Moro

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Moro é o verdadeiro culpado

O que Gilmar Mendes e Reinaldo Azevedo estão fazendo vai além de todas as patifarias. Trato dos dois conjuntamente por motivos óbvios: a fonte e seu jornalista de estimação para informações privilegiadas, o ministro do STF e seu assessor de imprensa e, se preciso, seu cabo eleitoral.

Eles querem salvar o Estado de direito dos seus próprios agentes, instituindo-se como os únicos que interpretam corretamente as leis e maldizendo os que têm outras interpretações. Só as deles seriam corretas.

No fundo, estão perdidos. Não entenderam a profundidade da crise que assola o velho sistema representativo e correm como loucos para tentar salvar o establishment. Só que não há establishment para salvar desde que o PSDB concordou em comer as migalhas que caiam da mesa do banquete coprófago do PT. E, em retribuição, decidiu proteger Lula, Dilma e o PT por qualquer meio, seja desarmando o impeachment de 2005, seja se contrapondo ao impeachment de 2016 (ao qual só aderiram quando não havia mais jeito), seja proclamando que Lula era uma liderança importante para o Brasil que não podia ser destruída, seja atestando que Dilma era uma mulher honrada, seja argumentando contra a cassação do registro partidário do PT.

Ora, todo esse pessoal (da falsa oposição) perdeu legitimidade aos olhos de boa parte da população. Não pode, portanto, ser mais fiel de coisa alguma. Jamais o arranjo de governabilidade PT-PSDB será novamente capaz de manter a estabilidade política.

Mas eles, com a cabeça lá no século passado, acham que é exatamente isso que se deve fazer. Por isso são contra as prisões preventivas, contra as 10 medidas de combate à corrupção, contra o fim do foro privilegiado, a favor da lei de abuso de autoridade e a favor da lista fechada. Porque, na cabeça deles, a coisa mais importante do mundo é cortar o topete de Sérgio Moro, colocar Deltan Delagnol no seu lugar e subordinar à Lava Jato às diretrizes daquilo que avaliam ser a única maneira de salvar o sistema político (do contrário seria o caos).

E aí, dia sim, outro também, desancam a força tarefa da Lava Jato e o juiz Moro. Quem os lê ou ouve fica com a impressão de que o grande delinquente do país é o juiz de Curitiba, que é ele que deve se explicar por, supostamente, estar violando a democracia, seja porque sua atuação é ilegal, seja porque, no fundo, deve ser candidato (uma acusação sem-vergonha que já lhe fez o Reinaldo Azevedo), seja porque quer comandar o país, seja porque as penas que decreta são muito longas, seja porque não tem provas. Sim, para esses caras, Moro deve ser o verdadeiro culpado pela situação em que vivemos.

É lamentável que pessoas que até ontem ajudaram a desmascarar o autocrático projeto petista, agora tenham o comportamento de salvar o PT para, no fundo, salvar o PSDB (não propriamente os partidos, mas a aliança tácita de governabilidade que eles representavam, mesmo estando um no governo e outro na oposição, uma oposição funcional para manter o governo, é claro). Sim, digam o que quiserem dizer, sabemos que é disso, precisamente disso, que se trata. Não que eles sonhem com a volta de Fernando Henrique (pois não são tolos e sabem que tal é impossível). Eles sonham com um centro racional capaz de colocar ordem na casa, afastando os perigos do que chamam de ultra-esquerda e de ultra-direita. Ou seja, aceitando uma aliança entre esquerda e direita (desde que não sejam ultras) para manter o sistema tal como ele está organizado e funciona. Com essa mania de condenar todo mundo, Moro atrapalha esses planos. Daqui a pouco – pensam eles – não teremos mais agentes elegíveis para administrar o condomínio.

Não é assim, entretanto, que as coisas funcionam agora. Na altura (seria melhor dizer, na profundidade do poço) a que chegamos, o sistema não pode se manter como está e não pode se autorreformar, sem a pressão das ruas. Portanto, não adianta as pessoas pendurarem as chuteiras e irem para casa, como quer o Reinaldo, assistir tudo pela TV, sentadas no sofá. Sem as manifestações da sociedade, o sistema não tem mais capacidade de se regenerar por meio de uma política exclusivamente institucional.

Gilmar e Reinaldo são cabeças que estacionaram no século 20. Que se recusam a ver que o sistema apodreceu. Tudo bem. É um direito deles viver no passado. Mas, infelizmente, estão prestando um enorme desserviço à democracia. Oremos para que um deles – defendido incondicionalmente pelo outro – não tome medidas ainda mais inconsequentes, como começar a soltar os chefes da organização criminosa, enviando a mensagem para todos os presos de que eles não precisam mais delatar nada.


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