A manipulação dagobah

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Manipulada, no caso, está sendo a opinião pública, não a pesquisa de opinião CNI-Ibope

Opinião pública não é a soma das opiniões privadas da maioria da população. Há anos estou dizendo – e mostrando – isso. Se fosse, não seria necessário o processo político. Bastaria entrevistar uma amostra cientificamente escolhida da população. Economizaríamos bilhões de reais de dinheiro público e privado gasto em campanhas eleitorais. E “economizaríamos”, igualmente, a democracia… Veja aqui por que Opinião pública não é a soma das opiniões privadas da maioria.

Vejam agora esta pesquisa CNI-Ibope de julho de 2017 sobre o governo Temer. Estou com o relatório aqui: pesquisa_cni-ibope_jul2017 É espantosa a realidade criada pela pesquisa. Tomemos apenas três exemplos:

1 – A maioria da população avalia que o governo Temer está sendo pior do que o governo Dilma. Como se explica isso? Não tem explicação.

Pesquisa CNI-Ibope 1

2 – A maioria esmagadora da população (87%) acha que o principal problema do governo Temer é em relação aos impostos: o problema é que a pesquisa foi realizada antes do anúncio do aumento dos impostos dos combustíveis. Como se explica isso? Não tem explicação.

Pesquisa CNI-Ibope Área de Atuação

3 – Um dos principais problemas levantadas em relação a atuação do governo Temer é a sua política de combate à inflação: 77% da população reprova. Mas a inflação está caindo vertiginosamente (recuou 7 pontos percentuais em um ano e meio: veja o gráfico abaixo) depois que Temer assumiu. Como se explica isso? Não tem explicação.

IPCA_acumulado_em_12_meses_IPCA_chartbuilder

Ou, pelo contrário, tudo isso tem explicação, sim. Pesquisas de opinião não captam a opinião pública – que é o resultado da interação e polinização mútua de uma variedade de opiniões manifestadas no espaço público e não a soma aritmética das opiniões privadas dos cidadãos, ouvidos um a um. Por isso é indispensável o processo político.

Pesquisas de opinião – ainda quando feitas em estrita observância de todos os critérios cientificamente aceitos – falsificam o processo político, além de poderem ser usadas para validar qualquer opinião previamente encomendada. Isso se sabe há um século. Dependendo da formulação das perguntas e do momento em que são realizadas as pesquisas, elas podem fornecer resultados contrários sobre o mesmo tema. É este o negócio dos institutos de pesquisa de opinião. Fazer política disfarçada de ciência e vender seus resultados. Lembrem do caso do Vox Populi, que atuava a serviço do PT.

Claro que pesquisas de opinião funcionam em casos específicos, mesmo sem ser manipuladas. Por exemplo, as pesquisas de boca de urna, costumam funcionar. Mas aí elas estão captando um processo político objetivo, que acabou de acontecer. As pessoas votaram e, em seguida, declaram em quem votaram. Se não estiverem vivendo num regime autocrático (onde teriam razões para esconder seu voto), as pessoas dizem realmente o que fizeram. É diferente de declarar uma apreciação subjetiva sobre algum problema fora de seu domínio.

A pesquisa CNI-Ibope revela apenas a manipulação da opinião pública – isto sim – pelos meios de divulgação broadcasting, como as grandes empresas de comunicação, com destaque para a Globo. Depois de dois meses batendo sem parar no governo Temer, o efeito é claro: as pessoas tendem a achar que tudo relacionado ao governo é ruim, que todos os males que as afligem tem o governo como culpado, em alguns casos falsificando a realidade ou criando outra realidade.

Eis o resultado da fracassada armação Janot-Fachin-Globo. Não conseguiram que Temer renunciasse. Mas conseguiram predispor os cidadãos contra qualquer coisa que faça o governo. O objetivo político é inserir uma cunha entre o presidente e sua base de apoio, atemorizando os deputados e senadores para que se afastem do governo (com medo de se contaminar e perder votos em 2018). Outro objetivo, que não será alcançado nesta semana, é levar os parlamentares a votar pela abertura de processo contra Temer. Mas novas pesquisas virão para tentar a mesma coisa quando Janot apresentar sua segunda denúncia. É uma operação sórdida porque feita de maneira obliqua, usando as pesquisas de opinião.

Nada do que Temer fizer – mesmo se conseguir aprovar a reforma da previdência ou até aquela “reforma da natureza” do Monteiro Lobato – será aprovado pela população. Criou-se uma realidade paralela, na qual Dilma fez um governo melhor do que o atual e que Lula então, nem se fale, muito melhor (talvez o melhor de toda nossa história) – e tanto é assim que o chefe da organização política criminosa aparece como primeiro colocado em todas as pesquisas de intenção de voto para 2018.

O problema das pesquisas de opinião não é que elas sejam tecnicamente manipuladas. Não são em geral produtos de fraude (a não ser em casos como o do Vox Populi, mencionado acima). O problema das pesquisas de opinião é que, mesmo que elas não sejam manipuladas, elas manipulam a opinião pública. Manipulada, no caso, está sendo a opinião pública, não a pesquisa.

Mas em democracias, pesquisas de opinião não são procedimentos válidos de verificação da vontade política coletiva.


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