alterar a natureza do modo de regulação) fossem, por exemplo: mais distribuídas, mais interativas, mais diretas, com mandatos revogáveis, regidas mais pela lógica da abundância do que da escassez, mais vulneráveis ao metabolismo das multidões e mais responsivas aos projetos comunitários, mais cooperativas, mais diversas e plurais (não admitindo apenas uma única fórmula internacional, mas múltiplas experimentações glocais). Estas seriam inovações disruptivas.

Claro que nem todas as inovações políticas teriam de ser assim tão disruptivas (a ponto de abrir caminho para uma terceira invenção da democracia). Pode-se inovar nos procedimentos, no formato e na dinâmica das instituições, no arcabouço jurídico-político do Estado de direito, no padrão de relação Estado-sociedade e, portanto, nos ambientes onde a democracia se aplica (não precisando a democracia se restringir a ser um modo de administração política do Estado-nação ou uma espécie de droga para domesticar o Leviatã). Mas para inovar é preciso inovar, não apenas aperfeiçoar. Não se trata de fabricar um aparelho de fax melhor e sim de inventar a fotografia digital, o scanner, o anexo do e-mail ou do WhatsApp.

Entretanto, ao contrário, em parte, do que ocorre nos meios empresariais, as inovações em política não dependem de ideias geniais de pessoas e grupos criativos, mas surgem a partir de novos padrões e dinâmicas que emergem da sociedade, quer dizer, são função do fluxo interativo da convivência social. Aliás, foi assim na Atenas da passagem do século 6 para o século 5. Não tivesse se conformado uma rede com significativo grau de distribuição na praça do mercado, não teria sido inventada pela primeira vez a democracia.

Diga-se o que se quiser dizer, os eventos mais expressivos deste século, que anunciaram e introduziram inovações na forma e no modo de fazer política, foram os grandes enxameamentos civis que ocorreram a partir de 2004 na Espanha: o 11M (aquela extraordinária manifestação, em várias cidades espanholas, a propósito da tentativa de falsificação, pelo governo de Aznar, da autoria dos atentados da Al Qaeda em março de 2004 em Madri, atribuindo-a falsamente ao separatismo basco). Nos anos seguintes, movimentações mais ou menos semelhantes começaram a surgir, quase sempre gestadas de forma subterrânea na sociedade, destoando dos padrões clássicos das mobilizações organizadas centralizadamente por hierarquias políticas e sindicais. Em 2011 esses movimentos eclodiram no que ficou conhecido como “Primavera Árabe”, começando pelo 14 de janeiro na Tunísia e o 26 de janeiro na Síria, passando pelo 2 de fevereiro no Iêmen, pelo 11 de fevereiro no Egito (dia decisivo para a queda do ditador Mubarak), pelo 14 de fevereiro do Bahrein, pelo 17 de fevereiro na Líbia, pelo 9 de março em Marrocos até voltar ao 18 de março na Síria (quando, então, Assad iniciou a guerra para matar a rede).

Outra incidência importante foi o 15M espanhol (que ficou conhecido como a manifestação dos indignados com a velha política, em maio de 2011 em Madrid, espalhando-se por outras cidade). Veio também em seguida uma série de movimentos do tipo Occupy inspirados pelo 17S (o Occupy Wall Street no Zuccotti Park, em Nova York, em 17 de setembro de 2011).

Em 2013 tivemos outra eclosão, com o #DirenGezi na Turquia e as manifestações de junho de 2013 no Brasil (sobretudo as que ocorreram nos dias 17 e 18 de junho). Em 30 de junho de 2013 tivemos a maior manifestação da história, com 20 milhões (ou mais) de pessoas nas ruas e praças de várias cidades do Egito (quando o jihadista eleito da Irmandade Muçulmana, Mohamed Morsi, foi derrubado). Depois tivemos a Praça Maidan na passagem de 2013 para 2014, em Kiev, o segundo caracazzo venezuelano, em janeiro de 2014, a revolução dos Guarda Chuvas em Hong Kong, em setembro e outubro de 2014.

Em tudo isso a grande novidade não estava nos protestos em si (eventos populares massivos, aparentemente semelhantes, já ocorrem há muito no mundo), mas na manifestação de uma até então desconhecida fenomenologia da interação. Uma parte dessas manifestações, sobretudo o 11M e o 15M espanhol, o 11F egípcio, o 17S americano, o 17-18J brasileiro, o 30J novamente no Egito e vários dos demais swarmings citados, não foi convocada e organizada de modo centralizado por algum líder ou entidade hierárquica. Foram processos P2P (peer-to-peer), emergentes, surgidos a partir de um alto grau de conectividade da rede social e da disponibilidade de mídias interativas em tempo real (o telefone celular, a internet e as incorretamente chamadas “redes sociais”, como o Twitter e o Facebook).

Ao lado desses swarmings, expressando na política uma nova dinâmica das multidões, surgiram também, aqui e ali, algumas experiências societárias (ou comunitárias) que poderiam ser consideradas inovadoras em termos políticos (democráticos). Uma delas foi a iniciativa da Islândia, de elaboração de sua nova Constituição usando o Facebook como meio interativo, em junho de 2011. As experiências de redes na política, ou de um novo fazer político interativo (em redes mais distribuídas do que centralizadas) – o que não se deve confundir com a usurpação (e desfiguração) do termo levada a efeito por Marina Silva e seus seguidores – são múltiplas, porém pontuais, localizadas e fugazes (como é próprio mesmo da dinâmica de rede). Nenhuma delas logrou inaugurar novas institucionalidades democráticas, mas voltaremos ao assunto na parte final deste texto.

Fiquemos, porém, no Brasil. As pessoas que presenciaram os swarmings de junho de 2013 ainda não entenderam, em sua imensa maioria, o que aconteceu. O mesmo vale para os que participaram das memoráveis manifestações pelo impeachment de 2015 e 2016 (as maiores manifestações políticas de toda nossa história). Nesses novos lugares, a velha política não prevaleceu. Uma nova dinâmica emergiu. Quem esteve presente, mesmo que não saiba analisar o que ocorreu, sentiu isso.

Os que estiveram presentes nesses eventos não eram militantes e sim pessoas comuns, em junho de 2013 indignadas com o sistema (ainda que não soubessem explicar direito o que seria o tal sistema) e, nas seguintes manifestações políticas, indignadas com o governo Dilma e com o PT. Ou seja, essas manifestações não tiveram dono, foram resultado da convergência e da combinação de miríades de inputs, gerando constelações particularíssimas. Por isso, cada pessoa era sua própria manifestação, saia de casa com suas próprias pernas, levando seus cartazes artesanais, com suas reivindicações ou protestos específicos.

Acontece que os que eram ou viraram militantes, talvez por falta de entendimento das conexões entre a dinâmica social e a democracia (ou entre o padrão social de organização e o modo político de regulação) e sem perceber, ademais, que atuaram como fatores detonadores e não como líderes ou organizadores dos eventos, não souberam ler o que presenciaram e ficaram pensando coisas do tipo:

“E agora? Como vamos aproveitar tudo isso para entrar no jogo político real?”

E aí caíram na tentação de voltar à velha dinâmica e de ocupar os velhos lugares da política. Tudo bem fazer isso: a política institucional precisa mesmo ser renovada com a entrada de novas pessoas, mas sem esquecer e sem abandonar a fonte da energia inovadora que brotou quando se intensificou o fluxo interativo na planície.

A planície, é claro, é uma metáfora para a sociedade, um modo de agenciamento distinto daquele que caracteriza o planalto, o Estado. Não abandonar a fonte da energia inovadora implica valorizar a planície pelo que ela é, não abandonar a planície, e não tentar usá-la, apenas instrumentalmente, como plataforma de lançamento para o planalto.

Isso significa reconhecer que a sociedade existe. Não é um epifenômeno. A fonte de qualquer inovação significativa na política está na sociedade, não no Estado. Mas, como escreveu Goethe, a fonte só existe enquanto flui… ou seja, é preciso permanecer fluindo, na sociedade. Pode-se fazer política na – ou a partir da – sociedade. Só os infectados pelo estatismo (no sentido político do termo, não apenas no seu sentido econômico) acham que a política para valer deve ser feita exclusivamente no – ou a partir do – Estado.

O novo – ou o supostamente novo – não é o novo que apenas entra no velho (onde nunca esteve e por isso se acha novo) e sim o que inova, abrindo um novo lugar para o fazer político e novas formas e novos modos de fazer política. O novo dentro do velho logo ficará velho. Virará… salsicha! Porque o novo não é o que ainda não experimentou o velho e sim o que se comporta de modo a ir tornando o velho obsoleto (isto é a definição, nua e crua, de inovação). É o anexo do e-mail que torna obsoleto o fax, sem a necessidade de uma revolta ludista contra os velhos aparelhos de fac-símile. Na mudança de época em que vivemos, só é novo o que é inovador.

O que temos de novo em termos políticos?

Em termos partidários, temos o partido chamado Novo e o Livres (que estava abrigado dentro do PSL e tinha a pretensão de ser um partido – o PSL renovado – e agora que o partido foi vendido para o capitão Bolsonaro virou apenas uma tendência em busca de um partido para se abrigar ou para lançar candidatos).

Teríamos também a Rede de Marina, que se apresentou como nova, mas não pode ser nova se os seus principais representantes no parlamento são o submarino petista Molon e o psolista disfarçado Randolfe – que durante os anos de 2015 e 2016 defenderam com mais contundência o PT e o governo Dilma do que os próprios petistas. Essa Rede Sustentabilidade (que de rede nada tem) é apenas mais uma facção, lateral ou auxiliar, da esquerda neopopulista.

Em termos de movimentos, grupos ou articulações com objetivos políticos temos, como inovadores, dentre os que convocaram manifestações de rua pelo impeachment, o MBL e o Vem Pra Rua. Sim, eles foram inovadores (enquanto fizeram o que fizeram de novo). Outros atores – como o Nas Ruas, o Acorda Brasil, o Avança Brasil, o SOS Forças Armadas, o Revoltados Online, o Endireita Brasil, etc. – que, salvo um ou outro engano, também se engajaram nas mobilizações pelo impeachment, não são, porém, de modo algum inovadores. Ao caírem sob a influência do olavismo e do bolsonarismo transformaram-se no que pode haver de mais velho: nem conservadores são, senão retrógrados (ou retrogradadores). Sempre do ponto de vista da democracia, é claro.

Temos ainda uma série de iniciativas tidas por novas, como a Rede de Ação Política pela Sustentabilidade (Raps), o Brasil 21, o Movimento Acredito, a Bancada Ativista, o Agora, o Quero Prévias, a Nova Democracia, o Instituto Cidade Democrática, o Movimento Transparência Partidária, o Nossas, a Transparência Brasil, a Frente pela Renovação, o Open Knowledge Brasil o RenovaBR e o mais recente Movimento Brasil 200. Muitos desses grupos não existiam na época do impeachment e, os que existiam, em sua totalidade ou grande maioria, não se posicionaram publicamente sobre o tema. Além disso, até os que se dizem liberais – para não se sujarem e chegarem limpinhos em outubro de 2018 – não se engajaram no esforço pelas privatizações e pelas reformas promovido pelo atual governo. Isso se chama fugir da política.

Não é possível fazer aqui uma análise das particularidades de cada uma dessas iniciativas (ainda que isso precise ser feito algum dia, do ponto de vista da inovação política propriamente democrática). Portanto, as observações seguintes apenas mencionam, em linhas gerais, algumas caraterísticas desses diversos movimentos, grupos e articulações.

Uma parte das iniciativas mencionadas acima presta um serviço precioso em termos de informação pública, como os que se propõem a expor as contas públicas, os gastos dos governos e parlamentos (embora poucos deles, talvez não por acaso, se dediquem a analisar com tanta acurácia os gastos do judiciário e do ministério público). A publicidade ou transparência é um dos princípios da democracia.

Outra parte das iniciativas listadas tem uma pegada, digamos, mais empresarial. De algumas recende aquele odor característico da iniciativa privada quando resolve fazer esforços para consertar a política: uma mistura do discurso de eficiência na gestão com algumas noções primárias de ética normativa (como se a adoção, por parte dos atores políticos, de um conjunto de valores definidos abstratamente pudesse ter o condão de modificar a sua prática política), lembrando um pouco a experiência do Instituto Ethos (que, a despeito de fazer o discurso da ética e da responsabilidade social e empresarial, jamais se deu conta do nível de corrupção que grassava nas grandes empresas, inclusive suas clientes, durante o reinado do PT e, muito menos, das finalidades antidemocráticas dessa corrupção sistêmica).

Anote-se que grande parte desses movimentos enquadra-se na categoria de democráticos formais. Alguns aderem aos princípios do liberalismo-econômico, mas ainda estão longe de ser liberais-políticos e, mais ainda, de ser inovadores democráticos, para adotar a classificação proposta no artigo Os diferentes adversários da democracia no Brasil.

No texto mencionado acima situam-se no campo democrático quatro tipos de atores políticos classificados em duas categorias: na primeira estão os populistas não-autoritários (a maior parte da chamada “classe política”, que embora possa praticar a corrupção tradicional, endêmica nos meios políticos, não tem como projeto alterar o DNA da nossa democracia) e os democratas formais; na segunda os liberais-políticos e os inovadores democráticos. Essa segunda categoria é extremamente minoritária: se os liberais-políticos já estão em falta no Brasil, os inovadores democráticos então, nem falar. São considerados sonhadores ou nefelibatas até mesmo pelos democratas formais.

Como já foi dito no artigo Os diferentes adversários da democracia no Brasil, mencionado acima:

Inovadores democráticos também são liberais no sentido político do termo. Liberais são, por definição, anti-estatistas (tomando o estatismo no sentido político do termo e não apenas no seu sentido econômico). Além de repisar os temas óbvios: livre mercado, redução da participação do Estado na economia, reformas, responsabilidade fiscal, corte de impostos e privatização – que deveriam constar da pauta obrigatória de qualquer liberal (não exclusivamente dos liberais-políticos), os inovadores democráticos estão preocupados, principalmente, com a defesa da democracia e com a continuidade do processo de democratização (da sociedade, do Estado e do padrão de relação Estado-sociedade). Por causa disso estão focados em uma série de temas inovadores que ainda não entraram na pauta dos liberais como, por exemplo: a crise e os limites da democracia representativa e a experimentação de novas formas mais interativas de democracia numa emergente sociedade-em-rede; o federalismo e a crise do Estado-nação; a superação da contraposição localismo não-cosmopolita (tipo “America First”) x globalismo e a realidade emergente da glocalização; a superação da contraposição estiolante monoculturalismo x multiculturalismo: rumo à inevitável (e desejável) miscigenação cultural; a inadequação da classificação e da divisão das forças políticas em esquerda x direita; e o envelhecimento da divisão entre visões mercadocêntricas e estadocêntricas do mundo: a sociedade como forma autônoma (subsistente por si mesma) de agenciamento, além (ou ao lado) do mercado e do Estado.

Vemos assim que os inovadores podem, sim, ter ideias novas (vários exemplos estão no parágrafo reproduzido acima). Mas a fonte da inovação não está propriamente nas ideias (ou na cabeça de uma minoritária elite pensante). Junho de 2013, março, abril e agosto de 2015 e novamente março de 2016, foram expressões inéditas de inovação política, talvez as maiores de nossa história (sem que houvesse grandes ideias inovadoras inspirando tais eventos). A inovação não está propriamente na interpretação, na análise ou na conceptualização posteriores e sim na dinâmica que emergiu. Quem não entendeu e não apostou no potencial criativo e inovador desses eventos não pode ser classificado como inovador democrático. E os democratas formais, reconheçamos, jamais entenderam o que aconteceu, alguns deles, inclusive, atribuem a autoria do junho de 2013 ao grupo esquerdista MPL – Movimento Passe Livre (ninho de Black Blocs, só um tolo não vê) confundindo um eventual papel detonador com a organização dos grandes protestos.

Mesmo os principais movimentos que cumpriram um papel realmente inovador em tempos recentes – como o MBL e o Vem Pra Rua – não entenderam bem a topologia e a dinâmica de rede dos eventos de que participaram, muitas vezes achando-se responsáveis, posto que os convocaram, pelo que aconteceu. E tanto é assim que, depois, meio que se perderam. Já analisamos tudo isso no artigo O MBL, o Vem Pra Rua e a democracia e não vamos repetir aqui os argumentos.

Os outros movimentos, que querem ser inovadores, pelo que se vê até agora, estão bem longe disso. O mesmo vale para os partidos ou proto-partidos que se dizem novos e gostariam de ser novos, como o partido Novo e o Livres. Sim, é ótimo que existam iniciativas que queiram ser inovadoras. Mas é preciso ver que inovador é quem inova, não quem fala sobre inovação ou se apresenta como novo.

Claro que toda tentativa de inovação política deve ser vista com bons olhos. Mas colocar novos candidatos, honestos e comprometidos com a ética, com a eficiência da gestão e com a responsabilidade fiscal, social e ambiental, nas eleições, ainda que possa ser visto como saudável tentativa de renovação de quadros parlamentares e executivos, não é bem uma inovação na forma e no modo de fazer política. Os tais novos candidatos vão para um velho lugar, organizado de uma velha forma (hierárquica) e regido por velhos modos (mais autocráticos do que democráticos) de regulação. É como fornecer carne nova para as máquinas da velha indústria de salsicha.

Nada disso significa que tal não deva ser feito, mas apenas que não terá o impacto que se imagina e espera. A máquina mói todo mundo, os velhos e os novos, os que apenas defendem seus interesses egoísticos e os que fazem belos discursos altruístas, os que embolsam todos os recursos disponíveis e os esbanjam e os que fazem marketing com economia de palito, devolvendo fundo partidário, verbas de gabinete, auxílio moradia e outros privilégios associados à sua condição (organizacional) ou função (eletiva). Sim, tudo isso é louvável, mas não chega a ser inovação política capaz de promover uma mudança na forma  como se organiza e no modo como funciona a fábrica de salsichas.

Por que não há inovação na política?

Em primeiro lugar é preciso dizer que há, sim, inovação na política. Ela só não está onde queremos procurá-la (e não frutificará onde queremos plantá-la): no ventre do velho sistema que apodreceu. Qualquer inovação para valer – capaz de alterar a morfologia e a dinâmica da atividade política – não pode ser tão incremental que acabe se confundindo com mero aperfeiçoamento. Como já foi dito aqui, não se trata de melhorar a máquina de fac-símile (ou de salsichas).

Indo agora diretamente ao centro da questão, podemos afirmar que novações políticas, do ponto de vista democrático, são aquelas que impulsionam a continuidade do processo de democratização (que é o que se deve entender por democracia, no sentido forte do conceito). Como o processo de democratização pode continuar na nova e mutável realidade contemporânea? Esta é a pergunta-chave que os inovadores democráticos deveriam sempre ter em mente.

Não se trata de inventar, em laboratório, novas instituições e procedimentos democráticos e sim de responder ao que já está emergindo da sociedade. E o que está emergindo? Uma nova dinâmica das multidões, um aumento vertiginoso da interatividade (com a consequente multiplicação ou exponenciação do número de agentes que intervêm no debate público, que no Brasil pularam, em 30 anos, de cerca de 5 mil para 1 milhão ou mais) e uma diversidade de experimentações glocais de novas formas de convivência social. Ora, tudo isso está ligado à emergência de uma sociedade-em-rede. Assim, inovações políticas que não sejam vulneráveis e responsivas à essa nova realidade emergente da sociedade-em-rede, não serão – a rigor – inovações capazes de modificar as formas e os modos de organização e ação políticas.

Em vez de ficar elaborando provas para selecionar novos bons candidatos a cargos parlamentares e executivos, os inovadores democráticos deveriam estar pensando em novos mecanismos de interação capazes de viabilizar a inclusão na política de milhões de novos atores, a partir de onde eles estão, na planície (a sociedade) e não querer lançá-los ao planalto (o Estado), mesmo porque eles (felizmente) não cabem nos aparelhos de Estado disponíveis.

Em vez de ficar bolando iniciativas políticas anódinas, chamadas de proativas, com medo de entrar no debate real colocado na conjuntura para não desagradar as forças ditas progressistas ou conservadoras, os inovadores democráticos deveriam ver que seu principal papel é manter as condições que permitem o surgimento de novas experiências democráticas, ou seja, defender a democracia que temos para poder alcançar as democracias que queremos. Assim, no momento em que a democracia está correndo sério risco no Brasil, diante de uma polarização entre dois estatismos (ambos antidemocráticos), em que se confrontam o neopopulismo de esquerda (representado pelo lulopetismo) e o populismo-autoritário de direita (capitaneado pelo bolsonarismo), não se justifica que vários movimentos, grupos e articulações autoproclamados novos ou inovadores não se pronunciem a respeito.

Este ponto é básico.  Só em regimes democráticos (mesmo formais e defeituosos, como o nosso) pode se manifestar plenamente aquelas novas realidades emergentes aqui mencionadas. Em Havana, Cartum ou PyongYang – ou, agora, mesmo em Moscou, Caracas ou Ancara – dificilmente assistiremos a eventos que expressem uma nova dinâmica das multidões, dificilmente observaremos o aumento vertiginoso da interatividade (com a consequente multiplicação ou exponenciação do número de agentes que intervêm no debate público) e dificilmente teremos a liberdade necessária para o surgimento de uma diversidade de experimentações glocais de novas formas de convivência social. Portanto, defender a democracia que temos (a despeito de todos os seus defeitos e imperfeições), contra todas as tentativas de enfrear o processo de democratização, deveria ser cláusula pétrea e primeira na pauta de quaisquer inovadores democráticos.

Infelizmente, porém, ainda não é assim. Empresários bem intencionados que querem deixar um legado público, jovens ansiosos por abraçar uma causa que dê sentido às suas vidas, pessoas dos setores médios da população dispostas a fazer o bem (e, o que é pior, imbuídas de um desejo de limpar a política e consertar o país), que têm dificuldades de aceitar o conflito e não querem se sujar ralando pra cima e pra baixo na praça do mercado, não resistem à tentação de fugir para frente. Todos esses parecem ecoar, em alguma medida, aquele discurso marinista inicial que construía mentalmente uma espécie de mundo do Avatar para a nova política.

Mas a inovação política é sempre tópica, nunca utópica. É aquela que se pode fazer hoje, não amanhã. Mais liberdade, se não for conquistada agora, jamais o será no futuro. Inovar, em política, é assumir o presente, com todos os seus impasses e contradições.

Portanto, tudo que foi dito aqui significa – ao contrário do que possa parecer ao leitor menos atento – que devemos, sim, apresentar novos candidatos e concorrer às eleições (a todas elas), mas sem nos restringir a isso; ou seja, que devemos colocar no Estado novos representantes, sem abandonar a ação política feita na – e a partir da – sociedade. Significa que devemos defender a democracia que temos, sem porém deixar de fazer esforços para antecipar as novas democracias que queremos. Significa que devemos elaborar programas com novas propostas, sabendo, entretanto, que novas dinâmicas políticas dependem mais de novos comportamentos coletivos, que se manifestam sem o nosso controle, do que de novas ideias que nos esforçamos para conceber. Significa, no limite negativo da inovação, que podemos até tentar construir novos partidos, tendo a plena consciência de que a forma-partido tradicional, inventada pelos modernos, envelheceu e que ela não é mais capaz de expressar as energias inovadoras que brotam das novas dinâmicas sócio-políticas.

Enfim, significa que qualquer organização ou ação política só serão novas ou inovadoras se estiverem sintonizadas com a nova morfologia e com a nova dinâmica da sociedade que está emergindo: a sociedade-em-rede. Assim, insistir em padrões de organização hierárquicos e modos de regulação autocráticos nunca poderá parir alguma coisa que seja realmente inovadora.


Democracy Unschool é um ambiente de livre investigação-aprendizagem sobre democracia, composto por vários itinerários. O primeiro itinerário é um programa de introdução à democracia chamado SEM DOUTRINA. Para saber mais clique aqui

Deixe uma resposta

Loading…

Deixe seu comentário

Uma conversação sobre mérito e meritocracia

Proteger o povo de si mesmo é proteger as pessoas da democracia