Galeria Odebrech

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Mentindo com a verdade

A mega-delação industriada da Odebrecht

Foram ontem publicados vários vídeos com depoimentos de empregados e donos da Odebrecht. Eu assisti três ou quatro e não fiquei com uma boa impressão.

Alguns depoimentos, como o do capo Emílio, me soaram solertes (vendeu a ideia de que ele e Lula tinham um relacionamento afetivo, de progenitores amorosos somente dedicados às carreiras de seus filhos e os olhos postos no desenvolvimento do Brasil, escondendo o fato de que eram comparsas de um mesmo esquema criminoso de poder). Os de Alexandrino, Valladares e Faria foram na mesma tônica: aparentaram ser senhores muito preocupados com o país e não se furtaram a dar até algumas lições de moral. Pareceu-me uma farsa.

Há muito tempo estou alertando: está em curso um embuste. Há quatro meses, no artigo A mega-operação da Odebrecht e, há oito meses, no artigo Leo e Marcelo: uma confusão para esconder o fundamental, tentei mostrar por que a mega-delação da empreiteira bandida é, na verdade, uma mega-operação de despistamento, um investimento na confusão. É claro que há verdades, assim como meia-verdades e mentiras nos depoimentos dos escolhidos para delatar – mas tudo misturado.

Até o Diogo Mainardi foi citado pelo delator Henrique Valladares (um dos pilantras escolhidos para passar recado, mentindo com a verdade, assim como Marcio Faria da Silva e o próprio Emílio). É para misturar mesmo diversos tipos de crime e arrolar tanta gente que fique impossível responsabilizar os que realmente comandaram o esquema: a organização criminosa dirigente (a direção de facto do Partido dos Trabalhadores, comandada por Lula e seus assessores, Dirceu e seus sequazes, Palocci, Vaccari, Delúbio, Berzoini, Bargas e alguns outros: sim, a esta altura já sabemos os nomes de quase todos).

Já que a Odebrecht tinha mesmo que delatar alguns, por que não envolver todos, conjurando a formação de um círculo de cumplicidade capaz, quem sabe, de garantir a impunidade, se não da quadrilha inteira, pelo menos de alguns?

Os chefes da Odebrecht fizeram isso com o objetivo de assegurar a sobrevivência da empresa, celebrando uma espécie de acordo, formal ou informal (pouco importa), não de leniência, mas de conivência com as autoridades encarregadas da investigação (que, ansiosas para alcançar seus objetivos e mostrar serviço, aceitaram o jogo). Mas tudo isso é um absurdo.

É um absurdo que Emílio não apenas esteja solto, mas livre para articular e industriar o depoimento de uma centena de comandados.

É um absurdo que uma empresa centralizada tenha necessidade de recorrer ao depoimento de tantos delatores (como se os chefes não soubessem o que faziam seus subordinados): a única delação não planejada parece ter sido a da secretária Maria Lucia Tavares, que revelou a existência de uma organização clandestina dentro da Odebrecht: o Setor de Operações Estruturadas (que não era um mero departamento de propina, como se diz, e sim uma estrutura montada para financiar um projeto político criminoso de poder).

É um absurdo que a Odebrecht, que não era uma empresa pagadora de suborno ou propina e sim um banco ilegal, um sistema financeiro completo para operar o dinheiro do crime e financiar a montagem de um Estado paralelo no Brasil, possa continuar sob o comando da mesma famiglia que construiu e administrou tudo isso durante tanto tempo.

A Odebrecht tem que fornecer – se ainda não o fez (e não sabemos) – o mapa das contas secretas, no Brasil e no exterior, que estão em nome de laranjas ou de offshores (abertas, aliás, pelo próprio Marcelo) para guardar o dinheiro do crime (ou será que alguém acredita que só havia um Barusco?). Lá atrás, no início da Lava Jato, Youssef prometeu revelar esse mapa: ele revelou? A Odebrecht tem que nos dizer por que comprou o Meinl Bank Antígua. A Odebrecht não pode apenas nos contar como foi e sim também dizer como é: o que permanece funcionando ilegalmente, o que ainda está escondido? E o que está latente, dormindo, apenas esperando uma virada política para voltar?

A impressão que se tem é que estamos sendo enganados. Que Emílio está mentindo com a verdade, apenas ganhando tempo para ver se Lula volta em 2018 e então retomar o projeto que poderia ser chamado de projeto Krupp, ou de projeto Ig-Farben (como se sabe essas empresas e conglomerados se associaram a Adolf Hitler sonhando com lucros incessantes a perder de vista, por um milênio de Reich).

Leiam um trecho da delação de Emílio Odebrecht. Fica claro que é uma atuação de contra-informação e despistamento. Ele naturaliza a quadrilha, confundindo de propósito o esquema criminoso de poder do PT a que se associou com a velha corrupção endêmica na política brasileira:

“O que nós temos no Brasil não é um negócio de cinco anos, dez anos atrás. Nós estamos falando de 30 anos atrás. Tudo o que está acontecendo agora era um negócio institucionalizado, era uma coisa normal. Em função de todos esses números de partidos… Eles brigavam era pelo quê? Por cargos? Não, todo mundo sabia que não. Era por orçamentos gordos. Os partidos, então, colocavam seus mandatários com a finalidade de arrecadar recursos para o partido, para os políticos. E isso é há 30 anos. O que me surpreende é quando eu vejo todos esses poderes, a imprensa, tudo… como se isso fosse uma surpresa. Olhe, me incomoda isso. Não exime em nada a nossa responsabilidade, a nossa benevolência… Nós praticamente passamos a olhar isso com normalidade. Porque, em 30 anos, é difícil as coisas não passarem a ser normais…”

Mas… Examinem esta foto. Vejam aí Dilma, a presidente petista, juntamente com Marcelo Odebrecht e os bolivarianos (destaque para o ditador Maduro, a direita) e – atenção! – para o ditador Raul Castro, de Cuba. Estão entendendo ou é preciso explicar (ou, quem sabe, desenhar)?

Dilma, Maduro e Marcelo Odebrecht

Então essa conversa mole de Emílio Odebrecht, de que ele participou de uma corrupção que tem mais de 30 anos, que já fazia parte da cultura político-empresarial brasileira, que já era endêmica, é apenas para nos enganar. Não! Eles – a organização criminosa Odebrecht – se associaram a um projeto político, ao projeto criminoso de poder dos bolivarianos e do PT.

Nota – Não há nenhuma teoria da conspiração aqui. A Odebrecht, simplesmente, se associou ao projeto político criminoso do PT. Ponto.


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