in

Não é profecia. É análise de inteligência democrática!

No dia 22 de março de 2014, portanto, há mais de dois anos – quando a última campanha eleitoral não tinha sequer começado, ainda não existiam publicamente os movimentos que se organizaram para convocar o impeachment e as grandes manifestações de rua não haviam ocorrido – publiquei o artigo abaixo no Facebook. Vou republicá-lo agora com algumas interpolações, não para me gabar, reafirmando que estava certo nas previsões que fiz e sim para mostrar o que pode fazer a análise de inteligência democrática, que trabalha com reconhecimento de padrões autocráticos.

Hoje vemos que um dos principais problemas do governo Temer e da sua base de apoio no Congresso – que estão se viciando em wishful thinking – é não ter conhecimento da natureza autocrática do PT. Apesar da cegueira (em parte voluntária) dos membros do governo Temer – e também das chamadas “oposições” partidárias (como o PSDB e o DEM) que não conseguem parar um minuto para ver o que está realmente em jogo, pois “só pensam naquilo” (ou seja, nas eleições de 2018) -, todos os indícios apontam para um agravamento da crise política e para um acirramento do conflito. E a incapacidade de perceber o modo de atuação do PT pode levar, sim, a uma brutal regressão política, colocando seriíssimos problemas para a nossa já combalida democracia.

Vamos ver.

POR QUE DILMA GANHARÁ, MAS TERÁ DIFICULDADE DE GOVERNAR

Augusto de Franco, Dagobah no Facebook, 22 de março de 2014

A explicação da primeira parte é simples demais. A da segunda parte um pouco mais complexa.

Muita gente me pergunta – e agora quase diariamente – por que com todos os escândalos, as maracutaias e os erros gravíssimos cometidos pelo governo, Dilma continua na frente nas pesquisas de intenção de voto. Explicar esta parte é simples. Simples demais.

Em primeiro lugar porque parte da população foi transformada em pensionista do Estado. Chegando perto das eleições, espalha-se como sempre o boato de que se Dilma não for reeleita, o Bolsa-Família acabará. São mais de 14 milhões de famílias que recebem o benefício, o que dá um em cada quatro brasileiros.

Ora, são 140 milhões de eleitores. Dividindo por 4 dá 35 milhões de pessoas. É uma conta grosseira e aproximada e coisa e tal, mas é mais ou menos isso mesmo: a candidata oficial, além de estar no exercício da presidência, já sai, por baixo, com 30 milhões de votos potenciais. Somando-se a isso mais uns 20 milhões de pessoas direta ou indiretamente beneficiadas por outros programas e favores governamentais, funcionários, militantes, ONGs financiadas com dinheiro público e suas redes, empresas favorecidas, pequenos e grandes coronéis, cangaceiros, bandidos e assemelhados (o submundo do crime que é sempre acionado pelos porões palacianos), temos aí uns 50 milhões potenciais.

Então. Contando com 20% de abstenções, brancos e nulos, o tamanho do colégio cai para uns 110 milhões. Portanto, o candidato de um partido que teve 12 anos para usar e abusar do dinheiro público para construir uma clientela, já sai mais ou menos com a metade dos votos válidos, potencialmente. Não tem erro (quase).

Agora vem a parte mais complexa.

Em segundo lugar porque, embora boa parte da opinião pública não seja mais favorável ao governo, tal insatisfação pode se manifestar nas ruas, mas não nas urnas. Quando os eleitores são chamados solitariamente a escolher, a dinâmica é outra. Eles acabam acreditando que podem escolher e que sua escolha fará alguma diferença. Mas, no caso, não há alternativas consistentes para uma escolha efetiva, capaz de fazer qualquer diferença. A oposição – todo mundo sabe – não é oposição coisa nenhuma. É apenas um clube de amigos e inimigos íntimos que disputam eleições de dois em dois anos como quem presta um concurso para um cargo público. A terceira via que se formou também não é alternativa: ela mesma não se declara oposição e, se não passar para o segundo-turno, provavelmente apoiará a candidata do governo. As pessoas não são idiotas. Elas sabem disso. E elas concluem: ora, se até a Marina vai apoiar a Dilma, então por que eu não posso apoiar desde já?

Marina saiu candidata e ameaçou, de fato, a eleição de Dilma. Mas sua falta de firmeza – em virtude de continuar pensando com a cabeça petista – impediu que ela reagisse à altura aos ataques solertes do marqueteiro Santana (hoje preso). Em vez de desnudar a natureza autocrática do PT, ela recuou e contemporizou, tentando aparecer como vítima (o que foi realmente), mas esquecendo-se de denunciar os métodos nazi-fascistas da propaganda petista. Em seguida, omitiu-se do grande movimento social que emergiu das ruas (sobretudo a partir de 15 de março de 2015), colocou-se contra o impeachment e tentou sabotar de todas as formas (o que continua fazendo) o afastamento constitucional de Dilma.

É claro que tudo isso pode mudar. A política é imprevisível. Podem acontecer manifestações surpreendentes como as de junho de 2013 e isso é capaz, sim, de influir no processo eleitoral. Mas acho improvável. A dinâmica das ruas não tem um rebatimento imediato na dinâmica das urnas.

Com efeito, não ocorreram manifestações sociais – semelhantes às de junho de 2013 – no período eleitoral.

Já expliquei em outro post por que a questão não é o que vai acontecer nas próximas eleições e sim o que sobrevirá depois. A Era Lula terminou em junho de 2013. Eles continuam ganhando as eleições por inércia, pelos motivos apontados acima e até por outros não abordados aqui, mas não existe mais aquela constelação universal de apoios e admirações que havia até há pouco. O núcleo duro perdeu gravitatem (até porque Lula, embora continue solto, saiu meio de cena e Dirceu está preso). Também não há mais uma situação de bonança econômica em termos mundiais para ajudar.

Além disso – um fator político mais relevante do que todos os outros, a meu ver – a opinião pública brasileira já está contra o governo e por um motivo inédito, como jamais aconteceu no Brasil recente: ela não está contra porque o governo está governando mal (embora ele também esteja) e sim porque não aguenta mais o banditismo de Estado. As pessoas, individualmente, não verbalizam isso com precisão, mas já estabeleceram um liame (isto é que é inédito) entre a orientação político-ideológica do atual governo e a sua própria insatisfação difusa com o sistema.

Não me refiro aos 30 milhões de beneficiários mais passivos dos programas governamentais. Não me refiro às outras 20 milhões de pessoas que têm algum motivo particular ou interesse concreto em manter o atual governo. Me refiro a uma pequena parcela ativa dos setores médios que interage com mais intensidade e frequência e é capaz de moldar correntes de opinião. Esse contingente, que não deve alcançar 20 milhões de pessoas (e não apenas de eleitores), não é capaz de mudar, no curto prazo de alguns meses, o desfecho eleitoral, mas… atenção! Do ponto de vista da rede, será decisivo para o que virá em seguida.

Bingo! Estava nascendo uma vigorosa – e inédita – oposição popular no Brasil. Estava brotando um movimento de resistência democrática ao governo do PT. Pouca gente via, mas os indícios eram claros para a análise.

Como se sabe a opinião pública não é a soma das opiniões privadas da maioria da população e quem conhece um pouquinho da fenomenologia da interação sabe que 10% dos nodos mais ativos em uma rede pode fazer grande diferença na dinâmica do conjunto e pode, inclusive, mudar o comportamento do sistema de agentes como um todo.

Pois bem. Esses 10% já sabem o que um contingente desse tamanho jamais soube:

Já sabem que este é um governo que rouba de uma maneira diferente dos outros governos que também sempre roubaram (chegaram a compreender, embora sem saber explicar, a diferença entre corrupção sistêmica e corrupção endêmica).

Esses 10% já sabem que este é um governo que mente de uma maneira diferente de todos os governos que também mentem (pressentem que a mentira neste governo não é uma escusa, uma defesa contra um erro cometido em nome da autopreservação e sim um método de governar).

Esses 10% já sabem que este é um governo que apoia ditaduras e que não tem fortes compromissos com a democracia.

Não havia esses 10%, assim configurados, até bem pouco. Isso é uma novidade no cenário social e político brasileiro (que a maioria dos analistas políticos não está conseguindo ver). No Facebook e no Twitter é possível detectar a presença desse pessoal (embora eles não estejam presentes só nestas mídias). Mas nas mídias sociais o governo já perdeu. Não há como reverter.

Foi o que aconteceu!

Um detalhe importante: eles jamais vão se organizar tradicionalmente, para fazer um partido ou outra coisa qualquer. Mas eles continuarão aí interagindo. E podem até crescer, contagiando pessoas que estão em partidos (como na própria Rede Sustentabilidade, da Marina). Mas o mais importante aqui é que eles não precisam crescer. Basta que continuem interagindo e perturbando continuamente a periferia do sistema.

Nas próximas grandes manifestações sociais no Brasil, que devem acontecer em 2015 ou em 2016 (e não em 2014, a propósito da Copa, como todo mundo espera) já se vai notar uma diferença muito relevante: aqueles protestos – verdadeiros swarmings – como os de junho de 2013, que expressaram um insatisfação difusa com o sistema (não especialmente com o governo Dilma), já serão tematizados politicamente. É muito provável que haja uma rebelião contra o governo, sem ser convocada por grupos organizados e sim pelo poder das redes. Se isso acontecer, a chance é grande de Dilma não terminar seu segundo mandato.

De novo, foi o que aconteceu:

1) Os grandes swarmings, que ninguém esperava, ocorreram em 15 de março, em 12 de abril e em 16 de agosto de 2015 e desaguaram no maior de todos, que constelou multidões de milhões de norte a sul do país em 13 de março de 2016.

2) Diferentemente de 2013, as grandes manifestações de 2015 e 2016, foram tematizadas politicamente. Surpreendentemente, as bandeiras das ruas (e isso pode ser constatado apenas olhando as fotos) foram: “Fora Dilma” (pelo impeachment), “Fora Lula” (Lula na cadeia) e “Fora PT” (pela extinção do registro partidário do Partido dos Trabalhadores).

3) Basicamente em virtude desses grandes protestos, organizados de modo distribuído (ainda que tivessem surgido vários grupos para convocá-los), Dilma foi afastada temporariamente da presidência da República no processo de impeachment que ainda está em curso.

Os metidos a sabe-tudo da análise política torcerão o nariz para as presentes considerações. Pouco importa. Cada dia fica mais evidente que eles estão entendendo quase-nada.

O problema é que continuam entendendo quase-nada, tanto os analistas quanto os atores políticos do governo de transição que se formou em torno do vice-presidente Michel Temer. E essa incapacidade de análise está levando à indecisão e à capitulação diante da ofensiva organizada pelo PT, que ainda permanece entranhado na sociedade e, sobretudo, no Estado.

Nada disso é profecia! Nem acaso. A análise de inteligência democrática, ao desvelar a natureza das forças políticas em conflito (e sobretudo ao reconhecer os padrões autocráticos na estrutura e no comportamento do PT) pode, sim, revelar muita coisa e antecipar cenários.

Pois bem. Este mesmo tipo de análise revela agora que estamos atingindo um ponto crítico. Ou o governo de transição (na verdade, de transição para a transição que só vai começar em meados de agosto de 2016, talvez) toma a ofensiva denunciando os crimes cometidos pelo PT na última década, desaparelhando o Estado que foi infestado por militantes e estabelece uma ligação com as ruas (que não o escolheram, nem o apoiaram, apenas assentiram à solução constitucional possível e viável), ou não haverá transição democrática no Brasil. Todo o sistema político vai ser sugado pelo buraco negro aberto pela falência do projeto neopopulista do lulopetismo com consequências imprevisíveis, mas nefastas para a democracia. Quanto mais inermes se mostrarem o governo Temer e sua base de apoio, maiores serão as chances de agravamento da crise política e de acirramento do conflito, sem solução à vista.

É claro que tudo isso pode mudar. Mas hoje o único fator capaz de impedir uma regressão política de grandes proporções são as ruas. Se não voltarem a ocorrer as grandes manifestações sociais de 2015 e de março de 2016, se as multidões não voltarem a se constelar aos milhões, o mais provável é o colapso do sistema político e a instalação de um estado de guerra civil fria de longa duração, que dilapidará o que nos resta de capital social. É grave! Gravíssimo!


Democracy Unschool é um ambiente de livre investigação-aprendizagem sobre democracia, composto por vários itinerários. O primeiro itinerário é um programa de introdução à democracia chamado SEM DOUTRINA. Para saber mais clique aqui

 

O deficit de interação na democracia dos atenienses

Análise política #009 (07/06/2016)