Hitler

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Não há democracia sem democratas

Às elegantes damas francesas que se refugiaram no hotel Splendide, em Boudeaux, quando Hitler invadiu Paris em 1940

 

Tenho amigos que respiram aliviados quando começo a tratar de assuntos como ciência e filosofia. Porque são meus amigos, eles me toleram, mas ficam incomodados e às vezes fingem até que não estão vendo quando publico artigos sobre política (na linha da resistência democrática a um governo que se tornou ilegítimo na medida em que atropelou boa parte dos critérios democráticos).
 
Alguns porque não podem mesmo curtir, compartilhar ou comentar meus posts por razões profissionais: avaliam que não pegaria bem, seus chefes ou colegas de trabalho estranhariam e isso poderia colocar em risco sua sobrevivência. Outros, por razões antropológicas, se se puder falar assim: o que diriam seus amigos marxistas ou “de esquerda”? Poderiam confundi-los com alguém “de direita” ou neoliberal e isso criaria dificuldades de relacionamento com pessoas próximas (às vezes os próprios pais, os irmãos, os filhos, o cônjuge, os amigos de infância).
 
Todavia, nas últimas duas décadas, estou sempre falando das mesmas coisas, seja quando escrevo ostensivamente sobre política ou quando escrevo sobre ciência ou filosofia. Estou sempre falando, de maneira direta ou indireta, de dois assuntos apenas: redes e democracia.
 
Pois bem. O que está escrito nos meus textos sobre ciência ou filosofia está em sintonia com várias centenas de artigos que publiquei sobre política. Então fico pensando: como é possível que alguém que concorda ou pelo menos aprecia a abordagem, o background, os pressupostos, as hipóteses e consequências e os modos de explicação adotados nos meus textos, fique incomodado e estranhe meus artigos políticos?
 
Além das hipóteses já mencionadas acima (o medo de perder o emprego ou o medo de perder amigos), acho que há outras razões. Uma delas é a inexistência (ou a pouca consistência) de qualquer coisa (seja lá o que for) que se possa chamar de consciência democrática. É por isso que as pessoas fogem do conflito como se o conflito fosse uma disfunção (o que revela que continuam rodando um programa autocrático). Tudo que ameaça uma certa ideia de harmonia (tomada como ordem preexistente e não como ordem emergente da sinergia interativa no presente) é qualificado por esse programa como doloroso, indesejável e, portanto, como um comportamento a ser evitado. Mas de que adianta pensar, investigar, elaborar, escrever sobre democracia se, na hora em que a democracia está sendo atropelada, a pessoa não se manifesta por não querer dissentir do que pensam as outras pessoas dos seus emaranhados e temer estressar seus relacionamentos com elas?
 
Acontece que as crenças autocráticas (como as utopias, por exemplo) insuflam pensamentos de que sempre será possível escapar do conflito presente saltando adiante ou fugindo para frente. É como dar um golpe no fluxo interativo da convivência social. Ah! Aqui está muito desagradável, vai pintar um climão, então vou me projetar para uma situação ideal onde não seja necessário expressar minhas opiniões presentes e nem adotar comportamentos condizentes com tais opiniões. Sempre brinco com a metáfora da série The Matrix: uma pessoa assim, embarcada na Nabucodonozor, ficaria importunando o piloto para rumar direto para Zion (sem prestar atenção ao fato de que Zion também será, um dia, invadida pelas mesmas forças das quais ela quer escapar e que a destruição do paraíso só será evitada quando se assumir a contradição e não enquanto se procurar dribla-la). Em outras palavras: não há paraíso, não há terreno incólume, não há ambiente protegido. Não adianta para nada as elegantes damas francesas fugirem para Bordeaux quando Hitler invade Paris. Aquele refúgio no hotel Splendide é apenas imaginário e temporário. Mais cedo do que mais tarde será (como foi) engolido pela formidável perturbação do campo introduzida pela autocracia. A única maneira democrática de superar o perigo naquela ocasião era… entrar na resistência!
 
Não há democracia sem democratas (como lembrou Ralf Dahrendorf em 2004). Democratas não existem em pensamento, mas somente em comportamento (e como sempre repito: ideias não mudam comportamentos, só comportamentos mudam comportamentos). Ninguém será democrata sem um comportamento democrático. E o comportamento democrático, na Atenas do século 5 a. E. C., na Inglaterra do século 17, na França de 1940 ou… no Brasil de 2016 é o mesmo: resistir à autocracia (o genos da democracia é a desconstituição de autocracia).
 
Por isso, como democrata-em-comportamento (e não como um imaginário democrata-em-pensamento) estou em processo de resistência democrática. Não haveria para mim outro caminho depois de tudo que pensei, investiguei, escrevi, vivi e convivi.
 
E você, meu amigo? E você, minha amiga?

Democracy Unschool é um ambiente de livre investigação-aprendizagem sobre democracia, composto por vários itinerários. O primeiro itinerário é um programa de introdução à democracia chamado SEM DOUTRINA. Para saber mais clique aqui

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