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Israel, Israel, às tuas tendas, ó Israel

Então, quando todo o Israel compreendeu que o rei se recusava a ouvir o seu clamor, declararou-lhe: “Que temos nós com Davi? Não temos herança com o filho de Jessé! Ide para tuas tendas, ó Israel! Cuida de tua casa, ó Davi! Assim, cada homem de Israel retornou à sua casa. 

1 Reis 12:16

O utópico hebraísmo profético (dos Sem-Reino) já havia sido derruído e substituído pelo mítico judaísmo sacerdotal que floresceu nas cidades-Estado monárquicas de Canaã. Mas não totalmente. Remanesceu alguma coisa, algumas matrizes de pensamento e ação, elementos de uma cultura original avessa ao poder hierárquico-autocrático. Por isso o judaísmo foi, de certo modo, a um só tempo ruptura e continuidade com o hebraísmo. Não se pode negar que ocorreu naquela época, entre os séculos 9 e 8 a. C., um processo de autocratização, embora tudo isso esteja um pouco perdido nas brumas do passado (e escondido pela religião).

Mas o Israel de Ben Gurion, reinventado, a partir de 1948, como Estado democrático de direito (o único no Oriente Médio) está agora novamente diante de um processo de autocratização sob o poder da extrema-direita de Benjamin Netanyahu. Talvez vejamos, no médio prazo, que não é uma questão política apenas. Em termos culturais, os próprios fundamentos contraditórios do judaísmo estão sendo alterados. As centelhas de hebraísmo que permaneceram vivas dentro do judaísmo podem ser apagadas. E isso é uma operação tenebrosa.

Sempre recomendo a leitura de, pelo menos, dois livros de Shlomo Sand (2008 e 2012): A Invenção do Povo Judeu (2008) (São Paulo: Benvirá, 2011) e A Invenção da Terra de Israel: Da Terra Santa à Terra Pátria (2012) (São Paulo: Benvirá, 2014). Ambos podem ser baixados nos links acima.

Num texto intitulado Sobre o reflorescimento de narrativas nacionalistas reproduzi, com alguns comentários introdutórios, o primeiro capítulo do segundo livro mencionado acima. Escrevi na ocasião que os livros de Shlomo são leituras importantes para entender esse repentino reflorescimento do nacionalismo (e as narrativas bannonistas e olavianas da tal “civilização ocidental judaico-cristã”). Tudo pura invenção, é claro. Mas é preciso entender a mecânica da invenção. Depois volto ao assunto, quando souber mostrar melhor como foi urdida essa perversão chamada “civilização ocidental judaico-cristã”, provavelmente em movimentos evangélicos dos Estados Unidos, em meados do século passado.

Demétrio Magnoli, na Folha e Reinaldo Azevedo, no seu blog, publicaram ontem dois artigos interessantes sobre o tema, embora focalizando mais seus aspectos políticos.

Eis a íntegra do artigo do Demétrio:

Rumo ao segundo Israel?

Demétrio Magnoli, Folha de S. Paulo (14/04/2019)

Netanyahu rompe com o consenso sionista que se estendia da esquerda à direita

A reeleição de um líder político deve, normalmente, ser examinada sob o registro da continuidade. A regra não se aplica ao triunfo de Binyamin Netanyahu nas eleições gerais israelenses. Na campanha, o primeiro-ministro prometeu anexar as colônias israelenses na Cisjordânia e declarou que “Israel não é um Estado de todos os seus cidadãos”.

À luz do “Deus de Trump” (apud Ernesto Araújo), Netanyahu avançou os sinais vermelhos sempre respeitados pela corrente principal do sionismo. Nesse passo, ameaça levantar a âncora que prende Israel à rocha da democracia.

A maior vitória militar de Israel trouxe com ela um desafio de natureza existencial. Depois da Guerra dos Seis Dias (1967), o Estado judeu converteu-se em potência ocupante dos territórios palestinos (Jerusalém Oriental, Cisjordânia, faixa de Gaza).

O rápido crescimento demográfico palestino descortinou a perspectiva de configuração de uma maioria populacional árabe no conjunto geopolítico Israel/Palestina. O exercício da soberania sobre uma maioria destituída de direitos políticos terminaria por corroer os fundamentos democráticos de Israel. O Estado judeu teria que escolher entre a democracia e a ocupação.

Os Acordos de Oslo (1993) surgiram como solução para o dilema. A paz pela partilha da Terra Santa em dois Estados não só atenderia à demanda nacional palestina como protegeria o caráter judeu e democrático de Israel. O fracasso dos acordos de paz recolocou o dilema. Netanyahu oferece, agora, sua própria solução: a ocupação permanente, a renúncia à democracia, a refundação de Israel como Estado baseado na discriminação étnica oficial.

A falência dos Acordos de Oslo foi obra conjunta dos fundamentalistas palestinos do Hamas e da direita israelense polarizada pelo Likud. Mas Ariel Sharon, o “falcão” do Likud, conservou a porta aberta para a solução dos dois Estados ao promover a retirada israelense da faixa de Gaza (2005).

Sharon reconhecia, por meio do desengajamento, que só um Estado, uma nacionalidade e uma cidadania para os palestinos assegurariam a sobrevivência do Israel democrático fundado em 1948.

Netanyahu rompe, hoje, com o consenso sionista que se estendia da esquerda à direita. Depois de anos de sabotagem tácita da retomada de negociações de paz, a prometida anexação de extensas áreas da Cisjordânia equivale a uma sentença de morte para a solução dos dois Estados.

Sob o amparo de Trump, que acaba de reconhecer a soberania israelense sobre o território sírio das colinas de Golã, o chefe de governo de Israel ameaça inviabilizar um futuro Estado palestino.

Israel não é um, mas dois. Historicamente, é o Estado-nação do povo judeu. Legalmente, é um Estado de todos os seus cidadãos. A alma histórica expressa-se na Lei do Retorno: a concessão de cidadania a qualquer judeu que imigrar para Israel. A alma legal exprime-se na Corte Suprema, que não distingue os direitos de cidadãos judeus dos direitos de cidadãos não judeus. As duas almas convivem em perene tensão, formando as faces paradoxais do Estado judeu. Netanyahu almeja eliminar a tensão pela supressão do princípio da igualdade perante a lei.

O conceito de que “Israel não é um Estado de todos os seus cidadãos” abre a fresta por onde podem passar iniciativas já em curso legislativo como a remoção da cidadania de não judeus “desleais” ao Estado.

No limite, a ruptura do princípio da igualdade legal propiciaria a retirada em massa da cidadania dos árabes israelenses, uma violação flagrante dos direitos humanos. A ideia escandalosa circula entre correntes supremacistas judaicas, como o Otzma Yehudit (Poder Judaico), que transitam dos subterrâneos para as cercanias do governo israelense.

Netanyahu é um refundador pós-sionista. O Israel que ele pretende reinventar renega os valores básicos do Estado proclamado por Ben Gurion em 1948.

E agora o artigo do Reinaldo:

Há dois Estados de Israel na reação ao “perdão ao Holocausto” de Bolsonaro

Reinaldo Azevedo, Blog do Uol (14/04/2019)

Já chamei aqui de “espúria” a aliança entre a extrema-direita judaica e os neopentecostais que tem como emblema Jerusalém. Entenda-se por “espúria” o que está no dicionário: “não genuína”, ilegítima”. O primeiro grupo quer o apoio de governos para a sua política expansionista, que nega, na prática, a possibilidade de um Estado palestino; o segundo faz política a partir de uma crença — pouco importa se verdadeira ou apenas industriada — de que a segunda vinda do Cristo só acontecerá quando “A Cidade” estiver sob o inteiro controle do “povo de Israel”. Por que espúria? Ora, a hipotética segunda vinda de Cristo corresponderia, na prática, à falência do judaísmo como religião. Por que alguém se associa a quem, se estiver certo, vai decretar o seu fim?

Então ficamos assim: um grupo quer suporte político para pretensões que são deste mundo, não? Jerusalém é deste mundo; os assentamentos na Cisjordânia são deste mundo; as Colinas de Golã são deste mundo; a Faixa de Gaza é deste mundo. O outro grupo, a exemplo de toda escatologia religiosa, posterga para o “sem-dia-definido” o “Grande Dia”. Se e quando Israel se apossar inteiramente de Jerusalém e de lá expulsar os palestinos, algum teólogo das próprias vertigens escatológicas lançará uma nova condição para a segunda vinda do Messias, que será então adiada. Como se sustenta que Ele virá um dia, o importante é que a seita cresça. Para o outro grupo, o importante é que os assentamentos cresçam.

A aliança entre a extrema-direita judaica e os neopentecostais se deu nos EUA e se repete no Brasil na figura de Jair Bolsonaro. Lá e cá, judeus abrem mão de apoios históricos à sua causa em nome de uma pauta política que nega fundamentos da própria criação do Estado de Israel. Como bem observou Demétrio Magnoli, em coluna na Folha, os postulados que hoje orientam a política empreendida por Benjamin Netanyahu respondem a uma espécie de refundação daquele Estado.

A antes “única democracia do Oriente Médio” está em processo de transformação. E os fundamentos morais que serviram à resistência e ao direito à autodefesa não servem para explicar a ocupação. E, por isso, os judeus que se alinham com o atual governo de Israel e com essa perspectiva renunciam a apoios históricos em nome dos novos aliados. Há riscos. Quando se abre mão do fundamento em nome do contingente, fica-se sujeito a mudanças de contingência. Os judeus não resistiram ao cúmulo do horror cedendo à pauta de oportunistas. Como já escrevi aqui, não me atrevo a ensinar um judeu a ser judeu. Apenas cumpro o meu papel ao lembrar que existe história.

Judeus mais amplamente e israelenses mais especificamente têm o direito, a exemplo de quaisquer outros grupos étnicos ou religiosos, de escolher seus parceiros de caminhada, com seus respectivos valores. Toda escolha feita no presente traz sempre uma imaginação sobre o porvir; traduz, em suma, em que mundo se pretende viver. Por que essa longa introdução?

PERDOAR O HOLOCAUSTO

A aliança espúria entre a extrema-direita judaica e essas correntes evangélicas, que se manifesta no Brasil na figura de Bolsonaro, produziu um primeiro curto-circuito situado entre a moral e a história na fala do presidente brasileiro — que, vamos convir, não é muito versado também nesse assunto e serve apenas de garoto-propaganda dos dois grupos que celebram sua aliança oportunista.

Num encontro com evangélicos na quinta, frustrados porque o presidente não anunciou a mudança da embaixada, Bolsonaro produziu o seguinte colar de pérolas:

“Fui, mais uma vez, ao Museu do Holocausto. Nós podemos perdoar, mas não podemos esquecer. E é minha essa frase: ‘Quem esquece seu passado está condenado a não ter futuro’. Se não queremos repetir a história que não foi boa, vamos evitar com ações e atos para que ela não se repita daquela forma”.

Bem, em primeiro lugar, a frase que Bolsonaro diz ser sua é um clichê universal cuja autoria se perdeu. Até porque o conceito se repete com as palavras mais variadas. A mais frequente: “Quem esquece (ou não se lembra de) o passado está condenado a repeti-lo”. Atribui-se mais frequentemente a George Santayana. Já foi empregada por gente que presta e que não presta. Era, por exemplo, a divisa que servia como uma espécie de portal à comunidade de “Jonestown”, na Guiana, fundada pelo sociopata religioso Jim Jones. Numa espécie de ato sacrifical, quase 300 pessoas morreram, em 1978, depois de ingerir veneno. Fanatismo mata. Adiante.

Em segundo lugar, quando se fala em “perdão” ao tratar do Holocausto, é preciso cuidado. A questão remete, em dimensão absurdamente reduzida, ao debate que se fez no Brasil quando as esquerdas tentaram rever a Lei da Anistia, de 1979. “Anistia” — que quer dizer “esquecimento”, mas apenas para efeitos penais — não implicava apagamento da história. E tampouco se deve confundi-la com perdão. Se é possível, num ato de superioridade do espírito, perdoar o mal que alguém lhe fez — e aí está um dos pilares do cristianismo —, inexiste perdão para uma ideologia, um pensamento ou um conjunto de valores que pugna pelo mal essencial, que consiste na eliminação do “outro” porque outro; no extermínio de um etnia, de uma cultura, de um povo; na redução daqueles que não somos nós à condição de coisa. Não há perdão.

REAÇÕES

Em reação a Bolsonaro, o Museu do Holocausto (Yad Vashem) divulgou neste sábado um comunicado em que diz:

“Não é direito de nenhuma pessoa determinar se crimes hediondos do Holocausto podem ser perdoados”.

E acrescenta:

“Desde a sua criação, o Yad Vashem tem trabalhado para manter a lembrança do Holocausto viva e relevante para o povo judeu e a toda humanidade”.

Também se manifestou numa rede social o presidente de Israel, Reuven Rivlin:

“Nós sempre iremos nos opor a aqueles que negam a verdade ou aos que desejam expurgar nossa memória — nem indivíduos ou grupos, nem líderes de partidos ou premiês. Nós nunca vamos perdoar nem esquecer.”

Rivlin afirmou ainda que “líderes políticos são responsáveis por definir o futuro”.

Essas vozes ecoam a pátria de Israel de Ben Gurion (imagem no alto), não a de Netanyahu. Uma fala que na boca de qualquer outro líder ou político mereceria o repúdio também da representação daquele país no Brasil teve a acolhida do embaixador israelense, Yossi Shelley, que foi ao Facebook em socorro de Bolsonaro:

“Em nenhum momento de sua fala o presidente mostrou desrespeito ou indiferença pelo sofrimento judeu. Não vingarão aqueles que desejam levantar suspeições sobre as palavras de um grande amigo do povo e governo de Israel.”

De quem fala Shelley quando se refere “àqueles que não vingarão”? Só pode ser ao Museu do Holocausto e ao presidente Yad Vashem.

TAMBÉM SOU JUDEU

Reitero: a história me interessa, bem como a separação entre o que é essencial e o que é meramente contingente. Não ensino judeu a ser judeu, árabe a ser árabe, budista a ser budista, palmeirense a ser palmeirense… Escolham a categoria. Nem mesmo me atrevo a dizer como devem se comportar os integrantes de grupos aos quais eu pertenceria porque a condição humana é vasta o bastante para que eu me atenha à minha singularidade, sem que pretenda que esta se manifeste com a força de um exemplo.

Entendo que não se deve sacrificar o essencial no altar do contingente. Porque as contingências mudam, e é o essencial que nos lembra quem somos e de onde viemos. Proceder de modo diferente corresponde a conspurcar a memória e a história em favor de alianças “espúrias”, no sentido que o dicionário confere à palavra. Serve apenas a políticos que passam, não a causas cuja permanência serve de antídoto ao horror. E, nesse particularíssimo sentido, também sou judeu.


Democracy Unschool é um ambiente de livre investigação-aprendizagem sobre democracia, composto por vários itinerários. O primeiro itinerário é um programa de introdução à democracia chamado SEM DOUTRINA. Para saber mais clique aqui

Como (não) organizar a resistência democrática no Brasil

O conceito de governo civil em Alexis de Tocqueville