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Macarthismo no governo: caça às bruxas e aparelhamento bolsonarista

“Eu acho que, pessoa que é um ativista de um partido como o PT, é até uma a obrigação moral dela pegar e se afastar daquela administração”, afirmou Santos Cruz, segundo o G1 de ontem (08/01/2019).

E se for um ativista do PSL, como o Bebianno, aí pode general?

Desaparelhar o Estado de militantes petistas (sobretudo retirando-os de cargos de chefia) foi uma tarefa que começou depois do impeachment de Dilma, embora não tenha sido concluída no governo Temer, inclusive porque uma parte dos petistas é concursada e não pode simplesmente ser dispensada sem processo administrativo. Mas em cargos de chefia não existiam mais tantos ativistas assim: um ou outro é possível, mas não como disse Onyx Lorenzoni – que deu uma declaração claramente macarthista, na vibe da caça às bruxas.

Como toda imprensa noticiou, o novo ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, anunciou no dia 02 de janeiro de 2019, a exoneração de todos os ocupantes de cargos de confiança com a finalidade de iniciar uma “despetização” da pasta. Segundo ele – e cito aqui novamente matéria do G1 -, serão exonerados cerca de 320 servidores em funções gratificadas e cargos em comissão (de livre escolha), a fim de que o governo possa operar “livre de amarras ideológicas”, como tem afirmado o presidente Jair Bolsonaro. “Vamos retirar de perto da administração pública federal todos aqueles que têm marca ideológica clara. Nós todos sabemos do aparelhamento que foi feito principalmente do governo federal nos quase 14 anos que o PT aqui ficou”, disse o ministro. “Isso faz parte um pouco daquela frase que o presidente Bolsonaro dizia na campanha, de fazer a despetização do governo federal”, acrescentou. Onyx ainda informou que, em reunião ministerial,  apresentará aos demais colegas ministros a sugestão de adotar um “caminho semelhante”. Ele afirmou que o principal critério será o de competência, mas disse que não aceitará quem tiver posição “antagônica ao nosso projeto”. “O que nós vamos buscar é retirar do quadro que está aqui todos aqueles que têm um componente ideológico antagônico ao nosso projeto. Não tem fundamento ter aqui um cara que é socialista, comunista, ou qualquer dessas outras coisas”, afirmou.

Ora… não ter no governo pessoas que usam o cargo para fazer ativismo partidário é uma coisa. Outra coisa, bem diferente, é não admitir que funcionários, concursados ou indicados, possam ter suas próprias ideias, mesmo que o governo não concorde com elas. Bolsonaro vai agora proibir que as pessoas pensem o que quiserem? Não podem mais pensar e concordar com visões de mundo de sua escolha, seja o socialismo, o anarquismo, o capitalismo, o liberalismo, o globalismo ou o antiglobalismo?

Isso não é um governo democrático e sim uma seita.

Para a narrativa bolsonarista dar certo, uma parte da história – o período do governo Temer – tem de ser apagada. O governo Bolsonaro quer dizer que veio para varrer o PT e suas orientações de todos os lugares. Mas pelo menos em cargos de chefia, grande parte dos petistas já havia sido removida depois do impeachment de Dilma (inclusive no Itamaraty). Do jeito que os brucutus bolsonaristas falam dá a impressão de que Ernesto Araújo (um militante olavista, trumpista, anticomunista) substituiu Celso Amorim (um militante lulista, petista e comunista), quando não é verdade. Araújo substituiu Aloysio Nunes Ferreira (que não tem nada de petista ou de comunista). Ou seja, a orientação da política externa brasileira já havia mudado depois do impeachment, muito antes da posse de Bolsonaro e do seu chanceler Araújo.

Se alguém usa um cargo público para fazer ativismo partidário (em prol de qualquer partido), deve ser advertido e, se reincidir, demitido. Do contrário é o spoil system: o partido que ganhou aparelha a máquina administrativa do Estado desalojando os partidos que perderam para se apossar sozinho do butim. Desse jeito dá-se um aparelhamento inverso como é o caso de várias nomeações para os principais escalões do governo Bolsonaro:

Você troca um petista como Marco Aurélio Garcia por um olavista como Filipe Garcia Martins.

Você nomeia para coordenar o Enem, Murilo Resende, outro discípulo de Olavo de Carvalho.

Você nomeia para o gabinete pessoal da presidência, como fez Bolsonaro, o ativista Tercio Tomaz, assessor que atuou em página de ódio bolsonarista durante a pré-campanha.

Todos esses caras são ativistas. Isso para não falar de alguns ministros e secretários-executivos que também são militantes direitistas ou militaristas. Aí fica claro que é um aparelhamento ao contrário.

Como percebeu Josias de Souza, na sua coluna do último dia 6 (de janeiro de 2019), “Bolsonaro aparelha máquina estatal à moda do PT. Sob Jair Bolsonaro, o governo organiza o preenchimentos dos chamados cargos de confiança guiando-se por uma estranha lógica: invoca o aparelhamento promovido pelas administrações do PT para justificar o aparelhamento a ser feito pela nova gestão. Horroriza-se tanto com a ocupação predatória do Estado que deseja alastrá-la. Pratica o que abomina. Considera a ideologização do serviço público tão inaceitável que pretende impor sua própria ideologia”.

Há uma linha tênue entre desaparelhamento e caça às bruxas. O governo Bolsonaro está esboçando uma caça às bruxas. Esse é um movimento perigoso para a democracia. Em todas as cruzadas de limpeza anticomunistas os opositores são considerados traidores da pátria e acusados de comunismo, mesmo que não sejam comunistas.

Isso aconteceu nos USA, entre 1950 e 1957, quando o senador Joseph McCarthy (ver foto de capa) liderou uma campanha odiosa para perseguir (e demitir e prender) pessoas críticas ao regime ou ao sistema acusando-as de subversão ou de traição. Muitos que foram vítimas da patrulha macarthista eram apenas intelectuais e artistas com pensamentos liberais e nada tinham a ver com comunismo.

Aconteceu também no Brasil na época da ditadura militar, quando pensadores independentes foram perseguidos e demitidos sob acusação de serem subversivos. Um dos casos mais escandalosos ocorreu com o meu mestre em filosofia da ciência, Plinio Sussekind Rocha, que nada tinha de comunista, pelo contrário (era até um admirador de Spengler), foi cassado pelo AI5 em 1969 e nunca mais pôde mais entrar na universidade (ele faleceu em 17 de agosto de 1972). Publico aqui a sua foto, numa homenagem tardia (e como uma denúncia da injustiça causada pela caça às bruxas promovida pelos ditadores militares do golpe de 1964).

Agora, no governo Bolsonaro, a situação está ficando ainda pior. Acusam-se de comunistas (e, inclusive, de ex-terroristas) pessoas que, no passado, lutaram contra a ditadura militar, que pertenceram, às vezes, a organizações de esquerda, mas que há décadas não têm nada mais a ver com isso – como é o caso do ex-chanceler Aloysio Nunes.

Para o bolsonarismo, quem não apoia o governo é esquerdista, comunista, quando não terrorista. Nem Fernando Henrique – aquele que Bolsonaro queria fuzilar – escapa.

Chega a ser engraçado. Eu, que comecei a denunciar publicamente o projeto antidemocrático do PT ainda em 2003 – quando muitos antipetistas de hoje votavam em Lula e Bolsonaro, inclusive, permanecia caladinho, por mais de uma década, no partido mais corrupto da base do PT (o PP) – agora também estou correndo o risco de ser acusado, pela patrulha bolsonarista, de traidor da pátria, subversivo ou comunista.

Mesmo assim, ouso fazer uma boa sugestão para desaparelhar o governo de ativistas ideológicos, como quer o general Santos Cruz: começar demitindo os militantes olavistas, trumpistas e conspiracionistas antiglobalistas Ernesto Araújo e Vélez-Rodrigues.

P. S. Algumas horas depois do artigo acima estar publicado ficamos sabendo da notícia de mais um aparelhamento “do bem”. Letícia Catellani, amiga de Eduardo Bolsonaro e discípula de Olavo de Carvalho, foi indicada para assumir a Diretoria de Negócios da Agência Brasileira de Promoção de Exportações (Apex). É o mesmo aparelhamento do PT, só que com o sinal trocado.


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