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Manual do Império: um bom exercício de reconhecimento de padrões autocráticos

Vale muito a pena analisar o Manual do Império: Guia do Comandante, de Daniel Wallace (2016) para a LucasFilm (traduzido e publicado aqui pela Bertrand Brasil). É um excelente exercício de reconhecimento de padrões autocráticos. Como aprender democracia é desaprender autocracia, estamos diante de um verdadeiro curso de democracia.

Vamos publicar abaixo algumas passagens selecionadas (em azul), fazendo um ou outro comentário pontual interpolado (em vermelho) e um comentário final.

INTRODUÇÃO

Por Sua Majestade Imperial, Imperador Palpatine

O Império existe há dezenove anos, mas está prestes a reinar por mais um milênio. A mudança da República para o Império representa uma transferência de poder jamais vista na história da galáxia. Mas a República não podia mais continuar, e seu povo estava desesperado. Quando os políticos reunidos da República se recusaram a escolher entre o sucesso e a ruína, eu escolhi por eles.

Nós alcançamos a glória na unificação. Sob o Império, celebramos:

Um Governante

Um Código de Leis

Um Idioma Comum

Uma Educação em Progresso Social

E o Império não tolera os que tentam quebrar essa unidade. Violência se combate com violência. É o único idioma que rebeldes e traidores entendem…

Imperador Palpatine

Comentário 1 | A introdução de Palpatine vai caracterizar todo o manual como um manifesto antipolítico. Trata-se de um texto contra qualquer possibilidade de democracia: apenas um governante, quer dizer, um senhor. A unificação glorificada é aquela imposta top down (como ficará claro na sequência). O imperador anuncia, nesta introdução, um projeto milenarista, como o do Terceiro Reich. Vale ressaltar as ideias de sucesso, violência e, sobretudo, a de uma (única) educação.

AS FORÇAS ARMADAS IMPERIAIS

Esta parte foi escrita pelo Almirante Wullf Yularen

O Império é vasto, e nossos agentes estão em todo lugar. Com isso, desmoralizamos os inimigos. Com isso, inspiramos aqueles que são leais a nós.

A escala da máquina de guerra imperial não tem precedente…

Isso não significa que não tenhamos desafios. Os cidadãos se tornam indolentes e preguiçosos com facilidade, e, a partir daí, o mundo do crime ou a traição os seduz. As forças armadas Imperiais sempre se fazem presentes para lembrar aos cidadãos as consequências que irão encarar caso se percam. Os que são leais se sentirão reconfortados com a presença das forças armadas Imperiais, que se certificam de que os bárbaros alienígenas nunca ficarão à solta nas cidades de seus planetas de origem…

“Sob a Nova Ordem Imperial, nossas crenças mais estimadas serão salvaguardadas. Defenderemos nossos ideais com a força das armas. Não daremos terreno aos nossos inimigos e nos uniremos contra ataques internos ou externos. Que os inimigos do Império tomem cuidado: os que desafiarem as decisões do Império serão esmagados”.

Extraído do discurso inaugural proferido pelo Imperador Palpatine, em 16:5:24

Comentário 2 | A ideia central aqui está no discurso de Palpatine: salvaguardar as crenças contra os inimigos. Lembra a defesa atual das crenças, valores, costumes da civilização ocidental cristã, feita pelos conservadores ditos de direita. A tônica (como também se verá na sequência) é a da guerra como realidade inexorável, eterna, universal.

A NOVA ORDEM IMPERIAL – NOSSO CAMINHO PARA A VITÓRIA

O projeto de governo do Imperador Palpatine chama-se Nova Ordem. É um nome apropriado para um sistema que aboliu a falta de prática e a desordem da Velha República.

A Nova Ordem é uma resposta direta aos fracassos da Velha República, bem como uma sábia  correção aos seus excessos. Sob a Nova Ordem, democracias falhas do tipo “todo mundo tem razão” foram substituídas por uma estrutura clara – autoritária e militarista ao mesmo tempo. Seus dogmas são defendidos pela Comissão para Preservação da Nova Ordem (COMPNOR). Entre os benefícios dessa estrutura encontram-se:

Autoridade Centralizada. Não há dúvida sobre quem está no comando, e isso evita senadores que querem fazer carreira com seus discursos.

Força Militar Esmagadora. Se algum perigo ameaça o Império, seja ele interno ou externo, nossas forças armadas respondem de forma rápida e impiedosa.

Dependência do que é Necessário, não do que é Desejado. Contar com o que é estritamente essencial é o cerne da eficiência. A estrutura do Império é reduzida à sua essência, o que revela a função através da forma.

Governo Político Centrado no Núcleo. Essa é uma concessão necessária, já que as espécies alienígenas da Orla são sabidamente imprevisíveis e dadas a excessos de violência. A história do Senado da República é prova de que os primitivos não estão aptos a ser o centro das atenções em nossas instituições, ou mesmo a governar seus próprios planetas. Ao controlar diretamente assuntos da Orla, estamos sendo misericordiosos com essas populações. Em casos extremos, para atender aos interesses da segurança galáctica, foi necessário orquestrar extinções estratégicas.

Nacionalização do Comércio. O Império aprova a competição entre corporações e chegou a estabelecer o Setor Corporativo, onde o mercantilismo transparente poderia ocorrer sem interferência. Mesmo assim, nenhuma companhia deve encher os próprios cofres à custa do bem maior. O Império nacionalizou muitas corporações duradouras…, o que permitiu que seus engenheiros contribuíssem para a nossa prosperidade coletiva.

Domínio Cultural. A Comissão para a Preservação da Nova Ordem sabe que ter autoridade é mais do que ser dominante no campo de batalha – é também dominar a mente. A Coalizão para o Progresso – subagência criada pela COMPNOR, monitora obras de arte para se assegurar de que demonstrem uma reverência adequada à Sua Majestade Imperial. Artistas com tendência subversiva recebem a educação necessária.

Pelas Nossas Próprias Mãos. […] Os indivíduos que fazem parte do Império querem apenas que haja paz. A Nova Ordem é uma mudança bem-vinda para aqueles que ainda têm a destruição causada pela Guerras Clônicas fresca na memória. Na posição de comandante das forças armadas Imperiais, você é uma figura de influência. Através de suas ações, inspirará recrutas a se alistarem na academia, aumentará o número de inscritos na COMPNOR e persuadirá os cidadãos a se responsabilizarem pelas ações de seus vizinhos e reportá-las. Tudo isso se mostrará valioso quando as forças armadas Imperiais precisarem bater o martelo da justiça contra um antro de Rebeldes.

Comentário 3 | Ordem (do Império) x desordem (da República) está no lugar de ordem (da autocracia) x liberdade (da democracia). A Nova Ordem (autocrática) é apresentada como um caminho para a vitória (contra os inimigos). A ideia de sucesso x fracasso aparece aqui novamente, sendo que sucesso é associado à virtude. Há uma caricatura de democracia como o regime onde, supostamente, todo mundo teria razão (impedindo, na prática, que alguém tivesse razão). Aqui aparece pela primeira vez o “partido ideológico” do regime, chamado COMPNOR, cujo papel é o de manter a estrutura hierárquica e a dinâmica autocrática da antipolítica imperial. Entre os benefícios dessa preservação da nova ordem, o primeiro é claramente contra o parlamento (como se o fato dos senadores quererem fazer carreira política de algum modo os desqualificasse para a função parlamentar). O segundo é a substituição da política pela guerra (a intervenção militar permanente passa a ser a única política legítima). O terceiro é o império da necessidade, o que equivale à produção artificial de escassez como método para manter e reproduzir a hierarquia e a interdição do desejo (quer dizer, da liberdade, na medida em que só é legítimo o que for necessário). O quarto é a centralização absoluta. O quinto, que lembra a China atual, é o estatismo – disfarçado de nacionalismo – como comportamento político iliberal, inclusive em termos econômicos. O sexto é o controle do pensamento: o Império não quer apenas que seus súditos ajam sob comando, mas também que pensem sob comando. O sétimo é o controle social: os cidadãos (ou melhor, no caso, os súditos) não devem se responsabilizar apenas pelas suas ações, mas igualmente pelas ações alheias e devem denunciar os seus vizinhos.

HISTÓRIA DO IMPÉRIO GALÁCTICO – NOSSO GLORIOSO FUTURO

Faz menos de duas décadas que nosso Imperador emitiu sua Declaração de uma Nova Ordem. Apesar de alguns recrutas terem apenas uma vaga lembrança da era anterior (ou não terem lembrança alguma), muitos de nós se recordam dos chocantes excessos que tornaram inevitável a proclamação de Palpatine.

Até hoje você encontra quem diga que era possível salvar a República com reformas e correções. Acreditar nisso é tolice.

Ao longo de milênios, a República se deitou no próprio lixo que criara. “Dê tempo para que o sistema funcione!”, exclamavam sem parar. Mil anos é tempo suficiente para saber se um sistema é viável, Senador.

Se um paciente recebe uma injeção com veneno de ação lenta, o cirurgião cortará o membro antes que o veneno chegue ao coração. O Imperador Palpatine tinha uma sabedoria similar. Para alguns, seu discurso no Senado soou arrogante, mas foi com esses opositores que a Nova Ordem fez sua primeira lista de inimigos.

Aqueles que enfrentaram o Supremo Chanceler Palpatine durante as Guerras Clônicas descobriram que haviam cometido um erro. Onde estão agora? Se tiver estômago forte, verifique os Registros de Execução do Império.

A militarização é a cura para a doença que a Velha República levou para a galáxia. A Nova Ordem fornece a salvação por meio da Marinha e do Exército Imperiais, bem como dos Stormtroopers.

“Com toda a galáxia sob uma única lei, um único idioma e a orientação iluminada de um único indivíduo, a corrupção que atormentava a República em seus últimos anos nunca se enraizará… Uma força militar forte e crescente assegurará que a lei seja cumprida”.

Extraído do discurso inaugural proferido pelo Imperador Palpatine, em 16:5:24

Comentário 4 | O título já diz tudo: a história (rala, de apenas 19 anos) é o futuro (a substituição da história pelo futuro é uma maneira de inventar passado funcional para a ereção de regimes autocráticos). Em seguida, o golpe contra a República desferido por Palpatine é apresentado como uma ação inevitável (diante dos excessos e desmandos do regime anterior: uma justificativa universal de todos os autocratas). Há também claramente aqui uma posição anti-reformista: reformas não adiantam para nada, os erros não podem ser corrigidos pelo próprio processo político mas exigem a intervenção do alto, de um poder autoritário. A cura da doença (democrática) ou a salvação (para um regime de liberdade) são trazidas pela militarização da vida social e política. Uma pérola da passagem acima é quando o autor declara que os parlamentares (senadores) que acharam o discurso do ditador arrogante serviram para compor a “primeira lista de inimigos” (funcional para a Nova Ordem, que só pode se erigir, se manter e se reproduzir diante da guerra, quer dizer, da construção de inimigos). Mas o fecho de ouro vem com a ideia de Palpatine de combater a corrupção. Com efeito, via-de-regra os golpes contra a democracia são desferidos sob o pretexto de acabar com a corrupção generalizada…

[…]

COMO CONSEGUIMOS ADMINISTRAR UMA GALÁXIA? – NOSSA VISÃO ESTRATÉGICA

A administração planetária sob a Nova Ordem flui do topo para a base, a partir da autoridade central. As forças armadas Imperiais mantêm a ordem para que o Império permaneça próspero e seguro. Como você verá, estamos caminhando para tornar essa hierarquia ainda mais eficiente.

Dissolução do Senado Imperial

Quando você ler isto, o Senado Imperial já terá deixado de existir. Ele serviu para facilitar a transição entre a Velha República e a Nova Ordem, mas perdeu sua utilidade.

Ao cortar os últimos laços com o passado, o Imperador acabará com a fracassada filosofia representativa da maioria. Em vez de senadores, os cidadãos do Império passarão a ter o benefício de governos setoriais para administrar suas necessidades.

Por muito tempo, o Senado foi um refúgio para os que gostam de desafiar. Os opositores às regras do Imperador se vangloriavam de ser nobres idealistas, e esse espalhafato chegou perigosamente perto da traição. Eles não terão mais um canal oficial para propagar suas mentiras…

Você verá notificações públicas afirmando que a suspensão do Senado “durará apenas enquanto estivermos em estado de emergência”. Mas saiba que a decisão do Imperador é final.

Redistribuição de Distritos resultou em aumento de eficácia

Nossos novos Macrossetores são compostos de muitos setores menores. Essa estrutura permite o comando direto das forças armadas, o controle de informações e mais eficiência na tributação aos cidadãos do Império…

Por se tratar de um comando militar, essa estrutura é seu maior trunfo. Os políticos apoiarão suas ações. Pelo fato de a hierarquia ser clara, não haverá conflitos a respeito do que você precisa fazer. Você é livre para cumprir a vontade do Império por meio da força das armas.

Propaganda: controlando a narrativa

A Comissão para a Preservação da Nova Ordem (COMPNOR) estabelece apoio público e apoio institucional para Sua Majestade Imperial e os preceitos da Nova Ordem.

Os que são leais à COMPNOR veem com bons olhos a filiação à Comissão, uma vez que é uma forma evidente de demonstrar fé em nossa ideologia. Através dos grupos cultural e jovem da COMPNOR, o Império controla a história e as reações de seus cidadãos. Os patriotas voluntários da COMPNOR vigiam os vizinhos e nos informam a respeito de possíveis traidores. A COMPNOR também controla uma unidade paramilitar própria, a CompForce.

Os meios de comunicação das NewsNets deixaram de ser entidades privadas. O HoloVisão Imperial passou a ser o canal oficial para informação pública dos eventos atuais. Entidades não oficiais… sabem que veicular uma história ou espalhar qualquer ponto de vista que encoraje a infidelidade é passível de punição.

Pelo fato de o Império controlar os meios de comunicação, nós podemos transformar qualquer notícia em prol do Imperador.

Comentário 5 | Trata-se de tornar a hierarquia cada vez mais eficiente. A hierarquia é incompatível com um regime baseado na representação: por isso o parlamento (mesmo o parlamento fake instaurado pela Nova Ordem e dissolvido sob o pretexto de um estado de emergência, “temporariamente”) é substituído pelo governo (como em qualquer ditadura, só há lugar para o Executivo no regime político – ou antipolítico – de Palpatine). No regime ditatorial do Império não se admite o conflito a não ser como disfunção que tenha que ser regulada (ou corrigida) pelo emprego da força (com a eliminação do polo conflitante) – o que é característico do modo de regulação autocrático. Note-se na passagem acima o controle dos meios de comunicação (os veículos deixaram de ser entidades privadas, o que significa que estão sob estrito controle político do partido ideológico oficial).

[…]

A DOUTRINA IMPERIAL – A PROJEÇÃO DO PODER: O DIREITO DE GOVERNAR DO IMPÉRIO

Vivemos em uma grande era, uma era que moldará a civilização pelos próximos mil anos. Essa façanha será atingida por meio da fidelidade à ideologia.

Eu (quem escreve esta parte do manual é o Grande Moff Wilhuff Tarkin), que ajudei a moldar a doutrina que subjaz à Nova Ordem do Imperador, estou excepcionalmente bem-qualificado para explicar seus preceitos. Você, que na posição de comandante das forças armadas executará a vontade do Imperador, deve entender e obedecer.

Quando a República pereceu, a causa foi clara: duas feridas fatais vinham infecionando sem qualquer tratamento durante séculos. Primeiro, a República se preocupou com todos os pedidos dos cidadãos, por mais insignificantes e imbecis que fossem. Segundo, valorizou a aparência superficial de paz; não mantinha exércitos próprios, até que uma guerra civil empurrou os Jedi para as linhas de frente ao lado dos recém-criados clone troopers.

A República não projetou poder, interna ou externamente. Na verdade, ela não tinha poder algum.

A democracia Republicana era um suporte para os preguiçosos. Permitia que os cidadãos espalhassem suas responsabilidades pessoais para o conjunto maior, assegurando-se assim de que ninguém seria responsabilizado por suas falhas pessoais. Os debates e comitês desabilitaram a capacidade de governar e impediram o progresso. O Imperador Palpatine acredita que os seres não são todos iguais e que as decisões determinadas por uma maioria numérica não as valida.

O pacifismo da República era um escudo para os fracos. A guerra é o estado natural das coisas. Pensa nas garras de um rancor, afiadas para manter sua sobrevivência e usadas para derramar sangue. Sob o governo do Imperador Palpatine, os cidadãos têm a oportunidade de testar sua coragem em assuntos de vida e morte. Os revolucionários – traidores e alienígenas selvagens que não se curvarem ao nosso Imperador e, em vez disso, tentarem desafiar sua autoridade – terão um fim impiedoso, com seus territórios incorporados ao nosso domínio. Somos um Império e, se queremos manter a força, precisamos expandir.

Em  favor de um governo claro e absoluto, o Império põe de lado os falsos construtos sociais. Os fardos de liberdades desnecessárias caíram, e o poder centralizado veio à tona. Na Nova Ordem, ninguém tem dúvidas a respeito do próprio lugar…

Comentário 6 | Na passagem acima o grande hierarca Tarkin declara que a civilização da Nova Ordem será moldada por meio da fidelidade a uma doutrina (a uma ideologia). A ideologia em questão é punitivista, baseada na força para obrigar todos a obedecer e para reprimir os desobedientes. É um libelo contra a paz (mesmo declarando-se em nome da paz, claro que a paz dos impérios e dos cemitérios), onde o pacifismo é visto como uma ideologia dos fracos. A guerra é naturalizada: é “o estado natural das coisas”. O regime de Palpatine é para os fortes, os que não temem derramar o próprio sangue e arrancar o sangue alheio (dos desobedientes). Os conceitos sociais mais conformes à democracia – como as liberdades civis, apresentadas como desnecessárias – são desconstruídos pela ideologia autoritária dominante e desqualificados como um fardo ou um óbice ao poder centralizado.

A DOUTRINA TARKIN: UM PROJETO PARA A SUPREMACIA

A Doutrina Tarkin é o próximo passo no desenvolvimento da Nova Ordem. Seguindo três princípios norteadores, o Império por fim desmontará o ainda resta da Velha República e inspirará a disciplina por meio da intimidação.

Princípio I – Consolidação Territorial

A República dividiu a galáxia em milhares de setores, cada um com um senador que supostamente representa trilhões de cidadãos. Esse sistema fez nascer um caos barulhento. De qualquer forma, assim como vestígios do Senado Imperial, ainda restam fragmentos desse sistema.

Em breve, o Senado Imperial terá fim, e, sob a Doutrina Tarkin, isso também ocorrerá com a primazia dos governos setoriais. O mapa galáctico atual será dividido em Macrossetores, cada um abrigando dezenas ou centenas de setores maiores. Um Grande Moff comandará cada Macrossetor e receberá uma quantidade generosa de militares para sua estação…

Principio II – Comunicação Veloz

Com a Doutrina Tarkin, todos os aparelhos de recepção e transmissão serão realocados para os grupos de setores Imperiais, e toda a rede passará a ter como prioridade a coordenação das forças militares…

Princípio III – O Domínio do Medo

No papel de comandante militar, você sabe que as forças armadas espalham o terror de forma excepcional… Com uma arma que só os recursos Imperiais são capazes de produzir, uma arma cujo efeito é tão devastador que desafia a explicação lógica, quem poderia se opor a tal estratégia? Essa extraordinária intimidação seria um golpe tão desmoralizante que o inimigo nunca mais conseguiria se recuperar. Ela se tornaria um novo símbolo, exemplo da invencibilidade do Império. Ao usar esta arma, acabaríamos com qualquer esperança de resistência.

Não se trata de sonho. Tomei para mim a tarefa de pesquisar e produzir uma superarma para uso do Império. Com apenas um punhado delas – e boatos espalhados pela propaganda -, os cidadãos serão alertados contra a desobediência. Caso a rebeldia persista, as populações serão sacrificadas para servir de exemplo. Quando a Doutrina Tarkin estiver em ação, o domínio do Império será absoluto por toda a galáxia.

Comentário 7 | O projeto do Império vai além da conquista de hegemonia: busca a supremacia (militar, política e ideológica). A tal “Doutrina Tarkin” é um meio de impor a disciplina por meio da intimidação. Disciplina é a palavra-chave. Disciplina para impor a ordem, quer dizer, acabar com o caos. O caos – ou qualquer chance de configurar um ambiente favorável à auto-organização – é demonizado. Toda oposição é encarada como rebeldia, comportamento ilegítimo que deve ser rapidamente suprimido, se preciso com a  morte sumária dos opositores: não há política. A superarma de Tarkin (sonho de todos os guerreiros, desde o início do patriarcado) lembra as terríveis armas sumérias que tinham como função, segundo vários textos antigos, limpar o mundo de toda oposição ao Altíssimo.

A REBELIÃO: UMA AMEAÇA MALIGNA À ORDEM IMPERIAL

A implementação da Doutrina Tarkin é fundamental, pois o Império está sitiado por maus elementos e traidores. Os principais deles são os idiotas que deram palavra de honra à “Aliança para Restauração da República”.

Eles são um bando de traidores e ignorantes choramingões, os Rebeldes. Estão convencidos de que podem voltar a um tempo de idealismo que só existe em suas memórias obscuras e imaginações limitadas. A República morreu há duas décadas, e, à luz dos triunfos do Império, seus fracassos nunca se mostraram tão claros…

Os Rebeldes são traidores e insurretos. Por causa de suas ações, estão sentenciados à morte. É a existência da Rebelião que sublinha a necessidade de superarmas, e, se civis morrerem durante o processo, é porque era para ser assim mesmo. Não podemos esperar que nossas mãos fiquem limpas quando limparmos essa escória Rebelde da galáxia.”

Comentário 8 | Novamente aqui, toda oposição é ilegítima, encarada como traição, insurreição, rebeldia. Os que defendem a volta da República (e da democracia) são os inimigos do regime imperial.

COMENTÁRIO GERAL

As partes selecionadas acima são suficientes para identificar um sistema de pensamento mítico, sacerdotal, hierárquico e autocrático. Palpatine não é apenas um chefe político, mas espiritual (é um mago-imperador, um rei-sacerdote e um hierarca-guerreiro) sustentado por um mito em formação, cujo projeto só pode ser realizado em uma espécie de Matrix: uma estrutura hierárquica regida por modos autocráticos de regulação. Ou seja, o que temos aqui é cultura patriarcal em estado puro. Por isso, estudar a ficção de George Lucas é um excelente exercício de aprendizagem democrática.

Existem muitos outros padrões autocráticos, presentes nos textos selecionados e reproduzidos aqui, que não foram ressaltados nos oito comentários pontuais acima. Um deles é a ideia de poder – e de projeção do poder como invocação e materialização do Dark Side of the Force – como poder despótico, como controle total e absoluto, do espaço e do tempo, do passado e do futuro (quer dizer, do presente), do Estado e da sociedade, dos corpos e mentes dos súditos.

Sábado de Aleluia de 2018


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