O elo fraco

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Le Pen, teoria da conspiração e conspiração

Esse ataque terrorista na Champs Élysées, às vésperas de uma eleição decisiva para a França e para a Europa, estando a FSB (ex-KGB) de Putin e (não se sabe bem quem, entre os antiglobalistas que estão ao lado de) Trump (além, é claro, do próprio Trump) tão interessados no resultado do pleito, estimula mesmo especulações conspirativas. O Estado Islâmico assumiu a autoria do atentato? Mas quem é o Estado Islâmico atualmente e quem fala por ele?

Teorias da conspiração, já mostrei várias vezes, são inadequadas e – ao urdirem narrativas onde não há lugar para o contingente, para o erro, para a falha e, sobretudo, para o acaso – acabam sempre conspirando contra a democracia (pois onde não há lugar para o não-previsto – e para o não-previsível – também não há lugar para a liberdade).

Isso não significa, por outro lado, que não existam conspirações. Não! Elas existem e existem o tempo todo, sobretudo na política autocrática (a “política do poder” – como a política palaciana que era feita na corte dos imperadores chineses ou no Comitê Central do atual PCC – é quase toda realizada por meio de conspirações). Aliás, um dos objetivos precípuos da contra-informação usada pelos conspiradores é negar que estejam conspirando, desacreditando os que denunciam suas conspirações como malucos que estariam inventando teorias da conspiração. Mas se conspirações não existissem nunca teríamos ouvido falar dos tais “Protocolos dos Sábios de Sião” (urdidos pela polícia secreta do Czar Nicolau II, a Okhrana: ou alguém duvida que isso foi uma conspiração?).

Boa parte da atividade dos serviços de inteligência, segurança e informação consiste nisso: tramar, esconder a trama e desacreditar quem a revela com a acusação de conspiracionismo. Para complicar tudo, mais ainda, as chamadas comunidades ditas de inteligência, contraditoriamente, querem que acreditemos que elas não existem (ou que não fazem o que fazem) e, ao mesmo tempo, acusam-se mutuamente de estar conspirando. Assim, por exemplo, a FSB divulga a falsa versão de que foi a CIA que tramou o impeachment de Dilma e que organizou as grandes manifestações de rua contra o ditador Maduro na Venezuela. E quando isso é denunciado, ela se defende dizendo que tudo não passa de teoria da conspiração ou de uma falsa versão criada pela… CIA.

Como explicação histórica, o conspiracionismo não é um recurso metodológico válido. Mas essa atitude epistemológica, que é correta, de invalidar o apelo a hipóteses conspirativas como método de investigação, também não pode invalidar a possibilidade da existência de conspirações, a despeito delas, em mais de 90% dos casos, não darem certo.

Não há conspiração que explique o fato das eleições de hoje na França contarem com quatro candidatos com chances de ir ao 2º turno. Deve ter havido muita conspiração – sobretudo dos serviços de inteligência da Rússia e, provavelmente apenas em parte, dos USA – para que um desses candidatos fosse Marine Le Pen, mas isso não pode explicar a situação que acabou se configurando realmente e muito menos determinar o resultado do pleito.

Em sistemas complexos as variáveis associáveis à mudanças de estado são tantas que não se pode saber de antemão em quais delas se deve mexer para acarretar alterações pretendidas. Uma pequena perturbação, involuntária ou não-planejada, mesmo originada na periferia do sistema, pode, de repente, se amplificar por múltiplos laços de retroalimentação de reforço e acabar mudando o comportamento dos agentes do sistema como um todo. Infelizmente, para os que querem dirigir a história; e felizmente, para a democracia.

Teorias da conspiração e conspirações à parte, os democratas, entretanto, sabem que a vitória de Le Pen será prejudicial à democracia. Le Pen é a candidata preferida por 11 entre 10 antiglobalistas. Mas o antiglobalismo do século 21 é o sucedâneo, à direita, do que foi o antineoliberalismo de esquerda dos anos 90 do século 20. São, ambas, narrativas autocráticas. E delas recende o mesmo mau odor conspiratório.

O antiglobalismo reforçou-se na Europa com o Brexit e nos USA com Trump. No fundo é uma reação à emergência da sociedade-em-rede. Alguns antiglobalistas dizem que não são contra a globalização econômica, mas apenas contra a globalização política. Ora… a globalização é (não fosse o nome estar dizendo) um fenômeno global, acompanhante da alteração da topologia da sociedade, que ficou mais distribuída e, consequentemente, mais conforme às dinâmicas próprias de mundos altamente conectados e de alta interatividade. Ou seja, o fenômeno objetivo é propriamente político e não pode ser confundido com a prevalência de interesses de alguns grupos sobre os interesses de outros (embora isso tenha ocorrido, não significa que houve uma conspiração, um plano urdido por atores, exotéricos ou esotéricos, como querem nos empulhar os inventores da teoria da conspiração de uma nova ordem mundial).

Para a política de Putin – de reeditar a guerra fria e fazer o mundo retrogradar aos anos 60 do século 20, para não falar do neo-eurasianismo de Dugin -, a França, hoje, é o alvo principal, inclusive por ser o elo mais fraco da Europa. Há fortes tendências anti-globalização na França (um país absurdamente estatista para figurar entre as grandes nações democráticas do mundo) e a candidatura de Marion Anne Perrine Le Pen, de certo modo, serve de desaguadouro para a insatisfação que engrossa essas correntes antidemocráticas. Algumas, inclusive, claramente fascistas e colonialistas, aglomerando desde ativistas antissemitas e homofóbicos até os nostálgicos da colaboração francesa com a Alemanha nazista ou do poder sobre a Argélia e outras colônias. Mas a grande maioria mesmo dos eleitores de Le Pen é composta pelos que estão com medo e que se dispõem a trocar parte da sua liberdade pela segurança contra o jihadismo ofensivo islâmico, vindo do exterior ou dos guetos internos formados por imigrantes. Nenhum desses eleitores está muito preocupado com Putin, muito menos com Trump – pelo contrário. Querem uma França segura, querem continuar levando a vida como sempre levaram (ou imaginam que sempre levaram) e querem uma espécie de “France First” (ou en premier, se é que a expressão faz sentido).

Uma possível vitória de Le Pen acelerará a queda no obscurantismo, reforçando as tendências que nos levam para a nova Dark Age que parece ter começado com o século 21 (a partir da tomada do governo da Rússia por Putin e do recrudescimento do terrorismo global e antiglobalização, com o atentado ao World Trade Center), configurando um ambiente tão favorável às teorias da conspiração quanto à conspiração.


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