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Minha conversão à democracia

Quem não viveu sob uma ditadura dificilmente vai entender certas coisas. Por exemplo, não vai entender de pronto por que alguns de nós resistimos à ditadura militar no Brasil, muitas vezes, desrespeitando as leis vigentes.

Para entender isso é necessário, em primeiro lugar, saber que ditaduras, além de não serem, obviamente, Estados democráticos, também não são Estados de direito. Em outras palavras, em ditaduras não vigora o chamado império da lei e sim o império das pessoas que estão no poder (os ditadores).

Assim, do ponto de vista ético-democrático, ninguém tem obrigação de respeitar as leis numa ditadura, sobretudo as leis feitas pelos ditadores (seja por meio de atos institucionais ou decretos, na ausência de parlamento; seja por meio de leis de iniciativa do Executivo aprovadas por parlamentos fantoches ou controlados pelos ditadores).

A obrigação de respeitar as leis só vale para leis democraticamente aprovadas. Leis ditadas por senhores, podem – e muitas vezes devem – ser desobedecidas. E isso não vai contra a democracia, já que, por definição, em ditaduras não há democracia e sim autocracia. E isso não vai contra o Estado de direito, pois que este inexiste (em ditaduras).

Se muitos de nós, que resistimos à ditadura militar no Brasil, não partimos para a violência, isso não se deveu a uma obediência às leis e sim porque recusávamos, por razões éticas (e, às vezes, democráticas) atentar contra a vida humana ou infligir voluntariamente sofrimentos aos semelhantes. E se não sequestramos pessoas, as razões são as mesmas: porque não aceitávamos restringir a liberdade de ninguém, nem dos que eram julgados (à época por nós) nossos inimigos. Essas razões éticas – não atentar contra a vida, não infligir voluntariamente sofrimentos aos semelhantes e não restringir a liberdade de seres humanos – nada têm a ver com obediência ao Estado (autocrático) e sim com os nossos valores.

Em segundo lugar é necessário entender que nossos valores – de muitos de nós, meus inclusive – na época da ditadura, ainda que fossem éticos, não eram democráticos. Ou seja, tal como os ditadores, nós também não tomávamos a democracia como um valor. Assim, nos envolvemos numa guerra (mesmo quando não violenta, mas política, compreendendo ações ilegais, ditas subversivas da ordem – e eram mesmo) sem saber que a política pervertida como continuação da guerra por outros meios leva sempre à autocracia. Não, nós não sabíamos disso, nós não entendíamos que a democracia é um modo não-guerreiro de regulação de conflitos e não compreendíamos essas coisas porque não éramos… democratas!

Ninguém nasce democrata. Ninguém se torna democrata por um desenvolvimento natural da cultura em que nasceu e foi criado, porque a cultura dominante é predominantemente autocrática. Assim, em geral, não aprendemos democracia em casa, nos grupos de amigos, na escola, na igreja, na organização social, na corporação, no partido ou na empresa. Porque os padrões de organização e os modos correspondentes de regulação de conflitos que vigoram nesses ambientes costumam ser hierárquicos e autocráticos. Aderir à democracia como valor – e como o principal valor da vida pública e privada, quer dizer, como modo-de-vida – requer um esforço de remar contra a corrente, exige resistir à autocracia, o que envolve, antes da razão, um outro tipo de emocionar, de aceitação do outro em nosso espaço de vida como um possível parceiro e não como um potencial inimigo.

Para ver como é assim considere-se apenas um dado: em mais de cinco mil anos de civilização tivemos democracia (como modo estável de administração política de grandes coletividades humanas) apenas durante uns 200 anos entre os antigos atenienses (de 509 a 322 antes da Era Comum) – e, mesmo assim, quase que somente em uma cidade – e mais uns 300 anos, se tanto, entre os modernos (começando pela resistência parlamentar ao poder despótico de Carlos I, na Inglaterra do século 17). Isso deveria ser suficiente para mostrar que a nossa cultura foi, na maior parte do tempo, autocrática: se toda a história fosse comparada a um dia de 24 horas, não tivemos democracia senão em 96 minutos (e mesmo assim, reafirme-se, em experiências fugazes e localizadas). Nem todos se dão conta de que a maior parte da população mundial nunca viveu e ainda não vive, em pleno ano de 2018, em democracias.

Ademais, ninguém se torna democrata apenas porque lutou contra um regime autocrático. Se foi preso, a prisão, por si só, não teve o poder de convertê-lo em democrata (às vezes fez o inverso: aumentou o ressentimento e a vontade de revanche). Se foi perseguido, torturado, viveu na clandestinidade, foi banido ou exilado, ainda assim essas amargas experiências não tiveram o condão de transformar alguém em democrata. Boa parte dos que lutaram – empregando ou não métodos violentos – contra a ditadura militar no Brasil, achava que a solução seria implantar uma outra ditadura (dos trabalhadores explorados, oprimidos e dominados) contra a ditadura (dos burgueses ou capitalistas exploradores, opressores e dominadores): a chamada ditadura do proletariado.

No entanto, embora fôssemos analfabetos democráticos, isso não nos desqualificava, a nós, que resistimos à ditadura, como bandidos, criminosos, foras-da-lei no sentido do faroeste. Se tivéssemos feito isso em um regime democrático, aí sim, seria gravíssimo. Mas quem estava cometendo um crime político – contra a democracia – eram os ditadores. Nós estávamos, tolamente, querendo retrucar na mesma moeda, ainda que a maioria de nós nunca tenha perseguido, sequestrado, torturado, mutilado ou matado qualquer pessoa (como fez a ditadura).

A conversão à democracia é um processo lento, desencadeado por insights contra-intuitivos (sim, a democracia é uma brecha na cultura dos predadores e senhores difícil de ser percebida), mas amadurecida aos poucos. Meu insight “primal” ocorreu em 1989, com a queda do Muro de Berlim, reforçado depois pela bancarrota da União Soviética, em 1991. Mas só depois de uns quatro ou cinco anos, já na segunda metade da década de 1990, consegui realizar o entendimento profundo da democracia como valor universal. A maioria das pessoas que criticam os que lutaram contra a ditadura militar no Brasil, até hoje ainda não se deu conta de nada disso. E a ficha ainda não caiu nas cabeças das pessoas que hoje lutam – em sua maioria – contra o PT (boa parte das quais tardiamente, já em meados da segunda década do século 21).

Chegamos então ao PT. Quando ajudei a fundar o PT, a partir do final da década de 1970, não havia alternativa política à ditadura. Desde o início dos anos 70 muitos de nós resistíamos à ditadura como podíamos, alguns soltos, alguns presos, outros exilados e poucos vivendo clandestinos. As organizações de esquerda tinham sido destroçadas pelo governo Médici. Os que sobreviveram, como eu, foram se dedicar ao chamado “trabalho de base”, em geral sob o guarda-chuva da igreja católica (nos grupos de evangelho e nas chamadas comunidades eclesiais de base). Para nós, era isso ou (quase) nada. Fomos então – alguns de nós, que já estávamos soltos – viver no meio do povo. A partir de 1977 fui morar numa favela, onde permaneci sete anos (e onde nasceu minha primeira filha).

Aí aconteceu o seguinte. Começamos, neste caso pessoal que estou narrando aqui, a perceber como realmente as pessoas pobres, muito pobres, viviam. E isso só aconteceu quando passamos a conviver com elas e a viver como elas, com poucos recursos e muitas vulnerabilidades. Fomos – eu e os que me acompanhavam – aceitos por essas pessoas e não tivemos grande dificuldade de propor ações e organizações cujo sentido era a resistência ao poder institucional. Tudo isso foi feito, porém, ainda ecoando a velha vibe militante, de luta contra alguma coisa, contra “o sistema”. Embora fôssemos favelados, realmente e não de mentirinha, tendo cortado os laços com nossos modos de viver anteriores (no meu caso) e, inclusive, com nossos antigos relacionamentos, tínhamos um propósito de combate, por uma sociedade mais justa e mais igualitária. Nos achávamos de esquerda, considerando que a direita era a ditadura, os patrões, os capitalistas.

O desdobramento dessas ações que desenvolvíamos (invasão de terrenos desocupados, mutirões para construção de casas comunitárias, fundação de associações e, concomitantemente, alianças com movimentos de trabalhadores rurais que lutavam por terra na região, articulação de chapas para concorrer a direções sindicais etc.) levou-nos diretamente à questão da necessidade de uma organização política, embora diferente das que havíamos pertencido (e que não existiam mais, pois que foram desbaratadas pela ditadura). Diferente porque, agora, elas deveriam nascer, ao nosso entender na época, de baixo para cima, a partir do trabalho de base que fazíamos.

Não é o caso de relatar aqui todos os passos que demos nesse sentido. Quando ainda não havia PT, já estava colocada, para nós, a questão da construção de um partido dos trabalhadores. Particularmente, eu e meus amigos, tínhamos sérias críticas aos partidos leninistas e tanto é assim que, anos depois, quando já estava saindo da favela, em 1985, publiquei meu primeiro livro, intitulado Autonomia e Partido Revolucionário – uma crítica à teoria leninista da organização inspirada pela nossa própria prática e pelo estudo de Alexandra Kollontai e da Oposição Operária na Rússia.

Nossas ideias autonomistas no final dos anos 70 eram compartilhadas por algumas (poucas) pessoas, mas não prevaleceram no meio dos que, em outros lugares e por outros motivos, queriam também fundar um partido dos trabalhadores.

Ocorreu então uma espécie de renascimento do movimento operário, a partir da Oposição Sindical Metalúrgica de São Paulo e, sobretudo, das grandes manifestações de São Bernardo do Campo e cidades vizinhas, cujo líder emergente era o Lula. Todos logo entramos em contato com Lula para ver o que fazer, saber quais seriam os próximos passos. Lula, à época, era meio refratário à ideia de fundar um partido, mas foi mudando de posição ao longo de apenas dois anos.

O trabalho de base sob o guarda-chuva da igreja católica, a ascensão do novo sindicalismo (dito autêntico) do ABC e a volta de alguns militantes de esquerda que foram exilados pela ditadura convergiram, meio que “naturalmente”, para a fundação do PT.

Comecei então a organizar o PT na região onde estava desde 1976 (em Goiás, embora proveniente do Rio de Janeiro). E entrei na primeiro Diretório Nacional do PT, em 1982, no qual permaneci, em eleições sucessivas para diferentes mandatos consecutivos, até 1993.

Se alguém me perguntasse se faria a mesma coisa hoje, a resposta é simples: é claro que não. Mas hoje não vivemos sob uma ditadura (e numa democracia não faz sentido um partido de quadros, de jihadistas, de militantes). E hoje sou um democrata radical (e não poderia, portanto, nem fundar, nem entrar em qualquer organização hierárquica, regida por modos autocráticos e cujos propósitos fossem antidemocráticos). Na época, porém, vivíamos num regime de exceção, fora-da-lei (ou seja, na ausência de Estado de direito) e ainda não me havia convertido à democracia.

Todavia, se me perguntassem se, podendo voltar no tempo, com a cabeça (e o corpo) – e os relacionamentos – que tenho hoje, faria a mesma coisa, a resposta também seria não. Não organizaria partidos hierárquico-autocráticos, nem mesmo para lutar contra uma ditadura. Provavelmente ajudaria a articular uma rede de resistência democrática, se necessário subterrânea, ao regime militar. Mas nada disso eu sabia na época.

Para resumir a história e chegar ao ponto – de como me converti à democracia – conto mais abreviadamente as passagens seguintes da minha participação no PT.

Já na direção nacional do PT e, depois, na sua comissão executiva (e na comissão política da comissão executiva), constatei que os órgãos dirigentes do PT eram associações de inimigos íntimos. A luta interna, que campeava de cima a baixo em todas as instâncias do partido, era uma espécie de treinamento (ou adestramento) para a luta externa, contra os inimigos (ou seja, contra todos aqueles que não se subordinassem ao PT). Essa experiência de guerra, esse emocionar guerreiro, foi a primeira fonte de estranhamento, não propriamente racional, com a autocracia. Foi assim que começou o meu desejo de desaprender autocracia.

Descobri também que, tendo permanecido mais de uma década na direção partidária, eu era apenas dirigente do partido externo, ou seja, que havia um “Partido Interno” (quem leu 1984 de George Orwell entenderá com facilidade), sobre o qual não tínhamos nenhuma ascendência como dirigentes. Como expliquei na primeira parte do artigo Para começar a entender o PT, esse “Partido Interno” era (era, não: é) dirigido por Lula e Dirceu (também  inimigos íntimos, para quem não sabe) e, depois, passou a ser assessorado estrategicamente por militantes marxistas-leninistas provenientes de organizações da esquerda armada destroçadas pela ditadura (como a ALN de Marighella). E que foi esse “Partido” Interno que tomou as decisões-chave de profissionalizar o PT para a luta sem quartel pelo poder (adotando métodos legais e ilegais, com a disposição de fazer o que fosse necessário), a partir da segunda metade da década de 90 (quando eu não estava mais lá) e que resolveu, uma vez eleito Lula pela primeira vez, adotar a estratégia da parasitar o regime democrático, se alimentar dele para crescer no seu interior, como aquela vespa parasitóide (a hymenoepimecis argyraphaga) que deposita seus ovos dentro da aranha (plesiometa argyra) e que, de alguma forma, controla a mente da aranha (ou a reprograma), a qual passa então a construir teias especialmente preparadas para receber as larvas que nascerão e para mantê-las seguras (até que, quando estão prontas, as larvas devoram a aranha de dentro para fora, saindo do corpo da hospedeira e se aproveitando da casa que ela construiu).

Em outras palavras, foi esse “Partido Interno” – e não o conjunto dos filiados petistas, coitados, mesmerizados e capturados pela presença deformadora de Lula e nem mesmo os militantes do “baixo clero” que servem como muque das campanhas eleitorais petistas – que decidiu aderir à corrupção, ou fazer “a revolução pela corrupção”, como cunhou genialmente o falecido poeta Ferreira Gullar, depositando seus ovos dentro da carcaça podre do nosso velho sistema político, como já expliquei no artigo Uma análise do que está ocorrendo no Brasil.

Pois bem. O núcleo duro de dirigentes desse “Partido Interno” é a organização política criminosa que comanda o PT.

Mas nada disso sabíamos àquela altura e não foi, portanto, tal descoberta (que não poderia mesmo ter sido feita por nós, pois essa organização nem existia como tal na ocasião, o início dos anos 90) que nos levou – a mim e a alguns outros – a abandonar a sigla. O que nos motivou a sair do PT foi um incômodo, tanto com a luta interna, fratricida, diuturna, quanto com a posição do partido em relação às mudanças ocorridas a partir da queda do Muro de Berlim e da derrocada do socialismo real. Para resumir em uma frase: o muro não havia caído – e ainda não caiu – dentro da cabeça dos verdadeiros chefes do PT.

Eu já vinha questionando tudo isso internamente, na tendência Democracia Radical, principal adversária da tendência Articulação, de Lula e Dirceu (de onde saiu o “Partido Interno”). Ademais, após o impeachment de Collor de Mello, surgiu, de dentro do Movimento pela Ética na Política, a Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida (que ficou conhecida como “Campanha do Betinho”, na qual cumpri a função de secretário executivo nacional). Tudo isso foi tornando inviável a participação em dois tipos de organização, com ambientes regidos por lógicas distintas, propósitos muito diferentes, vibes e emoções contraditórias e práticas às vezes colidentes. Resolvi então sair do PT no final de 1993.

Sair do PT foi um passo fundamental, mas foi apenas o primeiro passo da minha conversão democrática. Tive de percorrer um longo caminho na década seguinte. Comecei a me dedicar ao desenvolvimento local, na teoria e na prática. O contato com as teorias do capital social e, depois, com a nova ciência das redes, me ajudou a ver o que não consegui ver, nem mesmo vivendo e trabalhando no meio da pobreza. É claro que as redes estavam lá – mas eu não as via de tão possuído pela ideia de luta. Ocorreu comigo aquilo que, diz-se, aconteceu com aqueles índios que não viram as caravelas de Cabral chegando, embora elas fossem visíveis, e não as viram porque elas não faziam parte do seu universo do possível e só se deram conta do que estava vindo quando os marujos desembarcaram na praia.

Mas aí – já em meados da década de 1990 – eu comecei a ver. E comecei a investigar as redes, quer dizer, a fenomenologia da interação social. E comecei então a perceber, depois de dez anos percorrendo essa trajetória investigativa, que havia um condicionamento recíproco entre o padrão (social) de organização e o modo (político) de regulação. Dai foi surgindo uma visão social da democracia que hoje é a base da minha abordagem. Não posso descrever aqui todos os avanços e percalços dessa trajetória intelectual, cujos resultados estão registrados nos vários artigos e livros que escrevi.

Durante esse tempo – um interregno, um luto necessário para desintrojetar o ser militante que me habitava – fiquei meio afastado dos assuntos político-conjunturais. Até que Lula ganhou as eleições de 2002, iniciou o seu novo governo e, menos de dois anos depois, começaram a eclodir os escândalos: o caso Waldomiro-Dirceu, o mensalão, a quebra do sigilo do caseiro Francenildo, a produção do falso dossiê contra Serra, urdida por homens da cozinha do presidente, a investigação, sem nenhuma denúncia ou fato determinado, dos gastos oficiais com Ruth e Fernando Henrique Cardoso para produzir um novo dossiê com o qual o governo pretendia chantagear a oposição ou impedir que ela requeresse legalmente a investigação das – aqui, sim, fartas – evidências de uso criminoso dos cartões corporativos da Presidência por familiares ou auxiliares diretos de Lula. Resolvi interferir de novo no debate público, publicando regularmente na Folha de São Paulo (de 2005 a 2010), no antigo blog e-Agora (depois Trela) e no site Democracia (já extinto). E resolvi fazer isso porque constatei que o governo – com apoio de amplos setores sociais organizados – estava entrando num caminho perigoso de autocratização da democracia brasileira.

Ou seja, resolvi resistir ao projeto neopopulista do PT, fazendo o que eu podia fazer, tentando desvelar ou revelar a estratégia por trás dos discursos e das ações dos autocratas que comandavam o partido e o governo. O exercício continuado, por mais de uma década, dessa resistência a um projeto que visava conquistar hegemonia sobre a sociedade a partir do Estado aparelhado pelo partido, para nunca mais sair do governo, foi também um passo muito importante na minha conversão democrática. Recentemente tentei explicar aos meus amigos e amigas inovadores, que se envolveram comigo nas explorações de novas formas de vida e convivência social, mas que tinham (e ainda têm) certa aversão à política, as razões para se ocupar da política do meu ponto de vista, quer dizer, do ponto de vista das redes e da democracia.

Pulando muitas partes, foi isso que aconteceu para chegar onde cheguei.

Concluindo. Não nasci democrata, me tornei. Me tornei democrata, em primeiro lugar, não por um esforço intelectual e sim por uma inconformidade (e uma insuportabilidade) com o emocionar hierárquico e autocrático. Me tornei democrata – no sentido forte do conceito de democracia, como processo de desconstituição de autocracia e no sentido amplo desse conceito, da democracia como modo-de-vida e não apenas como modo político de administração do Estado – quando passei a resistir. Depois, é claro, comecei a refletir sobre tudo isso e a teorizar sobre o assunto.

Assim, quando algum idiota (em geral um analfabeto democrático) lamenta que eu tenho sido do PT ou me dá os parabéns por eu ter saído, sem entender o contexto da ditadura em que vivíamos, só posso achar graça. O que eu deveria ter feito? Consentir com um Estado fora-da-lei? Aplaudir e obedecer aos meus novos senhores? Fingir que não via o que estava acontecendo, como a maioria das pessoas? Ainda que eu não fosse, à época, um democrata, me opor à ditadura era, para mim, um dever moral e era a única atitude humanamente cabível. Como expliquei, resistir a uma ditadura (seja dita de esquerda ou de direita) não faz de ninguém um democrata, mas é a única atitude compatível com a democracia.

Os que hoje se opõem ao PT, em boa parte, não o fizeram antes do impeachment. Não criticaram o primeiro governo Lula e nem o segundo (éramos, na imprensa e na cena pública em geral, meia dúzia de gatos pingados a fazer isso). E, até agora, no final da segunda década do século 21, continuam esbravejando contra o comunismo ou contra a corrupção, mas sem tomar a democracia como um valor.


Democracy Unschool é um ambiente de livre investigação-aprendizagem sobre democracia, composto por vários itinerários. O primeiro itinerário é um programa de introdução à democracia chamado SEM DOUTRINA. Para saber mais clique aqui

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