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Karl Raimund Popper e o fascínio de Platão

Republicamos abaixo excertos dos 10 primeiros capítulos que constam do primeiro volume, intitulado O fascínio de Platão, do livro de Karl Raimund Popper (1945), A sociedade aberta e seus inimigos (na tradução de Milton Amado: Belo Horizonte: Itatiaia, 1974). Não conhecemos o autor do apanhado. Em breve vamos transcrever a íntegra de todos os capítulos, interpolando observações críticas.

O fascínio de Platão

INTRODUÇÃO

Este livro esboça algumas das dificuldades enfrentadas pela nossa civilização, em sua busca da humanidade e da razoabilidade, da igualdade e da liberdade. Uma civilização que ainda não se recuperou de todo do choque inicial de seu nascimento da transição da sociedade tribal, com sua submissão às forças mágicas, a sociedade fechada, para a sociedade aberta, que põe em liberdade as faculdades críticas do homem. O choque dessa transição é um dos fatores que possibilitaram o surgimento dos movimentos reacionários que tentaram, e ainda tentam, derrubar a civilização e retornar ao tribalismo.

Este livro busca contribuir para que compreendamos o totalitarismo e a significação da permanente luta contra ele. Procura também examinar a aplicação dos métodos críticos e racionais da ciência aos problemas da sociedade democrática. Analisa os princípios da mecânica social gradual, em oposição à mecânica social utópica a mais poderosa das quais é a que denomino historicismo.

O estado ainda insatisfatório de certas ciências sociais suscita o problema de seus métodos seu problema mais fundamental. Um exame cuidadoso dessa questão levou-me à convicção de que as profecias históricas de longo prazo estão fora do âmbito do método científico. O futuro depende de nós mesmos, e nós não dependemos de qualquer necessidade histórica. Há, contudo, filosofias sociais influentes que sustentam o oposto. Afirmam que a tarefa da ciência é fazer predições; e que cabe às ciências sociais fornecer-nos profecias históricas de longo prazo, acreditando haver descoberto leis históricas que nos habilitam a profetizar o curso desses acontecimentos. Chamei de historicismo às várias filosofias sociais que sustentam afirmações dessa espécie.

O historicismo visa o rigor científico. Este livro não o faz; ele deve ao método científico a consciência de suas limitações. Não oferece provas onde nada pode ser provado, nem pretende ser científico onde nada mais pode dar que uma opinião pessoal. Não procura substituir os velhos sistemas de filosofia por um novo sistema. Busca mostrar que essa sabedoria profética é prejudicial, e que as metafísicas da história impedem a aplicação dos métodos graduais da ciência aos problemas da reforma social.

1 – O HISTORICISMO E O MITO DO DESTINO

É crença generalizada que uma atitude verdadeiramente científica ou filosófica para com a política e uma compreensão mais profunda da vida social em geral devem basear-se no estudo e na interpretação da história humana. O cientista ou filósofo social tentará entender as leis do desenvolvimento histórico. Se o conseguir, estará capacitado a predizer desenvolvimentos futuros. Poderá, então, colocar a política sobre bases sólidas e dar-nos conselhos práticos, dizendo-nos quais as ações políticas mais em condições de ter êxito, ou de falhar.

Esta é uma breve descrição de uma atitude denominada historicismo. É uma velha ideia, ou antes, um conjunto frouxamente relacionado de idéias, que infelizmente se tornaram nossa atmosfera espiritual; são tidas como pacíficas e não são discutidas. Infelizmente, como se mostrará neste livro, esse enfoque historicista das ciências sociais produz resultados pobres.

Tentei esboçar um método que, acredito, produz melhores resultados. Contudo, se o historicismo é um método falho, que produz resultados sem valor, é útil empreender um esboço histórico para averiguar sua origem e as causas do êxito de sua permanência, e analisar as diversas concepções que gradualmente se acumularam em torno da doutrina do historicismo central: a de que a história é controlada por leis históricas ou evolucionárias específicas, cujo descobrimento nos capacitaria profetizar o destino da humanidade.

2 – HERÁCLITO

Na interpretação politeísta anterior a Heráclito, a história é o produto da vontade divina os deuses homéricos não desenvolveram leis gerais do desenvolvimento histórico. A preocupação de Homero é explicar, não a unidade da história, mas sua falta de unidade. Sua interpretação nos oferece um certo sentido vago de destino, mas o destino final em Homero não é revelado.

Hesíodo foi o primeiro a introduzir a noção de uma tendência geral do desenvolvimento histórico. Sua interpretação da história é pessimista; acreditava que a humanidade, em sua evolução a partir da Idade Áurea, estava destinada à degeneração, tanto física como moral.

A descoberta da noção de mudança é devida a Heráclito. Até então o mundo era a totalidade das coisas, o cosmos. A filosofia e a física eram a investigação da natureza, o material original com que o mundo fora construído. Os processos eram parte da natureza ou destinavam-se a construí-la ou mantê-la, perturbando e restaurando ciclicamente a estabilidade de uma estrutura estática.

O gênio de Heráclito foi além: postulou que não havia uma estrutura estável, nenhum cosmos. O mundo não é uma estrutura, mas um processo colossal; não é a soma de todas as coisas, mas a totalidade de todas as mudanças, ou fatos. Reduzidas todas as coisas a processos, Heráclito discerne nos processos uma lei do destino inexorável, irresistível e imutável; e tendo destruído o cosmos como estrutura, o reintroduz como a ordem predestinada dos eventos no processo universal. Essa noção historicista de um destino inexorável combina-se à unidade mística do mundo, que só pode ser apreendida pela razão.

O efeito dessa revolução foi devastador numa sociedade tribal, caracterizada pela estabilidade e pela rigidez, determinadas por tabus sociais e religiosos; onde cada um tem seu lugar marcado no conjunto da estrutura social, sente que esse lugar é o adequado, “natural”, e que lhe foi destinado pela forças que regem o mundo. Uma sociedade incapaz de distinguir entre leis, no sentido de normas legais, e leis naturais: ambas são mágicas, não passíveis de crítica racional.

A filosofia de Heráclito pode ser encarada como a expressão de um sentimento de derivação, reação à dissolução das antigas formas tribais da vida social. Na Europa moderna as idéias historicistas foram revividas durante a revolução industrial e pelas revoluções políticas na América e na França.

É surpreendente encontrar nos fragmentos de Heráclito, que datam de cerca do ano 500 antes de Cristo, tanto do que é característico das modernas tendências historicistas e antidemocráticas. Por ter sido Heráclito um pensador de força e originalidade insuperadas, muitas de suas idéias, por intermédio de Platão, se tornaram parte do corpo central da tradição filosófica.

3 – A TEORIA PLATÔNICA DAS FORMAS OU IDEIAS

Platão viveu em um período de guerras e lutas políticas ainda mais instável que o de Heráclito. Em seu tempo a sociedade, na verdade tudo, estava em fluxo. Ele sintetizou essa experiência em uma lei do desenvolvimento histórico: toda mudança social é corrupção, decadência, degeneração.

Heráclito relutou ante a ideia de substituir o cosmos pelo caos; aceitou que a mudança inevitável é regida por uma lei invariável. Platão vai mais longe: a degeneração inexorável podia ser paralisada pela vontade moral e pela força da razão humana, detendo-se qualquer mudança política. Com esse objetivo analisa as características de um Estado livre da degeneração o Estado perfeito, que não conhece mudança. Essa crença em coisas perfeitas e imutáveis, a chamada Teoria das Formas ou Idéias, é a base de sua filosofia, a seguir sumariada. As coisas em fluxo, degeneradas e decadentes (como o Estado), descendem de coisas perfeitas são cópias de seus originais, as suas “Formas” ou “Ideias”. A Ideia não é uma “ideia de nossa mente”, mas uma coisa real. É mais real que todas as formas existentes, que estão em fluxo e que, apesar de sua aparente solidez, estão condenadas a decair, ao contrário da Ideia, que é perfeita e não perece. Formas ou Idéias não podem ser percebidas pelos nossos sentidos por não se acharem em nosso espaço e tempo, como sucede às coisas comuns mutáveis, as “coisas sensíveis”. A Ideia platônica serve como ponto fixo de partida para explicar tudo que está em fluxo contínuo no espaço ou no tempo (em especial a história humana), sobre o que não podemos ter conhecimento real, mas, na melhor das hipóteses, “opiniões” vagas e ilusórias.

Uma ciência política seria impossível na ausência de referenciais fixos. Platão supre essa deficiência postulando que embora “não pudesse haver definição de qualquer coisa sensível, pois estavam sempre em mudança”, as Formas ou Idéias possibilitariam conhecer as virtudes das coisas sensíveis, do mundo em fluxo. A essa atitude chamo essencialismo metodológico: o ponto de vista de que a tarefa do conhecimento puro, ou “ciência”, é descobrir e descrever, por meio de definições e da intuição, a verdadeira natureza das coisas, por oposição ao nominalismo metodológico, o método aceito hoje nas ciências naturais: a descrição de como uma coisa se comporta em várias circunstâncias e das regularidades nesse comportamento.

A teoria das Formas ou Ideias tem pelo menos três funções na filosofia de Platão: 1) Serve como instrumento metodológico que possibilita o puro conhecimento científico do mundo das coisas em fluxo e dos problemas de uma sociedade mutável; permite edificar uma ciência política. 2) Fornece a chave da teoria da mudança, da decadência e da história. 3) Permite deter a mudança social, sugerindo um “Estado melhor” semelhante à Ideia de um Estado que não pode decair.

O historicismo coabita em Platão com seu oposto, a atitude da mecânica social: a crença de que é possível influenciar o destino. O “mecânico social” não questiona as tendências históricas ou do destino do homem. Acredita que ele é o senhor de seu próprio destino e da história. Opõe-se à crença de que a ação política inteligente só é possível se o curso da história for previamente determinado; opõe-se ao historicista, que a compreende como o conhecimento das tendências históricas imutáveis.

Limito meu tratamento de Platão ao seu historicismo. O leitor não deve esperar um tratamento “completo e justo” do Platonismo. Minha atitude para com o historicismo é de franca hostilidade. Minha análise dos aspectos historicistas do Platonismo é fortemente crítica. Embora muito admire na filosofia de Platão, não considero minha tarefa trazer acréscimos aos incontáveis tributos a seu gênio. Sinto-me antes inclinado a destruir o que, em minha opinião, é maléfico nessa filosofia: sua tendência totalitária.

4 – MUDANÇA E REPOUSO

A sociologia de Platão é uma engenhosa mistura de especulação e aguda observação dos fatos. Sua base especulativa é a teoria das Formas e do fluxo e decadência universais. Constrói sobre essa base idealista uma teoria da sociedade surpreendentemente realista, capaz de explicar as principais tendências da evolução histórica das cidades-estados gregas e das forças políticas e sociais que atuavam em seu próprio tempo.

Platão desenvolveu uma sistemática sociológica historicista para compreender e interpretar o mutável mundo social. Partindo dos Estados existentes como cópias decadentes de um Ideal imutável, tentou reconstruir a Ideia do Estado e descrever uma sociedade que a ela mais se assemelhasse. Utilizou como material para sua reconstrução tradições antigas e sua análise das instituições sociais de Esparta e Creta as mais antigas formas de vida social que podia encontrar na Grécia. Nelas reconheceu formas de sociedades tribais ainda mais antigas. Para fazer uso adequado desse material, necessitou de um princípio para distinguir entre os traços bons, ou originais, das instituições existentes, e seus sintomas de decadência. Achou esse princípio em sua lei das revoluções políticas: a desunião da classe governante e sua preocupação com os negócios econômicos são a origem de qualquer mudança social. Seu Estado melhor deveria ser reconstruído de modo a eliminar todos os germes e elementos de desunião e decadência, o mais radicalmente possível; deveria tomar como base o Estado espartano; e garantir as condições necessárias à unidade da classe dominante, assegurada por sua abstinência econômica, sua educação e seu adestramento.

Interpretando as sociedades existentes como cópias decadentes de um Estado ideal, Platão deu às opiniões algo rudes de Hesíodo sobre a história humana um fundo teórico e uma rica aplicação prática. Desenvolveu uma teoria historicista notavelmente realista, que encontrava a causa da mudança social na desunião de Heráclito e na luta de classes, em que reconhecia as forças impulsionadoras e corruptoras da história. Aplicou esses princípios historicistas à história do Declínio e da Queda das cidades-estados da Grécia, e especialmente a uma crítica da democracia, que descreveu como efeminada e degenerada. E mais tarde, nas Leis, também os aplicou a uma história do Declínio e Queda do Império Persa, iniciando uma longa série de dramatizações sobre Declínios e Quedas de impérios e civilizações. Esse esforço pode ser interpretado como uma tentativa das mais impressionantes para explicar e racionalizar sua experiência da derrocada da sociedade tribal, experiência análoga à que levara Heráclito a desenvolver a primeira filosofia de mudança.

5 – NATUREZA E CONVENÇÃO

Platão nos legou uma reconstrução surpreendentemente verdadeira, ainda que um tanto idealizada, de uma sociedade grega primitiva, tribal e coletivizada. Uma análise das forças econômicas que ameaçavam a estabilidade política dessa sociedade capacita-o a descrever as instituições sociais necessárias para deter essa ameaça. Fornece-nos também uma reconstrução racional do desenvolvimento econômico e histórico das cidades-estados gregas.

Seu sucesso é prejudicado por seu ódio à sociedade em que vivia e por seu romântico amor à velha forma tribal de vida social. É essa atitude que o leva a formular sua lei de desenvolvimento histórico da degradação e decadência. E a mesma atitude é também responsável pelos elementos irracionais, fantásticos e românticos de sua análise, de outro modo excelente.

Derivou sua teoria historicista da doutrina filosófica de que o mundo visível e mutável não passa de uma cópia decadente de um mundo invisível e imutável. Mas essa engenhosa tentativa de combinar um pessimismo historicista com um otimismo ontológico conduz, quando elaborada, a dificuldades. Tais dificuldades forçaram-no à adoção de um naturalismo biológico que levou (juntamente com o “psicologismo” a teoria de que a sociedade depende da “natureza humana” de seus membros) ao misticismo e à superstição, culminando em uma teoria matemática pseudo-racional da criação.

Essa estrutura exibe um dualismo metafísico fundamental no pensamento de Platão. No campo da lógica, esse dualismo apresenta-se como a oposição entre o Universal e o Particular. No campo da especulação matemática, surge como a oposição entre a Unidade e a Pluralidade. No campo da epistemologia, é a oposição entre o Conhecimento Racional, baseado no pensamento puro, e a Opinião baseada nas experiências particulares. No campo da ontologia, é a oposição entre a Realidade una, original, invariável e verdadeira, e as Aparências múltiplas, variáveis e enganosas; entre o puro ser e o tornar-se, ou mais precisamente, a mutação. No campo da cosmologia, é a oposição entre o que gera e o que é gerado e que deve decair. Na ética, é a oposição entre o Bem, o que preserva, e o Mal, o que corrompe. Na política, é a oposição entre a unidade coletiva, o Estado, que pode alcançar a perfeição e a autarquia, e a grande massa do povo, a pluralidade individual, os homens particulares que devem permanecer imperfeitos e dependentes, e cujas particularidades devem ser suprimidas em benefício da unidade do Estado. Essa filosofia dualista, creio, originou-se do anseio de explicar o contraste entre a visão de uma sociedade ideal e o odioso estado de coisas que via no campo social o contraste entre uma sociedade estável e uma sociedade em processo de revolução.

6 – JUSTIÇA TOTALITÁRIA

O problema da justiça em Platão relaciona-se com o da igualdade e da desigualdade, ao individualismo e ao coletivismo. Individualismo, coletivismo, altruísmo e egoísmo descrevem atitudes normativas. Nesse contexto, individualismo pode ser usado de dois modos diferentes: em oposição ao coletivismo ou ao altruísmo. Altruísmo, contudo, é também antônimo de egoísmo. Platão identificou coletivismo com altruísmo. Seu holismo exigiu que o indivíduo deveria submeter-se aos interesses do todo: “A parte existe em função do todo, mas o todo não existe em função da parte… Fostes criado em função do todo, e não o todo em função de vós”. Sugere que se não pudermos sacrificar nossos interesses pelo bem do todo, somos egoístas.

Ora, o coletivismo não se opõe necessariamente ao egoísmo, nem se identifica com o altruísmo. Um individualista pode ser altruísta; pode estar pronto a fazer sacrifícios para ajudar os outros. A identificação do individualismo com o egoísmo fornece a Platão poderoso instrumento para defender o coletivismo e para atacar o individualismo.

Platão estava certo em ver nessa doutrina o inimigo do Estado de castas. Odiava o indivíduo e sua liberdade tanto quanto odiava as variadas experiências particulares, a variedade do mundo mutável das coisas sensíveis. Na República desenvolve uma doutrina da justiça que é incompatível com o individualismo. Seu coletivismo radical nem mesmo contempla os chamados problemas de justiça o julgamento imparcial das causas dos indivíduos em litígio. Só importa o coletivo na totalidade, e a essência da justiça está descrita na República: “justo é sinônimo do que é do interesse do Estado melhor”: deter qualquer mudança, pela manutenção de rígida divisão de classes e do governo de uma classe. A teoria coletivista, tribal e totalitária da moralidade emerge: “É bom o que é do interesse de meu grupo, de minha tribo, de meu Estado”.

A República é talvez a mais esmerada monografia já escrita a respeito da justiça. Contudo, na discussão das teorias de seu tempo, a noção de justiça como a igualdade perante a lei (isonomia) nunca é mencionada. Tal omissão só pode ser explicada por sua oposição às tendências igualitárias e individualistas de seu tempo. Visa restabelecer o tribalismo, pelo apelo a uma visão da justiça, em tudo semelhante à moderna definição totalitária do direito.

7 – O PRINCÍPIO DE LIDERANÇA

A teoria da justiça de Platão indica claramente que ele via o problema fundamental da política na indagação: Quem deverá dirigir o Estado? Tenho a convicção de que Platão, ao expressar o problema da política dessa forma, introduziu na filosofia política permanente confusão, análoga à que criou ao identificar coletivismo e altruísmo. Esse tipo de indagação admite somente respostas óbvias: “o mais sábio”, “o melhor”.

Uma pergunta alternativa é a seguinte: como poderemos organizar as instituições políticas de modo tal que governantes maus ou incompetentes sejam impedidos de causar demasiado dano? Os que optam pela primeira indagação tacitamente admitem que o poder político é essencialmente livre de controle. Denominei-a teoria da soberania. Os que preferem a segunda indagação, a teoria de controles e equilíbrios, enfatizam o controle institucional dos governantes através do equilíbrio de suas forças com outras forças. Baseiam-se na decisão de evitar a tirania e resistir a ela.

Uma dicotomia é apropriada para distinguir os dois tipos principais de governo. O primeiro consiste nos governos de que podemos nos livrar sem derramamento de sangue por exemplo, por eleições gerais numa democracia. As instituições sociais fornecem meios pelos quais os governados podem depor os governantes; a estabilidade das instituições sociais assegura que não serão facilmente destruídas pelos que detiverem o poder. O segundo tipo, a tirania, consiste em governos de que os governados não podem se livrar exceto por meio de revoluções.

A ênfase de Platão sobre o problema de quem deve governar implicitamente admite a teoria geral da soberania. Elimina, sem sequer a suscitar, a questão do controle institucional dos governantes e de um equilíbrio de seus poderes. O interesse é desviado das instituições para a pessoa do governante; o problema torna-se o de escolher líderes naturais e adestrá-los para a liderança.

O programa político de Platão foi mais institucional que personalista: esperava deter a mudança política pelo controle institucional da sucessão na liderança, baseado em uma concepção autoritária do ensino e na autoridade do sábio letrado, do homem de comprovada probidade.

8 – O REI FILÓSOFO

Por que Platão requer que os filósofos sejam reis, ou os reis filósofos? A única resposta a essa pergunta é a de que Platão entende de forma particular o termo “filósofo”: seu filósofo não é quem busca devotadamente a sabedoria, mas seu orgulhoso possuidor.

Que funções deveria deter o governante do Estado de Platão, o filósofo plenamente qualificado? Essas funções podem ser divididas em dois grupos principais: as relacionadas com a fundação do Estado e as ligadas à sua preservação. A primeira e mais importante função do rei filósofo é a de fundador e legislador da cidade. É clara a razão de necessitar de um filósofo para essa tarefa. Se o Estado deve ser estável, deverá ser uma cópia verdadeira da Ideia ou Forma do Estado. Só um filósofo plenamente capacitado na mais elevada das ciências, a dialética, será capaz de copiar o Original.

Para a preservação do Estado, sua exigência política central é a da soberania do rei filósofo. Somente o atendimento a essa exigência pode pôr fim aos males da vida social, à instabilidade política e à sua causa mais oculta, a agitação do mal dos membros da raça humana, sua degeneração racial: “A menos que em suas cidades os filósofos sejam investidos do poder de reis, ou que aqueles chamados reis e oligarcas se tornem genuínos e plenamente qualificados filósofos; e a menos que estes dois poderes, o político e o filosófico, se fundam, a menos que isso aconteça, meu caro Glaucon, não poderá haver repouso; e o mal não cessará de agitar as cidades, nem, creio eu, a raça dos homens”.

9 – ESTETICISMO, PERFECCIONISMO E UTOPISMO

Considero dos mais perigosos um aspecto do programa político de Platão. Sua análise é de grande importância prática, do ponto de vista da mecânica social racional. Tenho em mente a denominada mecânica utópica, em oposição a outra espécie de mecânica social, que considero a única racional, e que pode ser chamada de mecânica gradual.

A mecânica utópica pode ser assim descrita. Qualquer ação racional deve ter um certo objetivo. É racional porque visa seu objetivo consciente e consistentemente, e determina seus meios de acordo com o fim. Escolher o fim é a primeira etapa do agir racionalmente. E devemos distinguir os fins últimos dos passos intermediários, caso contrário não indagaremos se esses fins parciais são suscetíveis de promover o fim definitivo, deixando de agir racionalmente. Esse processo metodológico é convincente e atraente; é a espécie de metodologia capaz de atrair os que padecem de preconceitos historicistas. Isso só o torna mais perigoso e mais imperativa sua crítica.

Julgo a mecânica gradual metodologicamente sadia; o político que adota esse método pode ou não ter um projeto de sociedade em mente, pode ou não esperar que a humanidade atinja um dia um estado ideal e alcance a felicidade e a perfeição sobre a Terra. Mas terá consciência de que esta perfeição, se atingível, está muito distante, e que cada geração tem sua própria aspiração; talvez não tanto a aspiração de ser feliz, mas a de não ser infeliz sempre que puder evitar. A mecânica gradual, em conseqüência, adotará o método de analisar e combater os males maiores e mais prementes da sociedade, em vez de buscar seu maior bem definitivo. Essa diferença de métodos não é meramente verbal; é a diferença entre um método razoável de aperfeiçoar a sorte da humanidade e um método que, se realmente posto em prática, pode levar a um intolerável aumento do sofrimento humano. Os projetos de mecânica gradual são relativamente simples. São projetos específicos; se não funcionarem, o dano não é grande, nem difícil a correção. São menos arriscados e menos sujeitos à controvérsia. Ao contrário, o utópico tenta realizar um Estado ideal, usando um projeto de sociedade como um todo; isso exige um forte regime centralizado de uns poucos, passível de conduzir a uma ditadura.

A mecânica utópica depende da crença platônica num Ideal absoluto e imutável, da crença de que há métodos racionais para determinar qual é esse Ideal e quais os métodos para sua realização. O esteticismo e o radicalismo da mecânica utópica conduzem ao irracionalismo: substituem a razão por uma esperança desesperada em milagres políticos, ao rejeitar a tentativa e erro da mecânica gradual. Essa atitude irracional nasce da embriaguez dos sonhos de um mundo belo e romântico; pode buscar sua cidade celeste no passado ou no futuro; apela mais para nossas emoções do que para a razão. Mesmo com as melhores intenções de fazer o céu na Terra, só consegue fazer dela um inferno aquele inferno que somente o homem prepara para seus semelhantes.

10 – A SOCIEDADE ABERTA E SEUS INIMIGOS

As sociedades tribais caracterizam-se por uma atitude mágica ou irracional dos costumes da vida social e pela sua rigidez. Não distinguem as regularidades convencionais da vida social das regularidades da natureza; creem que ambas são impostas por uma vontade sobrenatural. Baseadas na tradição tribal coletiva, não admitem problemas de natureza moral, e suas instituições não dão espaço à responsabilidade pessoal. À sociedade mágica, tribal ou coletivista comparável a um organismo denomino sociedade fechada; e sociedade democrática à sociedade em que os indivíduos são confrontados com decisões pessoais.

A transição de uma sociedade fechada para a aberta constitui uma das mais profundas revoluções por que passou a humanidade. Essa revolução não foi feita conscientemente, nem isenta de perigos. Gerou tentativas de manter o tribalismo pela força; mas também levou à grande revolução espiritual, à invenção da discussão crítica e ao pensamento liberto de obsessões mágicas.

A Grande Geração que viveu em Atenas na época da Guerra do Peloponeso formulou os princípios da igualdade perante a lei e do individualismo político. Enfatizou também que o idioma, os costumes e a lei não têm o caráter mágico de tabus são instituições humanas, convencionais. E insistiu que somos responsáveis por essas instituições, que devemos ter fé na razão humana, ao mesmo tempo resguardando-nos do dogmatismo: em outras palavras, que é crítico o espírito da ciência. O surgimento da própria filosofia foi uma resposta à queda da sociedade fechada e de suas crenças mágicas. Uma tentativa de substituir a perdida fé mágica por uma fé racional; modificou a tradição de transmitir uma teoria ou um mito, fundando uma tradição nova: a de desafiar teorias e mitos e de discuti-los criticamente.

Em contraste, o sonho de Platão da unidade, da beleza e perfeição, o esteticismo, o holismo e o coletivismo é tanto produto quanto sintoma da perda do espírito de grupo do tribalismo. É a expressão dos sentimentos dos que sofrem da tensão da civilização nos tornamos dolorosamente conscientes das grandes imperfeições de nossa vida, das imperfeições pessoais e institucionais, do sofrimento evitável. Essa consciência aumenta a tensão da responsabilidade pessoal, de carregar a cruz de ser humano.

A lição que devemos aprender de Platão é exatamente a oposta à que ele tenta nos ensinar. A despeito da excelência do diagnóstico sociológico, sua terapêutica é pior que o mal que tentava combater. Deter a mudança política não é o remédio; não pode trazer a felicidade. Uma vez que comecemos a confiar em nossa razão e sintamos o apelo das responsabilidades pessoais e, com estas, a responsabilidade de promover o conhecimento, não podemos retornar ao estado de submissão na magia tribal. Não há volta possível a um estado harmonioso da natureza. Se voltarmos, deveremos refazer o caminho integral devemos retornar às feras.


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