in

Manifesto da esquerda é uma manipulação da democracia

Um dirigente das FARC assinaria sem pensar esse manifesto de esquerda. É preciso denunciar essa farsa 

O manifesto Democracia Sim – assinado por lulistas inveterados, como Chico Buarque e agentes de Zé Dirceu e defensores da ditadura cubana, como Fernando Morais – é uma peça de campanha da esquerda de Haddad ou Ciro.

Querendo se contrapor ao perigo (real) do bolsonarismo para a democracia, omite o perigo da volta do PT ao governo (ou da ascensão do estatista Ciro).

É mais uma manipulação da democracia, de uso da democracia contra a democracia (cuja “tecnologia” foi tão bem apropriada e desenvolvida pelo PT).

Os perigos para a democracia, hoje, vêm de dois tipos de populismo: tanto do populismo-autoritário (dito de direita, representado por Bolsonaro), quando do neopopulismo lulopetista (dito de esquerda, representado por Haddad – ou do puxadinho nacionalista-desenvolvimentista retrógrado representado por Ciro Gomes).

É um manifesto anti-Bolsonaro, não um manifesto pela democracia (ainda que Bolsonaro seja, de fato, uma ameaça à democracia).

Vários de seus signatários foram adeptos da falsa tese de que o impeachment foi golpe, repetiram (e ainda repetem) ad nauseam que “eleição sem Lula é fraude” e estão engajados nas campanhas de Fernando Haddad ou Ciro Gomes. Também assinaram a peça conhecidos teóricos marxistas (como Leonardo Avritzer), militantes ou simpatizantes de organizações autocráticas (como Bruno Torturra).

O manifesto investe na velha e estiolante polarização esquerda x direta e legitima a captura da disputa por dois projetos autocratizantes, contribuindo para alijar os democratas da cena pública.

É vergonhoso que tantos intelectuais que se dizem democratas (até gente ligada ao PSDB e a outros partidos que lançaram candidaturas no campo democrático) tenham assinado essa peça de campanha petista ou cirista.

Vejam a íntegra do texto e os nomes dos signatários e alguns comentários ao final.

Democracia Sim

Pela Democracia, pelo Brasil

Somos diferentes. Temos trajetórias pessoais e públicas variadas. Votamos em pessoas e partidos diversos. Defendemos causas, ideias e projetos distintos para nosso país, muitas vezes antagônicos.

Mas temos em comum o compromisso com a democracia. Com a liberdade, a convivência plural e o respeito mútuo. E acreditamos no Brasil. Um Brasil formado por todos os seus cidadãos, ético, pacífico, dinâmico, livre de intolerância, preconceito e discriminação.

Como todos os brasileiros e brasileiras sabemos da profundidade dos desafios que nos convocam nesse momento. Mais além deles, do imperativo de superar o colapso do nosso sistema político, que está na raiz das crises múltiplas que vivemos nos últimos anos e que nos trazem ao presente de frustração e descrença.

Mas sabemos também dos perigos de pretender responder a isso com concessões ao autoritarismo, à erosão das instituições democráticas ou à desconstrução da nossa herança humanista primordial.

Podemos divergir intensamente sobre os rumos das políticas econômicas, sociais ou ambientais, a qualidade deste ou daquele ator político, o acerto do nosso sistema legal nos mais variados temas e dos processos e decisões judiciais para sua aplicação. Nisso, estamos no terreno da democracia, da disputa legítima de ideias e projetos no debate público.

Quando, no entanto, nos deparamos com projetos que negam a existência de um passado autoritário no Brasil, flertam explicitamente com conceitos como a produção de nova Constituição sem delegação popular, a manipulação do número de juízes nas cortes superiores ou recurso a autogolpes presidenciais, acumulam declarações francamente xenofóbicas e discriminatórias contra setores diversos da sociedade, refutam textualmente o princípio da proteção de minorias contra o arbítrio e lamentam o fato das forças do Estado terem historicamente matado menos dissidentes do que deveriam, temos a consciência inequívoca de estarmos lidando com algo maior, e anterior a todo dissenso democrático.

Conhecemos amplamente os resultados de processos históricos assim. Tivemos em Jânio e Collor outros pretensos heróis da pátria, aventureiros eleitos como supostos redentores da ética e da limpeza política, para nos levar ao desastre. Conhecemos 20 anos de sombras sob a ditadura, iniciados com o respaldo de não poucos atores na sociedade. Testemunhamos os ecos de experiências autoritárias pelo mundo, deflagradas pela expectativa de responder a crises ou superar impasses políticos, afundando seus países no isolamento, na violência e na ruína econômica. Nunca é demais lembrar, líderes fascistas, nazistas e diversos outros regimes autocráticos na história e no presente foram originalmente eleitos, com a promessa de resgatar a autoestima e a credibilidade de suas nações, antes de subordiná-las aos mais variados desmandos autoritários.

Em momento de crise, é preciso ter a clareza máxima da responsabilidade histórica das escolhas que fazemos.

Esta clareza nos move a esta manifestação conjunta, nesse momento do país. Para além de todas as diferenças, estivemos juntos na construção democrática no Brasil. E é preciso saber defendê-la assim agora.

É preciso dizer, mais que uma escolha política, a candidatura de Jair Bolsonaro representa uma ameaça franca ao nosso patrimônio civilizatório primordial. É preciso recusar sua normalização, e somar forças na defesa da liberdade, da tolerância e do destino coletivo entre nós.

Prezamos a democracia. A democracia que provê abertura, inclusão e prosperidade aos povos que a cultivam com solidez no mundo. Que nos trouxe nos últimos 30 anos a estabilidade econômica, o início da superação de desigualdades históricas e a expansão sem precedentes da cidadania entre nós. Não são, certamente, poucos os desafios para avançar por dentro dela, mas sabemos ser sempre o único e mais promissor caminho, sem ovos de serpente ou ilusões armadas.

Por isso, estamos preparados para estar juntos na sua defesa em qualquer situação, e nos reunimos aqui no chamado para que novas vozes possam convergir nisso. E para que possamos, na soma da nossa pluralidade e diversidade, refazer as bases da política e cidadania compartilhadas e retomar o curso da sociedade vibrante, plena e exitosa que precisamos e podemos ser.

Assinam este manifesto

Adriana Lisboa
Alê Youssef
Alessandra Negrini
Alessandra Orofino
Alexandre Brasil Fonseca
Alexandre Nero
Alexandre Schneider
Alice Braga
Amon Barros
Ana Carolina Evangelista
Ana Helena Altenfelder
Ana Lucia Carneiro da Cunha
Ana Moser
Ana Toni
André Corradi Moreira Luthier
Andre Degenszajn
André Fischer
André Pereira de Carvalho
Andre Perosa
André Vallias
Andrea Alvarez
Andrea Barata Ribeiro
Andrea Calabi
Andrea Magri
Andreia Horta
Anete Abramowicz
Anna Penido
Antonia Pelegrino
Antonio Grassi
Antônio Nóbrega
Antônio Prata
Ariovaldo Ramos
Arnaldo Antunes
Aron Zylberman
Ary Oswaldo Mattos Filho
Astrid Fontenelle de Brito
Aurea Vieira
Bárbara Musumeci Mourão
Beatriz Bracher
Bel Coelho
Bel Melo
Bela Gil
Belisario dos Santos Junior
Bernard Appy
Beth Pessoa
Beto Vasconcelos
Beto Verissimo
Bia Barbosa
Binho Marques
Braulio Mantovani
Bruno Carazza dos Santos
Bruno Mazzeo
Bruno Torturra
Cadão Volpato
Caetano Veloso
Caio Magri
Camila Pitanga
Carlos Mello
Carlos Nobre
Carlos Pitchu
Carolina Bueno
Carolina Kotscho
Cazé Pecini
Cecilia Boal
Celia Cruz
Celso Athayde
Celso Lafer
Cesar Callegari
Chico Buarque
Chico Diaz
Cicero Araujo
Ciro Biderman
Claudia Abreu
Claudia Costin
Cláudio Couto
Clemente Ganz Lucio
Clemir Fernandes
Cléo Regina Todaro Santos de Miranda
Daniel Augusto
Daniel Cerqueira
Daniel De Bonis
Daniel Ganjaman
Daniela Bianchi
Daniela Di Bonito Mônaco de Moraes
Daniela Frozi
Daniela Gleiser
Danilo Miranda
Danilo Santos de Miranda
Dario Guarita Neto
Dario Menezes
Débora Lamm
Denis Mizne
Dira Paes
Doriam Borges
Drauzio Varella
Edson Fernando de Almeida
Eduardo Calil Ohana
Eduardo Marques
Eliane Dias
Eliane Giardini
Elisandro Lotin de Souza
Enrique Diaz
Estevão Ciavatta
Esther Solano
Eugenia Moreyra
Eugenio Bucci
Fabiana Luci de Oliveira
Fabiana Pereira
Fabio Feldman
Felipe Roseno
Fernand Alphen
Fernanda Abreu
Fernanda Lima
Fernanda Thompson
Fernanda Torres
Fernando Abrucio
Fernando Burgos
Fernando Grostein Andrade
Fernando Meirelles
Fernando Morais
Flávia Gusmão Eid
Flávia Lacerda
Flávio Conrado
Flavio Tavares de Lyra
Floriano de Azevedo Marques Neto
Francisco Sandro Rodrigues Holanda
Franklin Feder
Gabriel Feltran
Galeno Amorim
George Avelino Filho
Gerorgiana Goes
Gilberto Dimenstein
Gilberto Saboia
Gisele Froes
Glória Kalil
Gregorio Duvivier
Gui Amabis
Guilherme Casarões
Guilherme Leal
Guilherme Werneck
Haroldo Torres
Heitor Dhalia
Helder Vasconcelos
Helio Santos
Helivete Ribeiro
Heloisa Buarque de Holanda
Heloísa Perisse
Henri Philippe Reichstul
Henrique Silveira
Hugo Possolo
Humberto Dantas
Ilona Szábo
Ilza Jorge
Inês Lafer
Ivam Cabral
Ivanir dos Santos
Jailson Silva
Joana Jabace
João Biehl
Joaquim Falcao
Joel Zeferino
Joel Zito Araújo
Jorge Abrahao
Jorge Hage
Jorge Romano
Jorge Schwartz
Jose Carlos Dias
José Marcelo Zacchi
Juana Kweitel
Juca Kfouri
Julia Michaels
Juliana Braga de Mattos
Juliana Sakai
Julita Lemgruber
Jurandir Freire Costa
Jussara Silveira
Jussara Silveira
Karina Buhr
Karine Carvalho
Katia Maia
Laerte
Lauro Gonzales
Leandra Leal
Leonardo Avritzer
Leonardo Letelier
Leopoldo Nosek
Leticia Colin
Lilia Schwarcz
Luana Lobo
Lúcia Nader
Luciana Guimarães
Lucio Maia
Luedji Luna
Luis Bolognesi
Luiz Armando Badin
Luiz Camillo Osorio
Luiz Eduardo Soares
Luiz Felipe de Alencastro
Luiz Nascimento
Luiz Ruffato
Luiz Weis
Luiza Lima
Lusmarina Campos Garcia
Malak Poppovic
Mano Brown
Manoela Miklos
Marcelo Behar
Marcelo Burgos Santos
Marcelo Furtado
Marcelo Issa
Marcelo Madureira
Marcelo Masagão
Marcelo Rubens Paiva
Marcia Pereira das Neves
Márcio Tavares Amaral
Marco Antônio Carvalho Teixeira
Marcos Cavalcanti
Marcos Fernandes
Marcos Flaksman
Marcos Fuchs
Marcos Rolin
Marcus Vinícius Faustini
Marcus Vinicius Matos
Maria Alice Setubal
Maria Arminda do Nascimento Arruda
Maria Augusta Gomes Reichstul
Maria da Glória Bonelli
Maria de Medicis
Maria Filomena Gregori
Maria Gadu
Maria Hermínia Tavares de Almeida
Maria Ignez Barbosa
Maria Martha Cassiolato
Maria Stella Gregori
Maria Victoria Benevides
Mariana Lacorte Camponez do Brasil
Mariana Pamplona
Marília Librandi
Marina Dias Werneck
Marina Person
Mário Aquino Alves
Mário Monzoni
Marisa Moreira Salles
Mariza Abreu
Marta de Senna
Mary Camargo Neves Lafer
Mel Lisboa
Melina Risso
Michael Haradon
Miguel Lago
Milton Hatoum
Miriam Krenzinger
Monica Almeida
Monica Franco
Monique evelle
Myrian Porto
Naercio Menezes Filho
Natacha Costa
Noa Bressane
Numa Ciro
Oded Grajew
Olaya Hanashiro
Oscar Vilhena
Otávio Dias
Pablo Nunes
Pally Siqueira
Paloma Duarte
Patrícia Pilar
Paula Lavigne
Paulinho Moska
Paulo André
Paulo Barreto
Paulo Borges
Paulo Furquim
Paulo Miklos
Pedro Abramovay
Pedro Meira Monteiro
Pedro Mendes da Rocha
Pedro Paulo Poppovic
Pedro Strozenberg
Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva
Philip Yang
Pierpaolo Bottini
Pilar Lacerda
Priscila Cruz
Rafael Alcadipani
Rafael Parente
Raquel Nosek
Raul Santiago
Regina Braga
Regina Varela
Renato Janine Ribeiro
Renato Sergio de Lima
Rica Amabis
Ricardo Abramovay
Ricardo Borges Martins
Ricardo Chaves
Ricardo Henriques
Ricardo Lisias
Ricardo Sennes
Ricardo Teperman
Ricardo Young
Roberta Maiorana
Roberta Martinelli
Roberto Amorim
Roberto Waack
Rodrigo Martins Constante
Ronaldo Lemos
Rubens Barbosa
Rubens Naves
Rudi Rocha
Ruth Goldberg
Samira Bueno
Sarah Oliveira
Sergio Abranches
Sergio Adorno
Sergio Leitão
Sergio Miletto
Silvia Noronha dos Santos
Silvia Ramos
Silvia Taques Bittencourt
Silvio Eid
Sueli Carneiro
Tadeu Jungle
Tadeu Valadares
Tainá Müller
Talita Todaro Santos de Miranda
Tasso Azevedo
Tati Bernardi
Tereza Cristina
Theo Dias
Thiago Amparo
Thiago Lacerda
To Brandileone
Tulipa Ruiz
Valeria Macedo
Valerie Tomsic
Valmir Ortega
Valter Roberto Silverio
Valter Silvério
Vanessa Elias de Oliveira
Vera Iaconelli
Vítor Marchetti
Vítor Oliveira
Wagner Moura
Walter Casagrande Jr
Walter Salles
Washington Olivetto
Wilson Simoninha
Xis
Xixo Mauricio Piragino
Zeca Camargo
Zuza Homem de Mello

Os nomes dos signatários revelam tudo. Do ponto de vista da democracia, o manifesto é fake. Esconde a natureza do projeto petista como uma ameaça à democracia. Muitos que, ingenuamente, assinaram essa peça de marketing eleitoral, o fizeram por puro analfabetismo democrático. Outros, por oportunismo. Mas a articulação é, claramente, mais um ardil esquerdista.

O que os signatários do manifesto não viram?

Não viram que o PT é uma ameaça à democracia diferente da ameaça representada por Bolsonaro. Como Bolsonaro é avesso à democracia, pensaram – simploriamente – que se opor a Bolsonaro é defender a democracia. Não viram, para citar um verso escrito por um dos signatários, que o avesso pode ser o avesso do avesso do avesso do avesso.

Não viram o mais maligno para a democracia, da estratégia petista, que é fazer “a revolução pela corrupção” (na expressão do saudoso Ferreira Gullar), em doses homeopáticas, com o objetivo de conquistar hegemonia sobre a sociedade a partir do Estado aparelhado pelo partido para nunca mais sair do governo. Acham que o PT é democrático porque não quer dar um golpe de Estado em termos clássicos. Ora, o PT não quer mesmo dar um golpe de Estado, não quer promover uma insurreição popular, não quer empreender uma guerra popular prolongada, não quer instalar focos revolucionários e sim vencer eleições seguidamente, por tempo indeterminado, ganhando tempo para operar transformações por dentro do sistema que alterem o DNA da democracia. Foi esse, aliás, o conselho que Lula deu às FARC (e elas aceitaram). Um dirigente das FARC assinaria sem pensar esse manifesto de esquerda. Maduro assinaria. Evo Morales assinaria. Rafael Correa assinaria. Daniel Ortega assinaria. Até Raul Castro (espertamente) assinaria.

Não viram que os neopopulismos (ou seja, os populismos ditos “de esquerda”), são variantes do estatismo da esquerda contemporânea que adotou instrumentalmente a via eleitoral. Os neopopulistas não querem reformar o velho sistema político para torná-lo mais democrático. Antes, querem parasitá-lo, se alimentar dele para crescer no seu interior, como aquela vespa parasitoide (a hymenoepimecis argyraphaga) que deposita seus ovos dentro da aranha (plesiometa argyra) e que, de alguma forma, controla a mente da aranha (ou a reprograma). A aranha passa então a construir teias especialmente preparadas para receber as larvas que nascerão e para mantê-las seguras (até que, quando estão prontas, as larvas devoram a aranha de dentro para fora, saindo do corpo da hospedeira e se aproveitando da casa que ela construiu).

Não viram que foi isto, precisamente, que o PT fez: depositou seus ovos dentro da carcaça podre do velho sistema político, escondendo sua corrupção com propósitos de poder dentro da corrupção tradicional, endêmica na política. E foi bem sucedido, sobretudo com a ajuda de moralistas e jacobinos e, inclusive, de gente que assinou o manifesto. Ficou parecendo que Lula é a mesma coisa que Cabral, Dirceu é igual a Cunha e Vaccari é uma espécie de Geddel. Ou, pior, que – diante da ameaça representada por Bolsonaro – Lula, Dirceu e Vaccari não fizeram nada de errado.

Não viram o verdadeiro monstro que se esconde por trás do populismo dito de esquerda, que quer subverter a democracia enquanto enaltece a democracia. Sim, como no episódio A vingança dos Sith, da série Star Wars, não viram que a democracia pode morrer (ou ser usada para propósitos antidemocráticos) aos gritos de viva a democracia. Ou seja, o manifesto é uma manipulação porque impede as pessoas de ver que o PT é uma ameaça à democracia não porque queira abolir a democracia e sim por que usa a democracia contra a democracia.

Não viram que o PT, no longo prazo, é muito mais perigoso para a democracia do que Bolsonaro.  Os bolsonaristas, coitados, são como uma horda enraivecida de hunos do século 3 tentando destruir uma sofisticada organização de Sith do século 21. Bolsonaro é um perigo imediato, sim, mas não pode ser usado instrumentalmente, como bicho-papão, para uma rearticulação de esquerda que tem como objetivo colocar de volta o PT no poder.

Não viram que esse tipo de manifesto, que toma partido da esquerda contra a direita, neste momento crucial em que vivemos, enfraquece as tentativas de unidade do campo democrático, dito de centro, para enfrentar uma polarização que será prejudicial à democracia, seja qual for o resultado do pleito.

O manifesto, de certo modo, explica o insucesso das louváveis iniciativas de construir uma unidade do campo democrático para evitar uma polarização entre dois projetos autocráticos que está nos levando ao cenário do horror.  Os que se dizem democratas e assinaram o manifesto revelam que o são no sentido fraco do conceito, confundem democracia com processo eleitoral e não conseguem ver o perigo que representam forças autocratizantes que adotam a via eleitoral para enfrear o processo de democratização do Estado e da sociedade.

Bolsonaro foi tudo que o PT pediu aos deuses. Um bicho-papão para atemorizar as pessoas, fazer os eleitores esqueceram o estrago que ele fez no país e alavancar a sua volta ao poder a pretexto de evitar um mal maior. O manifesto Democracia Sim cumpre parte desse serviço sujo e manipulatório.

Não há solução sem política. Quer dizer, não há saída fora da democracia. Não há como escolher entre PT (ou Ciro) e Bolsonaro. Uma força populista-autoritária de direita não pode ser removida por uma força populista de esquerda (neopopulista). Tanto as hordas bolsonaristas, quanto os militantes petistas, só podem ser contidos pela democracia.

Não havendo escolha eleitoral viável, os democratas devem articular uma resistência democrática na sociedade. Aliás, é isso que fazemos mesmo. Resistimos.


Democracy Unschool é um ambiente de livre investigação-aprendizagem sobre democracia, composto por vários itinerários. O primeiro itinerário é um programa de introdução à democracia chamado SEM DOUTRINA. Para saber mais clique aqui

Deixe uma resposta

Loading…

Deixe seu comentário

Bolsonaro não é o verdadeiro candidato

Sobre o deficit de democratas e o desejo da população de ter um senhor bom