in

Não há saída boa: a hora é de resistência democrática

Não escrevo este artigo como um nefelibata, um otimista irresponsável que anuncia amanhãs radiosos. Escrevo para alertar, aos democratas e aos amantes da liberdade, para a situação terrível a que chegamos. Sinto muito se você, caro leitor, quer uma palavra de esperança. Pode ter esperança à vontade. Não pode é fechar os olhos para a realidade.

Digo que a escuridão se aproxima. Claro que sempre há uma chance de furar essa nuvem espessa que está vindo velozmente sobre nós. De qualquer modo, os próximos trinta dias serão excruciantes para os democratas. Mas já devemos pensar agora nos próximos quinhentos dias que deverão ser dedicados a articulação de uma ampla resistência democrática, seja qual for o desfecho do pleito. Ou teremos de resistir às investidas de um governo autocratizante (seja de esquerda ou de direita, caso Haddad ou Bolsonaro sejam eleitos) ou teremos de resistir à desestabilização democrática que será promovida pelas oposições (de esquerda e de direita, caso seja eleito algum candidato do campo democrático – Álvaro, Alckmin, Amoedo, Marina ou Meirelles – e, neste caso, o governo enfrentará, além da oposição antidemocrática do petismo e do bolsonarismo, os jacobinos instrumentalizadores políticos da Lava Jato).

Quero dizer claramente o seguinte. Não há mais resultado bom para os democratas na atual disputa. O mal já está feito.

Se o PT voltar ao governo, nós, os democratas, seremos perseguidos (eles deixaram isso claríssimo no seu programa: leia o Plano Lula de Governo). Se Bolsonaro chegar ao governo, será o caos e um retrocesso de décadas. Nenhuma dessas coisas poderia acontecer numa democracia, mas agora não são mais improváveis.

O PT já conhecemos. Se ele voltar ao governo vai aplicar uma política revanchista, vai tentar controlar os meios de comunicação, manietar e aparelhar mais ainda o poder judiciário, comprar base parlamentar para fazer maioria, convocar uma Constituinte para alterar o DNA do nosso regime democrático e retomar sua estratégia, interrompida pelo impeachment, de conquistar hegemonia sobre a sociedade a partir do Estado colocado a serviço do partido.

Bolsonaro também já conhecemos, pelo conjunto da obra, pelas suas declarações, pela sua trajetória e pela atual campanha bolsonarista. Pelo que conhecemos, já podemos afirmar que o país não resiste a um governo entregue, durante quatro anos, nas mãos de um aventureiro irresponsável, ignorante, improvisador, com soluções simples e erradas para todos os nossos problemas complexos: escolas militares para melhorar a educação, armamento da população e premiação da violência policial para resolver o problema da segurança, intromissão política no judiciário e nas organizações da sociedade, fim das proteções às minorias e outras porcarias.

Sem base parlamentar para aprovar uma miserável medida, Bolsonaro tentará aumentar o poder despótico do executivo, jogando parte da população contra o poder legislativo e o poder judiciário. Uma corrente bolsonarista-militarista no governo levará à crise política, à crise econômica e, pior do que tudo isso, à crise social. Será um governo contra a política (quer dizer, contra a democracia). Teremos confrontos violentos entre governo e sociedade e entre setores da sociedade. A liberdade de imprensa será uma das primeiras vítimas e, na sequência, várias outras liberdades. Se a razão não voltar a iluminar a maioria da população, o Brasil cairá num abismo profundo e será remetido para algum remoto lugar do passado.

O perigo do PT é no segundo turno (se chegar a ele contra Bolsonaro). O perigo Bolsonaro é no primeiro turno e até ele sabe que no segundo turno perde para qualquer um.

Os democratas tentam, até agora inutilmente, evitar que essa espécie de loucura coletiva que tomou conta de parte da população (mais instruída), revoltada e com raiva, eleja Bolsonaro no primeiro turno. Evitar sua vitória não é uma questão apenas política: é uma questão de saúde pública, de saúde mental coletiva.

Infelizmente, a galera ainda não entendeu o drama. O bolsonarismo precisa ser contestado politicamente, não apenas eleitoralmente. O bolsonarismo prosseguirá como uma ameaça à democracia brasileira (ganhe ou não Bolsonaro). O mesmo vale para o petismo (ganhe ou não Haddad). E, ainda de quebra, teremos de enfrentar o jacobinismo de terra arrasada, que precisa ser desmontado.

Não podendo evitar esses desastres, não nos resta, aos democratas, senão resistir. Mas é preciso entender que a resistência democrática hoje deve se organizar em três frentes: contra o petismo (e os partidos de esquerda), contra o bolsonarismo (e os demais autocratas ditos da direita) e contra o jacobinismo (conformado pelos instrumentalizadores políticos da Lava Jato). Na prática, este último está trabalhando, objetivamente, em prol de Bolsonaro.

Sim, o Ministério Público está, objetivamente, fazendo a campanha de Bolsonaro. Processar concorrentes (de qualquer partido, concordemos ou não com ele), em pleno processo eleitoral, com base em delações, é um reforço para a campanha bolsonarista. Se, depois, a justiça concluir que as delações não têm fundamento, ou que não são suficientes para a inculpação dos acusados, não importa: o estrago já estará feito. Isso configura intervenção de estamentos corporativos do Estado no processo democrático. Não pode. É um absurdo que os órgãos públicos de controle sejam usados para influenciar o resultado eleitoral em favor de um candidato particular, satisfazendo interesses privados.

Até Moro teve o cuidado de descontinuar o processo de Lula pelo sítio de Atibaia durante este período. Mas os irresponsáveis procuradores, não. Em conluio com a Polícia Federal (cujos membros já são, em grande parte, bolsonaristas: vários deles são até candidatos), querem intervir indevidamente na dinâmica da democracia.

Repetindo. Agora estamos vendo como os instrumentalizadores políticos da Lava Jato pretendiam intervir nas eleições sem ter um candidato (e eles não podiam ter mesmo): acusando de crimes os concorrentes de Bolsonaro. Como não haverá tempo, antes do pleito, de verificar se as acusações são verdadeiras, o mal já estará feito.

O discurso antipolítica (compartilhado por bolsonaristas e jacobinos) é, na verdade, um ataque à democracia. De repente a política foi rebaixada a um exercício de caça a bandidos.

Tenho dito a esses analfabetos democráticos:

Vocês gostam de pegar bandidos? Entrem na polícia. Não me convidem. Estou fora. Vivo num Estado de direito para que alguém faça isso por mim (e pago por mim e por todos nós). Meu negócio é democracia. Prefiro um bandido democrático (sendo processado pelo Estado de direito) do que um senhor honesto (sem Estado de direito) que queira me cavalgar (mesmo que com gentileza e generosidade, como o sultão de Brunei, que paga uma bolsa família polpuda para toda a população). Se você não entende isso, não entende a democracia.

A maioria da população, sempre soubemos disso (nós, os democratas, sempre soubemos disso porque sempre fomos minoria), não entende a democracia. Mas quando os setores mais instruídos da sociedade, os que têm curso superior, também revelam que não estão nem aí para a democracia e preferem fazer uma cruzada de limpeza, como se fossem da polícia, então é sinal de que a situação descambou de vez.

Perdão por este artigo tão – aparentemente – pessimista. Não estou aqui para agradar ninguém. Digo o que vejo. E o que vejo é uma guerra civil fria pela frente, de longa duração, que nos consumirá, no mínimo, nos próximos dez anos. Perderemos uma geração de brasileiros para atravessar o tenebroso período que se avizinha.

Os que têm fé em alguma coisa devem começar a orar e a jejuar. Não há muito mais o que fazer. Não há saída, favorável à democracia, à vista, repito, seja qual for o resultado eleitoral.

Há uma chance, tênue, remota, de que as coisas não se passem assim (ou de que sejam menos piores do que descrevi). Mas não podemos ser pegos despreparados para enfrentar os cenários mais prováveis (que são os piores). E nunca deveremos esquecer que nossa obrigação é manter viva a resistência democrática, nem que seja para configurar uma situação melhor lá por volta de 2026.


Democracy Unschool é um ambiente de livre investigação-aprendizagem sobre democracia, composto por vários itinerários. O primeiro itinerário é um programa de introdução à democracia chamado SEM DOUTRINA. Para saber mais clique aqui

Deixe uma resposta

Loading…

Deixe seu comentário

Não haveria bolsonarismo se não tivesse havido petismo

O ataque a Jair Bolsonaro e a sua instrumentalização política