Augusto Dagobah

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Meu dilema

O PT matou a inovação social: este foi o título do artigo que publiquei há pouco menos de um ano (em 14/08/2016). Vários outros artigos, porém, trataram do mesmo assunto. O principal deles (de 19/06/2016) foi intitulado O limbo dos inovadores. Mas é preciso ler ainda O rio que passou (também de 19/06/2016) e, mais recentemente (em 12/06/2017), O ambiente social é claramente desfavorável à democracia.

Do que se trata? Do deficit de inovação (sobretudo social e política) que vivemos nesta quadra.

Comecemos com uma reflexão um tanto abstrusa. A possibilidade de criar tem a ver com kairos, não com kronos. Quando um emaranhado de opiniões (atenção: não uma sistematização de conhecimentos) se conforma segundo determinadas configurações favoráveis à inovação, devemos aproveitar a oportunidade que se oferece naquele momento, pois as janelas se fecham rapidamente. Depois, essas condições desaparecerão.

Se fizemos um balanço da última década, veremos que essas conformações sociais que estimulam a criatividade das pessoas surgiram algumas vezes e logo em seguida se desmancharam. As inovações parecem vir em ondas. De 2008 a 2013, para citar alguns exemplos, tivemos uma onda de descobertas, de investigação e experimentação, sobre redes, uma onda de startups, uma onda de cocriação de ideias e projetos inovadores, uma onda de constituição de espaços comuns em praças, uma onda de casas colaborativas, uma onda de protestos distribuídos contra o sistema, uma onda de ensaios de novas formas de aprendizagem sem ensino e várias outras, sucessivas ou simultâneas.

Entre uma onda e outra atravessamos zonas cinzentas, onde nada parecia funcionar. Na metade de 2014 penetramos numa região mais escura, que só foi clareando com a volta de grandes enxameamentos de pessoas em 2015 e início de 2016 (não propriamente em razão de seus objetivos políticos, mas da vibe predominante de festa e celebração). Depois voltamos a mergulhar na escuridão, que vai se tornando mais tenebrosa à medida que avançamos no ano de 2017.

Neste exato momento não se vê nenhuma luz adiante e as pessoas parecem ter perdido o tesão de propor coisas novas. Embora muitos nem desconfiem, tudo isso tem a ver com a democracia como modo-de-vida, com a maneira como nos relacionamos com o outro. Toda vez que uma vibe adversarial ou guerreira se estabelece, o campo social se configura de modo desfavorável à criatividade e à inovação.

Por isso é tão importante, para a democracia, evitar a candidatura de Lula em 2018. Não exatamente pelo perigo de ele vencer o pleito (o que é uma possibilidade tenebrosa que, infelizmente, não pode ser afastada) e sim pelo clima de destruição acelerada do nosso capital social que ocorrerá. Como escrevi em outro post (de 08/07/2017), intitulado O que acontecerá se Lula for candidato, a candidatura (e a campanha) de Lula:

Vincará a sociedade de cima a baixo, destruindo aceleradamente nosso capital social (será semelhante à campanha adversarial de Dilma em 2014, porem elevada à enésima potência). Uma campanha com Lula candidato (agora ou em 2018) será, para todos os efeitos, uma guerra civil fria capaz de atrasar, talvez em décadas, o processo de democratização no Brasil (que depende dos níveis de confiança ampliada socialmente).

Ao dizer isso, porém, já estou participando da luta política. E como toda luta carrega uma vibe adversarial, já estou também contribuindo para deformar o campo social e dificultar a inovação. Eis o problema, na verdade, um dilema. Não quero fazer isso e, ao mesmo, não posso deixar de fazê-lo.

Desde o final da década de 1990, meus temas principais são rede e democracia. Investigo esses assuntos e escrevo sobre eles. Alguém poderia perguntar – e de fato muitos perguntam – por que então gasto tanto tempo publicando artigos sobre a política conjuntural brasileira (e mundial, em menor escala). Ocorre que vivo num país (e num mundo) onde a democracia está ameaçada por forças políticas autocratizantes (que são também, via de regra, hierarquizantes: sim, no curso das minhas investigações descobri que há um condicionamento recíproco entre o modo político de regulação de conflitos e o padrão de organização social).

Poderia simplesmente esquecer a política e ficar tratando em termos teóricos dos temas pelos quais me apaixonei. Teria menos dor de cabeça e não seria obrigado a entrar em controvérsias tolas. Isso eu faria se fosse, por exemplo, um acadêmico, um burocrata do conhecimento e do ensinamento. Mas ocorre que não sou. Sou, digamos, uma espécie de sofista, um neosofista (que não lida apenas com o conhecimento e sim com a opinião).

No que tange aos diferentes tipos de logos, os sofistas, como se sabe (ou melhor, não se sabe), estavam preocupados com o kairos ou a escolha do tempo adequado. E o kairos não é algo a ser alcançado pelo conhecimento (episteme) — é mais próprio da opinião (doxa). Ora, isso remete diretamente à política propriamente dita, quer dizer, à democracia (e, inevitavelmente, às redes).

Em termos práticos, tomando a democracia pelo que ela é realmente (e geneticamente) – um processo de desconstituição de autocracia (e, consequentemente, de hierarquia) – não há como não prestar atenção ao que ocorre, em termos de interação de opiniões, nas sociedades que estão sendo vítimas de tendências autocratizantes (e hierarquizantes).

Pode-se indagar o que essa inusitada visão de democracia tem a ver com o que acontece no mundo real da política (ou na política realmente existente). E como saber se a democracia – que inexiste como modelo ideal de regime político – está sendo ameaçada. Minhas investigações me levaram a concluir que toda vez que a dinâmica de um regime político ou o funcionamento das suas instituições impede ou dificulta ponderavelmente a continuidade do processo de democratização, estamos diante de um processo de autocratização. É o que ocorre no Brasil atual e em vários outros países, nos quais o campo social está sendo deformado pela incidência de modos de regulação autocráticos (e por padrões de organização hierárquicos correspondentes).

Tudo isso ocorre, entretanto, na esfera da opinião e não na do conhecimento. Não adianta gerar uma nova teoria explicativa para resolver o problema porque não é disso que se trata. E sim de interagir nos emaranhados que se fazem e desfazem ao sabor de miríades de temporárias e volúveis correntes de opinião. O tempo de pensar e criar conhecimento (que pressupõe uma retirada do mundo e do seu tempo: e a academia é um exílio platônico do mundo) é diferente do tempo de interagir no universo das opiniões que convergem, divergem, se polinizam e se antagonizam (que exige um mergulho de cabeça nos fluxos interativos da convivência social: ou seja, presença sofista na praça). Aqui entra essa história dos dois logos e dos dois tempos – e, então, do kairos tal como foi apreendido pelos sofistas: mas não há tempo (hehe) de explicar agora.

O fato é que, estando na praça, não há como não me meter em política.

Muitos inovadores que – com certa razão – não gostam da política tal como é praticada nos dias que correm, torcem o nariz para meus artigos políticos, achando, na sua ignorância democrática, que eles são partidários demais (o que está absolutamente incorreto: a democracia não tem partido).

Analiso o cenário político e o papel dos atores do ponto de vista da democracia (no sentido “forte” do conceito, como processo de desconstituição de autocracia). Ninguém é obrigado a concordar com o que penso. Ninguém é obrigado a ser democrata no sentido em que tomo a palavra.

Não é necessário, é uma questão de desejo (o desejo – como dizia Esquilo, em Os Persas, referindo-se aos atenienses do século 5 – de não ser escravo nem súdito de ninguém). Quem tem vocação para rebanho, pode continuar seguindo lideranças, quem gosta de ser fiel pode abraçar doutrinas que invocam qualquer razão extra-política – seja deus, a natureza ou a história – para validar suas posições políticas.

Eu não faço isso, mas não porque saiba alguma coisa a mais do que os que fazem e sim por puro gosto. Meu sentimento de indignação por estarem roubando o meu dinheiro é infinitamente menor do que minha repulsa por conceder a alguém o poder de fazer alterações em mim, de me educar, de me conduzir para qualquer lugar imaginário, nem mesmo para o paraíso na Terra. Por isso não me comovo com cruzadas moralistas, para limpar o mundo de toda sujeira, para purificar, retificar ou regenerar qualquer coisa, muito menos a política, que é mesmo imperfeita, suja e curva. Por isso não acredito em heróis redentores, nem em santos milagrosos (como dizia Orwell, a santidade não convém a humanos). Por isso não sigo robespierres: cortar cabeças nunca levou a mundos mais democráticos, pelo contrário. Sei que uma parte das pessoas que participaram dos movimentos do impeachment e que me seguem nas mídias sociais não pensa assim e anseia por um novo chefe honesto capaz de por ordem na casa.

Ontem (19/07/2017), por exemplo, tuitei no meu mural do Facebook que se o tema não é luta política, 1 em cada 100 pessoas que me seguem se interessa. No grupo público DAGOBAH escrevi também:

Qualquer coisa que publico aqui com conteúdo interessante e inovador chama a atenção de pouquíssimas pessoas (nunca mais do que 20, num grupo de quase 4 mil).

Apenas constatei que a luta política chama a atenção enquanto que outros temas, como a inovação social (e política inclusive), não. Não é uma questão de forma. Não estou interessado em cliques (não ganho nada com isso e acho que já passei do tempo de fazer carreira) e sim em conversas criativas. Não uso o Facebook para promover lutas (ainda que o use para a resistência democrática).

Uma coisa parece certa. A onda atual é desfavorável à inovação. E, portanto, avessa à reflexão e experimentação de novas formas de organização social e de invenção política.

Por outro lado, as pessoas que se clusterizaram no combate ao projeto autocrático do PT não estão, em sua imensa maioria, propensas a repensar nada e a se aventurar no desconhecido. Essas pessoas ficam indignadas com a corrupção e os desmandos dos velhos atores políticos, sim, mas ainda anseiam por soluções conservadoras, capazes de colocar ordem na casa.

Estou fora. Meu sentimento, cantado pelo Caetano dos bons tempos, pode ser resumido num verso da música Língua (1984):

E eu não tenho pátria: tenho mátria E quero frátria.

O fato é que nem todas as pessoas que se opuseram ao PT estavam animadas de um desejo democrático. Uma parte considerável dessas pessoas luta contra o PT por maus motivos do ponto de vista da democracia. Quer mais ordem top down para manter o mundo velho e não mais liberdade para criar novos mundos sociais. Está querendo pátria mesmo e não frátria.

Não posso mais me desvencilhar dessas pessoas, que se sintonizaram comigo pelo avesso. Não adianta dizer-lhes – repetindo Samuel Johnson – que o patriotismo é o último refúgio dos canalhas: elas não entenderão. Mas não me sinto à vontade interagindo com elas: de certo modo, elas representam tudo que não desejo, que abomino mesmo: ordem, hierarquia, disciplina, obediência, fidelidade, punição e recompensa, comando e controle. Elas valorizam a família (monogâmica), a escola e a universidade, a igreja e a religião, a corporação e o partido, a organização piramidal da sociedade civil e a empresa monárquica; ou seja, tudo que não valorizo. Mas cada vez que critico o projeto autocrático do PT atraio multidões desses programados da Matrix, defensores ferrenhos dos padrões de organização e dos modos de regulação da civilização patriarcal.

Eis o meu dilema.


Democracy Unschool é um ambiente de livre investigação-aprendizagem sobre democracia, composto por vários itinerários. O primeiro itinerário já está disponível e começa a funcionar no próximo dia 30 de agosto de 2017. Clique no banner abaixo para saber mais.

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