Heil Le Pen

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Le Pen e o recrudescimento do nacionalismo antiglobalização

Concluí o artigo Le Pen, teoria da conspiração e conspiração dizendo que “uma possível vitória de Le Pen acelerará a queda no obscurantismo, reforçando as tendências que nos levam para a nova Dark Age que parece ter começado com o século 21 (a partir da tomada do governo da Rússia por Putin e do recrudescimento do terrorismo global e antiglobalização, com o atentado ao World Trade Center), configurando um ambiente tão favorável às teorias da conspiração quanto à conspiração”.

Os estatistas – digam-se de direita ou de esquerda – gostam de conspiração. A conspiração é da natureza do Estado, uma estrutura postiça, colocada sobre a sociedade, que jamais teria surgido por emergência, em virtude da dinâmica própria de sociedades humanas. Sempre foi urdido por uma casta (sacerdotal-guerreira), que o fez conspirando, quer dizer, planejando uma estrutura capaz de reproduzir um estamento que jamais perduraria em razão da dinâmica social própria de grupos humanos ocupados em sobreviver, viver e conviver por si mesmos (quer dizer, segundo as necessidades e desejos próprios do seu âmbito de autonomia).

Foi preciso alterar profundamente alguma coisa nos padrões de organização e, consequentemente, nos modos de regulação de conflitos, para que a reprodução do modo-de-vida e de convivência social deixasse de seguir o fluxo das necessidades e desejos dos coletivos humanos. Assim, o Estado não brotou de grupos paleolíticos de caçadores-coletores, nem de aldeias agrícolas neolíticas: foi construído, erigido, inicialmente, talvez, como horda guerreira (ainda um proto-Estado) e, depois, como Estado-Templo e Estado-Palácio (mesopotâmicos), cidade-Estado (antiga), pan-Estado (imperial), Estado-feudal antigo ou medieval, Estado-real, Estado-principesco, até chegar – pulando algumas formen menos significativas – à sua forma atual de Estado-nação.

Como isso aconteceu, não sabemos. Mas sabemos que aconteceu. Talvez uma configuração particularíssima que se constelou (em um ou vários lugares) tenha adquirido a capacidade de se manter e de se replicar. E sabemos também que uma vez surgido um Estado, todas as outras formas existentes na sua vizinhança ou no seu raio de alcance são destruídas (por ele). Assim, quem quiser resistir a um Estado, só tem uma chance: se organizar como Estado.

Um Estado total, porém, aniquila a sociedade. Mas a dinâmica social sempre resistiu ao Estado e, assim, os muros do Estado foram sendo perfurados, ao longo do tempo, por comunidades concretas de pessoas que achavam uma brecha qualquer para manter seus modos de vida e convivência social à revelia do Estado. A principal brecha aberta, nos últimos seis milênios, quer dizer, desde que surgiram os primeiros proto-Estados e Estados, foi a democracia, uma consequência da articulação da comunidade política num espaço que se tornou público (inicialmente a Polis, a koinonia que brotou das conversações dos homens livres na praça do mercado de Atenas, na passagem do século 6 para o século 5 AEC).

A despeito da democracia ter sido inventada pelos antigos e reinventada pelos modernos no século 17, o Estado, todavia, continuou existindo. A democracia não era uma forma substituta para o Estado e sim um processo de desconstituição dos modos autocráticos de regulação de conflitos prevalecentes no Estado e mais acordes ao seu padrão hierárquico de organização. Estados são piramidais. Modos compatíveis com estruturas piramidais são autocráticos, não democráticos. Não existe aquele Estado-rede sobre o qual escreveu Manuel Castells em 1999 (num livro em que somos alguns de seus co-autores) (1) e nem, a rigor, o Estado-democrático. Para poder se exercer minimamente sob o Estado a democracia teve de domesticá-lo (e foi daí que surgiu a fórmula Estado democrático de direito).

Mas bem antes disso, o Estado – diante da diversidade de povos que foram contidos por suas fronteiras, estabelecidas manu militari – teve de se legitimar como representante da sociedade (e foi daí que nasceu a comunidade imaginária chamada nação). Sim, a nação foi inventada para dizer que o dominium do Estado (no sentido feudal do termo) não era de fato uma dominação, mas uma expressão do desejo das pessoas de quererem viver juntas, defender um território comum, cultivar uma mesma língua, conservar uma cultura e reproduzir um modo de vida.

Quando o Estado-nação apareceu, fruto da guerra – da paz de Westfália (1648-1659) – já apareceu como forma legitimatória do arrebanhamento de vários povos que não tinham história suficiente de interação para quererem uma vida comum (e frequentemente não falavam a mesma língua, nunca ocuparam o mesmo território, tinham várias culturas e sobreviviam, viviam e conviviam de modos bem diferentes). Era preciso dizer que aquele povo todo, juntado em função da guerra e dos acordos de paz (que ainda são guerra), eram um mesmo povo: uma nação. Foi reengenharia pura, uma operação de mitificação da história que, como toda mitificação, buscou raízes comuns imaginárias na antiguidade: nos casos mais graves de estatismo (como o nazista), essas raízes foram buscadas no passado remoto, de um suposto povo ariano – que, como tal, ao que indica a recente pesquisa histórica, nunca existiu. Tal operação já tinha sido feita por Platão, no Timeu, ao especular o que havia ocorrido, em tempos ancestrais, nove milênios antes da sua época, em uma suposta “idade de ouro” da Grécia que, não por acaso, regia-se àquela época por um sistema autocrático, baseado em uma sociedade de castas, regime tão excelente que foi por meio dele que, segundo o filósofo insinua, logrou resistir às investidas militares da lendária Atlântida, preservando a civilização helênica.

Foi assim que se inventou a comunidade imaginária chamada nação, precipuamente para dar origem ao… nacionalismo. O nacionalismo é o cimento do Estado, o ardor patriótico o seu combustível. Mas o nacionalismo começou a se enfraquecer na medida em que pessoas capturadas por diversos Estados e levadas a acreditar que pertenciam a diferentes nações começaram a interagir entre si sem respeitar as fronteiras dos Estados e sem pedir sua licença. Os humanos descobriram-se como membros de uma mesma família (cujos sete bilhões de membros, em termos genéticos, são quase todos primos até o grau 50). Perigo para os que queriam nos convencer de que devemos valorizar as relações entre americanos e americanos, franceses e franceses e brasileiros e brasileiros em detrimento das relações entre americanos e europeus (ou mexicanos), entre franceses e alemães (ou turcos) e entre brasileiros e argentinos (ou chilenos). Se as divisões não forem bem demarcadas (e as rivalidades estimuladas), esvai-se o nacionalismo – o que é uma ameaça ao Estado. Por isso, “America First” (Trump), “France première” (Le Pen), “Brasil acima de tudo” (Bolsonaro).

Le Pen Trump

Este século começou, infelizmente, marcado pela brutal reação estatista à emergência de uma sociedade-em-rede. Os estatistas de direita inventaram recentemente um espantalho chamado “globalismo”, imitando o que já haviam feito os estatistas de esquerda no início dos anos 90, ao criarem outro espantalho: o chamado “neoliberalismo”. Qual foi o objetivo dessa guerra travada pelos estatistas de todos os matizes, numa operação típica de contra-informação? Combater a globalização dizendo que estavam combatendo o globalismo. E combater o liberalismo político declarando que estavam apenas lutando contra o neoliberalismo.

Ambos sentiram-se ameaçados com essa história de sociedade, comunidade, rede. Sim, no fundo, no fundo, é disso que se trata. A nação, uma comunidade imaginária inventada pelo Estado, deve ser alçada à categoria de principal referência política. Enquanto que as comunidades concretas, compostas por pessoas livres, que começam a emergir em profusão em sociedades altamente conectadas ou em mundos de alta interatividade, devem ser desacreditadas ou subordinadas à nação (quer dizer, ao Estado).

Vejamos, para começar, o que declarou Le Pen recentemente, em entrevista à Foreign Affairs, no final de 2016:

“Eu reconheço apenas indivíduos. São os indivíduos que têm direitos. São os indivíduos que têm livre arbítrio. São os indivíduos que assimilam uns aos outros. Em nenhum caso, isso é feito por comunidades”.

Ora, se a comunidade não existe, não existe a rede e não existe o que chamamos propriamente de social (a sociedade).

Comparemos agora o que disse Le Pen com uma declaração de Margareth Thatcher à Own Magazine, em outubro de 1987 (2):

“And, you know, there is no such thing as society. There are individual men and women, and there are families”.

É incrível como essas pessoas não acreditam na sociedade (como modo de agenciamento autônomo), quer dizer, não acreditam nas comunidades concretas de pessoas, mas acreditam na nação (essa comunidade imaginária inventada pelo Estado). Sim, o nacionalismo, quer dizer, o estatismo quer indivíduos isolados e por isso odeia pessoas (indivíduos conectados).

E por isso tudo faz sentido. Trata-se apenas da reação estatista. Os motivos pouco importam. Aliás, o florescimento do jihadismo ofensivo islâmico (e o próprio crescimento vegetativo do islamismo) – independentemente de serem uma ameaça real à democracia: e não à nação, como eles dizem – caiu como uma luva. A cada atentado de um maluco terrorista do Estado Islâmico, que vitime uma ou cem pessoas, haverá uma gritaria de outros loucos trumpistas ou de lepenistas (da Frente Nacional) exigindo a ereção de muros, o fechamento de fronteiras e clamando por superávits de ordem.

Le Pen Heil

Ainda que o perigo exista (no caso do jihadismo ofensivo), o objetivo não é bem se proteger do inimigo concreto da hora e sim se proteger do outro, se isolar, interromper os fluxos que não estão sob controle do Estado, impedir que o local conectado seja o mundo todo para conservar, tais como fizeram os chefetes locais da Arábia Saudita que financiaram inicialmente a Al Qaeda (apavorados com a globalização via TV, telefone celular e Internet), o local separado. O localismo conservador do meio-oeste americano que aderiu ao trumpismo tem a mesma natureza do localismo islâmico: são antiglobis, são não-cosmopolitas e são, fundamentalmente, antidemocráticos. Pois o objetivo do bloqueio de fluxos é trazer a divisão para dentro, instalando internamente um permanente estado de guerra (o real objetivo de qualquer guerra, como se sabe desde Thomas Hobbes) que permita a redução das liberdades em nome da segurança (e da ordem) e a ereção de padrões hierárquicos de organização acordes a modos autocráticos de regulação de conflitos.

A vitória de Le Pen (que é improvável, mas não impossível: veja-se o que ocorreu com Trump), a saída da França da União Europeia e da OTAN e as medidas autoritárias que inevitavelmente se seguirão, apontam para um mundo mais sombrio e mais avesso à democracia.

Não se sabe quantos atentados terroristas acontecerão até 7 de maio, pode ser que não ocorra nenhum: mas é bom ficar alerta. Depois do Brexit de Farage e do America First de Trump não há nada que Putin deseje mais do que um Frexit de Le Pen.

Le Pen e Putin

Sim, Putin também é um antiglobalista, nos seus termos: não quer uma globalização planetária e sim duas globalizações: a sua própria, eurasiana versus a do seu inimigo providencial e funcional, a oceânica. Uma união européia no meio só atrapalha a reinstalação da guerra fria e da política de blocos. No máximo completaria o novo sistema internacional (entre-nações, quer dizer, Estados; não global, em termos de sociedades) uma China renitente, compondo o mapa geopolítico tenebroso do 1984 de George Orwell (1948): Eurásia x Oceânia x Lestásia (esta, sim, uma verdadeira nova ordem mundial).

Pronto! Tudo sob controle dos impérios novamente.

Notas

(1) Cf. Bresser Pereira, Luiz Carlos, Wilheim, Jorge e Sola, Lourdes (Orgs.). Sociedade e Estado em transformação. São Paulo: Unesp, 2001.

(2) A citação inteira é a seguinte: “I think we’ve been through a period where too many people have been given to understand that if they have a problem, it’s the government’s job to cope with it. ‘I have a problem, I’ll get a grant.’ ‘I’m homeless, the government must house me.’ They’re casting their problem on society. And, you know, there is no such thing as society. There are individual men and women, and there are families. And no government can do anything except through people, and people must look to themselves first. It’s our duty to look after ourselves and then, also to look after our neighbour. People have got the entitlements too much in mind, without the obligations. There’s no such thing as entitlement, unless someone has first met an obligation”. Prime minister Margaret Thatcher, Talking to Women’s: Own Magazine, October 31 1987.


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