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Não foi o roubo dos políticos que tirou o leite das criancinhas

Sobre a arte de enganar o distinto público

Celso Rocha de Barros, que é petista (ou esquerdista), mas não é burro, acertou em cheio – no geral – no artigo que publicou anteontem (18/06/2018) na Folha de S. Paulo.

É claro que ele erra – voluntaria e tendenciosamente – quando diagnostica que “a Lava Jato trouxe a público o imenso escândalo do financiamento da política brasileira pelos cartéis de empreiteiras”. É falso. O que a Lava Jato trouxe à tona, na esteira de centenas de crimes a partir do mensalão, foi um esquema de corrupção, organizado e dirigido pelo PT, que visava arrecadar recursos para financiar um projeto político autocratizante, de conquista de hegemonia sobre a sociedade a partir do Estado aparelhado pelo partido (para nunca mais sair do governo). Essa espécie de “revolução pela corrupção” (como cunhou genialmente o saudoso poeta Ferreira Gullar) não se confunde com a corrupção endêmica na política (o roubo puro e simples de recursos, feito por políticos de quase todos os partidos, para se eleger, se reeleger, sustentar caciquias políticas e se dar bem na vida): essa é diferença entre a corrupção de um Lula, de um Dirceu e de um Vaccari, da corrupção de um Cabral, de um Cunha e de um Geddel. Não ver tal diferença é como afirmar que Mussolini é igual a Berlusconi, Salazar é o mesmo que José Sócrates, Chávez é igual a Carlos Andrés Pérez – porque, afinal, todos roubaram. Essa confusão é providencial para esconder a estratégia do PT, que depositou seus ovos dentro da carcaça podre do velho sistema político.

O objetivo final de Celso Rocha de Barros é mascarar a natureza da corrupção petista, cujos representantes não queriam apenas enriquecer pessoalmente, mas alterar o DNA da nossa democracia ao trabalhar pelo seu projeto neopopulista (que, no Brasil, é traduzido pelo lulopetismo, assim como na Venezuela foi expressado pelo chavismo: embora as condições dos dois países sejam muito diferentes e aqui um Chávez jamais prosperaria, a intencionalidade política é a mesma: são dois neopopulismos, são dois estatismos, são dois esquerdismos, são dois projetos que usam a democracia contra a democracia).

De repetente a honestidade vira valor universal, não apenas no lugar da democracia, mas até mesmo contra a democracia. Ora, pensará o distinto público, se todos roubam vamos escolher alguém (algum populista) que pelo menos está do nosso lado (isso explica tantas intenções de voto em Lula). Ou, igual ou pior, se todos roubam, vamos votar num honesto (isso explica tantas intenções de voto em Bolsonaro).

Desgraçadamente, os operadores políticos da Lava Jato, que instrumentalizaram a operação para fazer uma cruzada de limpeza a partir de estamentos corporativos do Estado, contribuíram para espalhar tal confusão, com o argumento pífio de que tudo é crime e que é a corrupção que está tirando o leite das criancinhas (o que o artigo do Celso desmente).

Ademais, focalizaram suas investigações nos representantes eleitos (parlamentares e governantes), protegendo as corporações a que pertencem (procuradores e juízes): e tanto é assim que, em centenas de corruptos acusados em delações, não aparece um único miserável juiz ou procurador (só um, o tal Marcelo Miller, do MP-JBS, que está solto). Com isso contribuíram para reforçar o moralismo popular e demonizar a política. E venderam à opinião pública a ideia falsa de que pode haver solução sem política ou pela prática da antipolítica robespierriana da pureza.

Reproduzo abaixo na íntegra o artigo do Celso.

É MAIS CRISE DO QUE ROUBO

Parece óbvio que o dinheiro acabou porque roubaram, mas não é

Celso Rocha de Barros, Folha de S. Paulo (18/06/2018)

Cerca de dois meses atrás, em uma das passeatas quase diárias que ocupavam o centro do Rio de Janeiro protestando contra atraso de salários pelo governo estadual, ouvi o seguinte grito de guerra: “Não é crise! É roubo!”. Os manifestantes acreditavam que o dinheiro que estava faltando para pagar salários havia sido roubado por Sérgio Cabral.

Essa parece ser a ideia mais enraizada na opinião pública brasileira nos últimos anos: o dinheiro acabou porque roubaram.

Isso é falso.

A coisa mais importante que você precisa ter em mente nos próximos anos é o seguinte: teve roubo, teve muito roubo, teve roubo em uma escala aterrorizante. Todo mundo que roubou tem que ser punido, nos termos da lei. Mas não foi isso que causou a crise econômica brasileira, e para resolver a crise brasileira faremos sacrifícios.

Não é verdade, por exemplo, que haveria dinheiro para pagar todas as aposentadorias se os políticos não tivessem roubado a grana. Não haveria. A expectativa de vida dos brasileiros subiu, e a regra atual foi pensada quando as pessoas só viviam poucos anos depois de se aposentarem. Se ninguém tivesse roubado nada, seria necessário reformar a Previdência do mesmo jeito.

Também não é verdade que a gasolina subiu porque os políticos roubaram a Petrobras. Os políticos roubaram mesmo a Petrobras, roubaram muito. Se você pensar nesse dinheiro roubado como algo que um sujeito pegou e levou para casa, é uma quantia altíssima. Mas dentro do orçamento de uma empresa do tamanho da Petrobras, não é tanto assim.

A crise na Petrobras foi causada, em sua maior parte, por flutuações do preço internacional do petróleo e por erros administrativos gravíssimos, como segurar os preços artificialmente no primeiro mandato Dilma.

E aí se vê que o discurso “não é crise, é roubo” pode atrapalhar muito o Brasil. O mesmo controle de preço voltou como resultado da greve dos caminhoneiros. Grande parte da população apoiou a greve dos caminhoneiros, porque viu no movimento uma revolta contra os políticos corruptos. Tentar resolver todo e qualquer problema econômico combatendo a corrupção só vai atrasar a saída da crise.

É inteiramente compreensível que a opinião pública ache que a corrupção causou a crise. Afinal, tivemos a segunda maior recessão de nossa história nos últimos anos, e, exatamente no mesmo período, a Lava Jato trouxe a público o imenso escândalo do financiamento da política brasileira pelos cartéis de empreiteiras.

O brasileiro vê que o dinheiro acabou, vê que os políticos roubaram muito dinheiro, e acha que não há mistério nenhum aí: acabou porque roubaram.

Parece óbvio, mas não é, não. A Previdência já vem acumulando problemas há décadas. O gasto público já vem crescendo mais do que o país faz muitos anos. Nossos problemas de produtividade já existem faz tempo, só ficaram meio disfarçados quando o cenário externo foi favorável ao Brasil na década passada. Precisaremos reformar um monte de coisas para colocar isso tudo em ordem.

Cuidado, portanto, com o malandro que aparecer na eleição negando a discutir esses problemas e prometendo achar o dinheiro que nos tem faltado enterrado no sítio do Lula. Se a corrupção acabasse hoje de manhã, hoje de tarde a crise econômica ainda seria igual.


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