Mani Pulite

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Lições básicas de política para lavajatistas

Entenda onde mora o perigo

Operações como a Lava Jato devem continuar. Fazem parte, agora (espera-se), do funcionamento normal do Estado democrático de direito. Embora, no Brasil, não houvesse costume de punir crimes de poderosos (políticos e empresários), isso tem de ser feito: a lei deve valer para todos, como diz o lema.

No entanto, isso não pode ser confundido com o uso das instituições de controle para emplacar um projeto de reforma da política. Policiais, procuradores e juízes não podem se associar para impor mudanças políticas. Se isso acontece e estamentos do Estado, alguns de caráter corporativo, resolvem se transformar em atores políticos (não da policy, o que seria correto, mas da politics) então temos uma disrupção no funcionamento democrático das instituições que só é verificada em períodos revolucionários.

Sim, somente em eventos como a Revolução Francesa, uma parte do Estado se volta contra outra, realizando cruzadas para cortar cabeças, o que, mesmo assim, tem consequências para lá de duvidosas (o reinado do terror, o Termidor e a ascensão de Napoleão Bonaparte são exemplos de que os resultados da “revolução” estatista podem ser desastrosos). Não importa para nada se essa antipolítica robespierriana da pureza conta com o apoio da massa dos descamisados (os sans-culottes): o desastre pode ocorrer mesmo assim.

Por outro lado, não se pode fazer uma revolução sem revolução, pegando uma carona no funcionamento das velhas instituições que, para tanto, precisariam ser reformadas. Este é o problema da Lava Jato: não o correto combate à corrupção na política e sim a instrumentalização das instituições que têm por missão constitucional fazer isso para alavancar projeto políticos de limpeza do mundo, passando pela deposição de chefes de governo e de seus auxiliares ou de parlamentares. Não se pode usar o establishment para abolir o establishment (e nem mesmo, a rigor, para reformá-lo, como sabemos desde o fim trágico de Giordano Bruno).

A principal evidência disso é que toda a cruzada de caça aos corruptos deu, até agora, como resultado concreto, a disseminação da falsa narrativa (aliás, petista) de que o PT só fez o que todos os partidos fazem (o que é uma empulhação da opinião pública, posto que foi o PT que montou, com a ajuda lateral de aliados, o maior esquema criminoso de poder da história universal). Quem duvidar deve perguntar: quantos dirigentes da organização política criminosa, que dirige de fato o PT, estão presos em regime fechado? A resposta será reveladora: apenas um, João Vaccari.

A principal lição é a seguinte: não se pode reformar a política sem política e não se pode abolir o sistema político, por mais apodrecido que esteja, por meio de ações policiais e judiciais (posto que estas instituições, que compõem o establishment, também apodreceram, não apenas o parlamento e o governo). Ou alguém acredita que, de repente, todos os vereadores, deputados e senadores, todos os prefeitos, governadores, o presidente e seus ministros, viraram corruptos, mas os policiais, procuradores e juízes, não: permaneceram sendo varões de Plutarco? Fala sério!

Se fosse possível trocar a política pela torcida para que a justiça resolva os problemas da política, a política não seria necessária (e, assim, também não haveria democracia). Há um problema político. A justiça não pode resolver um problema político. É o óbvio, ou deveria ser.

No final a Lava Jato terá, infelizmente, um desfecho muito parecido com o da sua congênere italiana, a operação Mãos Limpas (Mani Pulite). O sistema, de alguma forma, metabolizará esses esforços saneadores para se recuperar. Pois, queiramos ou não, a mudança política possível – na ausência de uma ruptura da ordem existente (já que não está em curso uma verdadeira revolução) – virá das urnas de 2018. E os representantes do novo tenentismo de toga (ou chegados a uma toga) não serão os eleitos.

Sem tomar o poder, não se pode mudar o poder da noite para o dia. E fazer isso, pelo caminho democrático, não é possível. Não é possível pela via seca dos alquimistas ou por uma explosão atômica, por uma tomada do Palácio de Inverno, com a Queda da Bastilha. A menos que se eleja em 2018 um autocrata com a esperança de que ele dê um golpe de Estado em seguida. É aqui que mora o perigo.


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